As coisas que importam

Colt 38 “Police Positive”, de Al Capone, leiloado por 64.250 libras, em Junho de 2011 

 


As televisões anunciam: revólver 

de Al Capone leiloado em Londres. 

E eu em Maputo. Que falta de pontaria 

para o destino! Serei sempre como a figueira, 

molenga, uma alma 

que é uma espelunca-de-aluger 

e incapaz de frutificar a tempo

de ter as raízes pisadas 

pelas olorosas sandalinhas de Cristo. 


Já perdi por um fio a guilhotina 

de Robespierre, um tufo da melena 

de Hitler, uma sela marchetada a marfim 

de Bush, o texano, um selo exortativo 

da Grã Perenidade de Mugabe 

e dois botões de punho de Kadafi.

Só nos últimos 6 meses. 


É isto, sem nada para deixar aos filhos.

Talvez um 123 para porem as farófias 

no ponto, mas, é lá o mesmo!

A minha vida deslaça sem que eu adira, 

ainda que simbolicamente, a um crime 

de monta, uma crueldade com estardalhaço 

que vergue de medo a própria sombra. 


Que tristeza ó minha mãe, que me erodiste

a ruindade: eis-me um podengo 

do bem! Venha uma revoluçãozinha, 

onde eu pudesse fuzilar os refractários 

e alguns poetas mais burgueses!

Chamava-lhes um figo. Hum! 


Não há aí quem queira leiloar 

esta minha incapacidade para estar 

onde as coisas que importam acontecem?

Eu vendo, por muito dinheiro!

António Cabrita


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