sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Calling all angels

Área de Serviço *

     Pôs-se a ver a iluminação de Natal de Viseu, mais pobre e sem a “árvore” do Adro da Sé que, no ano passado, servia de farol à cidade.
       Andava ele, mãos nos bolsos e orelhas geladas, na Rua Formosa, fria, virada para os ventos de Espanha, quando lhe veio à ideia um conto de Natal que tinha lido, há uns quatro ou cinco anos. Era um conto de Francisco José Viegas cuja acção se passava em Viseu.
     Como toda a gente, ele guardava recortes de jornal. Papéis para depois. Para ler depois. Ou deitar fora. Quando chegou a casa, procurou o texto de Francisco José Viegas. Achou-o. Chamava-se “A Noite de Natal”. Pouco mais de uma página e meia.
     A história passa-se na Área de Serviço da IP5, a 10 quilómetros de Viseu. É uma história de amor, de gente de carne e osso, gente de pouco dinheiro e poucas palavras. Um pouco mais que este pouco é o “combustível” daquela história de FJV que não se vai contar aqui, evidentemente…

     No dia seguinte, ele pegou no carro e foi lá. O sol oblíquo de Dezembro iluminava a Área de Serviço. Passara o tempo dos muitos camiões a abastecer. Agora a Área de Serviço estava calma.** Adivinhava-se o rumor dos motores, mais a sul, na nova A25.
     Quando regressou ao IP5, ligou os médios. Ainda era obrigatório ligar as luzes. Restos desnecessários da “tolerância zero” na que foi, e já não é, “estrada da morte”.
     Fez a viagem a cismar. Agora cismava mais do que magicava. Estava a acabar um ano que, para ele, tinha sido sem magia. Ano mau. Entrou na cidade pela estrada do Sátão. Ao lado das torres da Sé, acima delas, a grua que se via não era uma árvore de Natal.
     Pôs a tocar uma música chamada “Calling All Angels”. Alto. Muito alto. 

     «Para o ano vai ser melhor!», determinou ele…


* Este texto foi publicado no Jornal de Centro, em 22 de Dezembro de 2006, e é republicado aqui neste blogue, agora com o vídeo "Calling All Angels".
** Esta área de serviço entretanto foi desactivada, demolida e  o acesso ao sítio foi vedado. 

Cortar o tempo

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Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.


Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente
                                                                                        Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Balanço de 2010 *

     Pegou-se neste post e nest'outro, agitaram-se ambos muito bem, e fez-se o balanço do que aconteceu neste rectângulo à beira-mar plantado em 2010.


25 de Março — PEC 1



28 de Maio — PEC 2



16 de Outubro — PEC 3

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Musa

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Nenhum perfume disse que chegaste.
Não houve sobressaltos, nem sinais.
Chegaste, assim como quem chega, e parte
de tudo parte, para nunca mais


achar o rumo, longe do que fui.
Resta de mim somente algo de novo,
muito antigo e completo, feito fogo
ou verdade, tão novo como luz,

cidade, paz, necessidade, pão,
algo tão novo como tudo em vão.
E segue meu delírio a te seguir.


Nenhum perfume disse que partiste.
"E não partiste", meu delírio insiste.
Talvez perdido em ti dê trégua a mim.

                                                                       Luís António Cajazeira Ramos

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Poesia *








    Nesta fotografia das últimas presidenciais vê-se 
um grande poeta.





Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios. 

                                                                         Nuno Júdice


* Antes de começar o debate Cavaco vs Alegre

Revoluções

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     «Este autor, partindo de evidência histórica, demonstrou que as revoluções  sociais eram mais frequentes em períodos de recessão económica imediatamente seguintes a períodos de grande prosperidade (em que as expectativas tinham sido aumentadas) e não depois de um grande período de privação absoluta.»
Cláudia Abreu Lopes,
in Moralidade económica e crimes do dia-a-dia,
citando "Toward a Theory of Revolution",
de James Colin Davis (1962)

O melro

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Tanto quanto eu, ele ama
as folhas secas, debica-as
e devora-as. Está a procurar
debaixo da face da folha
os vermes. Percorre com apuro
recessos, as nervuras.
Trabalha com amor
para a sua memória.
                                            Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Apostas

     O blogue Viseu, Senhora da Beira faz, com a ironia do costume, uma aposta antecipadamente ganha:
     Amanhã, na assembleia municipal de Viseu, vai sair panegírico a Jorge Carvalho pelas décadas à Feira de S. Mateus.

     Também quero fazer uma aposta (uma aposta que gostava muito de perder, confesso).
     Amanhã vai-se gastar mais tempo na assembleia municipal com ...

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 ... a defunta universidade de Viseu do que ...





... com o ataque que se está a preparar para os próximos meses à economia e mobilidade da região. 
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Pobreza

Até agora a campanha das presidenciais,
que Manuel Alegre achou por bem começar


... e só isto.

Soares vs. Alegre, 14 de Dezembro de 2005

Memória.
Antes do debate Cavaco vs Alegre de amanhã.

O desfruto centralista

     A câmara de Vouzela acaba de anunciar, com júbilo, que o ministério da educação começou a pagar parte de um projecto a que a burocracia chama "Regime de Fruta Escolar".
     A coisa, cheia de cascas de banana, teve impacto mediático há uns tempos na espuma destes tempos. Em causa 200 mil euros e muita politiquice.
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     A ninguém ocorreu o delírio centralista que é ser um burocrata de Lisboa (ou de Coimbra, ou de Viseu, para o caso é o mesmo) a decidir e a pagar a pêra ou a maçã de um menino de Campia ou de Queirã.

Sabedoria

gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve


e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves



suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiros


e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto
                                                                                               Francisco José Viegas

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Tudo calmo dentro da panela de pressão (#2)

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Autarca de Cacia apela à destruição dos pórticos na A25 

*****

A "taxa administrativa" fica mais cara que a portagem

 

No couto do Fontelo, em Viseu

«Em 1601, Luís da Orta apresenta-se no couto do Fontelo, em Viseu, para denunciar a mulher, Maria Gomes.

Imagem daqui 
Fala das heresias que ela o incitava a cometer e dos jejuns a que o obrigava por naom estar dantes advertido.
     
Ela lhe dizia então que, quando fosse a uma igreja e rezassem as avé-marias, o não fizessem e somente movessem os beiços sem dizer nada
Maria Teresa Gomes Cordeiro,
in Adonai nos Cárceres da Inquisição,
Os Cristãos-novos de Viseu Quinhentista

Tudo calmo dentro da panela de pressão






Cabina de pórtico da A28

Sonhos da Menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?


Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.


De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .



Na lua há um ninho
de passarinho.


A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
                                                                 Cecília Meireles

domingo, 26 de dezembro de 2010

Onde pára a schadenfreude*?

     
Na educação, o festim despesista do marilurdismo vai sendo desmontado. A emergência orçamental a isso obriga.
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Por agora, noticia o Público, são os directores, subdirectores e adjuntos das escolas que levam um corte no suplemento salarial.
      
É muito interessante ler os comentários dos leitores do Público a esta notícia. Dá para perceber que a nossa fábrica de schadenfreude já conheceu melhores dias.

* Schadenfreude: ficar contente com o azar alheio. Inveja: ficar triste com a sorte alheia. 

Balanços






     «No que diz respeito à forma como o colega de Mangualde 'luta' pelos investimentos para o seu concelho, o edil viseense lembrou que a acção de um presidente de uma autarquia mede-se quando este sai e não quando entra na Câmara.»

  
  







     Este recorte do Diário de Viseu mostra exactamente em que fase estão os dois políticos.
     Enquanto João Azevedo está a tomar balanço, Fernando Ruas está a fazer o balanço.

Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos

Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.


Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história –
Olhos de quem cresce a olhar.


(sei que enquanto me olhas respiras)



Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.


E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.
                                                                                                            Rui Almeida

sábado, 25 de dezembro de 2010

Os 12 dias de Julian Assange

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Um desapontamento, mister Obama!

      Conta o Washington Post que o presidente dos Estados Unidos da América está a elaborar uma ordem executiva que pode formalizar a "prisão definitiva sem julgamento" para alguns detidos em Guantanamo Bay.
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     Sempre que as sociedades abertas espezinham o estado de direito, dão um tiro no pé. E é mais uma vitória de Bin Laden.
     Não foi para isto que o mundo "votou" em si, mister Obama.

Televisão

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«Às pessoas que desejam realmente resolver os seus problemas é importante gritar-lhes:
Desliguem a televisão e saiam de casa!» 
Laurie Anderson, 1990

O estaminé

      Os tempos vão duros: o município de Sanford (Florida, USA) não tem dinheiro, precisa de poupar, poupar, poupar.
     Precisa tanto de poupar que já só abre no ano que vem.


       Em vez de se andar a usar dinheiro afecto a processos, não seria melhor também o ministro da justiça Alberto Martins fechar o estaminé por uns tempos?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A ésseémeésse do Natal de 2010

Xai Jin min yang nan mau pin shun tan 
tsè ping ming yao ki ò shui!
Tendo em conta que estamos em crise fui comprar a mensagem aos chineses para ficar mais barato!
Feliz Natal!



— O google tradutor não "vira" a mensagem.  Por conseguinte, não se pode dizer se é, ou não, piada a Teixeira dos Santos.
— Imagem Associated Press.

Com uns restos de canela e Beira Alta

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A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
presépio de vaca burro banda de música

ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto



assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses

o acordar de prenda no
sapato

tudo tão real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do Carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.
                                                         João Miguel Fernandes Jorge

O vestido

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No armário do meu quarto escondo de
tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes
delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante.



Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.
                                                                                                        Adélia Prado

O túnel

Imagem daqui
     
Ia na A24.
     

Levava o telemóvel ligado, queria tanto que tocasse o telemóvel. Ele, no Natal, era sempre um redemoinho de saudades dos pais e do filhos. É que ele era filho de emigrantes e pai de emigrantes. Os pais obrigados a ir “de salto” para a França no tempo de Salazar e, agora, os filhos, ambos doutorados, ele a trabalhar em Berna, ela em Londres, emigrantes, como no tempo de Salazar.
     
Guiava como fazia todos os dias a caminho de Lamego, nos seus “que fazeres”. A Europa estava com os aeroportos fechados, os aeroportos que lhe haviam de trazer os pais e os filhos para a consoada mais para o fim da semana. Maldita neve! Maldito arrefecimento global!
     
Azedo, levantou o pé do acelerador.
     
À frente o túnel duplo de Castro Daire escavado no monte, duas linhas paralelas para passarem os carros e, a meio, uma galeria toupeirada para ligar o túnel da esquerda ao da direita.
     
Todas as vezes ele fazia o mesmo jogo: a meio, olhava para o lado de lá a ver se ia a passar um carro naquele instante, no outro sentido. Nunca tal lhe aconteceu. Nunca.
     
Mais uma vez, pôs o carro a oitenta a hora, olhou e nada. Do lado de lá, em direcção a Viseu, népias. O costume.
     
Seguiu aos seus “que fazeres”.
Imagem daqui
 Ao fim do dia, regressou a casa.
     
Dentro do carro, o perfume de uma bôla de Lamego ainda quente e o telemóvel ligado. À espera. Abrandou para entrar devagar no túnel. O costume. Já fazia tudo aquilo em piloto automático. Olhou para o lado de lá, como de costume.
     
Daquela vez, daquela singular vez, finalmente — bingo!, num relance, viu um carro amarelo do lado de lá, a andar para o norte. Finalmente!
     
A neura dele derreteu-se. O telemóvel tocou. Não atendeu. Não era preciso.
     
No final da semana ele sabia de certeza certa. Ia consoar com os pais e com os filhos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Aventoinhas

     A Martifer vendeu os dois parques eólicos que tinha na Alemanha por 26,35 milhões de euros, com um prejuízo de 13,6 milhões de euros.
     A senhora Merkel soube disto?
     E o dr. Soares?


       Os alemães incham taxas e sobrecustos na conta da luz como  nós? 

A cebola

     O presidente do Sporting vai alargando a super-estrutura do futebol do clube.
     Agora contratou José Couceiro. Que não se sabe se tem mais ou menos fatos do que  Costinha embora, espera-se, fatos menos azeiteiros.
Imagens daqui
      José Eduardo Bettencourt, em vez de descascar a cebola, vai-lhe pondo camadas.
     A cebola, já se sabe, é áspera. Às vezes põe-nos a chorar. Mas só se consegue um bom refogado quando a descascamos.

Sempre a água

Imagem daqui
Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.
                                                                              Eugénio de Andrade

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O debate presidencial

Imagem daqui
      Manuel Alegre achou positiva a aprovação do orçamento de 2011 e chutou para canto quando o assunto foi a espargata que ele faz entre Louçã e Sócrates.
     Por sua vez, Fernando Nobre cumprimentou  os 34 anos de Manuel Alegre no parlamento e, mais tarde, disse:
     "Nada é mais triste do que um homem acomodado."
Manuel Alegre vs Fernando Nobre, TVI

Os PECs

PEC 1






PEC 2






PEC 3

Anónimos *

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro, em 27 de Maio de 2005

     1. Segundo uma reportagem publicada no Diário de Notícias de 19 de Maio, em anos de eleições aumenta fortemente o número de denúncias anónimas contra Presidentes de Câmaras e autarcas em geral.
Imagem daqui
      Rosário Teixeira, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, fez, em Abril, a seguinte previsão: “Não podemos ser ingénuos. Até ao Verão vamos ser inundados com denúncias sobre autarcas.” Ao mesmo tempo, alertou para os riscos do Ministério Público (MP) prestar “fretes políticos”, caso avance com todas as investigações.
     O forum da página da Internet da Procuradoria tem trazido forte controvérsia acerca deste problema. Segundo percebi da notícia do DN, há duas posições sobre esta situação: (1) o MP indaga a verosimilhança e consistência da denúncia para ver se abre inquérito ou não; (2) o MP faz sempre abertura de inquérito logo que haja denúncia.
     Não há, portanto, uniformidade de procedimentos, embora me pareça que uma boa parte das denúncias deviam levar imediatamente o carimbo de “Arquive-se”, por falta de credibilidade.

     2. Não tenho sido atormentado com muitas denúncias anónimas. Acho este tipo de procedimento uma porcaria pelo que – das poucas vezes que recebi coisas dessas - enviei-as para o caixote do lixo imediatamente.
     É que não tenho as responsabilidades do Ministério Público e tenho cada vez menos paciência para aturar faltas de carácter.

     3. Quero dizer à pessoa que me mandou duas cartas para o PS (a primeira sem nome e a segunda com pseudónimo) que acho essa atitude uma nulidade cívica.
     Já agora digo-lhe mais: sobre o assunto que tratava nas cartas, tomei posição política em 15 de Novembro de 2001, posição em que pus o meu nome, a minha voz e as minhas convicções.
     Assumo o que penso e pago o respectivo preço, seja ele qual for. Sempre.
     Agora é a sua vez?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Procura?

Mulher, casa e gato

Pierre Auguste Renoir
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.


A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.
                                                            Herberto Helder

Noite de Natal *

  * Texto publicado no Jornal do Centro em 24 de Dezembro de 2009 


Ia neura pela rua fora.

Fotografia Olho de Gato



Não fazia outra coisa que não fosse cismar na sua filha. A filha que o fez dar no duro nas obras da Visabeira. Tanto trabalho, tantas privações, tudo para ela tirar um curso.

Foi uma alegria quando ela se formou. Ele tinha uma filha doutora! Até pagou uma rodada de cervejas aos colegas da obra.

Depois veio a desilusão. Durante um ano, ela só conseguiu arranjar um part-time num call-center e uns meses numa caixa do Intermarché, em substituição de uma grávida.

Finalmente, apareceu uma luz ao fundo do túnel, uma vaga para um lugar bem pago, onde ela podia aplicar aquilo para que tinha estudado. Só que era em Sydney, na Austrália. Que neura!

«Pai», dizia ela, «a gente fala todos os dias na internet. Aquilo é tão bonito. Olhe esta fotografia da ópera de Sydney.»

Já não faltava muito para a consoada. Ia ele, naquele dia frio, naquela rua onde tinham posto uma alcatifa, naquela rua aberta aos ventos de Espanha, a fugir daqueles jinglebéles nos altifalantes, que atroavam o ar. Ele ia a cismar. Nem deu conta que estava a pensar em voz alta:

«Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»

Rua fora, ao fundo, viu a praça, o Rossio, as casinhas do Rossio.

Fotografia Olho de Gato





Estava lindo o Rossio, de presépio e de charrete, luzes de Natal a pingarem das tílias, táxis à espera, brasileiros ao telemóvel, ucranianos de camisa aberta, africanos de gorro na cabeça.
     
Não lhe passou a neura. Em cada uma daquelas caras, em cada um daqueles estrangeiros, em cada um daqueles olhos tristes, ele via a sua filha, sozinha, num Rossio qualquer de Sydney, do outro lado do mundo.
     
Chegou a casa e disse:
«Filha, nesta noite de Natal tens que me ensinar a mexer no computador…»


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Três

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     «Existem tantos padrões nas relações humanas quanto pessoas.
     Creio que "três" é um número particularmente interessante: "um" é simplesmente um; "dois" é sempre simétrico por mais voltas que se lhe dê; o "três" é realmente o primeiro número excitante.
     Três personagens podem ser colocadas simetricamente mas podem também ocupar uma infinidade de outras posições.
     Torna-se muito mais atraente, em termos de dramatismo» 
Michael Cunningham, ao Ipsilon, 10/12/201

O buraco do BPN ...

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Tabacaria, de Álvaro de Campos *

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Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
(...)
                                                                                            Álvaro de Campos, 15-1-1928

* Parabéns a todos os dizedores, começando pelo dizedor Guilherme Gomes

domingo, 19 de dezembro de 2010

O anti-americano

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      «Cavaco Silva was displeased that he did not get an Oval Office meeting with President George W. Bush during his 2007 visit to Washington (...)»
     «Portugal's delay in recognizing Kosovo and decision to remove troops from Afghanistan was tied to Cavaco Silva (...)»