quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Complete Destruction

Fotografia de David Goldblatt


It was an icy day.
We buried the cat,
then took her box
and set fire to it
in the back yard.
Those fleas that escaped
earth and fire
died by the cold.
William Carlos Williams


quarta-feira, 23 de Abril de 2014

A titia

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Abril de 2010

1. Está a comemorar-se o centenário da primeira república mas as pessoas sabem pouco do que aconteceu nos 16 anos que ela durou e as razões que levaram ao 28 de Maio de 1926 e à ditadura.

Nos nossos dias, apesar do autismo e da corrupção das elites, não se adivinha nenhum pronunciamento militar. A nossa democracia tem tido solidez porque evitou dois erros da primeira república: evitou querelas com a igreja católica e fugiu do parlamentarismo como o diabo foge da cruz.

Só com José Sócrates se começou a resolver alguma da matéria de costumes que tem a oposição da igreja. Mas estes avanços nos costumes não alteram o essencial: o nosso regime não é jacobino. A tolerância de ponto concedida para a visita de Bento XVI quer dizer exactamente isso.

O problema do parlamentarismo é muito mais bicudo. É verdade que os deputados e os senadores da primeira república não aceitavam ordens de ninguém, nem de Afonso Costa. O poder forte era o legislativo, não era o executivo.

Com medo que tal se repetisse com a actual assembleia da república caiu-se no extremo oposto. Foram criados mecanismos de “disciplina” dos deputados que fazem António Barreto dizer cheio de razão: "os deputados são servos e gostam de ser servos". Basta lembrar o défice de coluna vertebral dos deputados professores do PS na anterior legislatura.


2. «Manso é a tua tia, pá!», respondeu Sócrates a Francisco Louçã no parlamento. Este episódio anódino, embora de má gramática, levantou um enorme escarcéu nos media que estão atulhados de virgens púdicas.

Recordo um pequeno factóide da primeira república: em Dezembro de 1913, em plenos trabalhos, o senador João de Freitas apontou uma pistola à cabeça do senador Artur Costa, irmão de Afonso Costa.

Compare-se esta coboiada com a inocente titia de Louçã.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

"Ai Que Ricas Orelhinhas" e de gravata verde

A Presença das Formigas

André Cardoso, Manuel Maio, Nuno Silva, Miguel Cardoso,
Rui Lúcio, Sara Vidal

Novo álbum | 'Pé de Vento'



CONCERTOS DE APRESENTAÇÃO:

24 DE ABRIL | COIMBRA, AUDITÓRIO DO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DE COIMBRA, 21h30

30 DE ABRIL | PORTO, TEATRO HELENA SÁ E COSTA, 21h30

GUERRA OU PAZ — hoje no Cine Clube de Viseu

IPJ-Viseu, 21H30
Com a presença do realizador


Entre 1961 e 1974, 100.000 jovens portugueses partiram para a guerra nas ex-colónias. 
No mesmo período, outros 100.000 saíram de Portugal para não fazer essa mesma guerra. 

GUERRA OU PAZ procura os homens que “fugiram à guerra”, o seu papel na construção do país que somos hoje, os seus percursos, e de que forma resistiram. 

Haverá uma conversa no final do filme, com as presenças de RUI SIMÕES e MIGUEL TORRES, da ACERT de Tondela.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Do consenso e do dissenso

Isabel Moreira
Fotografia de Nuno Ferreira dos Santos
Miguel Fernandes, ainda bem que acabou por publicar o seu artigo na Tribuna, um media que este blogue acompanha com gosto.

Miguel Fernandes não gostou desta ideia de Isabel Moreira: 
A política é feita de dissenso, e este consenso de que Cavaco Silva fala só seria possível matando as ideologias.” 

Devo-lhe dizer que o pensamento de Cavaco Silva não tem nenhuma sofisticação democrática, nem nunca teve, pelo que Isabel Moreira, de longe a melhor deputada da oposição nesta legislatura, tem mais que razão.

Fica o que penso sobre esta matéria.

Em democracia, o dissenso é bom e o consenso é bom.


É indispensável o dissenso sobre as políticas, é imprescindível o consenso sobre as regras.

A terceira república, em grave crise de credibilidade, teve um tempo em que era possível fazer as necessárias reformas institucionais — as tais "regras" — sem grandes custos políticos. 

Recomendei-o aqui na altura — era necessário aproveitar aquele período excepcional em que não houve política em Portugal, em que havia só o "toque-de-caixa"  da Troika e dos credores, período que não se sabia quanto tempo ia durar. 

Acabou por durar quinze meses, entre a tomada de posse do governo e o episódio da TSU, em Setembro de 2012. Foram quinze meses perdidos por Pedro Passos Coelho e António José Seguro.

Eles deviam, então, ter feito a reforma institucional da terceira república:
— prazos menos gongóricos de forma a que entre a queda de um governo e a tomada de posse de outro não seja preciso meio ano mas sim três semanas;
— aproximação eleitos/eleitores;

— exclusividade parlamentar;
— menos deputados;
— um único mandato presidencial para não termos um PR durante cinco anos a só pensar na sua reeleição;
— mais exigência ética;
— câmaras monocolores;
— efectivo poder fiscalizador das assembleias municipais, incluindo o de porem moções de censura ao executivo;
— ...

Isto é, os partidos que por enquanto valem 2/3 de votos, deviam ter procurado o consenso sobre as regras. PPC e AJS falharam clamorosamente, mostraram a sua falta de estatura política. Podiam ter ficado na história da terceira república em um pouco mais que uma nota de rodapé.  

Quanto a AJS, acabou por ser vítima da sua omissão: em Julho de 2013, aquando da demissão "irrevogável" de Paulo Portas, ele queria a dissolução do parlamento mas o país não tinha prazos institucionais para poder apresentar com rapidez um novo governo. O parlamento não podia ser dissolvido. AJS pode ter perdido, aí, a possibilidade de alguma vez chegar a primeiro-ministro.

Regressando ao ponto: para além do problema das "regras", das matérias institucionais, em que mais o consenso é necessário?

Não tenho dúvida nenhuma — a terceira república em quarenta anos já teve que pedir intervenção externa três vezes. É desgostante. É uma vergonha. 

Os partidos devem também consensualizar níveis de défice/dívida que impeçam a quarta bancarrota e consequente amarrotamento da nossa autonomia e capacidade de auto-governo.

Em mais nada deve haver consenso.

sábado, 19 de Abril de 2014

Mais Nada se Move

Paul Peel - The Rest
Gif de Stefano Tagliafierro


mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

“Europa” *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Os dois motores da mundialização — as luzes e o capitalismo — tiveram a sua origem na Europa. O espírito científico e de criação de riqueza fizeram o nosso mundo globalizado, mundo com problemas tão grandes que já não têm soluções nacionais, só as têm numa escala supra-nacional.

Também aí o velho continente foi pioneiro: não há mais nenhuma instituição supra-nacional que se pareça com a “Europa”, esta nossa "coisa" acima dos países, a que devemos 70 anos de paz.

Esta ideia começou a germinar a seguir à primeira guerra mundial: em 1926 foi organizado em Viena o primeiro “Congresso Pan-Europeu” a que acorreram nomes como Adenauer, Churchill, Freud, Rilke, Einstein, Unamuno, Ortega y Gasset, Thomas Mann. Seguiram-se ainda mais três congressos pan-europeus nos anos de 1930.

Mas só depois do pesadelo nazi é que foi possível, em 1951, debaixo do chapéu-de-chuva norte-americano, com o Tratado de Paris, avançar para o embrião da “Europa” com seis países. Desde então, foram entrando mais estados e as transferências de soberania para a CEE/UE nunca mais pararam.


Depois da implosão do império soviético, a “Europa” entrou em "bulimia tratadística" (expressão de José Medeiros Ferreira): Maastricht (1992), Amesterdão (1997), Nice (2001), Constitucional (2005), Lisboa (2007), o tratado do célebre "porreiro, pá". Tratado nada porreiro, por sinal: com ele a "europa dos cidadãos" perdeu para a "europa das chancelarias", perante a satisfação bacoca da dupla Sócrates / Barroso.

Tanto tratado em tão pouco tempo significa que a “Europa” está sem pensamento de longo prazo, dirigida por uma eurocracia cara, irresponsável e hostil ao eleitorado.

Por sua vez, em Portugal, mudam os regimes mas não muda o espírito predador e corrupto das nossas elites: africanista antes de 1974 nos monopólios coloniais, europeísta agora a “executar” (isto é, “matar”) fundos comunitários.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Conferência "Para que serve um sítio património da humanidade?" — síntese final

Fotografia Olho de Gato



«Um sítio classificado serve para muito pouco.»

Dalila Rodrigues


«Temos que ir fazendo caminho à medida que vamos reflectindo na nossa eventual candidatura a Património da Humanidade.»*

António Almeida Henriques

* "Letra de médico" nos apontamentos obrigam a este "precautério": garanto a reprodução a 100% do pensamento do presidente da câmara de Viseu mas não o "ipsis verbis".

SMS #10 — o clepto-keynesianismo*

* Esta SMS foi escrita para o Correio Beirão, simpático jornal das "Terras do Demo" que agora suspendeu a sua publicação



Jornal do Centro, 28 de Março de 2014

Carlos Alberto Oliveira, o director da Escola Secundária Viriato, a terceira secundária de Viseu, disse a um jornal cheio de razão: 

“com o que foi gasto nas escolas Alves Martins e Emídio Navarro talvez pudessem ter sido feitas três obras, em vez de apenas duas.”


De facto, a “festa da arquitectura” da Parque Escolar foi mesmo à tripa-forra.

Se criou uma nova corrente económica, o clepto-keynesianismo, é coisa que o futuro dirá.

Isabel Moreira, de longe a mais eficaz deputada da oposição




Não foi Seguro, não foi Jerónimo, não foi a bicefalia bloquista, que infligiram as duas maiores derrotas políticas da maioria PSD/CDS que nos governa desde o Verão de 2011.

As duas maiores derrotas da direita devem-se à iniciativa política de Isabel Moreira:

1. A Isabel Moreira se deve não estarem completamente perdidos os subsídios de férias e de Natal.

Em 2011, a "abstenção violenta" de António José Seguro e o imobilismo de Jerónimo de Sousa não se mexeram para suscitar a constitucionalidade daqueles cortes. 

Foi ela que mobilizou os deputados socráticos e bloquistas para submeterem o caso ao Tribunal Constitucional.

2. A Isabel Moreira se deve a aprovação inicial da co-adopção no parlamento.

Esse movimento, que só a ela se deve, obrigou Pedro Passos Coelho a tirar a máscara tolerante e vir mostrar que, também ele, é reaccionário em matéria de costumes. 

Para além da triste figurinha dos deputados cujas convicções são mais moles que gelatina.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Ser “ex”

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Abril de 2010


Fotografia do Jornal de Negócios
1. A EDP paga bem. O senhor António Mexia leva para casa 3,1 milhões euros. A senhora Ana Maria Fernandes, da EDP-Renováveis, leva 2,4 milhões.

O caso de Ana Maria Fernandes foi pouco falado por cá mas isso não admira já que a empresa que ela dirige tem sede em Madrid. Foi feito à EDP-Renováveis o mesmo que o senhor Correia de Campos fez às grávidas de Elvas. A empresa foi espanholizada e, em consequência, em vez de parir impostos, dá à luz “impuestos”.

Já os 3,1 milhões do senhor Mexia causaram comoção cá na pátria. Com gigawatts de razão, António José Seguro considerou-os “obscenos” e “uma imoralidade".

O senhor Mexia tem a melhor profissão de Portugal – ele é “ex-ministro”. Ser “ex-ministro” é meio caminho andado para se obter um lugar bem pago nos “negócios” porque os “negócios” em Portugal carecem duma ecologia muito especial. Os nossos grandes grupos económicos vivem aconichados no estado, parasitam-no, prosperam a partir dele sem correrem riscos. E tudo é feito entre “ex-ministros” e futuros “ex-ministros”.

Deste tráfico pingam chorudos prémios. “Obscenos” como diz António José Seguro. Nada nestes prémios tem a ver com competência gestional. O talento desta gente é só um: ter uma “rede de contactos”.

Estas “redes de contactos” tanto engendram submarinos, como aumentos da electricidade, como contentores, como obras em liceus por ajuste directo. Com a divina bênção do Espírito Santo que, em Portugal, como se sabe, está em todo o lado.

2. O Decreto Legislativo Regional nº 14/2010/A, de 9 de Abril, isenta os veículos açorianos da obrigatoriedade de usarem o dispositivo electrónico de matrícula. Os Açores disseram não aos “chispes” das matrículas.

Falta agora o resto do país fazer o mesmo.