quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Sem nome e um pouco gago

Fotografia de Huy Phan


Eu falo tanto.
Tanto de amor
pois assim eu o gasto
todo carcomido
como a sola do sapato
se curva pra dentro
de tanto ser pisada
torto pode ser
amor levante
as suas asas
numa revoada
venha se revolte
espume e recolha
quando é madrugada
vamos descansar
dos truques
cara a cara
olho a olho
dente no pescoço
eu sei tão pouco
ao mesmo tempo
eu blefo e juro
ao mesmo tempo
aos teus pés
eu ofereço
agulha e tropeço
meus instrumentos
é honesta e cruel
a minha forma
líquido é o sal
anca com anca
prova na carne
que é carne
o poema
o encaixe
enraíza
o sol
o vai e o vem
o mar
instinto não sei
algo me diz
não falha
o caminho a navalha
o clarão do cavalo
a aurora e o breu
tudo isso e mais um pouco
pelo amor sou tua e tão eu.
Júlia de Carvalho Hansen












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