Ainda bem [Maria do Rosário Pedreira 4]

Histórias Que Dão Para Ver, Teatro do Montemuro, texto de João Luís Oliva

Fotografia Olho de Gato
Nelas, 9/11/2019



Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer — que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí — ainda mais perdida do que
antes — a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer — mas é — um poema de amor.
Maria do Rosário Pedreira




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