segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Post #5000

Fotografia de Rodrigo Cabrita,
manif de extrema-direita,
Lisboa, Junho de 2005


Palavrão

Não, não se fala mal
português em portugal
não se diz caralho
a torto e a direito
ou vai sempre a direito
ou só se diz quando
a coisa dá para o torto
não, não se fala mal
o português no Porto
e se um filho da puta
chama a um lisboeta
cabrão
é porque os dois o são
e por isso não é palavrão
não, não se fala mal
português em portugal
e se alguém só pensa
não diz que se foda
é porque você ouviu mal
Joaquim Castro Caldas



domingo, 24 de setembro de 2017

Prova da existência da alma

Fotografia Olho de Gato

Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto deveria consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.
Rosa Alice Branco

sábado, 23 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#162)


LA BARBE - March 8th 2012 from Elena Rossini on Vimeo.

Mais detalhes aqui

Se deste outono

Helena Almeida, Ouve-me, 1980

Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.
Eugénio de Andrade



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

As folhas tapam tudo

Fotografia Olho de Gato

As folhas tapam tudo, vedam-me o conhecimento do tempo a trabalhar sobre o mundo.
Talvez aconteça um grande milagre nas nossas vidas.
A terra está sempre a dar bons exemplos.
Alguma gente anda atenta a essas coisas.
Outra gente, porém está completamente só, sem exemplos – e então procura realizar o exemplo mais extremo.
Quando se pensa nisso, não há nada a fazer.
Merda, diz-se, isto é um grande exemplo.
E a terra está por baixo, com o outono.
A terra vem em todos os manuais, como um acontecimento histórico.
Mas a mim, realmente, só me interessam os crimes.
Herberto Helder


Identidades*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. Esta semana o parlamento começou a debater três projectos de lei sobre identidade de género e mudança de sexo. O projecto do bloco prevê que, se houver oposição parental, a criança possa requerer judicialmente a mudança. A sua formulação jurídica parece equilibrada mas está a ser motivo de grossa polémica. Um lado da barricada escandaliza-se porque "agora-os-filhos-vão-poder-processar-os-pais!", a que o outro lado responde com "és-um-homofóbico!"

Estas querelas identitárias - sejam elas de género, de orientação sexual, de origem étnica ou religiosa, ..., - invadiram o espaço público. Em Portugal, a esquerda julgou que ia manter eternamente o monopólio nestes assuntos e ficou muito alarmada quando o candidato do PSD à câmara de Loures lhe invadiu o terreno, com eficácia comunicativa. É um sinal que o populismo identitário vai acelerar também do lado da direita.

Tony Judt
Este movimento começou há meio século nas universidades norte-americanas, com a formulação feminista: "todo o pessoal é político". O historiador Tony Judt criticou muito essa ideia porque, de facto, se tudo for político, então, nada é político.

Cheio de razão, ele bem avisou que não há usos honestos do identitário na política. Mas estas dinâmicas são imparáveis porque dão de comer a muita gente nas academias e nos partidos. E há que reconhecer que, muitas vezes, elas põem em evidência problemas que precisam de solução, como é o caso da mudança de sexo.

2. O governo "pondera" incluir uma questão sobre a origem racial da população no Censos 2021. A resposta seria facultativa, tal como acontece na pergunta sobre religião, para tornear as restrições constitucionais.

Ora aqui está um assunto identitário perturbante. Nada justifica a entrada de informação de raça nas estatísticas oficiais. Essa categorização é racista. Devia, isso sim, era desaparecer do Censos a pergunta sobre religião. É assunto que não deve interessar a um estado laico.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na cama

Fotografia de Louis Stettner


quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta
Sofia Crespo


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Le blouse du dentiste

Daqui


Ce matin là en me levant
J'avais bien mal aux dents
Oh oh la la
J' sors de chez moi et j'fonce en pleurant
Chez un nommé Durand Mm Mm
Qu'est dentiste de son état
Et qui pourra m'arranger ça
La salle d'attente est bourrée de gens
Et pendant que j'attends
Oh oh la la
Sur un brancard passe un mec tout blanc
Porté par deux mastards Mm Mm
Je m'lève déjà pour fout' le camp
Mais l'infirmier dit: Au suivant!
Je suis debout devant le dentiste
Je lui fais un sourire de crétin
I'm'pouss' dans l'fauteuil et me crie:
En piste il a des tenailles à la main
Oh oh oh oh Maman
J'ai les guiboll's en fromag' blanc

Avant même que j'ai pu faire ouf
Il m'fait déjà sauter trois dents
En moins d'un' plombe
Mes pauvres molaires sont r'tournées
Dans leur tombe
Oh oh la la
Voilà qui m'plombe mes deux plus bell's dents
Cell's que j'ai par devant Mm Mm
I'm grill' la gueul' au chalumeau
Et il me file un bon verre d'eau
Il me dit faut régler votre dette
Je venais d'être payé la veille
Ce salaud me fauche tout mon oseille
Et me refile cinquante ball' net
Oh oh oh oh maman
Et il ajoute en rigolant
J'suis pas dentist' je suis pomblier
Entre voisins faut s'entr'aider oh oh
Et moi je gueul' ce soir
Le blouse du dentiste dans le noir.
Boris Vian






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

não quero saber nada de ti

De Katie Dunkle — daqui



não quero saber nada de ti
se lês Bukowski ou telecomandas a chata box
se suspiras por um jantar veg
ou uma viagem na Rynair com couchsurf incluído
não quero saber nada
de ti
A. Khimm

domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aberta ao meu gastrenterologista *

* Carta aberta escrita há exactamente treze anos, num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu enquanto vereador na câmara municipal de Viseu — fui vítima do dr. Miguel Relvas.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.


Viseu, 17 de Setembro de 2003

Meu caro doutor:

O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.

Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.

Joaquim Alexandre Rodrigues

A furtiva alegria



Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.
Inês Lourenço