quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A uma senhora que o autor conheceu no Rio de Janeiro e viu depois na Europa

Fotografia de Philip-Lorca di Corcia



Na idade em qu'eu brincando entre os pastores
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio a ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu naquela
Fiquei sentindo a dor que n'alma tinha.

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!...
Basílio da Gama

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bush, Parte II *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 28 de Janeiro de 2005



1. O problema da despenalização do aborto já devia estar resolvido. A situação é uma vergonha para Portugal mas, pior, muito pior do que isso, é uma violência contra as mulheres já que são elas que ficam muitas vezes sozinhas, perante dilemas de consciência esmagadores. Para além do sofrimento físico e moral duma interrupção da gravidez, uma mulher ainda corre o risco de ser perseguida pela justiça.

Não há muito tempo, foi a tribunal uma jovem porque apareceu nas urgências do Hospital de Setúbal com uma hemorragia e um enfermeiro inqualificável decidiu apresentar queixa contra ela.

Em Portugal, a seguir a uma coisa má, o aborto, pode ocorrer outra coisa igualmente má, a ameaça penal a quem vive esse drama.
Este problema deve ser resolvido, de vez, na próxima legislatura.

2. Francisco Louçã acha que, por ter dado eficácia a um espermatozóide, tem vantagens comparativas no debate político sobre a despenalização do aborto. Ele tem uma filha. Paulo Portas não. Louçã, portanto, sabe. Paulo Portas, portanto, deve calar-se.

3. Esta intolerância de Louçã não surpreende. O núcleo dirigente do Bloco de Esquerda é uma mistura de estalinistas, trotskistas, de admiradores do terrorismo basco e de ex-admiradores da Albânia de Enver Hoxha. Esta mistura adquire alguma cor com a inclusão de gente da cultura e alguns alternativos urbanos. Para completar o ramo, é preciso referir os muitos tardo-comunistas que correram para o Bloco, embora só uns largos anos depois da queda do muro de Berlim.

Para mim, é um mistério insondável o facto do Bloco de Esquerda ter sempre uma imprensa reverente e não ser escrutinado como são escrutinados os outros partidos parlamentares.

No Bloco são sempre os mesmos. O nosso distrito não foge à regra: a lista do Bloco de Esquerda por Viseu, ideologicamente, parece duma era anterior às muralhas da Rua Formosa.

4. Se o eleitorado não der a maioria absoluta ao PS, o Bloco de Esquerda prepara-se para infernizar a vida de um eventual Governo de José Sócrates e entregar alegremente o poder, em 2007 ou 2008, a Marques Mendes e Paulo Portas.

5. George W. Bush tomou posse para o segundo mandato. Acaba de estrear, portanto, a sequela: “Bush, Parte II”. Repetentes neste filme: Dick Cheney, Condoleezza Rice, Karl Rove, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz.

Em “Bush, Parte I” o mundo assistiu a uma guerra errada que transformou o Iraque num santuário do terrorismo internacional, terrorismo que vai pôr em risco em primeiro lugar a Europa, como se viu em Madrid, em Março passado.

Agora, em “Bush, Parte II”, começa-se a ouvir o nome dum país. Para já, o nome é muitas vezes repetido, mas em surdina. A revista New Yorker, de 17 de Janeiro, noticiava movimentos militares suspeitos. O número de 24 de Janeiro da mesma revista tem uma análise de Seymour H. Hersh, intitulada “As guerras que vêm aí – O que o Pentágono pode agora fazer em segredo” que deve ser lida com atenção. Será que eles irão ao Irão?


6. Das muitas dezenas de fotografias que vi da cerimónia da tomada de posse de Bush, houve uma do Los Angeles Times que me impressionou especialmente: nela vê-se o marine Casey Owens, em farda de cerimónia impecável, casaco azul escuro e medalha ao peito, de barrete e luvas brancas, a fazer a continência a Bush. Casey Owens está sentado, numa cadeira de rodas. Ele não tem pernas. As suas pernas ficaram no Iraque. Ao lado e em pé, a sua mãe chora.

As pernas de Casey Owens foram-lhe arrancadas pelas mentiras de destruição maciça do senhor Bush.

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

Fotografia de Joseph Szabo



Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O odor das alfavacas

Gif de Mattis Dovier


Meu pai falava do odor das alfavacas
e eu corria ao dicionário («Planta labiada, semelhante
ao manjericão…»), logo decepcionado
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos segredos
capaz de mudar o curso das coisas
de ser fundamental, talvez, na minha vida
mas nada disso: havia-as de caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro (certamente as do meu pai)
e nenhuma referência à cornuda que apascentava
a minha imaginação
Aprendi assim a desconfiar das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade
José Manuel de Vasconcelos


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Elogio do Fontelo — por JB


Vou com regularidade ao Parque do Fontelo.


Quem tem um cão encontra nesse espaço um óptimo local para passear, descontrair e espairecer.


Como frequentador posso afirmar que o considero limpo; os caminhos arranjados e uma preocupação de manutenção.


Se fosse desportista, provavelmente diria que a pista de manutenção está um “bocadinho” abandonada…

O que me leva a escrever estas linhas é uma preocupação: há reflorestação do Fontelo? Há plantas novas? Porque o que se vê é tudo muito gasto…


Na entrada do Parque há um cartaz que diz “animais só com trela”, e muito bem. Mas deveria haver mais um ou dois desses cartazes espalhados pelo Parque, pois muito boa gente esquece que o espaço é muito frequentado por crianças, desportistas e visitantes.


O Fontelo é bonito e aprazível como um parque semi-selvagem (desculpem a expressão), e assim deverá ser, mas não se esqueçam de fazer dele um local de árvores vivas, para viseenses vivos!



PS: E POR FAVOR não o “urbanizem” com modernices!


Texto e fotografias de JB




Tempo fluvial

Fotografia de Radoslaw Pujan



Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
Nuno Júdice


domingo, 25 de janeiro de 2015

Versões do mundo

Fotografia de Louis Faurer




Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinário ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino de Mendonça


sábado, 24 de janeiro de 2015

Noite morta

Paragem de autocarro, arquitecto  Smiljan Radic
+
aqui

A paragem de autocarro
embateu-me no peito com toda a força -
carruagem de comboio
em descontrolo amoroso, bancos partidos
com a miséria de um adeus

estava a pensar chocar contra um táxi
engolir o taxímetro com dois ou três dentes
mas a paragem, abrupta,
chocalhou-me o que ia cá dentro
subiu-me à cabeça o que estava em baixo e
desceu-me o que estava em cima
ficaste-me aos pés, assim de repente
lagarta fugidia a engraxar-me os
sapatos

infinitas partículas de vidro sobre a minha
pele,
mas não doeu
doeu-me mais não saber que dia era
odeio as terças e as quartas porque
são indefinidas
doeu-me
não saber se te lembras da última roupa
que trazia vestida antes do embate
que tenho um espaço entre os dentes da frente -
ponte subtil que me liga
da esquerda para a direita
e que os meus olhos são oficialmente tristes

tantas coisas para embaterem em mim
para me lembrarem que durmo pouco
mas foi a paragem de autocarro mais vazia
daquela noite

a garrafa já estava perdida há muito
entre três turistas londrinos que me
cantaram o hino e me levaram em
braços até ao diabo que me
carregou

tenho raça de quem leva com tudo
pragas, gafanhotos, jardins desertos
betão desprovido de tinta em cima,
cascas, caroços, souvenirs

e agora levei com a paragem mais
triste de Lisboa
aquela que fica junto à esquina
do primeiro eléctrico, onde uma
velhinha que passou disse
"puta que lhe pariu os cornos",
e onde, caso te lembres,
o amor era uma anedota
com a qual ainda nos ríamos.
Cláudia R. Sampaio


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ir aos mercados *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




1. As parcerias público-privadas durante muito tempo foram sigladas aqui com cinco pês: PPPPP — Parcerias-Prejuízos-Públicos-Proveitos-Privados. Se no início isso causou estranheza, agora já toda a gente percebeu aquele roubo de futuro aos nossos filhos, netos e bisnetos. Melhor dizendo, trinetos: há encargos assumidos até 2083.


Fotografia achada aqui
Depois da nossa bancarrota, a Ernst & Young apurou as "taxas internas de rentabilidade - TIR" das PPPs rodoviárias. Eis exemplos próximos: a "nossa" A25 ficou a render ao sr. Mota Coelho Espírito Santo Engil 17,35% ao ano. Repito: 17,35%. A TIR da A23 ficou a pingar 14,51% para a Salvador Caetano. Já a A24, uns "miseráveis" 11,23% para o consórcio liderado pela Eiffage e a Sonae.

Caríssimo leitor, está interessado numa renda garantida de 17,35% durante décadas para as suas poupanças?

Estes contratos das PPPs foram redigidos nos escritórios da grande advocacia de negócios entre governantes e rentistas, com os protagonistas a mudarem de lado da mesa com o maior dos à-vontades.

É certo que, por imposição da Troika, as PPPs foram renegociadas e as TIR depois foram diminuídas. Alguma coisa. Quantas é que ainda estarão nos dois dígitos?

Chegados aqui, fica um aviso e uma proposta:

(i) Caro António Costa, pôr o sr. Paulo Campos numa lista do PS, nem que seja no último lugar dos suplentes, tem uma TIR eleitoral negativa de, pelo menos, 17,35%;

(ii) Portugal acaba de fazer um empréstimo a 30 anos à taxa de 4,1%. A ideia que, em 2011, António Borges apresentou a Pedro Passos Coelho não era então possível mas agora já é: por que razão não se vai aos mercados buscar dinheiro para resgatar, isto é, nacionalizar estas PPPs desastrosas?

2. Uma das melhores ideias surgidas no “orçamento participativo” da câmara de Viseu foi a de associar a cidade às tílias e ao chá de tília.

Ideia barata que faria muito pela imagem de Viseu. Pelo menos tanto como as festas e festinhas de António Almeida Henriques.

O marquês de Chamilly a Mariana Alcoforado

Fotografia de W. Eugene Smith




Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não perceberam bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior boa vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda
Adília Lopes




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

João Luís Oliva — um testemunho de JB *

* Comentário enviado por JB para o post "Hoje, apresentação em Viseu do livro de João Luís Oliva "ARTES E IDEIAS DA DESCONCENTRAÇÃO — Práticas Culturais de Outros Centros" 



Fotografia de Sara Augusto
Escrever ou falar de João Luís Oliva é igual à dificuldade de começar e preencher uma folha em branco. João Luís é único!

No lugar presente (social, económico e político), cultura é o que vem depois. A cultura está nas margens, pelos imperativos da sua condição ontológica ou pelas necessidades da sua inscrição social, um “quando depois não há mais nada” (para evocar um poema de David Mourão-Ferreira).

João Luís é um verdadeiro operador de metamorfoses e de todo o pensamento, herdeiro desobediente e feito de transgressões. Um trabalhador de inclusão da cultura, nas suas mais diversas concepções e manifestações, com uma espacialidade própria e de acordo com o conceito em que "as condições em que a cultura surge transformada em ingrediente de renovação potencial da vida social nas sociedades contemporâneas". (Carlos Fortuna)

Reconhecer pluralidades (amador/profissional; popular/elite; local/global) é um imperativo político – subjacente, quer às estratégias de fortalecimento da malha cultural quer aos planos de qualificação dos equipamentos. Reconhecer a cultura como área chave de uma estratégia de desenvolvimento – educação, economia, coesão social – é decisivo. Percebemos então a imensa responsabilidade de uma política de cultura coerente num país em que cultura nem Ministério tem.....?

Na cidade ideal João Luís Oliva seria o vereador da cultura e no país ideal José Tolentino de Mendonça o ministro da cultura. 

Na utopia….!

JB

Desencontro

Fotografia de Lillian Violet Bassman



Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.
Jorge de Sena