quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pachona*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Abril de 2008


1. As televisões têm de preencher muitas horas de espaço informativo e, por isso, quando não acontece nada de especial, “enchem chouriços”.

Quando surge um assunto com drama, com emoção, uma “Maddie”, um “Entre-os-Rios”, uma “Casa Pia”, é uma felicidade para os programadores e editores. As televisões multiplicam então os directos, fazem “breaking news” à americana. As vozes sobem de tom, arfam, urgem, arrebatam-se.


Escola Secundária Carolina Michaëlis

Aconteceu isso agora, enquanto andávamos entretidos com o pão-de-ló pascal. Foi o caso do 9º C da Escola Secundária Carolina Michaëlis e do filme feito por um aluno com o seu telemóvel; esse filme tem uma punchline que merece a eternidade: “Ó gorda, ó pachona, sai daí!”

Infelizmente, como de costume, aquelas imagens e aqueles sons foram repetidos até à náusea. Durante vários dias as televisões não mudaram “nem de assunto nem de ideia” (Winston Churchill dizia assim dos fanáticos). Resultado: já ninguém suporta mais ver aquela cena ou falar do caso. Fico-me, portanto, por aqui.

De qualquer forma, podemos todos ficar descansados: a resolução do problema foi entregue àquela senhora da DREN - sim, essa mesma, a do bufo.

2. Até aos anos 90, o cidadão comum sentava-se no seu sofá a ver a vida das pessoas importantes na televisão; depois a vida dos “Zés Marias” invadiu os monitores mas eram ainda os profissionais que controlavam.

Agora há uma câmara de filmar em cada bolso. As pessoas tomam conta da narrativa: ligam o telemóvel; editam o filme; põem-no no YouTube.

“Ó gorda, ó pachona, sai daí!”

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