N2 pintada de branco*

* Hoje no Jornal do Centro 

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1. Se imaginarmos os 738,5 quilómetros da N2 como a coluna vertebral do país, podemos “colocar” a subida entre a Ponte Pedrinha e o Vale de Azia, em Castro Daire, algures numa das últimas vértebras cervicais. 

Teimando nesta comparação anatómica de gosto muito duvidoso, diria que há, naquele troço de dois quilómetros, uma hérnia ou uma outra qualquer afecção da coluna. 


Daqui

É que tem havido vários problemas naquela estrada, na subida a seguir àquela ponte sobre o rio Paiva que, em 1878, substituiu no mesmo sítio uma outra romana da era de Caio Júlio César:

— no início de 2011, ainda as tempestades não tinham nome, uma delas fez colapsar meia estrada e o governo de Passos Coelho precisou de quatro anos para a compor por trinta mil euros;

— no final de 2019, a depressão Elsa derrocou meia encosta, intransitando a N2, e o governo de António Costa precisou de nove meses e dez dias para a compor por duzentos e oitenta mil euros.

Oito anos depois, as coisas estão melhor: 

— agora puseram lá muito mais depressa um colar cervical, perdão, um colar cimental que parece capaz de aguentar um alfabeto completo de tempestades;

— agora a N2 é um mito e um íman turístico para aquela região e todo o interior do país.


2. Maria do Rosário Pedreira, a responsável editorial do grupo Leya, tem que ler muito para decidir o que é para publicar e o que não é. É um trabalho esmagador porque nunca se escreveu tanto e tão bem, porque nunca se escreveu tantíssimo e tão malíssimo.

No início deste mês, Maria do Rosário Pedreira recebeu dos Estados Unidos a proposta de um livro, “ainda a ser escrito”, que já recebera um adiantamento de “uma enorme quantidade de dólares” de “uma editora de nomeada”. 

Tema daquele futuro best-seller: “a tinta branca é racista”. A sinopse explica mesmo isso, que “pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca”. Espantada, Rosário ainda pensou que “fosse um livro humorístico”, mas depois percebeu que o livro “não é uma piada”, ele “pretende mesmo ser sério”.

Já se sabe, o identitarismo, nascido nas universidades norte-americanas e exportado para todo o mundo, está a estragar as cabeças. 

Ainda vamos ver um consumidor joacínico ou mamadúcico daquele lixo, ao passar na parte lombar da N2, mais lá para o sul, olhar para o casario branco e dizer que os alentejanos são racistas. 

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