domingo, 27 de setembro de 2015

O corpo espacejado

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Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos
poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos
contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que,
isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular.
Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que
só por abstracção se chegava à noção de um todo come-
çavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre
elas não tardou que espumejassem as marés e a própria
via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exer-
cia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que
em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de
quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo
brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele
mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas
cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto
detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pe-
quena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de
novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou
pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés,
mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intes-
tinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava
em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído
aterrador.
Luís Miguel Nava


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