Ilusionismos [Ana Luísa Amaral 7]

Fotografia de Kinga Cichewicz


Repara, meu amor: são duas da manhã
e eu ainda aqui a começar
(na minha hora que tem sido a hora
onde poemas são e se entrelaçam)

São duas da manhã e sem luar:
não sei atravessar-te pelo vidro
e criar-te metáfora de brilho

São duas da manhã e o céu
tão escuro como carvão—carvão:
onde vou inventar pequenos seixos
para fazer fogueira que te escorra?

Estamos dentro da noite que é mais noite
e que é que eu trago para te acordar?

Olha: ponho esta lâmpada a fingir
de estrela mais polar do que a polar,
e, vês, o vidro em frente: não me vejas
enrolada a escrever: é espelho mágico

e agora eu era o verso mais perfeito
e tu a mais perfeita das palavras
e às duas da manhã trago-te: um céu,

são estrelas e mil luas, são seixos
mais galácticos que a luz, mais velozes
que a luz e no teu corpo, vês, a minha mão

é chão feito de luz e estrelas e do
carvão — carvão nasceu um sol e do meu
pé, repara nesse céu: fogueira interestelar

e o que eu tinha escondido atrás do Tempo
e Deus: um tempo a sério para tu entrares
em bola de cristal feita de espelhos
Ana Luísa Amaral


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