quarta-feira, 30 de maio de 2018

Da Séria - “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política — por JB*

José Mário Branco
Fotografia de Reinaldo Rodrigues — daqui


Hoje: José Mário Branco – “Eh! Companheiro” e curioso coincidência que os recentes posts do Sr Gato se intitulam: “Moral” (o que falta) E “A casa do caralho” (para onde apetece mandar muita boa gente…). Nestes tempos de políticos manhosos que “esquecem as regras da transparência” (mero engano) ou confundem a sua morada oficial com a do partido…

Recordo a canção “Eh! Companheiro” e a sua mensagem anti-regime e reconheço que foi das músicas que mais me marcou no antes 25 Abril. Chamo a atenção para o brilhante poema de Sérgio Godinho e para o ritmo sequenciado dos instrumentos (violinos) / coro e sobretudo o “matraquear” forte, ritmado e lutador do piano.

José Mário Branco vai para o exílio em 1963 e escolhe viver em Paris onde toma contacto com os bidonville e as duras condições dos emigrantes. Foi membro do Partido Comunista, fundador do GAC, da Comuna e do Bloco de Esquerda, é vulto incontornável da música nacional mas também do activismo político dando um renovado significado à “máxima resistir é vencer”.

Ao longo da carreira, um princípio fundamental norteou sempre as posições de José Mário Branco: a defesa intransigente da música portuguesa; factor aliado ao colocar a canção ao serviço da luta dos trabalhadores, mas nunca aceitou que os critérios políticos ultrapassem os critérios estéticos. Como se verifica, na sua qualidade de produtor, de Camané.

Serve ainda este texto para recordar que conheci as palavras (entrevista) do Zé Mário através da revista “Mundo da Canção”, fundada em 1969, no Porto, pelo Avelino Tavares. Revista pioneira e de grande qualidade na divulgação da música popular nacional e estrangeira. Como dizia no seu editorial: “A música é a expressão mais importante da reivindicação da juventude de todo o mundo e tu, Jovem de Portugal, tens uma palavra a dizer”.

“Eh! Companheiro”, enquanto houver memória cá estaremos para te cantar e divulgar:
“Só tem medo desses muros / quem tem muros no pensar”.
JB





Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar


Eh! Companheiro resposta

resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar


Eh! Companheiro eu falo

eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião


Eh! Companheiro respondo

respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão


Eh! Companheiro vou falar

vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer


Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver


Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar


Eh! Companheiro resposta

resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.

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