sexta-feira, 29 de maio de 2015

Considerações de Ovídio acerca do seu desterro





Todos se lembravam bem que ele era o romano, o exilado, o poeta. Onde
estava sepultado? Mas, acaso, há uma lei que obrigue a que se responda
a um estrangeiro se este pergunta pelo paradeiro de outro estrangeiro?
Christoph Ransmayr, O último mundo


Onde está esse homem que veio de Roma, o estrangeiro? Não
o sabemos. Todas as raízes convergem para o mesmo sítio. Talvez seja
o lugar onde esperamos encontrar uma planta que das próprias folhas
recebia a origem. Quem assim ficou sepultado não tem quaisquer
limites, confunde-se com o ar, com a brisa. Reconhecemos
que está para além de si mesmo, finalmente disperso
no seu pólen ou em qualquer reflexo esquecido de outros
olhares. A brisa passou de novo. Há quem se afaste nos caminhos
para encontrar o seu destino; e veremos como se torna maior
esta distância que ficou prometida, só para que se encontre
o que julgamos ser igual à sua ausência. Sempre
foi assim... De que serve este esforço para se ter uma outra espécie
de conhecimento, o que vai dissipar-se no vidro das janelas, espesso
e sem novas imagens? Talvez continue a mesma suspeita, Pode ser ali,
nesta terra revolta, suspensa sobre a noite e destinada
ao exílio, que se levanta um rosto ainda mais simples para ser igual
ao de um homem qualquer. Vemos as suas únicas feições, a curva
imóvel das pálpebras. Se ele era estrangeiro, nós o que seremos?
Fernando Guimarães





Há quem julgue que nos meus versos me refiro aos deuses
e aos homens. Eu próprio contribuí para isso. Mas posso dizer-vos
que sigo outros caminhos. Falo dos seres. Sempre o fiz. As nuvens
chegam de longe e ficam reflectidas na superfície límpida
do mar. Se me perguntas o que é um ser, direi apenas
que tudo o que for trazido pelas ondas delas recebe
uma outra realidade, esse estremecimento que parece ter
origem num ventre materno fecundado pela areia
ou pela luz. Há quem olhe e não o reconheça; por isso tenho
de o escrever. Sento-me à frente de uma mesa circular,
de madeira. Reparo melhor nela. Vejo como são as estrias, algumas
das manchas, os nós, os seus leves desenhos. Toco neles e depois
encontro o relevo do que ficou escrito. Se te aproximares um pouco
ouves a minha voz cansada. A tudo queríamos dar um nome,
e quantas vezes se não pode reconhecer sequer onde se encontram
vestígios tão difíceis. Refiro-me talvez ao calor dos teus olhos e espero
pelas imagens que hão-de finalmente caber neles. Nada
é mais sereno. Vês? Os círculos na água afastam-se.
Fernando Guimarães






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