A cultura e a barbárie, a música e a religião*
* Hoje no Jornal do Centro
O pensamento de George Steiner tem sido visita constante aqui no Olho de Gato. E isso por uma razão simples: ao longo dos já mais de 24 anos desta coluna, tenho com frequência tratado aqui dos livros que fui lendo e de Steiner tenho lido muito.
Em “No Castelo do Barba Azul, Algumas Notas para a Redefinição da Cultura”, um livro de 1975 reeditado pela Relógio de Água em 2025, aquele sábio admirável constata um óbvio que é muitas vezes deliberadamente amnesiado: a cultura não é, nunca foi, nem nunca será, uma profilaxia para a barbárie — à noite, nas suas casas, os comandantes dos campos de concentração apreciavam a grande música e a grande literatura.
Para além disso, neste livro, Steiner entrevê muito do que hoje, meio século depois, nos parece evidente:
— o recuo da linguagem (estreitamento vocabular);
— a inflação verbal (multiplicação de emissores em disputa por atenção);
— a saturação sonora contínua em todo o lado;
— o declínio da “atenção profunda”, da concentração num só objecto ou tarefa;
— o avanço daquilo a que, mais tarde, Katherine Hayles viria a chamar de “hiperatenção”, um zapping perpétuo, fragmentário, hiper-estimulado, incapaz de lidar com o aborrecimento;
— a erosão da interioridade;
— a dificuldade de expressão de pensamento sequencial.
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Vejamos agora um recorte da página 118 deste livro: “A cada encruzilhada, das palavras dos homens de Estado ao idioma dos sonhos, a linguagem surge-nos entretecida de mentira. A falsidade é inseparável da vida que a anima. A música pode vangloriar-se, pode afogar-se em sentimento, pode suscitar impulsos de crueldade. Mas não mente. (Onde haverá em Mozart uma mentira só que seja?) Talvez seja neste ponto que as afinidades da música com as exigências da sensibilidade outrora referidas ao religioso calam mais fundo.”
É certo que a linguagem está apanhada pelos vírus da propaganda, da ideologia, da mentira, da retórica, da política. Uma vez perguntei a Steiner «Is language a virus?», ele respondeu-me «No!», sorriu para mim e eu sorri para ele. Claro que a linguagem não é sempre um vírus, mas é-o muitas vezes.
Mas foquemo-nos na ideia steineriana da música como lugar onde outrora esteve o religioso. Olhemos para os festivais de Verão:
| Imagem daqui |
— as liturgias já lá estão;
— os cânticos colectivos já lá estão;
— os calendários festivos já lá estão;
— os símbolos identitários dos fandoms já lá estão.
Por alturas em que Steiner escrevia este livro, o xamã Jim Morrison, dos The Doors, em “An American Prayer / Uma Oração Americana”, depois de anunciar “The ceremony is about to begin / A cerimónia está para começar”, sussurrava “We could plan a murder, or start a religion / Nós podíamos planear um assassínio ou fundar uma religião”.
Os festivais de Verão talvez sejam isso: cerimónias para uma época que já não acredita em teologia, mas continua a precisar de transcendência.

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