( ...como vale a pena ler e aprender a beleza interna e eterna de um poema...)
Nada tão silencioso como o tempo no interior do corpo. Porque ele passa com um rumor nas pedras que nos cobrem,e pelo sonoro desalinho de algumas árvores que são os nossos cabelos imaginários.Até na íris dos olhos o tempo faz estalar faíscas de luz breve. Só no interior sem nome do nosso corpo ou esfera húmida de algum astro ignoto, numa órbita apartada, o tempo caladamente persegue o sangue que se esvai sem som. Entre o princípio e o fim vem corroer as vísceras, que ocultamos como a Terra. Trilam os lábios nossos, à semelhança das musicais manhãs dos pássaros. Mesmo os ouvidos cantam até à noite ouvindo o amor de cada dia. A pele escorre pelo corpo, com o seu correr de água, e as lágrimas da angústia são estridentes quando buscam o eco. Mas nós sentimos dentro do coração que somos filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos, foi depois de termos amado ontem. O tempo é silencioso e enigmático imerso no denso calor do ventre. Guardado no silêncio mais espesso, o tempo faz e desfaz a vida. Fiama Hasse Pais Brandão in Cenas Vivas
Sequência...
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Nada tão silencioso como o tempo no interior do corpo. Porque ele passa com um rumor nas pedras que nos cobrem,e pelo sonoro desalinho de algumas árvores que são os nossos cabelos imaginários.Até na íris dos olhos o tempo faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas