terça-feira, 6 de maio de 2014

Táxi


ou poema de amor passageiro



At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)

Fotografia de Norman Parkinson


Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;


depois disso tudo:


de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...


...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)


TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU


- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e [redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.


EU TE PERCORRO


Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...


- Quem mais saberia disso?


(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)


Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;


dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:


relâmpagos de sentido cruzando


o corpo


dentro da noite


dilacerantes
metáforas
dilaceradas


Balbucios


Orações entrecortadas


Gagueira fluente de tudo


- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!


No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.


E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.


Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.


E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.

........................................................


Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.


Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.


Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.


Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.


(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.


Confira o lance:


toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...


E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove


E tua língua veloz: love
love
logos.


Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.


Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,


principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.


Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas [calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...


Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,


homens -
máquinas -
coisas -


com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...


Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.


Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.


Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.


Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.


E ver por trás das balanças homens de camiseta
sem outra metafísica senão a de trocar cédulas e mercadorias
com os fregueses que chegam.
Todos presos à vida,
socados nela,
como 1 quilo de tomate num saco,
que se leva
e junto com ele
o mistério humaníssimo e certo
de ganhar
(e morder)
a rubra polpa de cada dia.


Mercado São Sebastião,
onde uma vez comprei uma galinha preta
- a memória cacarejando dentro de um engradado de madeira,
cheirando a pena velha e a bosta -
para ser sacrificada numa sessão de macumba,
lá pelas bandas da Maraponga,
onde deuses caboclos se aninham e resistem, ainda.


As/ sete/ velas/ acesas/ o / ofertório/ a / reza,
a canção exortativa longinquamente familiar.
(Em que senzala do sangue ela ressoa?...)


Exu Tiriri,
trabalhador da encruzilhada,
toma conta
e presta conta
ao romper da madrugada...


De repente um grito estala feito um chicote
- hêêêêiiiiii! -
sobre o lombo estrelado da noite.
Outro grito.
Mais outro.
E o caboclo baixa, dando cambalhotas,
dançando com seu cavalo.
É Exu Tiriri que chega, espumante.


Rasga com os dentes o pescoço da galinha,
as asas batendo inúteis.
Bebe seu sangue com cachaça em uma cuia:
deus milenar, saciando-se mais uma vez.


Logo, uma áfrica de caboclos desce, querendo pitar e beber
- Vovó Conga, Pomba-Gira, Sibamba -,
ao som de batuques ancestrais,
batendo na carne transida de medo e fascínio.


Eu, "pernado de calça", fazendo o pedido,
ao lado de Moema, "moça branca",
prometendo e dando cachaça, velas, charutos e despachos
aos rudes deuses
da floresta,
dos rios e do mar.


Lá vem Vovó,
descendo a serra,
com sua sacola
e o seu patuá.


Ela vem de Angola.
Quero ver Vovó,
quero ver Vovó.
Seus filhos de Pemba
já tem o querer.


- Saravá, minha Vó!
- Saravá!...


Tudo isso se encontrando
numa noite tão próxima e primitiva,
na encruzilhada


            m
            á
            g
da vida & da morte
            c
            a


do além concedido
e do aquém entrevisto,
indagado
e protegido
pelos espíritos imemoriais da raça...


Eiá, motorista, passemos em frente ao edifício Jalcy,
onde putas universais, bichas, bêbados & drogados
sonham pelas calçadas e nas quitinetes acima
com algum grande orgasmo noturno!


mais
Ou talvez com algo ? real
menos


um par de sapatos novos;
2k de carne na geladeira de amanhã;
3 latas de leite Ninho para o bebê que já nasceu velho;
a prestação do apartamento e da vida;
a operação da mãe que deveria não ter morrido;
os remédios para o pai que ficou doido de repente
e se arrasta todos os dias para o meio da rua,
gritando que os supermercados da cidade são dele.


Ou simplesmente sonham - os mais delicados -
com um beijo daquele marinheiro
em suas bocas travestidas de Dorothy Lamour...


Vamos lá, para dentro, todos para dentro do Táxi!
Atropelemos a todos por sobre as calçadas!
(Sem que sintam nada - intactos sobre a pele de seus gestos.)


Para trás do carro, todos vocês ao meu lado!


Ah, excitação sexual e comunitária de meu desejo viajante!
QUERO A TODOS E TODOS OS LUGARES


Solidariedade orgástica e metafísica derramando-se a 100km/h!
TODOS, MEUS PASSAGEIROS NO TÁXI


Eiá, proximidade física e espiritual dessa gente, cantando
pneus pelas esquinas da ansiedade!
INTERESSA É CHEGAR LÁ


Celebração transcendente do motor, roncando furioso
- Buda de ferro e aço - por entre sinais e rostos arrebatados!
NÃO IMPORTA COMO


O taxímetro marcando alucinado o preço da eternidade!
NA CONTRAMÃO SEMPRE


Atravessar todos os sinais.
Provocar todas as batidas e todos os atropelamentos fatais
- para que eu possa sentir pena dos corpos arrebentados,
chorar sentado no meio-fio,
- os carros ali, emborcados, fumegantes -
espetáculo urbano repentino,
fascinação metálica retorcida e estilhaçada sobre o asfalto!
Sim, sentir pena dos mortos e de mim mesmo,
sendo espiado pela multidão ah!tônita
- para logo depois ressuscitar a todos na imaginação!


Eiá, jogar o Táxi por cima dos pivetes nos cruzamentos,
limpando os vidros dos carros parados
e a merda da indiferença alheia!


Depois colocá-los aqui dentro, inteiros,
para que eu possa exercitar o humanismo de meus gestos
- tão caridosos -,
e em seguida desprezá-los filantropicamente
para alguma FUNABEM do caralho
ou da consciência trágico-brasileiro-logo-pacificada!


Em frente, em frente!


(Ah, avistar aquele operário que passou
como um clarão em sua bicicleta toda enfeitada,
o radinho de pilha ligado,
- explorando no selim a felicidade com mais-valia -,
indo encontrar-se com a Ritinha, 17 anos, empregada doméstica.
E eu não poder retê-lo com o Táxi,
acompanhar as sacanagens que fará logo mais com ela,
as palavras de amor que não sei dizer
- tão verdadeiras e simples -
saídas de sua boca desdentada...
Tudo isso perdido, porque passei em sentido contrário.
Adeus, Sebastião!)


Mais depressa!


Atravessar na memória as ruas por onde andei,
passageiro existencial sempre a 20 espantos e 50 centavos de [mágoa
a bandeirada.


Na próxima à esquerda, dobrar há 15 anos
na 5a. Avenida, subindo para o Madison Square Garden.


(A luta mais tarde de boxe
entre Cassius Clay e Joe Frazer, lembra-se América?)
E lá pegar de volta o subway para Huntington.


Eu, new yorker de araque, deslizando num Ford Fairlane 500,
com Kathy ao lado.
O motorista de três em três minutos
mapeando com o rádio
a central de nosso destino.


Ah, Kathy, nosso destino.
Você, naquela tarde, tão próxima a mim.
Tua carne branca contra a minha morena,
centelha surda que só nós ouvíamos.
Tua pele secretando a inesperada alquimia da paixão,
que eu pensei...


Pára, pensamento impenitente!
O futuro sonhado já é hoje tão passado
que trago apenas uma lágrima remasterizada,
projetando no presente o que não houve...


(Como uma picada: a lembrança súbita de teu corpo
junto ao meu naquela tarde).


Adeus, Kathy. Good bye.
Adeus noites entre tuas coxas.
So long emoção adolescente.
Três, na madrugada. Dois gemidos abafados
e uma saudade depois com gosto de cheesburger e ketchup,
na cozinha de nosso cansaço.


Biiip.
O vidro à prova de bala entre nós e o motorista,
estou vendo:
a tarde toda de vidro & aço
nos separando da multidão:
brancosenxadrezados/negrosimpressionistas/judeusbarbascops
pernasprédioschapéuscarascarrõescasacosflagscartazesvitrinas
youve’ve come a long way baby/walk don’t walk/whatacrowd


que jamais saberá
- ruidosamente paralisada na memória -
que por lá retorno
a 5 dólares e 25 cents a corrida naquele instante de agora.


Yes, I remember a lot of people talking around me;
eu entendendo bulhufas.
Minha mente apenas seguia triturando a visão
daqueles rostos e cabeleiras black-power,
enquanto meus pensamentos
saltavam
& roçavam
como grandes lagartixas abstratas
as janelas do Rockfeller Center.


De repente avisto, dançando e gritando numa calçada,
o rei do Harlem:


Con una cuchara
arrancaba los ojos a los cocodrilos
y golpeaba el trasero de los monos.
Con una cuchara.


Ai, Nova York. Ai, Nova York.
Atropelemos, motorista, a multidão em pânico!
Grandes negócios no coração das lembranças.


(Minha solidão, fera aprisionada,
ruge por não poder penetrar nos gestos
de cada um deles pelas esquinas, tornando meu
seu desejo - por mais vil ou criminoso que fosse -
movendo a todos naquela tarde).


Ok, go ahead, man!
Dobrar a próxima à direita, despencando
a 100km por hora no Aterro do Flamengo,
domingo à tarde,
último jogo do Pelé no Maracanã pela Seleção Brasileira,
enquanto
o motorista vai comentando, o rádio nas alturas,
"como é que pode um cara trocar uma xoxota por um..."


HEM?!


Dois ônibus de repente surgem,
)um ao lado do outro(
- uma brecha apenas entre eles -
não vai dar para passar!


É AGORA!


Por um segundo,
o universo inteiro se comprimiu
entre aquelas duas traseiras paralelas,


túnel repentino,
roçando o infinito de minha morte;
útero de ferro e fumaça formado ao acaso
me expelindo de passagem no vácuo
- renascido, ufa, mais à frente -
sobre a placenta do asfalto
da cidade-mãe indiferente!


Meu anjo da guarda, lembro,
tremeu comigo no banco traseiro.
E seríamos mais dois desembarcando


mala
com e tudo
alma


no silêncio engarrafado da eternidade.


- Qualé, cara, mais cuidado com esta porra!
- Tudo bem, amizade. Onde é mesmo a rua?


Suba à esquerda, 4 anos depois,
num velho Aero-Willys,
atravesse o centro de Juazeiro
e vá até à casa da Ciça do Barro Cru,
no outro lado da cidade.


(Ah, comprar estatuetas e máscaras de barro
pintadas de tinta vagabunda,
- anos mais tarde, tudo desbotado e quebrado:
cacos de minha juventude comercialmente popular.)


Depressa, compadre.
A poeira subindo pela estrada,
farelos de sol sobre a terra ressequida,
pó de chita cinza cobrindo o mato rasteiro;
a areia chiando sob os pneus;
estalidos de paus e pedras sob o chassi;
as unhas da caatinga quebrando-se à beira da rodagem,
enquanto, espantadas,
voam as primeiras nambus da tarde.


Depois,
subir com certo fervor incrédulo
o Horto do Padre Cícero Romão Batista.
Ali, onde romeiros com pedras na cabeça
caminham,
transidos de dor e esperança.


Porque meu Padim é justo e santo.
Não importa o corpo esbagaçado nos engenhos,
debulhado pelo latifúndio,
açoitado pelas secas e os coronéis.


O que vale no homem é a alma.
"Quem roubou não roube mais;
quem matou não mate mais."
Expiar a culpa. Ter fé e paciência.
Que todos um dia serão redimidos.
Palavras do Senhor. Amém.


Em êxtase miserável,
eles esperam o milagre,
a bênção,
a felicidade terrena adiada para um outro tempo.


(Severa,
avisto a estátua de meu Padim lá no alto,
contemplando o Vale do Cariri e de nossas lágrimas,
no momento em que o motorista passa a segunda:
solavanco místico
da máquina e da alma).


Eiá, todos para dentro do carro, ao meu lado!
Beatos e sofredores em procissão contrita,
lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.


Ladainhas,
rezas,
ex-votos de mãos,
cabeças
e pés
feridos,
depositai
no pátio de milagres
(sempre profanado) de mim mesmo.


Arrebatar aquela beata à beira da estrada,
o grande terço azul e branco pendurado no pescoço:
- Meu filho, se não tiver fé em meu Padim,
pode rezar um bando de terço,
que nenhum entra no céu!
Amém!


Agora descer a toda.
Apanhar no meio do caminho aquele cambiteiro,
que me olhou por acaso, saindo do Horto,
e sonha toda semana em ir para São Paulo.


Cruzar com ele, dois anos depois,
em plena Avenida São João,
todo areado,
por entre trombadinhas, putas e travestis.
"Que bicho é esse? Vôte!"


Depois, descermos juntos, dentro do Táxi,
para a Rua Aurora,
onde enormes cartazes de filmes pornôs,
bundas coloridas e empinadas
- nos esperam.
"Valei-me, meu Padim!"


Atravessar o Ibirapuera,
parar em frente à casa de massagem Liberty,
a tempo de ver um empresário bem-sucedido,
dançando nu abraçado às plumas
da serpente:
- "Sonho de Isadora",
fantasia para o próximo concurso de Momo Gay,
prêmio originalidade,
na boate Village Station Cabaret, no Bexiga.
(Confetes de gritos e chorinhos de emoção
sobre sua cabecinha deslumbrada.)


O pobre do Pedro, sem entender nada,
foi ser peão e pedinte - pudera -
enganado e roubado (até as roupas)
pelo primo que lhe prometera emprego
numa fábrica de pneus - picas!


Pei! pei! pei!


(Escuto os tiros de passagem pelo Brás.)


Pela Avenida Marginal de todos nós,
vamos lá, correr na pista alucinada da hora,
trepidando a valer por entre buracos - lacunas do real -
estremecimentos súbitos da consciência e do corpo.


Arrancada inesperada de mim pela cidade correndo fora de mim.
Carros passando perigosamente ao lado do pensamento acelerado.
Ônibus roçando com suas ancas, em cio metálico, a lateral do Táxi.
Eiá, buzinas dos sentidos em alerta!
Eiá, ultrapassagens repentinas de minha alma excessiva!
Eiá, visões do corpo a 140km/h,
em queda horizontal no abismo do asfalto!
Eiá, vertigem na quarta marcha, nos quatro pneus,
na quarta dimensão de mim mesmo na voragem do tempespaço!
Eiá, sinalizações abruptas!
Placas! Placas! Pl,cas!, ,,cas!
bat,do rá, d, s, nas ret,nas da m,te!
Postes passando ponto de exclamação de meu espanto eletrificado!


A eternidade comprimindo-se cada vez mais dentro do Táxi!


(Feto de minutos,
embrião de segundos,
aproximando-se,
aproximando-se!)


Todos os sinais em disparada,
chocando-se pelas esquinas-sinas.
Setas. Retas.
Eu, outro.
Eu, curvas.
Eu, guard-rail do infinito.
Eu, derrapagem súbita do nada!


- HÉÉÉéééééeeee!!! -


FREADA BRUSCA DA MEMÓRIA DESGOVERNADA


O carro todo de banda
ia atravessando o sinal vermelho do momento!
(As marcas dos pneus ainda ali se encontram,
arrastadas no asfalto da reminiscência...)


Rápido, motorista,
marcha à ré!
- Sair da faixa de segurança das lembranças e sensações.


Retornar a Fortaleza,
descendo pela Barão de Studart,
Moema e eu no banco traseiro do instante.


Penetrar na Avenida Beira-mar,
as grandes luzes de neon espumando na praia.
Ah, o real inteiro outra vez na esteira das pupilas!
Todas as coisas encaixando-se por entre os vértices do agora.


Carros estacionados ao longo da pista, testemunhas do visível.
Homens e mulheres pelas calçadas,
bebendo em seus corpos a brisa morna da noite.
Coqueiros se esticam sob a luz antiqüíssima da lua nova.
Navios ao longe cintilam feito o espírito de Deus sobre as águas.
Hotéis perfilados contemplam o mar com olhos viajantes.
Barraqueiros ofertam lembranças rendadas da terra e da hora.
Restaurantes e bares se abrem para a fome e a sede do presente.
Noite e maresia, praia e gestos se abraçam, cúmplices,
por entre sombras e luzes infinitas...


Ó realidade sem vertigem!
Todas as formas fluem imperturbáveis
dentro da noite clara.
Não pensar em nada,
além do que a vista apalpa nesse momento.


As leis físicas, naturais e sociais
em harmonia completa,
empurrando até o Táxi em que deslizo para meu desejo.


Ó pedaço do universo transparente e indolor
- por onde passo!


Ommm.


De repente,
na altura da Volta da Jurema,
avisto, quase sem querer, um pivete
(pastor de carros e de meus pensamentos)
correndo sobre a areia.


E a idéia do tempo feito criança,
brincando com seus piões na praia, me sacode.
E o motorista, atento a um explícito e interior sinal,
começa a acelerar o motor das lembranças.


E o Táxi logo dispara na pista imaginária,
até me sentir balouçante, sim, num velho Prefect,
descendo a Rua Costa Barros,
lá longe,
a caminho do Centro.


Vejo tudo outra vez, ó coração enfermo,
máquina veloz da recordação!...


...Papai ao lado do motorista, traçando o roteiro
de nossa viagem provincianamente urbana. Atrás, a mãe, eu e mais
três irmãos apertados/apartados, por entre
pernascotoveladasvisões: a meninice trepidando a 50km/h.
Ao passar por ali um amigo vi girando na escola da calçada
um pião. Dei um salto,


queria a outra janela, acenar-lhe para que também me visse
(havia uma sensação qualquer de vitória) naquele Prefect.
(Tento hoje recordar seu nome. Qual seria? Eco longínquo
ressoando no abismo verbal da infância. Começava com K.


Kleiton? Não. Kelvin? Não. Kélson? Isso! Kélson!)
Não sei se me ouviu. Sei que rasguei, no atropelo, as meias
da mãe, que ficou furiosa. Desolado, soquei-me debaixo
do trinco da porta e da culpa, enquanto o carro de aluguel
prosseguia, sacolejante, para seu destino destino destino...


Tenho agora ímpetos de chamar o tempo
pela janela do Táxi. Gritar seu nome.


(Qual seria?
Deus?
Respiração-da-matéria?
Substância-de-todas-as-coisas?


Com que letra começaria?...)


A vida toda assim:
metido por entre desastres,
buscando atropeladamente janelas que nunca alcançarei;
gritando sempre de passagem para alguém
- que nunca me ouvirá.


Sei que rasgarei, involuntário, dentro de mim,
alguma meia ou alguma teia misteriosa
- que não deveria.


Depois, seguirei,
mais uma vez culpado,
para o Centro de tudo-o-quê-não-sei.


Adeus, Prefect infinito!
Momento que bebo como uma aguardente para esquecer.


(Tua marcha soluçante
sobre os paralelepípedos
ainda hoje escuto,
trafegando em meus sentidos,
que também soluçam.)


Preciso recompor-me.
Rever o mundo lá fora - esticado, sólido, exato -,
rolando por entre pinos e esferas que nunca enxergo.


Arre, preciso de velocidade,
embriagar-me de asfalto e afeto.


Beijar Moema no banco traseiro,
fechar os olhos
e correr correr correr
até deixar para trás
a última esquina magoada da infância.


E largar, sim, largar
no primeiro cruzamento que houver,
com um propósito de mim para comigo,
aquele menino do Prefect,
olhando,
sem nada entender,
um Táxi veloz que passa...


Vamos lá!
Em frente.
Para a Praia do Futuro, motorista!


Passemos rápido pelo Bar do Anísio,
onde adolesci durante o tempo exato
de uma cerveja e uma canção.


Na Beira-mar,
entre luzes que lhe escondem,
só sorrisos me respondem,
e eu me perco de você,
e eu me perco de você.


Avistar o Mucuripe,
as velas recolhidas aos mastros sobre a praia,
apontando
para um cardume de estrelas surpreendidas.


Ver de relance centenas de bocas - tão felizes -,
traçando peixadas e cervejas nos restaurantes enfileirados
como um grande estômago marinho.


(Ah, vontade de estar ao lado dessa gente,
ali no "Alfredo" e na "Peixada do Meio"
- mas uma espinha qualquer do passado
atravessa-me/
a garganta.


Toss, toss, toss,
farinha e pirão do presente,
socados aos bolos,
para fazê-la
descer
goela
abaixo
da tristeza.)


Ver ao longe a última tratadeira de peixe, D. Maria,
que um dia retalhou um peixe para mim,
cantando assim:


Ai, seu moço, traga o peixe
que vem do fundo do mar;
me traga logo e me deixe
o teu lamento cortar.


Com minha afiada peixeira,
tiro as entranhas do mar.
Depois, corto as nadadeiras,
e as guelras de teu penar.


Ai, seu moço, traga o peixe
que vem do fundo do mar.
Ele é igual, não se queixe,
às mágoas fundas de amar.


Adeus, D. Maria!
Até o próximo peixe fisgado na lembrança.


Vamos lá,
de passagem pelos Morros do Mucuripe e do Teixeira,
onde casebres me acenam com gestos de areia.


Por aqui, o sol dispara
luz cortante de peixeira
(o gume aceso do dia,
retalhando as cumeeira)
pra mostrar o Mucuripe
e suas corcundas de areia.


Lá em cima do costado,
bailando com mão certeira,
vento branco em volta tange
os casebres pela areia,
feito barcos navegando
por cima da maré cheia.


São as favelas nas dunas
que já faço levantar:
aqui, o Morro do Teixeira,
que sobe sem se mostrar;
ali, o Castelo Encantado,
que navega sem sonhar


Desses barcos de habitar
à roça do mar defronte,
saltam cedo os pescadores
nas jangadas para os monte,
onde vão colher a vida
submersa no horizonte.


Eu, poeta, à beira-mar,
aqui com eles padeço:
puxando as redes do tempo,
puxando o mar e seu peso,
trazendo o dia salgado
à praia das mãos, já preso.


Ah, viajar por entre os versos des/ritmados
desse instante,
- é o que importa.


Ali, o Moinho Fortaleza,
com suas gordas paredes empanturradas
de trigo ancestral & fome cotidiana.


Adiante,
o Porto do Mucuripe com seus guindastes gementes
- acenos de ferro paralisados -,
cheiro de óleo e peixe, rolando por entre trilhos;
enormes fardos de algodão e trigo,
pesando sobre o torso suado das idéias,
e uma vontade metafísica de partir
colada aos grandes cascos dos navios
como uma ostra obstinada.


O velho Farol em frente.
Vamos lá, companheiro, para o Farol.
Já estou vendo: todo remoçado,
pintado de amarelo.
Dê uma paradinha aqui, meu chapa, no Navy Bar.
Temos que descer.


Quero jogar uma partida de sinuca
com o marinheiro fenício Flebas
(que um dia foi belo e alto como tu)
enquanto bebo uma cerveja e indago-lhe
se viu Tirésias por aí.


Vamos, conte-nos logo aquela velha história de que o mar
sempre devolve o marinheiro à sua casa,
enquanto passo o giz no taco da memória
e o Táxi nos espera lá fora.


Eu, Moacir, filho da dor, estarei no Bar da Luz,
dançando um forró com Moema.
Se encontrar Tirésias, mande-me avisar.
Não esqueça. Adeus, Flebas.


Good night, ladies, good night, sweet ladies,
good night, good night.


Quero dançar com uma, com duas,
com trezentas raparigas.
Beijar a boca de Raimunda,
pegar nos peitos de Lurdinha,
trepar com Damiana, com Ana,
botar nas dunas de Douvina.


Como um marinheiro sedento de terra,
seguir para o cabaré da Berenice,
e lá assistir à Chica do Bento assassinar Maria Pinto
com um golpe de gilete no pescoço,


só porque se divertira com seu amante na noite anterior,
pois isso não é coisa que se faça, sua escrota!
Quero mais respeito!


Tudo aqui merece respeito, Chica do Bento. Não só você.
Este lugar é santo.
Pelo sangue e esperma derramados.
(Não vê a igrejinha ajoelhada no meio
de tanta esculhambação?
- O Senhor ronda os miseráveis.)


Vou lá pedir perdão pelos pecados que ninguém tem.
Santa Maria Egipcíaca orai por nós,
que soube ser puta e depois pura.


Todas as quengas do Farol nos precederão no céu. Amém.
Todas as caftinas, todos os solitários,
sifilíticos e gonorréicos que transitam por aqui;
todos os bêbados e drogados;
assassinos e ladrões;
meninas chupadoras de caralho;
tocadoras de bronha aos 12 anos e a 10 reais;
pivetes cheiradores de cola,
pequenos traficantes de fumo,
bichas no alto das dunas dando
bombons e a bunda a um bando
de garotos melados de fome e areia ardente.
Ah, toda essa humanidade à beira do mar e da vida;
toda essa humanidade que sangra com o sal na boca,
toda essa humanidade é bela e santa
e nos redimirá junto ao Senhor. Amém.


Alegria! Dancemos todos!
Todos em orgasmo doloroso para dentro do Táxi!
Sim, quero a santidade de todos vocês,
ó mutilados do amor de Deus e dos homens!


Abençoar sua entrega e volúpia,
roçando-me o peito nunca saciado.
Beijar as bocas feridas com um tesão imaginário
e múltiplo de meus sentidos solidários.
Quero redimir-me, um pouco que seja,
na pureza de seus gestos.
Eu, o único e inconsolável pecador por aqui,
- porque sou poeta e maldito,
monstro de escuridão e rutilância.


Agora, chega.
Vamos embora.
Em frente, dobrando ali no "Chez Pierre",
velho e solitário bar,
perdido por entre dunas pretéritas,
onde pela primeira vez um veado apertou minha mão,
e eu a dele
- tão atencioso comigo...
Eu, 14 anos,
nem desconfiava da trêmula solidão dos corpos crescidos.


Praia do Futuro!
Direto!
Vamos lá, abençoando tudo o que vejo
- ó misticismo de beira-de-cais abraçado aos meus sentidos! -
nesta loucura motorizada e carnal.


Os edifícios novos, brotando impetuosos sobre a areia, salve!
Boates carcomidas e abandonadas ao lado, salve!
Casas de forró, sanfonas arfantes,
cervejas e danças espumantes, salve!
Mansões enfatuadas e assépticas no alto das dunas.
Casebres e favelas arrastando-se, desamparados,
para a Lagoa do meu Coração solitário, salve!
Prédios em construção de olhos esburacados à lua nova, salve!
Motéis ao longo da praia - Eros rotativo rolando
invencível sobre camas e corpos suados, salve!
O ermo contemplando, com suas ervas implacáveis,
o frenesi de tetos e pés humanos, salve!


E as pequenas coisas presumíveis à margem da pista, salve!
As casquinhas de caranguejo emborcadas,
lambidas pela língua salgada do vento, salve!
As espinhas de peixe cobertas de negras escamas de moscas, salve!
Papéis higiênicos tremulando por entre arbustos e espermas, salve!
Camisinhas brochadas ao luar, salve!
Modess sobre os verdes pentelhos da relva nascente, salve!
Jornais desgarrados de seu dia, rolando aos pedaços, salve!
Cacos de copos e garrafas, cortando de leve a carne da brisa, salve!
Latas de conserva roídas pelos dentes estragados da maresia, salve!
Tocos de cigarro que souberam a lábios ansiosos, salve!


LIXO LIXO LIXO LIXO


Sobras que mãos humanas um dia tocaram e largaram;
objetos que roçaram nossa pele,


lamberam nossa língua,
cheiraram nosso sexo,
depois quedaram-se tristes;
as catadoras de lixo com a pureza de seus dedos famintos
e os grandes sacos cinzentos de mágoa,


salve!


(Ó universos paralelos curvando as
espinhas
sobre
restos amontoados da realidade!)


NOSSOS ÊXTASES E MISÉRIAS POR ENTRE
COISAS
SALVE!


TODO ESPAÇO DO GOZO E DA DOR
SALVE!


Sim, tudo é sagrado sobre a praia:
a cidade que avança sobre as dunas,
os corpos que avançam como ondas sobre a noite.


TUDO
EM TRÂNSITO INFINITO
Avenidas do Existir, eiá!


(Mocidades de ruas logo transpostas!
Ruelas de sonhos empoçados!
Tristeza-sem-saída de becos infanticidas!)


Unhas e desejos,
cabelos e pássaros,
árvores e pensamentos,


TUDO FLUI POR IGUAL


Ó RIO DAS COISAS EM CHEIA PERMANENTE
ARRASTANDO-SE INDOMÁVEL PARA O MAR!


EM TRANSE E EM TRÂNSITO SOMOS


- AOS ESBARRÕES -
TRANSEUNTES DO ACASO
FERINDO DE ESPANTO O MUNDO


Arre! Em frente, motorista!
Para o último motel da Praia do Futuro,
- reduto orgástico da eternidade!


Reta final.
A toda!


Engolir aos bocados o espaço da avenida e da vida,
com uma fome e uma tara subjetiva e insaciável.
Saltar com todos os sentidos
sobre o corpo ardente do Instante!
- Excitação sadomasoquista de tudo,
esfregando-se em cio no meu peito aos pinotes!


carros


praça


LUZES


PLACAS


NOMES


VASTIDÃO


Ah, sofreguidão da matéria em que viajo!
A imensidão noturna sugando tudo!
Desintegração súbita do carro e do pensamento!
Átomos de ausência sobre minhas mãos e o capô do Táxi!


sacolejos poeira de luz


palpitações


sombras vertigens


desligamento além dentro
esquinas faíscas de mim
deslizamento aquém fora


ânsias silêncios cruzamentos


- Estou indoooo...


Amar o tempo.


Sim, que é esta mulher,
feita de carne e carícias,
que és tu, Moema,
que há pouco me abraçava
no banco traseiro do Táxi,
que lá fora ficou, trepidante.


Vem, ó mulher-viagem,
mergulho urbano na noite veloz!
Aproxima teu corpo ao meu,
tua claridade passageira,
neste quarto de motel marinho,
cercado de ondas
e de tantas vidas espumando na memória.


Vem,
que eu te amo,
assim suja de saliva e sonhos,
ilha
de meu corpo que navego frente ao mar.


Nus, um contra o outro,
um sobre o outro - ó tempo meu! -
eu te penetro, amante,
para descobrir,
por entre nossas coxas enlaçadas de paixão,
- o absoluto, o inominável delírio do presente!
Adriano Espínola


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