O hip-hop e a cultura em Viseu *
* Hoje no Jornal do Centro
1. No seu livro A Poesia do Pensamento, um melancólico George Steiner descreve a “desumanização” e “vulgarização” da linguagem, a “falsificação das palavras e da sintaxe”, a “«americanização» do discurso”, o estreitamento vocabular, “o discurso quotidiano de um sem-número de homens e mulheres” bem como o “débito estereotipado e ensurdecedor dos meios de comunicação”, todo “um jargão minimalista” pobre, pobrinho, que, aqui e ali, concede o velho mestre, é iluminado pela “incandescência” de “certas modalidades e técnicas de entretenimento de massas como o rock and roll ou o rap” que “podem ser verbalmente fulgurantes.”
Sem dúvida, e olhando para o nosso panorama musical, é no rap/hip-hop que ainda se encontra algum fulgor na linguagem e na intervenção política e social, centelha que há muito se apagou na velha “música de intervenção” com os seus “cantautores” a regurgitarem os mesmos “abris” de sempre de cravo ao peito.
É por isso que fiquei de “orelha arrebitada” depois de ter lido aqui, no Jornal do Centro, uma reportagem de Daniela Iordache sobre a Batalha da Visa. Aleluia! Há hip-hop ao desafio em Viseu.
Explica a Daniela: “depois do primeiro verso lançado ao ar, a roda nunca mais volta a ficar em silêncio. As palavras sucedem-se, intensificam-se e o público assume um papel ativo, reagindo a cada rima bem conseguida ou a cada falha evidente. A Batalha da Visa não é apenas um confronto verbal entre MC’s (Master of Ceremonies): é um ponto de encontro, um espaço cultural e um símbolo de resistência artística, numa cidade onde, durante anos, o freestyle esteve praticamente ausente.”
Oxalá que a “Batalha da Visa” não concorra nunca ao Eixo Cultura, que se mantenha criativa e não se funcionalize, nem se desvitalize, como, em alguma medida, está a acontecer à vida cultural de Viseu.
| Fotografia Olho de Gato |
Agradeço, mais uma vez aqui no Olho de Gato, os excelentes quatros anos de Leonor Barata como vereadora da cultura da câmara de Viseu e desejo-lhe felicidades no trabalho que agora inicia em Aveiro.

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