terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Como que ocê pôde abandoná eu?

Daqui



Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Aquele zóio verde eu garanto que é lente
O meu é vesgo, mas é natural
E aquele volume olhando de frente
É enchimento, aquilo não é normal

O BMW deve sê roubado
Já meu Belinão ocê me viu comprá
Foram quinze prestação que eu paguei atrasado
Mas só farta duas e eu vou quitá

Agora é que eu quero ver
Você sofrer na mão daquele mané
Eu nunca fiz a sua xana doer
E o apelido dele é tripé

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Se ele faz Direito, eu faço Enfermagi
Se luta jiu-jitsu, eu jogo dominó
Se ele só bebe whisky Johnny Walker
Eu só bebo Druris e Schincariol

Se nas férias dele vai pra Nova York
Pegue um avião, embarque, desembarque
Muito melhor é lá em Caldas Novas
Quero ver ter água quente lá no Central Park

Agora é que eu quero ver
Quem vai te levar pra lanchar
Coxinha, esfirra e pastel
E dividir o guaraná

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Ficar sem você eu não sei se eu consigo
Você foi embora e me deixou chorando
Beijo a calcinha que você deixou comigo
E no meu Philco-Hitachi tá rolando Wando

E pra terminar, ouça o que eu te digo
O que esse home quer é aproveitar d'ocê
Fica comigo, aceite o meu pedido
Nem que seja uma só noite, que é pra nói metê

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis

Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis
Pedra Letícia


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Futuro

Daqui


Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós
Carlos Drummond de Andrade


domingo, 26 de fevereiro de 2017

como lua

Fotografia de Nina Ai-Artyan


como lua
sendo sua?

como ponto
tendo pontas?

como branca
se menstrua?

como santa
sendo tantas?

como nua
sendo manta?

como esfria
se estua?

como grão
se se agiganta?

como sua
sendo lua?
Marcelo Sahea





sábado, 25 de fevereiro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#132)

Ver com ecrã total e som alto



Stormscapes 2 from Nicolaus Wegner on Vimeo.

Viceversa

Fotografia de Helmut Newton


Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte
tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte
tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte
o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.
Mario Benedetti

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

MAS...*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. O historiador romano Plínio, o Velho, contou a história de um homem que tinha inventado o vidro inquebrável e foi pedir autorização a Tibério para o produzir.

Tibério ouviu-o com atenção e, quando ele acabou, perguntou-lhe se mais alguém sabia daquele assunto, ao que o inventor jurou pelos deuses que ninguém mais tal conhecia. Mal ouviu aquilo, o imperador ordenou aos guardas: «levem daqui este homem e matem-no, para que o ouro não seja reduzido a lama!»

2. Nos primeiros dias de 2006, Belmiro de Azevedo e seu filho Paulo, que não tinham inventado o vidro inquebrável mas queriam opar a PT, foram ter com o imperador, perdão, com o primeiro-ministro Sócrates, a contar-lhe que se propunham pagar onze mil milhões de euros por aquela empresa (onde o estado ainda tinha uma golden share e sentava boys, como o célebre Rui Pedro Soares, um competente organizador de pequenos-almoços, Figo que o diga).

José Sócrates não fez como Tibério, não mandou matar os Azevedos. Incentivou-os a avançar e, depois, queimou-os em lume brando, ajudado pelos fazedores de opinião e lóbis da capital que muito bateram no atrevimento daqueles “merceeiros do Norte”. Os donos da Sonae ainda ofereceram mais oitocentos milhões pela vaca leiteira do divino espírito santo mas de nada lhes valeu.

Nada lhes valeu a eles, nem à PT, mungida sem compaixão até acabar, por tuta e meia, nas mãos da Altice.

3. O PS no concelho de Viseu tem mais futuro do que presente. É que até os aparelhistas mais encardidos — quer os que já ultrapassaram há muito o prazo de validade, quer os que são “jovens” mas só na idade — todos eles já têm vergonha e, nas suas intervenções, começam por perorar: «não há ninguém que defenda mais as primárias do que eu...», embora depois ainda acrescentem: «... MAS...»

Talvez, em 2021, desapareça aquele MAS às primárias...
Fotografia de Alberto Ascensão
... e não seja repetido o actual fechamento que vai resultar numa candidatura fraca e frágil.

Torta de amora



(...)
E aí só nós dois no chão frio
De conchinha bem no meio fio
No asfalto riscados de giz
Imagina que cena feliz
(...)
Clarice Falcão


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Se é verdade que o gelo

Foto de Ray K. Metzker

Se é verdade que o gelo
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos

As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado

Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
Lalla Romano
Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Pedra e vidro

Fotografias de Mikhael Subotzky & Patrick Waterhouse



Ser pedra é fácil, difícil é ser vidro
Proverbio chinês



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Missa de Notre Dame — de Guillaume de Machaut

A Messe de Notre Dame (século XIV) é composta por cinco partes: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei seguidas pela peça final Ite missa est. Às três vozes que eram habituais nas obras polifónicas da época, Machaut adicionou uma quarta voz para contratenor.

6:16 - Kyrie 13:30 - Gloria
18:44 - Gradual [chant] 31:28 - Credo
38:54 - Offertory [chant] 44:03 - Sanctus
48:33 - Communion [chant] 50:35 - Agnus Dei
54:28 - Post-Communion [polyphonic chant]
1:01:23 - Ite Missa Est




Notas en torno a la catástrofe zombi

Daqui



(Opening song)

Hey, sweetheart, no vayas
de picnic al cementerio:
no vayas
a beber al cementerio:
no vayas a drogarte al cementerio:
no te hagas la gótica
esta noche.

Porque las cosas
se están poniendo raras; porque encontraron
un brazo
y el resto de ese cuerpo es un misterio;
porque encontraron
la oreja
de otro misterio
y los dientes de sepa el diablo qué sonrisa;

porque las cosas se están poniendo hardcore:
hey, honey, escucha
esta cancioncita idiota: no vayas
a bailar al cementerio:
no vayas a bailar

al cementerio: no vayas
a bailar al cementerio: quédate conmigo
esta noche.
*

Una mano saliendo de una tumba:

la mano del muerto que al final resulta que no está muerto
o no tan muerto: solo putrefacto:
la mano del zombi:

la mano que sale al final de la película
para anunciar que el final no es el final:
habrá segunda parte.

Así
la mano
que brotó de la tierra
como un cactus monstruoso
en una fosa clandestina al norte de México.

Pero a esa mano nadie la vio
y si alguien la vio no lo dijo
y si lo dijo no le creyeron
y si le creyeron

le creyeron demasiado tarde:

ahora setenta mil zombis asolan a México
según cifras oficiales.

Una mano crispada como una risa en off:
¡la venganza será terrible!

*

1
Los zombis: cadáveres caníbales.

2
Los zombis: muertos insomnes.

3
Los zombis: pústulas de lo desconocido:

una jauría de podredumbres
avanzando hacia ti.

4
Míralos ejecutar
su lenta coreografía de tropiezos:
la danza de una cacería sonámbula donde la presa eres tú.

5
Los zombis: una nueva oportunidad
para que el gobierno
demuestre su ineficacia y corrupción.

6
Los zombis: una nueva oportunidad
para que la sociedad demuestre
su complicidad y corrupción.

7
Los zombis: la descomposición del tejido social en persona.

8
Los zombis:

la persistencia postmortem del hambre y la miseria
avanzando hacia ti.

*


1
¿Cuál es el origen de la catástrofe zombi?

2
¿Qué relación hay
entre la catástrofe zombi y el Enigma de la Casa sin Puertas?

3
“Entrad y encontraréis refugio, hijos míos”,
decía dulcemente, desde el interior de la Casa sin Puertas,
una voz que aseguraba ser la mismísima
Virgen de Guadalupe.

4
Zombi: ¿quién te dijo “levántate y anda”?

¿El jesús-virus desconocido?
¿El jesús-vudú?
¿El jesús-tetrodotoxina?
¿El jesús-radioactividad?

5
La Casa sin Puertas: un impenetrable bloque de cemento
en cuyo interior reverberaba
inexplicable
una voz:

“Entrad, entrad. Una catástrofe se avecina:
hijos míos, pronto, presto, entrad...”

6
¡Pero no se podía entrar!

7
¿Por qué en México?

8
A causa del maíz transgénico, aseguran
los ecologistas.

9
¿El jesús-maíz transgénico?
¿El jesús-violencia extrema?
¿El jesús-drogas adulteradas?
¿El jesús-arma experimental?


10
Jesús no tiene nada qué ver con todo esto,
asegura el vocero de la Arquidiócesis de México.

11
¿Y la Santa Muerte?
¿Qué relación hay entre el culto a la Santa Muerte
y el alzamiento de los muertos vivientes?

12
¿Es posible entender a la Coatlicue
como un antecedente zombi?


13
¿Mictlantecutli era claramente un zombi?

14
“Dense prisa y entrad, hijos míos, antes
de que sea demasiado tarde: no hay salvación
para México, hijos míos, entrad:

¿no estoy yo aquí que soy vuestra madre?”


*


Dicen
que los zombis
son una estrategia del narco
para aterrorizar al gobierno. Dicen que
los zombis son una estrategia del gobierno para aterrorizar

a la población. Dicen que los zombis son una estrategia
de la población para aterrorizar al narco. Dicen
que los zombis son una estrategia del gobierno
para aterrorizar al gobierno. Dicen
que los zombis son una estrategia
del narco

para
aterrorizar
a la población. Dicen que
los zombis son una estrategia del narco para
aterrorizar al narco. Dicen que los zombis son una estrategia
de la población para aterrorizar al gobierno. Y tú, ¿qué dices de los zombis?

Infórmate: escucha Radio Mictlán:
transmitiendo
en vivo

la insurrección de los muertos.
Luis Felipe Fabre



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Metamorphosis

Fotografia de Hervé Guibert

a girlfriend came in
built me a bed
scrubbed and waxed the kitchen floor
scrubbed the walls
vacuumed
cleaned the toilet
the bathtub
scrubbed the bathroom floor
and cut my toenails and
my hair.
then
all on the same day
the plumber came and fixed the kitchen faucet
and the toilet
and the gas man fixed the heater
and the phone man fixed the phone.
now I sit in all this perfection.
it is quiet.
I have broken off with all 3 of my girlfriends.
I felt better when everything was in
disorder.
it will take me some months to get back to normal:
I can't even find a roach to commune with.
I have lost my rythm.
I can't sleep.
I can't eat.
I have been robbed of
my filth.
Charles Bukowski



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Me gustas cuando callas porque estás como ausente



Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Pablo Neruda


sábado, 18 de fevereiro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#131)

O regresso

Fotografia de Nina Ai-Artyan


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina






sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Decadência*

* Publicado hoje no Jornal do Centro 

1. Escrevi este Olho de Gato no dia de S. Valentim, dia cujo romantismo não foi estragado por nenhum míssil de Kim Jong-un (decerto, também ele de coração derretido), míssil que envergonharia, pela segunda vez, a america great again de Donald Trump (decerto, também ele a pensar na sua Melania).


Dia de namoração em que duas femmes fatales norte-coreanas envenenaram Kim Jon-nam**, irmão do líder norte-coreano, no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia. Terá sido um spray? Uma seringa? Um chocolate em forma de coração?

Este primeiro ponto é uma desconversa pegada, claro. Até porque vai ser lido quando as flores desta noite já serão só murcheza triste, triste como a matéria que se segue.

2. A terceira república está cada vez mais decadente. A entrada dos partidos de protesto na área do poder teve um efeito paradoxal: em vez de parar a queda, está a acelerá-la.

É que a propensão para a opacidade e tolerância perante o negocismo também já infectaram o bloco e o PCP que até já nem com a fossa socrática se incomodam. Só isso explica o voto daquelas ex-virgens púdicas ao lado do PS contra a audição de Armando Vara no inquérito parlamentar sobre a CGD.

3. Já se suspeitava mas agora há provas: a terceira república faz leis para benefício de uma pessoa. Mais: põe o beneficiário a redigir o texto legal que lhe interessa. Aconteceu entre o ministro Mário Centeno e o ex-presidente da CGD, António Domingues.

Não ter havido consequências desta captura privada da decisão governamental tem um nome — decadência.

4. No passado dia 6, Marcelo Rebelo de Sousa lamentou que a Troika “não tenha descoberto há mais tempo” os buracos da nossa banca.


Editada a partir daqui
Ninguém se admirou com o facto de o presidente estar a culpar a Troika daquilo que devia ter sido feito pelas nossas autoridades. Já ninguém estranha nem se revolta, nem o primeiro responsável da república, com esta decadência das nossas instituições.

** Informações sabidas depois de fechada a edição do Jornal do Centro indicam que seriam duas vietnamitas e que usaram spray (ver link)

Chats

Daqui



Si je préfère les chats aux chiens, 
c’est parce qu’il n’y a pas de chat policier.
Jean Cocteau


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Para o sul de carro*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Fevereiro de 2007


1. Com a campanha do referendo a monopolizar as atenções, não foi dado o devido relevo às declarações de Alfredo Marques, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), publicadas na edição de 1 de Fevereiro do Jornal de Notícias.

O presidente da CCDRC informou que vai ser feito um concurso público para construção e exploração da auto-estrada entre Viseu e Coimbra e que ela vai ser concessionada a operadores privados e vai ter portagens.

Como o governo não prevê a candidatura desta obra a verbas do QREN, percebe-se, ao longo do artigo do JN, uma enorme ansiedade de Alfredo Marques. Ele quer, à viva força, “vender” a auto-estrada a privados.

Fotografia daqui
Quanto ao traçado, assunto sempre muito melindroso, é melhor ficarmos com as suas palavras exactas: "Vai ter um novo traçado, pelo menos, numa parte do trajecto".

2. Estas são notícias importantes mas não são boas notícias. Foi por isso que não apareceu nenhum político conhecido a dá-las e teve que ser o Presidente da CCDRC a vir dar a cara.

É péssimo esta obra não receber fundos comunitários. Mas não surpreende. Como é sabido, José Junqueiro, o sempiterno líder do PS-Viseu, pesa pouco junto do governo. Os socialistas de Coimbra pesam mais de certeza mas, para Coimbra, esta obra não é tão vital como é para Viseu.

E agora? Que fazer?

Penso que o interesse público impõe que se façam chegar ao governo duas ideias claras e razoáveis:

i) Precisamos com urgência duma auto-estrada entre Viseu e Coimbra com traçado completamente novo e com portagens.

ii) O IP3 deve ser deixado integralmente como está, para servir de alternativa a quem não queira pagar portagens.

Manual para assassinar frangos

Fotografia de Wayne Miller


Às vezes, era o Rio Paraíba do Sul
que desmesuradamente crescia.
E as ruas ficavam cheias de escorpiões,
cobras d'água, lacraias com mil pernas...
parecia um monstro epiléptico e barrento
numa corrida maluca até o mar.

A gente torcia para que o rio subisse mais,
cada vez mais,
para que alguma tragédia
se consumasse, como no cinema.

Queríamos ver casas desabando,
árvores arrancadas à força,
as meninas, descalças,
impedidas de ir à missa dominical,
bêbados patinando no caos,
arrastados até a foz de Atafona,
numa infinita poça de lama e cuspe
que mandávamos para o céu.

Estávamos prenhes de vida
e queríamos a morte de mentirinha.
Sonhávamos com o apocalipse doméstico,
com a bomba asfixiando nossos
pré-sonhos.

O primeiro amor estava ao lado,
nas aulas do Liceu que, às vezes,
assassinávamos
com delicado prazer.

No verão de 66,
o rio ficou irado de verdade,
se emputeceu, invadiu o baú
onde eu guardava meus gibis
trocados antes das matinês do Cine Coliseu.
Adeus minha coleção
tão preciosamente inútil
de David Crocket, Buffalo Bill, Zorro,
Rock Lane, Cavaleiro Negro e etc.

E me lembro dessa grande enchente,
da aniquilação dos pessegueiros,
das parreiras, dos limoeiros, dos frangos,
da horta que minha avó tão bem cuidava.
Abius, mangueiras, bananeiras,
caramboleiras, formigas,
tudo se foi com o rio,
com essa referência geográfica
e conceitual
que ainda hoje tento traduzir.
Tudo se foi com o boi morto
no meio da correnteza,
coberto de urubus.

E no radinho de pilha de seu Bertolino
(que, em uma canoa, ajudava as famílias
a recolherem seus pertences),
os Beatles cantavam “I want to hold your hand”.




Comecei a crescer com os Beatles
(e eles comigo),
a respeitar o rio e a temer seu Leleno,
meu vizinho e flamenguista doente,
que nas tardes de domingo,
quando o seu time perdia, enfiava a porrada
na Dorotéia, sua mulher — e maior torcedora
do Flamengo, por motivos amplamente justificados.

Também havia a Josete,
que ajudou a me descriar
e que tinha um namorado chamado Jomar,
um refinado sem vergonha.
Em 62, o Brasil foi bi-campeão
e Josete imaginava
Jomar fazendo gols nela.
Se Josete gozava, o fazia discretamente,
como os anjos gozam.
No silêncio.

Josete, que hoje é avó,
era filha de Neco Felipe,
um negro caolho e feliz,
que organizava os forrós
em Conselheiro Josino,
interior de Campos dos Goytacazes.
Forrós animados com cachaça, lampiões,
sanfona e alguma voz desdentada,
uivando para a Lua, nas quentes
madrugadas.

Além de Neco Felipe,
conheci outras pessoas felizes
que moravam naquela vila
no verdadeiro cú do mundo,
entranhada na miséria e nos canaviais
(os dois sempre andaram juntos),
com um cemitério
na beira da estrada.

Minha cabeça
se embaralhou toda:
- como é que as pessoas
podiam ser felizes
em Conselheiro Josino ?

Como é que as pessoas
podiam ser felizes
naquela merda,
ao lado de um cemitério
mambembe,
perto de um rio carregando tudo?

Como é que as pessoas
podiam ser ?

Mas as pessoas
eram
e algumas até se
foram.
Martinho Santafé


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Internetiquês

ArtStreet is a free, temporary, multi-disciplinary arts project in Sacramento CA, by M5Arts.


Essa língua montada em megabytes
de usuários de redes e rodeios
de um mói de mensagens nos e-mails
tão fincada nos chats e nos sites,
essa língua tão fadada a ser diet,
descoberta nos vales do silício
é rascunho de novo hieróglifo?
www, nas pirâmides ao avesso,
feitas entre 0 ou 1, desconheço
um tal troço sem fim e sem início.
André Ricardo Aguiar


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Love is evil



As coisas existem por erro.
É preciso assumir esse erro e ir até ao fim.
Temos um nome para isso: chama-se amor.
Slavoj Žižek


Le verbe aimer

Daqui


Le verbe aimer est l´un des plus difficiles
à conjuguer;
Son passé n´est pas simple,
son présent n´est qu´indicatif
et son futur
est toujours conditionnel
Jean Cocteau


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Del verdecido úbilo del cielo

Fotografia de Trent Parke

Del verdecido úbilo del cielo
luces recobras que la luna pierde
porque la luz de sí misma recuerde
relámpagos y otoños en tu pelo.

El viento bebe viento en su revuelo,
mueve las hojas y su lluvia verde
moja tus hombros, tus espaldas muerde
y te desnuda y quema y vuelve yelo.

Dos barcos de velamen desplegado
tus dos pechos. Tu espalda es un torrente.
Tu vientre es un jardín petrificado.

Es otoño en tu nuca: sol y bruma.
Bajo el verde cielo adolescente,
tu cuerpo da su enamorada suma.
Octavio Paz


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sem ti

Fotografia de Letizia Battaglia

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.
Eugénio de Andrade


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Jardins Efémeros e Tom de Festa: danças sem par — por JB*

* Dois comentários de JB ao conflito de datas entre os Jardins Efémeros e Tom de Festa


by narloke


— 1 —
Em Dias quotidianos — 2 de Fevereiro

in Diário de Viseu

Ignoramos os motivos desta falta de diálogo (óbvia), pois as festas são um momento privilegiado de socialização e de convívio.

A ACERT refere que “as organizações estão conscientes dos efeitos nefastos que uma situação destas significa para todos os agentes envolvidos”. Com razão! Esta atitude não está isenta de controvérsia, para o público e para os que se alimentam das “indústrias da cultura”, na medida em que dispõem de um vasto staff que faz da cultura o seu ganha-pão, a sua forma de estar e de se prestigiar na sociedade.

A repetição (as datas) têm uma importância fundamental na construção do evento e processa-se de forma cíclica, regular, marcada de forma a introduzir na rotina dos dias uma espécie de pausa, um momento de evocação. Toda a comemoração vive da afirmação da sua identidade e da sua permanência temporal estabilizada.

Dá vontade de citar o Diácono Remédios:



E, de facto, não havia!



— 2 —
Em Já visto — 10 de Fevereiro

Assim a frio, à entrada do fim-de-semana e no meio de um temporal, não se faz a ninguém esta maldade de “mais uma vez, os Jardins Efémeros, um evento borliante financiado pela câmara de Viseu, foi calendarizado para cima do Tom de Festa que precisa de bilheteira.”

Fez bem o Sr Gato em retomar este assunto. Comungo deste pensamento tal como o referi, em 2 de fevereiro, no post “Nos dias quotidianos”.

Neste país, alguém pensou que cultura é vocacionada para as classes “cultas”, e é a partir daí que se fazem, não as políticas culturais mas a programação cultural. Ignoramos os motivos desta falta de diálogo (óbvia), que revela (mais uma vez) não o princípio de uma bela amizade mas a evidência (trágica) de como dançar sem par.

O meu optimismo natural sobre “a bondade dos homens” está a ir por água abaixo.
Politica? Ideologia? Tretas…





JB

"And Now For Something Completely Different" (#130)

Daqui

O amor pelo ínfimo nunca me deixou ficar mal

Fotografia de Susan Meiselas


O amor pelo ínfimo nunca me deixou ficar mal.
Medes a vida pelos filhos que hão-de ficar
e eu digo-te que nada fica
— nem a Eternidade.

E mesmo o até que a morte nos separe
não está garantido,
porque a morte é uma coisa
que nos vai acontecendo
várias vezes ao dia.
Ana Tecedeiro


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Já visto*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Este texto trata do “já visto”, do que está sempre a acontecer.

Os políticos romenos são muito criativos a libertar presos de colarinho branco. Há uns anos arranjaram uma lei que tirava trinta dias de pena por cada livro publicado. Foi um festim: por exemplo, um ex-dono do Rapid de Bucareste escreveu logo cinco livros num fósforo.

Agora, o governo romeno tentou fazer passar uma lei que libertava corruptos, desde que só tivessem ido ao pote até 24 mil euros. A coisa deu tal escândalo, os romenos vieram para a rua tão furiosos, que o governo teve que recuar.

É melhor não nos rirmos muito: é que na Roménia há políticos corruptos presos, cá não; lá há políticos dentro por duas dezenas de milhares de euros; cá nem por milhões. (Devo confessar que este parágrafo é um “já visto” para os meus amigos do Facebook.)

2. Outro “já visto” é termos alunos de mantas nas aulas por causa do frio. Desta vez, é na secundária Emídio Navarro de Viseu e na secundária de Oliveira de Frades, duas obras da Parque Escolar.

É bom que se saiba que esta empresa pública usou, em matéria de climatização e renovação de ar, “conceitos que eram típicos dos EUA nos anos 60”, uns sorvedouros de energia anacrónicos e incomportáveis para as escolas. Como explicou o Professor Oliveira Fernandes, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, foi um caso “de saloiismo, de parolismo, de incompetência e de irresponsabilidade pública que não tem classificação."

3. O Museu Grão Vasco está, mais uma vez, sem director efectivo.

Fotografia Olho de Gato
É outro “já visto”: quem não se lembra do peculiar caso da ministra Gabriela Canavilhas que, em 2010, veio cá buscar o promissor António Filipe Pimentel, quatro meses depois de o homem ter tomado posse?

4. Mais uma vez, os Jardins Efémeros, um evento borliante financiado pela câmara de Viseu, foi calendarizado para cima do Tom de Festa que precisa de bilheteira.

Este “já visto” é inexplicável. E imperdoável.

Passagem

Fotografia de Françoise Huguier


e se nas mãos fechadas
as grandes portas se abrissem

e passasses tu
como este silêncio passa!
Gil T. Sousa