À Ponte de Brooklyn

 

Foto de Lukas Zischke


Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,


As asas da gaivota hão-de emergi-la e voar em seu redor,

Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto

Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade -


Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos

Tão espectrais como veleiros que cruzam

Uma página cheia de parcelas a arquivar;

- Até que os elevadores nos libertem do nosso dia...


Sonho com cinemas, truques panorâmicos

Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante

Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,

A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;


E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata

Como se o sol te imitasse, embora deixasse

Um gesto nunca acabado no teu rasto, -

Implicitamente ficas com a tua liberdade!


De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda

Um louco precipita-se para os teus parapeitos,

Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,

E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.


Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,

Um rasgão no acetilene do céu;

Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram...

Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.


E é obscura, como aquele céu dos judeus,

A tua recompensa... tu conferes o louvor

De um anonimato que o tempo não pode evocar:

Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.


Harpa e altar pelo furor unidos,

(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),

Medonho limiar da promessa do profeta,

Prece de um pária, e grito de um amante, -


E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma

Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas

Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:

E vimos a noite erguida nos teus braços.


Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;

Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.

Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,

A neve submerge já um ano de ferro...


Ó Insone como o rio lá em baixo,

Em abóboda sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,

Desce, vem até nós, os mais humildes,

E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

Hart Crane

Trad.: Maria de Lourdes Guimarães

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