Bloomsday — Ulisses lido por Pedro Paixão / Molly Bloom's soliloquy by Mary Murray

 O livro Ulisses narra o percurso e os acidentes do senhor Bloom durante um único dia, 16 de Junho de 1904, pela cidade de Dublin. Publicado pela primeira vez em Paris pela corajosa editora americana Sylvia Beach em 1920, depois de censurado e processado por blasfémia e pornografia, hoje é festivamente celebrado na Irlanda, e noutras partes do mundo, como Bloomsday — um caso único na história da literatura em que um personagem de um livro é celebrado como um herói ou um santo. Esse “dia do senhor Bloom”, 16 de Junho, foi escolhido por Joyce por ser o dia em que conheceu, no sentido bíblico, a que viria a ser a mãe dos seus dois filhos e com a qual casará em Paris vinte e sete anos depois. Uma mulher extraordinária, Nora Barnacle, que antes de escapar da Irlanda com James, era criada num pequeno hotel e não se coibia de declarar que nada podia dizer sobre a obra do marido, pois que não a lera. Um facto que em nada interferia no forte amor que os unia — quando internada num hospital depois de uma intervenção cirúrgica, James dormia todas as noites no chão a seu lado. Podem ser vários e compreensíveis os motivos que a levaram a não ler a obra, que muitos consideram um dos monumentos literários mais elevados da criação ocidental, desde logo a sua ausência de educação formal para ler um livro difícil de ler — para não mencionar o posterior “ilegível” Finnegans Wake. Ao ler as cartas que trocavam, muitas consideradas pornográficas, o que mais me surpreendeu foi reparar que o “estilo” em que ela lhe escreve é o que ele usa num dos episódios mais famosos de Ulisses, o último, o monólogo da mulher de Leopold, Molly Bloom.

(…) and Gibraltar as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.

Sempre me impressionou a quantidade e qualidade de informação hebraica que aparece nesse livro e entre os livros. Joyce aprendeu muito sobre judaísmo sobretudo com alguns dos seus amigos judeus em Trieste, onde sobrevivia ensinando algumas horas de inglês na escola Berlitz local. É conhecida, pela espantosa biografia de Richard Ellmann, uma conversa entre amigos ao redor de uma mesa de café sobre a questão de quem deveria ser considerado o humano, real ou ficcionado, mais completo que vivera sobre esta terra. Depois de alguma discussão e alguns copos de vinho branco, a sua bebida preferida, Joyce opôs-se à escolha de Jesus, argumentando: “Era um homem solteiro e nunca viveu com uma mulher, certamente a experiência mais árdua pela qual um homem tem de passar, e ele nunca a fez”. Ulisses, sim, era o mais completo dos humanos: filho de Laertes e pai de Telémaco; marido de Penélope e amante de Calipso; simples companheiro de armas e rei de Ítaca; medroso, fingindo ser louco para não ter de ir combater em Troia, e, em Troia, o mais decidido a ir até ao fim da guerra e obter a vitória; ardiloso inventor dos tanques de guerra, cavalo de madeira ou caixa de ferro, pouco importa. Eu primeiro genuinamente europeu — deste elogio desconheço o motivo. Talvez seja um daqueles pequenos mistérios que Joyce espalhou nas suas obras “para dar trabalho aos professores de literatura”.

A grandeza do senhor Bloom está em aperceber-se de que não existe uma solução única e simples para quem ele é, uma identidade na qual se pudesse reconhecer e proteger: “Reconhecido como sendo qualquer um e por todos desconhecido como ninguém. Ele é qualquer um e ninguém”. Não existe, para ele, a possibilidade de harmonizar a maneira como é visto pelos outros com o que ele veria de si próprio. Ao aceitar a sua “estranheza”, tanto na comunidade judaica como na católica, tanto na Irlanda como em qualquer lugar do mundo, é recompensado com a honestidade de se assumir como sendo qualquer um conhecido por nenhum, sendo todos eles e nenhum deles.

Hannah Arendt escreveu: “Se alguém é atacado como judeu, tem de se defender como judeu. Não como um alemão, não como um cidadão do mundo, não como um defensor dos Direitos do Homem, ou o que quer que seja. Mas que posso eu fazer especificamente como judia?”

O que me lembra de imediato um poema do meu amigo israelita Mois Benarroch, que nasceu no norte de África, em Tétouan — falando castelhano em casa, árabe na rua e hebraico e francês na escola — de onde foi arrancado aos treze anos, devido aos conflitos israelo-árabes, por ser judeu e ser judeu não ser uma escolha que se faça. E nada lhe consegue matar as saudades das ruelas onde brincava e todos sabiam, melhor ou pior, jogar à bola.

Mãe


Onde vamos mãe?

Vamos para a nossa pátria,

Para o nosso país.

E onde está o nosso país?

Não posso dizer-te o seu nome.

É proibido.

E fica muito longe esse país?

Fica do outro lado do mar, filho.

A viagem é longa?

Dois mil anos de distância

Três semanas de autocarro

Cinco horas de avião.

E como são as crianças desse país?

Todas judias, como tu.

E eu como sou?

Ulisses é um livro que não se lê de uma vez só. Pelas múltiplas e contraditórias dimensões humanas e pelas questões que não procuram solução, ele pode acompanhar toda uma vida. Pelo menos assim é no meu caso, e são já mais de quarenta anos, desde que o comecei a ler aos dezanove a conselho de um padre católico da Irlanda do Norte, também com o nome de James, que me informou que a sua leitura era a melhor maneira de saber o que o mundo era na verdade. É preciso lê-lo e relê-lo e nada é conclusivo, definitivo, fixo, tal como a própria vida. Não deixa de dar que pensar que o protagonista deste livro literariamente único e superior — que aborreceu de tal modo Virginia Woolf que a fez parar a meio — ganhe a sua vida vendendo anúncios, uma forma de prostituição das palavras.

Quando, depois do começo da Segunda Guerra Mundial, pretende entrar na Suíça, onde já estivera exilado durante a primeira, em Zurique, os agentes aduaneiros não o queriam deixar passar na fronteira porque seria judeu. O que muito abona a favor da competência literária das autoridades suíças que confundiram o autor e o protagonista da sua obra. Em Zurique morreu e está enterrado ao lado da sua invulgar mulher, Nora, e do filho Giorgio, um infeliz cantor falhado. Lúcia, a filha do casal, com a qual Joyce em tempos desejou que Samuel Beckett casasse, foi diagnosticada em 1934 com esquizofrenia e faleceu num hospício em Inglaterra em 1982.

'A história é um pesadelo do qual não conseguimos acordar.' — JAMES JOYCE

PEDRO PAIXÃO, in Desvio da Memória — Anotações sobre a destruição dos judeus europeus, Glaciar (Lisboa, 2025), pp. 500 a 503

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