quinta-feira, 30 de junho de 2011

A facada no subsídio de natal

O Jornal de Negócios fez as contas *:


* Valores indicativos

À venda, no centro de Viseu, boas áreas, garagem privativa

Fotografia de Nuno Trabulo (daqui)



Diz o Público online: "Passos Coelho põe 

Cantar na rua *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 16 de Março de 2007

     1. Na Antena 1, no programa do Provedor do Ouvinte, foi lida uma carta a “dar nas orelhas” de Ana Sá Lopes. Pelos modos, num programa de debate político, aquela jornalista disse que: «A Câmara de Lisboa não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego». Um ouvinte da RDP não gostou. A sua fúria nada teve a ver com a secura dos cofres do município lisboeta (inevitável depois dos anos Santana / Carmona). O ouvinte não gostou foi da parte do “nem para mandar cantar um cego” e fê-lo saber numa prosa violenta.
     O problema deve ter ficado resolvido já que, para “não bater mais no ceguinho”, Ana Sá Lopes acabou por pedir desculpa ao reclamante.
     Foi pena. Os aforismos populares são “politicamente incorrectos”. Metem “sal” na linguagem. Esse “sal” é bom mesmo que cause “hipertensão” a algumas almas mais sensíveis.

     2. Rosa Francelina Dias Martins ficou cega aos 4 anos, começou a pedir aos 9, a vender lotaria aos 21 e a cantar na rua aos 30.
     No Verão de 1999 foi descoberta por Andrea Heller, produtor de World Music, tendo cantado em toda a Europa e editado um CD chamado “Dona Rosa”. O CD inclui um muito instrutivo texto de Nuno Pacheco sobre a tradição dos “cegos andantes” ou “cegos papelistas” (assim eram conhecidos no século XIX).



     No Natal de 2002, Dona Rosa queixou-se dos altifalantes que Santana Lopes semeara nesse ano pela baixa de Lisboa. Dona Rosa ficou cheia de dores de cabeça e de garganta. «Como se não bastasse o frio e o vento, ainda tive de levar com a música concorrente» - desabafou ela ao Expresso.
     Como se vê, Ana Sá Lopes não devia ter abjurado a sua ideia. Ela tinha intuído bem. Há bastante tempo que a Câmara de Lisboa não se dá bem com o cantar dos cegos.

Secreto

Fotografia de Natacha Pisarenko
Antes yo no sabía
por qué debemos todos
- día tras día -

seguir siempre adelante
hasta como se dice
que el cuerpo aguante.

Ahora lo sé.
Si te vienes conmigo
te lo diré.
                                          José Agustin Goytisolo

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Que do 1 não saia o 2

— 1
     Proceder à avaliação de todos os contratos de Parcerias Público-Privadas e Concessões em vigor e promover posteriormente a renegociação nos casos em que se conclua não estar adequadamente salvaguardado o interesse do Estado.
     Serão utilizados os instrumentos já conhecidos de renegociação e outros instrumentos jurídicos fundamentados na alteração anormal e imprevisível das circunstâncias.
Programa do XIX Governo,
  primeiro-ministro Pedro Passos Coelho



Imagem daqui

— 2
   "Desde 1992, o difícil em Portugal é identificar um contrato de PPP [parceria público-privadas] que não tenha sido objecto de renegociação e de um subsequente processo de reequilíbrio financeiro, sempre com acréscimo de encargos para o erário público."
Carlos Moreno,
in Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro


Nota: ver aqui e demais publicações com a etiqueta PPPPP (parcerias prejuízos públicos proveitos privados) 

"And Now For Something Completely Different" (#35)

     Em Agosto de 1978, o cineasta francês Claude Lelouch adaptou uma câmara na frente de um Ferrari 275 GTB e convidou um amigo piloto profissional de Fórmula 1, para fazer um trajecto no coração de Paris.
     O filme só dava para 10 minutos e o trajecto seria de Porte Dauphine, através do Louvre até a basílica do Sacré-Coeur.  Lelouch não conseguiu permissão para interditar nenhuma rua no perigoso trajecto a ser percorrido.
     O piloto (René Arnoux? Jean-Pierre Jarier? nunca foi revelado...) completou o circuito em menos de 9 minutos, chegando a 324 km por hora em certos momentos.
     Quando mostrou o filme em público pela primeira vez, o realizador foi preso.

Primeiros anos

Fotografia de Andre Kertesz


Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres


Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror


Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)


E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul


E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.


Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
                                                                                   Ferreira Gullar

terça-feira, 28 de junho de 2011

Atiçador *

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro em 5 de Janeiro de 2007
     
     Lê-se em “O Atiçador de Wittgenstein”, de David Edmonds e John Eidinow, editado pela Temas e Debates, que, no dia 25 de Outubro de 1946, pelas 20H30, se reuniu o Clube de Ciência Moral de Cambridge. Orador convidado: Karl Popper.
     Na assistência (que não deveria exceder as 30 pessoas) estavam Ludwig Wittgenstein e Bertrand Russell. Numa sala aquecida com uma lareira de carvão, naquela noite fria, encontraram-se três dos pensadores que mais influenciaram o século XX. Foi a única vez que Wittgenstein e Popper se encontraram, apesar de ambos serem originários de Viena de Áustria.
     Todas as testemunhas concordam numa coisa: o debate entre Wittgenstein e Popper foi violentíssimo.
     Embora exista alguma controvérsia acerca da amplitude dos movimentos do atiçador, parece que, como conta Popper em Unended Quest (1974), Wittgenstein estava a usar o atiçador da lareira ”como se fosse a batuta de uma maestro para enfatizar as suas asserções”. Wittgenstein desafiou Popper a dar exemplo duma regra moral, ao que este respondeu: “Não ameaçar os oradores convidados com atiçadores.” 
Imagem daqui

     Wittgenstein, furioso com a resposta, atirou o atiçador ao chão e saiu, batendo com a porta.
     Terá acontecido mesmo assim como contou Popper? O livro é feito a partir desta pergunta e lê-se com proveito e prazer.

Bernardo Bairrão é humano ...


... e, como não podia deixar de ser,
este blogue está solidário* com o primeiro desempregado da era Pedro Passos Coelho.

* Onde está o "abaixo-assinado" de apoio a Bernardo Bairrão? A blogosfera anda a dormir.

Viseu no governo

Parabéns e votos de bom trabalho!

Álvaro dos Santos Pereira - Ministro da Economia e do Emprego

José Cesário — Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

António Almeida Henriques — Secretário de Estado Adjunto da Economia e Desenvolvimento Regional

Pretextos para fugir do real

Fotografia de Manel Armengol


A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços
                                                                        Alexandre O´Neill



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Passa uma borboleta por diante de mim

Imagem daqui


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro


Votação online sobre figuras ilustres, nobres e queridas da região



 
Uma ideia curiosa da Casa da Sé: pedir aos internautas para escolherem nomes para os12 quartos.

É ir aqui e clicar.

Auto-censura

     Eis o sétimo ponto do novo Estatuto Editorial do Expresso publicado no sábado:

Imagem daqui
      "O Expresso sabe, também, que em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas, não por auto-censura ou censura interna, mas porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional. O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério."

     Toda a censura e toda a auto-censura alegam sempre um "racional" qualquer, um interesse superior qualquer para calar a verdade. O álibi do interesse nacional é o que mais se usa.
     Espera-se que os "casos muito excepcionais" a que se refere o Expresso sejam tão tão excepcionais que aconteçam zero vezes.
     É que as sociedades abertas vivem da liberdade e aguentam bem toda a espécie de  "fugas" — o labor da Wikileaks deitou abaixo regimes como o de Ben Ali da Tunísia mas não abanou nenhum dos regimes democráticos alvos das "leaks" de  Julian Assange.

Corrigenda: através deste texto de Manuel António Pina percebi que, afinal, não se está perante um novo Estatuto Editorial do Expresso, mas sim da publicação do que tem estado em uso no semanário desde 1974.

domingo, 26 de junho de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#34)

     O dono de um Porshe 911, furioso com os problemas de motor que o carro lhe estava a dar, pô-lo à frente de um pelotão de fuzilamento numa carreira de tiro no Massachusetts.

Deu ele o primeiro tiro ...


Ficou assim:
Fotografia de John Beauchemin

Tudo calmo dentro da panela de pressão (#4)

Imagem daqui

 A cabina do pórtico de Angeja na A25 foi queimada este fim-de-semana.

Terceiro episódio num mês na A25/A17.


* #2.

FMI

Fotografia "emprestada" a este blogue 
pelo ilustre Ainanas. *


* Nota "emprestada" a Portugal ainda no tempo em que Dominique Gaston André Strauss-Khan não era hóspede do estado de Nova Iorque.

Gravitação Universal

Fotografia de Åsa Sjöström
De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.
Rosa Alice Branco


sábado, 25 de junho de 2011

A rede social dos infiéis

The Ashley Madison é a rede social 
que mais cresce no mundo 
a seguir ao Facebook.
Chegou a Espanha em Maio e já tem 47.000 membros.
No mundo são 10,1 milhões.

O 2011MD passa perto ...

Às 17H14 de depois-de-amanhã, 27 de Junho, 
este asteróide do tamanho de um autocarro

Pensar-nos é preciso

Lisboa — 1971

Por Hicham Benohoud


Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
                                                                                              Arménio Vieira

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tom de Festa 2011




Os cognitários

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro conjuntamente com uma adaptação deste post


     Antonio Negri e Michael Hardt são os autores de “Império”, uma obra de leitura obrigatória para quem quiser compreender a ordem política mundial saída da globalização. 
Daqui
     Antonio Negri gosta de seguir de perto as movimentações populares. Como não podia deixar de ser, ele esteve recentemente em Espanha a analisar o movimento dos “indignados” e contou o que viu num texto que se acha na net no blogue “Outras palavras”, com o título “Toni Negri vê a Espanha rebelde”. 
     Nas calles y plazas em luta, o autor andou a ouvir muitos activistas atingidos em cheio pela crise sistémica global que chegou a Espanha em 2007 quando rebentou a bolha do imobiliário, bem antes da falência do Lehman Brothers no outono de 2008. 
     Toni Negri chama a um dos sub-grupos em luta “os cognitários” porque os seus elementos são “trabalhadores digitais e cognitivos, precários do sector de serviços e de todos os géneros de actividade imaterial, estudantes e jovens sem futuro.”
     Nunca tinha lido o termo em lado nenhum: à semelhança do “proletariado” da revolução industrial, há agora o “cognitariado” das sociedades em rede.


La mosca juzga a Miss Universo


Qué repugnantes los humanos.
Qué maldición
tener que compartir el aire nuestro con ellos.


Y lo más repulsivo es su fealdad.
Miren a ésta.
La consideran hermosísima.
Para nosotras es horrible.
Sus piernas no se curvan ni se erizan de vello.
Su vientre no es inmenso ni está abombado.


Su boca es una raya: no posee
nuestras protuberancias extensibles.
Parecen despreciables esos ojillos
en vez de nuestros ojos que lo ven todo.


Asco y dolor nos dan los indefensos.
Si hubiera Dios no existirían los humanos.
Viven tan sólo para hostilizarnos
con su odio impotente.


Pero los compadezco: no tienen alas
y por eso se arrastran en el infierno.
                                                                                         José Emilio Pacheco

"And Now For Something Completely Different" (#33)

Uma lâmina de barbear de cem mil dólares.


* edição limitada a 99 exemplares

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Eu sempre sonhei, por Zainadine

Eu sempre sonhei
estudar
trabalhar
e ser um grande poeta ...

... chamas-me menino de rua
maltratas-me
humilhas-me
espancas-me ...

... devolva a minha vida ...

Uma arte

Fotografia de Malick Sidibé

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.


Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar


Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.


Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.


Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.


- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.

Elisabeth Bishop
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A gripe das aves em 4ª edição

Depois do "apocalipse" dos patos pacholas com H5N1, 
já tivemos mais um "apocalipse", o da Gripe A. 
Vamos lá ver o que nos reserva o próximo inverno...
À venda ontem numa conhecida superfície comercial

Sem juízo *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 23 de Janeiro de 2009
** Ler também a notícia de ontem do Público: "Maria de Lurdes Rodrigues acusada por crime de prevaricação"




Esta é a banda sonora oficial do Olho de Gato de hoje: 
"Quando a cabeça não tem juízo
E tu não sabes mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixó pagar deixó pagar
Se tu estás a gostar…”

     1. Para não cansar muito os muitos juristas da casa, o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) adjudicou um trabalho a João Pedroso por 266 mil euros e mais uns trocos e mais o IVA. Pagou logo tudo ao advogado antes deste começar a trabalhar. A coisa deu bronca. O trabalho ficou por fazer. João Pedroso já reconheceu que não vai dar conta do recado. Agora é-lhe pedida a devolução de… metade da massa … em 12 suaves prestações...
     Vá lá, cante como quando está no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

     2. A HP venceu um concurso de fornecimento de computadores às escolas; a ACER protestou porque a sua proposta era mais barata 15 milhões de euros.
     Será outro caso de “quando a cabeça não tem juízo”? Não se sabe ainda. Ninguém explicou aqueles 15 milhões a mais. Há, para já, uma certeza: “o corpo (leia-se: o erário público) é que paga”…

     3. MLR, durante todo 2008, não conseguiu aplicar a sua avaliação “chilena” dos professores. Perante aquele labirinto, até os presidentes das escolas arrastaram os pés.
     Vai daí, MLR entrou em 2009 a ameaçar os “índios” e a atirar dinheiro aos “chefes”. Os directores das escolas acabam de ter um rechonchudo aumento no seu “suplemento remuneratório”. Consoante o tamanho da escola, vão passar a ser 600 ou 650 ou 750 euros.
     Vá lá, como no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

Os governos civis

     O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho não vai nomear novos governadores civis. É mais um passo no caminho da deslegitimação e esvaziamento do cargo. 
     Os últimos governadores civis, já na defensiva,  tentaram explicar para que servia o cargo, qual era a sua vocação e utilidade e usaram vários argumentos agrupáveis em razões funcionais ou de custo. Foram todos argumentos muito fracos:
     — é um "governador-civil-provedor": uma espécie de agenda telefónica privilegiada a zelar pelo povo junto do governo da república;
     — é um "governador-civil-engenheiro": uma espécie de construtor de "pontes" entre instituições do distrito e o governo;
     — é uma estrutura "auto-sustentável": o governo civil deve continuar porque tem receitas próprias;
     — é uma casa "frugal": o governo civil deve prosseguir porque fica levinho ao orçamento de estado.
     Foi penoso de ver governadores civis sem uma ideia política na cabeça para a casa que dirigiam. 
     Foi penoso de ver governadores civis a debitarem microscópicas estatísticas policiais em conferências de imprensa tristes e ocas.
     Foi penoso de ver esta agonia. 
Imagem daqui


     Ora, um governo civil para empregar políticos derrotados em eleições não faz sentido nenhum e deve fechar, mas um governo civil se for pensado como a casa da democracia do distrito já faz todo o sentido
     Os círculos eleitorais são círculos distritais, os deputados são eleitos por um distrito, é esse o seu território e o território que representam. 
     Esta "pertença" distrital, esta "legitimidade" distrital decorrente dos votos podia e devia ter uma plataforma nos governos civis. Os deputados deviam estar nos governos civis. O governo civil devia estar ao serviço da intersecção dos eleitores com os eleitos.
     Não ocorreu a nenhum dos últimos titulares do cargo. Foi pena. Agora já deve ser demasiado tarde.
     Para Viseu - como para todas as capitais de distrito — o provável fim dos governos civis é objectivamente uma perda. Uma perda que não devia rejubilar ninguém e muito menos o dr. Ruas.

Publicidade descarada

Uma história italiana através da música

Performance no  Lugar do Capitão
Viseu, 23 de Junho de 2011, 23H00

Da conquista


Sua voz desperta o tempo de adormecidas horas
recomposto no cumprimento
com que o travo
da saudade aflora e fere e desacostuma
a vida silenciosa:
refestelados castelos de quase nada
prisões rarefeitas de prazeres
e esperas automatizadas no aguardo
do barulho com que o espantalho
espanta os pássaros sem mexer o corpo
e da reunião dos fatos ressurgem
as primeiras chuvas em húmidas gotas
de desespero
o tom e o som a entonação e o nome
ditos como se a surpresa superasse o sonho
e estivesse ao lado e à frente
os olhos abertos e sorridentes
e o nome repetido na confiança
da conquista.
                                                           Pedro Du Bois


terça-feira, 21 de junho de 2011

Estranho é o sono

Imagem de Bettina Rheims




Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
                                                                                  Daniel Faria



segunda-feira, 20 de junho de 2011

A "Europa"

     Desde que foi declarada a dita "crise das dívidas soberanas" e a existência dos PIGS — esses encardidos e corruptos países meridionais da eurozona — a divisa europeia continua a valorizar-se e o dólar a afundar-se.
     Mesmo quando o o eminente Nouriel Roubini vai à Ásia "medinacarreirar" sobre o euro, a Ásia imperturbável continua a comprar euros e a vender dólares.
Steve Bell, in Guardian

     Porque será? Poderá fazer uma leitura para ajudar a perceber este "fenómeno" aqui.

A pesada herança

     Na quinta-feira, Pedro Passos Coelho disse à imprensa:
     Atenção: contrariamente ao que parece, isto não quer dizer que Pedro Passos Coelho se vá abster de falar da "pesada herança" que recebeu.
     Todo o governo que chega fala da "pesada herança" deixada pelo governo que se foi.
     O que o primeiro-ministro indigitado quis dizer é que nunca vai falar nem dos submarinos nem do BPN.

Hoje - João Torto

Desejos

Fotografia de Virgílio Ferreira


Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.


Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
-Vi naquela árvore um pica-pau em plena acção,
e não: - Os preços do mercado estão um horror!


Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
- As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não: - Me assaltaram outra vez no omnibus do colégio.


Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrómeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.


Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.


Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno insecto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.
                                                                                 Affonso Romano de Sant'Anna

domingo, 19 de junho de 2011

Um ministro da educação que diz "ensinar" ...

... e não diz 
"aprender a aprender"

US$ 15 000 000 000 000

     O Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP/E2020) acaba de publicar o seu boletim nº 56 (edição online em inglês, francês, espanhol e alemão).
     Alguns excertos, numa tradução "às três pancadas":
     "Estimámos em 2009 que o mundo tinha à volta de 30 biliões de dólares de activos-fantasmas. Quase metade transformaram-se em fumo nos seis meses entre Setembro de 2008 e Março de 2009.
     Para a nossa equipa, chegou agora o tempo da outra metade, os 15 biliões de dólares de activos-fantasmas que restam vão pura e simplesmente desaparecer entre Julho de 2011 e Janeiro de 2012.
     E, desta vez, isso vai envolver também dívida pública, diferentemente do que aconteceu em  2008/2009 em que foram principalmente os agentes privados a serem afectados.
     Para se ter uma ideia do choque que aí vem, é importante saber-se que até os bancos americanos começaram a diminuir o uso de títulos do tesouro nacional como garantia das suas transacções por temerem os crescentes riscos que pesam sobre a dívida americana."

Sé de Viseu

Clicar para aumentar a imagem

sábado, 18 de junho de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#32)

Se conduzir ...

Uma queca que acabou mal



     Manuel António Pina, durante uma entrevista a Luis Miguel Queirós publicada ontem no Ípsilon (link só para assinantes), fez a interpretação definitiva do soneto de Antero Tarquínio de Quental "Palácio da Ventura", trabalho de exegese jamais feito como devia em nenhuma das nossas muitas faculdades de letras.


Manuel António Pina 
vai explicando por palavras 
e gestos ao entrevistador ...
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
... com as mãos vai 
apontando no seu próprio 
corpo as partes da anatomia feminina 
a que Antero se está a referir ...


Paladino do amor, busco anelante
... interrompe para 
emitir sons arquejantes ...
O palácio encantado da Ventura!


... e vê como continua:
Quebrada a espada já, rota a armadura...
... e a seguir:
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!


... e vê como acaba:
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Fotografia do jornal Público






... está-se 

mesmo 

a ver que 
 
é uma queca 

que acabou 

mal.

Finalmente um porco a andar de bicicleta!

Ao 1'08"

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Violência urbana (#5)

Não há aqui nenhuma mensagem subliminar 
Fotografia Olho de Gato




Apuro final

     O apuramento final do resultado das legislativas de 5 de Junho só é publicado hoje no Diário da República, 12 dias depois, e, mesmo assim, foi preciso mandar parar as reclamações de José Lello. O nosso sistema eleitoral funciona a petróleo.

Infografia do Expresso, daqui


    A campanha "Defender Portugal" do PS foi errada estrategicamente. Foi constrangedor ver o partido de Mário Soares estático, fechado numa trincheira conservadora, a defender o que estava e incapaz de ver que o que estava não acendia a esperança ao país.
     Resta agora ao PS um poder e dois deveres. O PS tem o poder decisivo sobre a revisão constitucional pretendida pela direita e tem o dever de fazer oposição forte ao governo e o dever de preparar as coisas para vencer as autárquicas de 2013. Tem toda as condições para isso. 
     No distrito de Viseu, João Azevedo tem a obrigação política de fazer do PS o partido maioritário no distrito de Viseu. Isto é: obter no outono de 2013 a maioria das câmaras, pelo menos 13 das 24 actuais.
     Estes números poderão ter que diminuir se entretanto acontecer, como seria desejável e determina a Troika, uma diminuição do número dos concelhos. Só que, pelo que se tem visto, os políticos portugueses preparam-se para assobiar para o ar neste assunto.

Primazia e recência

Texto publicado hoje no Jornal do Centro 

     Imagine um inquérito em que pergunta às pessoas: “o que mais gosta de Viseu?” e que, a seguir, dá uma lista com dez hipóteses de resposta a essa pergunta tão importante. 
     Imagine ainda que esse inquérito consegue um número suficiente de respostas de uma amostra bem estratificada por idade, habilitações académicas, sexo, residência, ...

Imagem daqui
     Parabéns! Você é um cientista social está pronto para ir tirar uma pós-graduação a qualquer lado. Por exemplo, a Paris.
     Passe agora à fase seguinte: estudo das respostas, tratamento matemático e conclusões.
     Ups! Viu o que lhe aconteceu? A grande maioria das pessoas ou escolheu as duas primeiras opções ou as duas últimas. Está admirado? Pois não devia estar: proporcionar uma lista tão grande de respostas possíveis causa efeitos indesejáveis.
     Há inquiridos que lêem as primeiras hipóteses, optam por uma delas, e já não querem saber das seguintes — chama-se a isso “efeito de primazia”.
     Outros lêem as opções todas mas, chegados ao fim, já não se lembram das primeiras, só se lembram das últimas e escolhem uma delas — chama-se a isso “efeito de recência”.

     Escrevo este Olho de Gato no início da semana. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas andam a tratar-nos da saúde mas dessas conversas, para já, há pouco eco mediático. O que, por enquanto, todos os jornais falam é de Assis e Seguro. Diz o jornal Público desta segunda-feira: “Em três dias, o frenesim disparou no PS”. Isso é verdade.
     Ora, a guerra-relâmpago que António José Seguro está a fazer no aparelho socialista faz lembrar o “efeito de primazia”, pois leva de arrasto as primeiras respostas de um número muito grande de militantes.
     Francisco Assis vai ter dificuldades para inverter as coisas, mais para a frente, quando tentar usar o “efeito de recência”.

Onde tu pousas as mãos



Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.


Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.


Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.


E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.


Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
                                                                                    Bernardo Pinto de Almeida