terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#66)

Uma cábula felina

Não Ser

Fotografia de Louis Stettner


Não ser jamais algoz de um sonho
ou de um anseio
fazer da vida um fim e não somente um meio
de alcançar um fim por todo meio incerto
não ser jamais estéril e árido deserto
onde não floresce
sequer
a flor selvagem
não ser árvore seca despida de folhagem
por onde o vento passe a murmurar baixinho
onde a ave pouse e possa ter um ninho
de onde brote o fruto rubro
sumarento

Não ser jamais a pedra fria do convento
que mesmo ouvindo preces permanece fria
não ser jamais a rocha abrupta
sem harmonia
não ser jamais o ódio
a inveja
o desengano
poder ouvir no mar uma eterna sinfonia
e no soprar dos ventos escutar um hino
ser um pouco da terra para ser divino
e ser dos céus um pouco para ser humano.

Augusto Severo Netto


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A direita mais estúpida do mundo

Paula Teixeira da Cruz, a forma como tem estado na vida pública é credora de respeito e parecia representar, finalmente, o aparecimento na nossa política de uma nova direita com sentido de serviço público, uma direita arejada, com mundo e aberta nos costumes.
     
Infelizmente, este seu Despacho nº 1210/2012, em que despacha subsídio de férias e subsídio de natal ao senhor Galo Negrão,  é um desconchavo.
     

Este seu despacho é um desapontamento e, se me permite uma referência mais pessoal, uma desilusão.
     
Este seu despacho — que ainda por cima não é filho único no seu governo em matéria de 14 remunerações a boys —, mostra que, afinal, a direita portuguesa continua a esforçar-se por merecer o título de direita mais estúpida do mundo.

Adenda em 31.1 às 12H15: O jornal Público "esmiúça" este despacho na edição de hoje.

A Felicidade é um Túnel


                       o domínio
o erotismo do domínio
                      do domínio irrisório
                                                mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

                     vencer
                                  o gelo
                                  o desdém
                                                   veloz

a felicidade é um túnel

 
Ana Hatherly

domingo, 29 de janeiro de 2012

Carta entreaberta do corrupto nacional

Nós não estamos a valorizar devidamente 
a corrupção nacional!

Vampiragem

Esta tira da primeira página do Correio da Manhã de hoje mostra bem o inferno em que caiu o país.





     Há exactamente um ano atrás, o viseense Celso Gonçalves, que se desloca a custo com duas canadianas por causa de um acidente, viu reduzida a sua pensão social de invalidez de 189 euros para  91 euros porque tinha no banco 20 mil euros, como contou então o CM.
Fotografia CM



Se Celso Gonçalves
 tivesse derretido 
aquela herança 
do pai 
ou a tivesse posto 
num off-shore, 
nada lhe 
tinha acontecido.

Depois de ti

Fotografia de Willem Diepraam


Depois de ti
o dilúvio: esgotaram-se as imagens
e não posso mudar o que diziam:

há um esvaziamento, uma degradação,
que em pouco tempo tornam
o real absoluto no real possível:

e nunca mais hei-de sentir o mundo
tão alto como os versos e não o contrário,
e nunca mais poderei dizer a ninguém:

os teus olhos são tão belos como os teus olhos.
Pedro Mexia


sábado, 28 de janeiro de 2012

Oferta de empregos bem pagos em empresa dinâmica

Depois de alguma irritação com o Twitter 
quando ontem anunciou que se conformava com algumas limitações em países com regime musculado,
irritação que depois de ler isto passou,
fica aqui um vídeo para quem desejar trabalhar naquele chilreante pássaro de 140 caracteres



Detalhes aqui.

Mi casa

Fotografia de Willy Ronis




Mi casa tiene treinta metros cuadrados.
Vivimos en ella dos adultos,
una adolescente
y una gata anciana.


Mi casa es digna.  

Si es de dignidad de lo que hablamos
mi casa es digna.


Mi casa es tan digna
como las chabolas de latas
como las casas barco
como las tiendas de refugiados.


Más dignas todas ellas
que la del especulador
la del director de periódico
la del dueño del banco.


Si es de dignidad de lo que hablamos:  

La justicia de las palabras
- la belleza de la exactitud -
aún nos pertenece.


Ana Pérez Cañamares


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PS-Viseu *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     1. Já se disse aqui mas repete-se: inveja é a infelicidade perante a felicidade alheia; schadenfreude é a felicidade perante a infelicidade alheia.
     A nossa política está cheia de inveja: inveja das limusines oficiais, inveja das pensões dos políticos em geral e das de Cavaco em particular...

     ... inveja dos “abonos suplementares” dos jotas do governo, inveja da filha do Braga de Macedo, inveja do Catroga e da Cardona, inveja do carro com chofer da Ana Drago, inveja de...
     Não tem havido é schadenfreude e isso é perigoso para Pedro Passos Coelho. O governo precisa de tornar infeliz alguém de cima para dar alguma felicidade ao povão de baixo. Pôr o Isaltino dentro não serve — depende do juiz e, ainda por cima, depois o homem continua a dirigir a câmara atrás das grades.
     Que tal fazer às parcerias-prejuízos-públicos-proveitos-privados o que foi feito aos salários dos funcionários públicos?
     Dia sim, dia sim, aparece um vip engravatado na televisão a debitar o mantra da moda: não há “direitos adquiridos”. É caso para perguntar: esse mantra não se aplica aos “direitos adquiridos” do senhor Mota Coelho Espírito Santo Engil?

      2. Nos últimos anos, a vida do PS no concelho de Viseu foi um pesadelo: cinco elementos da lista à câmara não honraram o voto recebido dos viseenses. Destes cinco, destacam-se pela sua especial responsabilidade os três primeiros: Miguel Ginestal, João Cruz e Conceição Matos.
     Já tive a oportunidade de dizer aos dois candidatos à concelhia do PS que, antes das eleições de Abril, eles devem explicar com clareza o que pensam desta deserção maciça.
     É que só uma relação leal com o eleitorado pode fazer com que os socialistas de Viseu, que nunca pediram nem querem nada do partido, se possam empenhar num projecto com potencial para vencer a câmara em 2013.

Chuva


Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada

Duma vida que é chuva e não parece. 

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer...
 

                                                                                                     Miguel Torga


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Um penálti a favor do Sporting é sempre uma cabala

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro há quase quatro anos, em 28 de Março de 2008, e que mostra que os sportinguistas estão habituados a acidentes como o penálti falhado por Bojinov contra o Moreirense


     Uma empresa de informática, a Chip7, lançou o seguinte slogan para promover a venda de um computador: “Se o Sporting ganhar a Taça UEFA… Devolvemos-lhe o dinheiro!!!” Não gostei nada desta ideia…

     Declaração de interesses: sou do Sporting. Ser do Sporting dá uma grande resistência psicológica: o Sporting sabe ganhar, sabe empatar e sabe perder. Só não sabe é marcar penáltis. 
     Há uns tempos, o Inimigo Público explicou tudo: quando o árbitro assinala um penálti a favor do Sporting isso é uma reles cabala, é um truque para instabilizar o leão. Já se sabe e o árbitro é o primeiro a sabê-lo: qualquer que seja o jogador sportinguista escolhido, ele falha o penálti, fica amarfanhado psicologicamente e nas semanas seguintes não joga nada de jeito. Quando chegaram os penáltis, no passado sábado, na final da Taça da Liga, ninguém se admirou com o colapso dos leões. 
     Apesar de tudo, penso que a Chip7 vai ter um desgosto e o Sporting vai ganhar a Taça UEFA.** Não vai acontecer nenhum penálti mal intencionado a nosso favor. Nem todos os árbitros são como os portugueses…

** De qualquer maneira, não foi em 2008, vai ser em 2012 que o Sporting vai ganhar a Liga Europa.

Socrazy, por Manuel Maria Carrilho

     Para além de todos os inuendos pessoais, este artigo de opinião de Manuel Maria Carrilho merece a maior reflexão dos socialistas portugueses por duas razões:
     1 — os seis anos de Sócrates fizeram do PS um deserto de valores;
     2 — a social-democracia europeia deslumbrou-se com as lantejoulas do capital financeiro e foi varrida pelos eleitorados; agora, ou se reinventa, ou acontece-lhe como aos comunismos — torna-se residual.
     Transcreve-se para aqui um extracto do texto "A Repeteca" de Manuel Maria Carrilho e fica o link para memória futura:     «Devo dizer que nunca vi em José Sócrates convicções socialistas - no sentido europeu de "social-democrata" - mas antes uma atração pela paródia em que infelizmente o socialismo tantas vezes se tem tornado, deslumbrado com o capitalismo financeiro, as novas tecnologias e os malabarismos da comunicação. Vivendo sempre perto do mundo dos negócios e dos futebóis, e desprezando acintosamente o conhecimento, a cultura ou a educação, com o mais perigoso dos desdéns, que é o que se alimenta do ressentimento e da inveja.»

O fim da noite

Fotografia de Alexey Dubinsky
A nossa história é simples: somos
neste momento todo o amor na terra
e nada mais importa, senão
o que sou, verdade em ti,
o que és, verdade em mim.
Por isso este poema talvez não seja
mais que um silêncio pela noite,
nem verso, nem prosa, só
uma oração ao deus desconhecido.


Não é talvez senão o teu olhar,
e tua esquiva mágoa,
o teu riso e tuas lágrimas.
E o apelo dentro de mim
ao milagre de nos querermos,
com a mágoa e com o riso,
- e teu olhar que vê em mim.


Não sei pedir, sei só esperar.
Mas já houve o milagre. Estava
agora comigo ao longo das ruas, que antes
eram só casas de pálpebras cerradas.
Estava no silêncio, que antes
era mortal.


E tu, sem eu saber, estavas comigo.
E sem eu saber de súbito na treva
buliram asas
e sem eu saber era já dia.

 Adolfo Casais Monteiro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Esta semana Cavaco ganhava

... se em Portugal houvesse um barómetro de menções no Twitter igual a este do Washington Post ...


 ... as pensões do nosso presidente Cavaco Silva 
ganhavam a Obama e Gingrich. 
E por muito.

La llamada de la selva

Fotografia de Françoise Huguier


 
Siempre fue la tristeza
un dócil animal de compañía
con el que yo he jugado algunas tardes.
Sin apretar los dientes me estiraba del brazo,
paseaba conmigo, se sentaba a mis pies
en los fríos inviernos.
En los días aciagos, por probar su obediencia,
le lanzaba mi alma, y ella me la traía
dulcemente empapada en su aliento doméstico.
Siempre fue la tristeza
un dócil animal de compañía,
que hace tiempo ha adoptado
esta fea costumbre de morder a su amo.

Vicente Gallego


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#65)

... tudo o que vocês mulheres que fazem esse tipo de coisas representam é uma gozada no ralo ...

China, 64 milhões de apartamentos vazios

OH ZEUS!, é tão bom ir a Oliveirinha

Cuántas veces voy a repetir lo mismo!

Fotografia de Israëlis Bidermanas (Izis)

Compren insecticida
Saquen las telarañas del techo
Limpien los vidrios de las ventanas
¡están plagados de cagarrutas de moscas!
Eliminen el polvo de los muebles
Y lo más urgente de todo:
háganme desaparecer las palomas:
¡todos los días me ensucian el auto!


¡Dónde demonios me dejaron los fósforos!
Nicanor Parra


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Banda Sinfónica Portuguesa, primeiro prémio, 98 pontos em 100


World Music Contest — WMC
Kerkrade — Holanda
2 de Outubro de 2011

Parabéns à Banda Sinfónica Portuguesa 
e ao maestro Francisco Ferreira

"And Now For Something Completely Different" (#64)

Isto é que é speed.

Votação para o blogue regional do ano 2011 — Viseu, Senhora da Beira

Este blogue votou no "Viseu, Senhora da Beira", 

VSB corre riscos.
O VSB às vezes engana-se.
Mas uma coisa é certa: o VSB trata com independência e liberdade o que se passa na região.
E isso é serviço público e isso é raro.

Há tensão entre a democracia representativa e a democracia participativa?

A concelhia do PS-Viseu 
convida à reflexão sobre o tema

Presença

Fotografia de Ian Leake

Não perguntes porque vim...
trazendo não-flores nos dedos,
falando línguas diferentes,
dizendo em risos-segredos,
todos os sonhos dementes...
 

Não perguntes porque vim... 

Se pudesses entender
este pulsar sem medida
terias chegado ao fim... 


Mas estou junto a ti,
irmão,
que mais te importa?
 

Não perguntes porque vim...
                                                                               Alda Lara

domingo, 22 de janeiro de 2012

Da beleza

Alberto João Jardim




«Um homem belo 
goza de uma 
vantagem, 
que vale 6-8% 
dos votos, 
sobre um 
rival feio.» *
Ségolène Royal





 
 «Para as mulheres, 
a vantagem 
é de 
cerca de 
dez pontos.» *



* in "O carisma em que podemos acreditar", de Joseph Nye

Poeminha do contra

Fotografia de Carina Martins







Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mário Quintana


sábado, 21 de janeiro de 2012

Dr. Ruas, como é possível?

Viseu ultrapassado por Coimbra 
Ver infografia do Expressoonline

Perguntas de um Operário Letrado

Fotografia de Walker Evans


Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

2012, o ano da grande mudança geopolítica mundial *

* Numa tradução às pancadas, transcrevem-se para aqui dois excertos do Geab nº 61, o boletim de Janeiro do Laboratório Europeu de Antecipação Política

Matt - Telegraph, 14/1/2012
     1. A descida de rating feita pela Standard & Poor's à maioria dos países da eurozona é o exemplo típico das últimas tentativas, impulsionadas pela Wall Street e pela City, e as suas insaciáveis necessidades de financiamento; os Estados Unidos e o Reino Unido estão à beira de se empenharem numa guerra financeira com os seus últimos aliados — os europeus.
     Isso é um suicídio geopolítico porque esta atitude obriga a Eurozona a reforçar-se e a integrar-se ainda mais, afastando-se dos Estados Unidos e do Reino Unido; ao mesmo tempo que a maioria dos líderes da Eurozona e as suas populações se apercebem que existe uma guerra transatlântica e através do Canal da Mancha dirigida contra eles.

     2. A grande mudança em 2012 é também a dos povos, 2012 vai ser também o ano da raiva popular. As pessoas vão entrar massivamente na crise sistémica global. O ano de 2011 foi do "pré-aquecimento" em que os pioneiros testaram os melhores métodos e estratégias.
     Em 2012, os povos vão assumir-se como a força motriz das maiores mudanças que vão caracterizar este ano-charneira. Farão isso de uma maneira pro-activa porque vão criar as condições das mudanças políticas decisivas através de eleições ( como vai ser o caso em França com a saída de Nicolás Sarkozy), ou através de manifestações massivas (nos Estados Unidos, no mundo árabe, no Reino Unido e na Rússia).
     E também o vão fazer de uma forma mais passiva gerando medo nos seus dirigentes, obrigando-os a terem uma atitude mais "preventiva" para evitarem choques políticos maiores (será o caso da China e vários países europeus).
     Em ambos os casos — seja o que for que as elites em pânico desses países pensem —, este é um fenómeno positivo porque nada de importante ou duradouro poderá emergir da crise se as pessoas, se os povos não se envolverem.

Avental *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

    
Em 1995 o país olhava com esperança para o futuro. O foco da atenção dos portugueses estava virado para António Guterres, o último primeiro-ministro que governou para as pessoas e não para os banqueiros e a grande advocacia dos negócios.

     
1995 foi o ano glorioso em que a EDP abaixou as orelhas em Foz Côa. Naquela época era inimaginável que viríamos a assistir, poucos anos depois, a um chefe de governo socialista, parolo no seu atavio Hugo Boss, a dizer ao presidente da EDP «agora só falta aqui é cimento!» E dizer isto em pleno vale do Tua, vale magnífico na sua aspereza, último santuário de um Portugal que merecia outras elites menos bárbaras.

     
No outono daquele ano de 1995, Jorge Sampaio começou a sua campanha para as presidenciais, campanha sem grande sobressaltos que, como era então da praxe, teve entrevista na RTP feita por Maria Elisa.

     
A conversa decorreu meia sonolenta pois, como é sabido, Jorge Sampaio é mais acutilante em inglês do que em português. Eis senão quando, já no final da entrevista, Maria Elisa virou-se para Sampaio e disparou: «acredita em Deus?» ao que ele replicou seco: «não.»

     
Na altura, aquela pergunta caiu mal ao país político. Assuntos de fé são, na nossa terceira república, assuntos do foro individual. Desde o 25 de Abril tem-se sabido evitar querelas religiosas como as que se viveram entre 1910 e 1926. E isso é muito bom. 


Tenho-me lembrado muito daquela pergunta de Maria Elisa a Jorge Sampaio desde que tomei conhecimento do triângulo mafioso Maçonaria-SIS-Ongoing.
     
Penso que, mesmo depois do que se soube, não é legítimo a um jornalista perguntar: «acredita no Grande Arquitecto?»

Mas penso  que todo o jornalista, perante um político que anda a pedir o voto das pessoas, tem o imperativo moral de lhe perguntar: «usa avental?»

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A importância da cauda do lagarto

Robot concebido por Robert J. Full e da sua equipa da Universidade de Berkeley, Califórnia

Lavagante *

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro em 28 de Março de 2008 e que não é uma metáfora à China e à "Europa"
 
     Conta José Cardoso Pires em “Lavagante”: o lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. 
     Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.”

     Se procurar bem ainda encontra nas livrarias a primeira edição deste livro.

Said The Poet To The Analyst

Joseph Kosuth


My business is words. Words are like labels,
or coins, or better, like swarming bees.
I confess I am only broken by the sources of things;
as if words were counted like dead bees in the attic,
unbuckled from their yellow eyes and their dry wings.
I must always forget who one words is able to pick
out another, to manner another, until I have got
somethhing I might have said...
but did not.

Your business is watching my words. But I
admit nothing. I worth with my best, for instances,
when I can write my praise for a nickel machine,
that one night in Nevada: telling how the magic jackpot
came clacking three bells out, over the lucky screen.
But if you should say this is something it is not,
then I grow weak, remembering how my hands felt funny
and ridiculous and crowded with all
the believing money.
Anne Sexton


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Rua Serpa Pinto, Viseu

Por ora está tapado com uma burka ...







... este "Valha-nos Deus!"

Açúcar-matéria

Fotografia de Stano Tono

já ter acontecido:

à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:

sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.



Sylvia Beirute

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sem juízo *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 23 de Janeiro de 2009 e que se reedita neste blogue por causa desta notícia: "Ex-ministra da Educação e João Pedroso arriscam oito anos de prisão"



Esta é a banda sonora oficial do Olho de Gato de hoje: 
"Quando a cabeça não tem juízo
E tu não sabes mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixó pagar deixó pagar
Se tu estás a gostar…”

     1. Para não cansar muito os muitos juristas da casa, o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) adjudicou um trabalho a João Pedroso por 266 mil euros e mais uns trocos e mais o IVA. Pagou logo tudo ao advogado antes deste começar a trabalhar. A coisa deu bronca. O trabalho ficou por fazer. João Pedroso já reconheceu que não vai dar conta do recado. Agora é-lhe pedida a devolução de… metade da massa … em 12 suaves prestações...
     Vá lá, cante como quando está no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

     2. A HP venceu um concurso de fornecimento de computadores às escolas; a ACER protestou porque a sua proposta era mais barata 15 milhões de euros.
     Será outro caso de “quando a cabeça não tem juízo”? Não se sabe ainda. Ninguém explicou aqueles 15 milhões a mais. Há, para já, uma certeza: “o corpo (leia-se: o erário público) é que paga”…

     3. MLR, durante todo 2008, não conseguiu aplicar a sua avaliação “chilena” dos professores. Perante aquele labirinto, até os presidentes das escolas arrastaram os pés.
     Vai daí, MLR entrou em 2009 a ameaçar os “índios” e a atirar dinheiro aos “chefes”. Os directores das escolas acabam de ter um rechonchudo aumento no seu “suplemento remuneratório”. Consoante o tamanho da escola, vão passar a ser 600 ou 650 ou 750 euros.
     Vá lá, como no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

Canção do homem infiel

Fotografia de Sanne Sannes

O meu homem é igual ao Senhor
é igual aos deuses
se ele me toca
me sinto mulher
e água que corre nos regos da vida.

O meu homem é um puro-sangue a correr
enquanto eu cavaleira do nada
fico imóvel em terra.

O meu homem é uma guitarra feliz
e eu a sua canção
mas ele não me canta já porquê?
Que para viver se lhe parta a guitarra...

O meu homem é muito cruel
ele é a minha oração
é tal qual Savonarola.

Mas o meu homem afaga outros corpos e cabelos
pródigo com as meninas de oiro
deixa-me pobre a mim a morrer por ele.

Ao desnudar-se o meu homem
mostra o peito com pelo como as águias
mas o rosto fere profundo
punindo amores arrependidos
então eu mostro-lhe as minhas carnes feridas
e maldigo a minha sorte,

mas sorrindo o meu homem
eu volto a florir e sou uma lua branca
reflectida no mar.
Alda Merini

domingo, 15 de janeiro de 2012

Plantar batatas

Fotografia daqui
Joaquim Pinto da Silva é o único livreiro português em Bruxelas.

Ex-maoísta,
no 25 de Abril de 1974 estava em Lisboa  a viver na clandestinidade e passou todo o dia da libertação sempre com uma  pistola no bolso.
     
No ano seguinte, embora não precisasse, trabalhou como trolha em sintonia com as suas convicções ideológicas.  Todos os dias a mãe dele chorava ao vê-lo preparar a marmita.
     
Era e é orgulhosamente anti-PC porque, afirma ele: o partido comunista "passa a vida a lutar por melhores condições de vida, mas eu para ter seres bem alimentados dentro de uma jaula não contribuo. Não sustento jardins zoológicos." 

     
Contou ao último Ípsilon um episódio com Saramago em casa do embaixador português em Bruxelas: 

     
«[Saramago vira-se para o físico Manuel Paiva e diz-lhe: "O professor queira desculpar, mas enquanto houver fome no mundo acho que não devia haver essas investigações espaciais."»
     
E prosseguiu  Joaquim Pinto da Silva: «Ora, isso é exactamente o contrário do que penso: não se pode impedir um ser humano de andar para a frente, em nome de uma mítica solidariedade. Em coerência, o que Saramago devia fazer era deixar de escrever e pôr-se a plantar batatas para alimentar  os pobrezinhos.»

Maria João Pires

Maria João Pires não esperava o Concerto em Ré Menor de Mozart, tinha-se preparado para outro e teve um momento de pânico.

Depois concentrou-se e ...



     «Aquilo que amamos, devemo-lo saber de cor. Não é por acaso que "coração" em latim é "cor".
     Ninguém nos pode tirar nunca o que sabemos de cor.»
George Steiner em entrevista 
à Revista Ler, Março/2011

Em Portugal há thorium?


sábado, 14 de janeiro de 2012

Lettera amorosa

Fotografia de Jaime O'Ryan
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

                                                        Eugénio de Andrade

"And Now For Something Completely Different" (#63)

Momento Buster Keaton ...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Roubar pastelaria é plágio

Aveiro 1 — Paris 5

Esta criatura de Aveiro...


... lê jornais internacionais mas é muito mais aselha que este parisiense.

Dez anos *

* Publicado hoje no Jornal do Centro

     1. Já se está a pensar mudar outra vez a lei do tabaco. Os milhões de euros gastos nos últimos quatro anos em sistemas de extracção de fumo correm agora o risco de serem incinerados pela chaminé acima.
     Temos um estado que não consegue pôr um caloteiro a pagar uma dívida, um estado que não consegue pôr um carteiro a distribuir as cartas no bairro de Paradinha, mas temos um estado sempre empenhado em tornar a vida das pessoas e das empresas mais difícil do que ela já é.

     2. Passado meio ano, como está o governo de Pedro Passos Coelho?
     Na frente orçamental, as coisas correm ao ritmo da troika o que não surpreende: o país está sem autonomia a ter de fazer o que os credores mandam.
     Na frente internacional, o primeiro-ministro alinha sempre com Angela Merkel (embora meta a EDP pelas gargantas chinesas abaixo) e deixa Cavaco Silva a pedir ao BCE que inunde de liquidez os mercados (alguém tem que ficar com os trabalhos suaves). Esta divisão de tarefas entre o primeiro-ministro e o presidente pôs a esquerda a incensar Cavaco sem perceber o filme.
     Em matéria de boys e girls, Pedro Passos Coelho não tem sido sôfrego, o que tem deixado a direita a coçar-se de impaciência. Em Viseu, como Mota Faria do PSD tem levado tudo, o CDS está à beira de um ataque de nervos.
     Em 2002, a coligação Barroso/Portas, ao fim de meio ano, estava no vermelho nas sondagens e nunca mais recuperou. Agora a coligação Passos/Portas continua à frente nos índices de popularidade. Há uma razão para isso: o PS deixado por Guterres tinha força moral junto da classe média, força que agora o PS pós-socrático não tem.

     3. Este jornal passou a escrever “espetadores” em vez de “espectadores”. Ao Olho de Gato ainda não apetece. Em Março esta coluna faz dez anos. Então decide-se: ou acordiza, ou fecha.

Poética



aqui acolá
um verso um texto
mas olhe
não sou bissexto
sou campeão de poemas ao cesto
                                                                                                   Rogério Newton

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Proporcionalidade directa






Armando Vara

está para 

José Sócrates 

assim como

Celeste Cardona 

está para 

Paulo Portas.

"And Now For Something Completely Different" (#62)

A tartaruga ganha a corrida a Aquiles

Toma lá cinco

Fotografia de Willy Ronis

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!


Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...


No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...


Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...
Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...
Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A pior notícia possível sobre a maçonaria

     Hoje ficou-se a saber, através do Expressoonline, que — para poderem denunciar um "irmão" com "ambição desmesurada" e que está a usar "instituições do Estado em benefício dos seus interesses pessoais e privados" — os maçons precisam de se auto-suspenderem da organização.
      Pior notícia acerca da natureza da maçonaria não podia sair.