domingo, 25 de setembro de 2016

Uvas




Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese


sábado, 24 de setembro de 2016

Fire and ice*


Mapa completo do Inferno, Stradanus (1523 - 1605)


Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
Robert Frost




* Wiki:
“Fire and Ice” is one of Robert Frost's most popular poems, published in December 1920 in Harper's Magazine


According to one of Frost's biographers, "Fire and Ice" was inspired by a passage in Canto 32 of Dante's Inferno, in which the worst offenders of hell, the traitors, are submerged, while in a fiery hell, up to their necks in ice: "a lake so bound with ice, / It did not look like water, but like a glass ... right clear / I saw, where sinners are preserved in ice."



In an anecdote he recounted in 1960 in a "Science and the Arts" presentation, prominent astronomer Harlow Shapley claims to have inspired "Fire and Ice".

Shapley describes an encounter he had with Robert Frost a year before the poem was published in which Frost, noting that Shapley was the astronomer of his day, asks him how the world will end. Shapley responded that either the sun will explode and incinerate the Earth, or the Earth will somehow escape this fate only to end up slowly freezing in deep space. 
Shapley was surprised at seeing "Fire and Ice" in print a year later, and referred to it as an example of how science can influence the creation of art, or clarify its meaning.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mudar de pele*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A geringonça está a mudar a pele do PS e isso causa desorientação e confusão no partido do governo.

No último fim-de-semana, em Coimbra, uma sala de socialistas perdeu a vergonha, como lhe solicitou Mariana Mortágua, e aplaudiu o ataque da deputada bloquista a quem “acumula dinheiro”. Hoje, na universidade de verão do PS-Lisboa, será a vez de botar faladura José Sócrates, esse desacumulador do dinheiro “vivo” proveniente de Carlos Santos Silva. Dinheiro “vivo” porque, como explicou um advogado de defesa de José Sócrates, “se calhar, não confia no sistema bancário”.

Já só falta o PS promover uma conferência de Armando Vara intitulada: “A CGD e a confiança no sistema bancário".


2. Eis as “fases” vividas pelas autarquias do distrito de Viseu no mandato 2013-2017:

Fotografia editada a partir daqui
(i) “fase da pesada e da leve herança”: foi a determinação estóica de Leonel Gouveia a recuperar da falência o município de Santa Comba Dão e foram os 25 milhões de euros deixados por Fernando Ruas a António Almeida Henriques que tanto têm feito pela amizade entre ambos;

(ii) “fase da metapolítica”: foi a logomaquia paralítica dos conselhos de estratégia, de igualdade, de juventude, e afins, e foi a estreia dos orçamentos participativos; não houve ainda referendos locais, lá chegará o tempo;

(iii) “fase do colapso”: já foram tratadas aqui as maldades e os sarilhos em Nelas e em Lamego; o colapso, na câmara de Viseu, primeiro da oposição centrista e depois da oposição socialista talvez mereça autópsia em futuro texto;

(iv) “fase do nervoso miudinho”: começa agora e irá em crescendo até ao dia das eleições; maiores dores-de-cabeça dos líderes distritais: o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da “sua” Resende.

História do homem que perdeu a alma num café

Daqui


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.

Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.

De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.

José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.

Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.
Rui Manuel Amaral




quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Súmula

Fotografia Olho de Gato

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.




As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ó trevas, que enlutais a Natureza

Daqui


Ó trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
Manuel Maria Barbosa du Bocage




terça-feira, 20 de setembro de 2016

Amigas, eu oí dizer*

Fritz Zuber-Bühle - A Reclining Beauty

Gif de Rino Stefano Tagliafierro





Esta cantiga fez Dom Gonçal'Eanes do Vinhal a Dom Anrique em nome da rein[h]a Dona Joana, sa madrasta, porque diziam que era seu entendedor, quando lidou em Mouron com dom Rodrigo Afonso que tragia o poder del-rei.


Amigas, eu oí dizer
que lidarom os de Mouron
com aquestes d'el-rei e nom
poss'end'a verdade saber:
          se é viv'o meu amigo,
          que troux'a mia touca sigo.

Se me mal nom estevesse
ou nom fosse por enfinta
daria esta mia cinta
a quem m'as novas dissesse:
          se é viv'o meu amigo,
          que troux'a mia touca sigo.
Gonçalo Anes do Vinhal














* Gonçalo Eanes do Vinhal alude aqui aos propalados amores da rainha-viúva D. Joana, madrasta de Afonso X, com o seu outro enteado, D. Henrique, irmão do rei. Estamos, pois, perante uma cantiga de escárnio, sob esta subtil e inesperada forma de cantigas de amigo.
Se bem que a alegada relação amorosa entre D. Henrique e a sua madrasta possa não passar de simples maledicência, todas as referências históricas feitas na cantiga são exactas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

You're lousy, Big Brother! (#3)

Segunda-feira, 12 de Setembro
Fotografia Olho de Gato



Quinta-feira, 15 de Setembro
Fotografia Olho de Gato

Segunda-feira, 19 de Setembro
Fotografia Olho de Gato


Fúrias

Fotografia de Erwin Blumenfeld



Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contratempo
Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 18 de setembro de 2016

só o som permanece

Fotografia de Daido Moriyama



por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.

por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?

o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.

por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.

som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.

na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.

o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
Forough Farrokhzad
Paráfrase de Ricardo Domeneck (daqui)





sábado, 17 de setembro de 2016

Guerra fria

5 de Agosto
17 de Setembro

Mandato social

Fotografia de Alfred Eisenstaedt




Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades.
Denunciar a tinta
gasta em discursos.
Os mitos criam-se de baixo para cima.
As plantas enraízam
e só depois recortam o céu
ou são colhidas para efeitos vários.
O boletim metereológico diz que vai chover,
mas nunca se sabe se vem um ciclone,
e então salve-nos Deus
se não soubermos prever
os alicerces,
o boato dito pelo telefone,
o sonho, esse mesmo, em que se morre
de estupidez, o coração a bater
como de cavalo que ganhou a corrida
e é levado pelo dono
ao parque do hipódromo.
Basta de balancé
entre o que é, o que virá, o que não é.
Basta de poetas com as mãos cruzadas
e de operários a cair de sono.
Basta de velhotes impotentes
a fornicar sabedoria antiga.
O mandato social é desobriga
como na Páscoa a comunhão dos homens.
Somos poucos mas vale a pena construir cidades
e morrer de pé.
Ruy Cinatti