sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Política da pós-verdade*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Fotografia de Scott Olson
1. As presidenciais norte-americanas são uma duríssima maratona de mais de um ano e as suas campanhas costumam ter processos inovadores, exportados depois para todo o mundo. O “sim, nós podemos” de Obama foi repetido até à náusea, em todas as latitudes e longitudes.

Nesta campanha foi ao contrário, Trump importou de Moscovo os métodos de guerrilha política não-linear de Vadislav Surkov e cilindrou o establishment republicano nas primárias. Depois conseguiu manter Hillary na defensiva e deixou atarantado o poder mediático.

Pela primeira vez nos EUA um candidato de topo esteve-se nas tintas para a comunicação social, os jornalistas foram directamente hostilizados nos seus comícios, e nem por isso a avalanche noticiosa contra a sua candidatura danificou Trump nas sondagens ou fez diminuir o seu rebanho de fiéis.

Trump defendeu ora branco ora preto, ora quente ora frio, ora alto ora baixo, mentiu com toda a tranquilidade do mundo, indiferente à “verificação-de-factos” dos media tradicionais.

Bem-vindos à política da pós-verdade!**

2. A guerra política agora é travada na internet por trolls” (pagos ou não) que desinformam, rebaixam os adversários, publicam notícias falsas, fazem “memes” letais, material que depois é partilhado nas cada vez mais tribalizadas redes sociais.

Basta ver a guerra no Facebook dos dois rebanhos — geringôncicos versus caranguejolos — para perceber que o que faz mexer as pessoas agora é tudo menos a verdade ou a troca racional de argumentos ou a procura de uma descrição ajustada da realidade. Uma maré de bílis leva tudo à frente.

Há quem ganhe muito dinheiro com a política da pós-verdade. Mesmo em Portugal. Entre 2005 e 2015, o autor do blogue socratista Câmara Corporativa recebeu 426 mil euros (3550 euros por mês).

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Adenda em 18/11/2016
Na semana seguinte à publicação deste texto,  os dicionários Oxford nomearam "post-truth" como palavra do ano.

3 comentários:

  1. Dia dos pantomineiros da treta musical darem à unha para escrevinhar elogios fúnebres e retrospectivas da carreira musical do Cohen.

    "Like a bird on the wire Like a drunk in a midnight choir I have tried, in my way, to be free."
    Leonard Cohen

    Raio de ano moribundo que é este de 2016 !

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  2. Gosto! (como dizem no facebook)
    A pós-verdade?! Interessante, muito!

    E o ponto 2 merece o meu comentário:

    “Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
    Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
    e todos estão contentes de se saberem sacanas.
    (…)”
    “No País dos Sacanas” - Jorge de Sena

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  3. Cito Alexandre Borges:
    “Certas estruturas do PS continuam a insistir em "convidar” Sócrates para conferências do partido. Depois queixem-se que Trumps ganham.”
    Bem-vindos à política pós-verdade!

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