A sodomia fiscal*

* Publicado no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 8 de Outubro de 2010 

Daqui

1. Quando, no dia 29 de Setembro, José Sócrates veio anunciar mais um plano de austeridade pouca gente se lembrou que aquele era o dia de S. Miguel  — dia em que, antigamente, se celebrava a abundância das colheitas e se pagavam as rendas das terras.

Os tempos agora são outros e o nosso imaginário agora é urbano, não é rural. Com graça, um meu amigo do Facebook anunciou que vinha aí: «o segundo filme da saga "A Sodomia Fiscal"».

Infelizmente, este PEC de 29 de Setembro não é o segundo filme desta saga. Será o quinto? O sexto? Já se lhe perdeu a conta.

Andamos nisto desde 2002. Na caça ao voto anuncia-se pão e mel e, logo a seguir, sobem-se os impostos. Diz-se em todos os discursos engravatados a palavra “rigor” e, logo a seguir, assinam-se PPPPP (parcerias-prejuízos-públicos-proveitos-privados) para alimentarem as nossas elites económicas e os grandes escritórios da advocacia do regime. 

Andamos nisto desde 2002. Como lembrou Vasco Pulido Valente, até já se retomou uma velha tradição da classe alta portuguesa: bater nos criados. Agora bate-se nos funcionários públicos.

Andamos nisto desde 2002. O resultado tem sido sempre o mesmo: pântano e estagnação.

Vai piorar.

2. Para além do excelente serviço de medicina física e de reabilitação do hospital de S. Teotónio vocacionado para casos agudos e pós-operatórios, em Viseu há ainda várias clínicas privadas que dão resposta a situações não agudas, designadamente às doenças crónicas.

Infelizmente, o SNS não assinou nenhuma convenção com estas clínicas da cidade e prefere mandar os doentes, de táxi, para Gouveia e para o Luso.

Isto, só em táxis, custa 400 mil euros por ano. Este desrespeito pelos doentes e pelos dinheiros públicos arrasta-se há anos.

É este o estado do estado social.

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