quarta-feira, 3 de junho de 2020

Dois panoramas de uma sala de cadáveres

O Triunfo da Morte, Pieter Bruegel, o Velho (1562)


1

No dia em que ela visitou a sala dos dissecados
Eles tinham estendido quatro homens, negros
como peru queimado,
Já meio decompostos. Um vapor avinagrado
Dos tonéis da morte prendia-se a eles;
Os rapazes de bata branca começaram o trabalho.
A cabeça de um cadáver ruiu,
E ela mal distinguiu
Algo, naquele cascalho de placas cranianas e
cabedal coçado.
Que um pedaço amarelento de corda atava.

Nos seus frascos, os bebés com narizes de caracol
brilham, com ar imaginário.
Ele mostra-lhe o coração insensível
como um bem fendido e hereditário.

2

No panorama de Brueghel, de fumo e carnificina
Há só duas pessoas cegas face à tropa de carne
putrefacta:
Ele, boiando no mar da saia de cetim azul
Dela, canta na direcção
Do ombro nu dela, enquanto ela se curva,
Folheando uma pauta de música, sobre ele,
Ambos surdos, face ao violino nas mãos
Do crânio que lhes ensombra a canção.
Estes amantes flamengos florescem; mas por
muito tempo, não.

Ainda assim, o desalento, atolado em tinta, poupa
a pequena paisagem campestre
Tola, delicada, no canto inferior direito.
Sylvia Plath



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