terça-feira, 21 de agosto de 2018

No beto carreiro eu vi um macaco que ria

Fotografia de Viviane Sassen



desculpa se eu quebrei
o protocolo das fodas
casuais

mas você voltou
pra pegar o livrinho amarelo
do ferlinghetti
e os passos no andar de cima
misturaram-se
com filas quilométricas
de turistas e meninas em camisas
suadas muito
escritas

– é que você não
é gorda
é que eu pensei em sons
que já não lembro mais na volta pra casa
e em objetos
pequenos como peras
fatiadas
e na obesidade infantil
e em você criança
sendo tirado à força dum torneio de xadrez
porque esse método de não pensar em nada
por mais de três vezes ainda é o melhor método,
pra mim

é uma reflexão
pra concluir
depois dum filme
do hal
hartley
– é horrível –
são meditations
for dummies
são sempre os mesmos
lugares
mas melhor seria o filme
em que você descobre a bola
fugida da altinha na praia numa tarde
primaveril
e a devolve ao corpo
esguio de adolescente
marrom com gotículas
de sal, suor
& força
tal foi minha surpresa ao encontrar
entre os edredões de uma bebedeira
uma carta celeste e as 7 marcas
da porradaria.

noutra,
a cidade vazia
espera
há três dias
a carne
apodrecida de fukushima

– somos todos cúmplices
dos mesmos problemas
mecânicos
saindo de santa assim tão
          cedo

ou tarde

ou quando
a luz do pipoqueiro ilumina
dramaticamente
um rosto cru –

existe a distância
e existe o tempo
existem mulheres que são mulheres
e ainda rochas
e paisagens
e tudo mais que se desentranha
          da tarde

como quando você comia repolho
e escavava poemas
que diziam que era assim mesmo:
há amor, às vezes
Catarina Lins


1 comentário:

  1. O Galamba é um beto que anda à boleia na politica.
    Lamentável é não te indignares com o facto do "polegar" assumir ser o porta voz do teu governo.
    Isso é lamentável!

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