quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Palavra o açoite

Fotografia de Elmo Tide

Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filho
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
Emanuel Félix



terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Pequena elegia de Setembro

Fotografia de Jane Evelyn Atwwod


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Cultura, tertúlia na sexta à noite *

* O nome sportinguista enfim...
o que vale é que o Jorge Adolfo Meneses e o Luis Calheiros garantem uma noite interessante.
Apareça!

A greve dos controladores de voo in o poeta nu

Fotografia de Ralph Simpson


Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e explo-
raram cuidadosamente todas as naturezas mortas com flores, não
tendo deixado um único grão de pólen.

Um homem que se passeava nu na Praça de S. Marcos em Veneza foi
salvo no último momento de ser preso por atentado ao pudor, por
um bando de pombas que o vestiram completamente de branco.
Jorge Sousa Braga


domingo, 14 de Setembro de 2014

Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas


Fotografia de Gérard Castello-Lopes



Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.
Cristovam Pavia

A cousa mai´linda da Feira de S. Mateus'2014

Branca de Neve num "carrossel" infantil

Fotografia Olho de Gato

sábado, 13 de Setembro de 2014

Justiça




Não escute

Fotografia de Yan Ming



Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar

Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar

Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
Elizabeth Hazin

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

António Borges *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Faz hoje exactamente seis anos, em 12 de Setembro de 2008, publiquei aqui no Olho de Gato uma carta aberta dirigida a António Borges (na altura presidente da câmara de Resende), João Paulo Rebelo (na altura presidente da concelhia do PS em Viseu) e Miguel Ginestal (na altura vereador na oposição a Fernando Ruas).

Escrita quando Sócrates governava o país e o PS com mão de ferro e antes de umas eleições para as distritais socialistas, a carta aberta detalhava as razões que aconselhavam o fim, logo naquele ano, da longa liderança de José Junqueiro no distrito — ele não tinha peso político nenhum junto de Sócrates e tinha arranjado um telhado de vidro: estava, como consultor, na folha de pagamentos dos colégios privados do grupo GPS.

A carta, implicitamente, sugeria a António Borges, sem dúvida o socialista viseense mais influente e mais próximo de José Sócrates, para avançar para a distrital, e citava Peter Singer: «Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido.»

Como é sabido, nada na altura foi impedido.



2. Entretanto passou muita água debaixo das pontes. Com seis anos de atraso e sem surpresa, António Borges acaba de ser eleito presidente da federação distrital socialista. Os concludentes 71% de António Borges confrontam-no agora com dois problemas:

(i) escolheu para lhe suceder em Resende uma figura muito fraca que, em menos de um ano, conseguiu deitar ao rio Douro toda a dinâmica política do concelho; como vai fazer o agora líder distrital do PS para não perder Resende em 2017?

(ii) no final de Maio, António Borges roeu a corda a António Costa, para espanto deste, e meteu-se num beco sem saída chamado Seguro; como vai fazer o agora líder distrital do PS para que — e repito uma expressão da tal carta aberta — Viseu deixe de ser "um distrito peso pluma no contexto nacional"?

Intimates

Fotografia de Herbert List



Don't you care for my love? she said bitterly.

I handed her the mirror, and said:
Please address these questions to the proper person!
Please make all request to head-quarters!
In all matters of emotional importance
please approach the supreme authority direct! —
So I handed her the mirror.

And she would have borken it over my head,
but she caught sight of her own refection
and that held her spellbound for two seconds
while I fled.
D. H. Lawrence




Amigos íntimos

Não te importas com o meu amor? — disse-me ela asperamente.

Entreguei-lhe o espelho e disse:
Dirige, por favor, essas perguntas à pessoa indicada!
Faz as tuas consultas ao quartel-general!
Em todos os assuntos de importância emocional
Contacta directamente com a suprema autoridade! —
— E entreguei-lhe o espelho.

Ela devia tê-lo partido na minha cabeça
mas recebeu dele a sua própria imagem
e manteve-se suspensa dois segundos
enquanto eu fugia.
D. H. Lawrence
Trad.: Fernando Guedes


quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Nostalgia do Presente

Fotografia de Jindřich Štreit



Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.
Jorge Luis Borges


quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Citröen 2 CV

Fotografia de Henri Cartier-Bresson
(que está reflectido no vidro da esquerda)



Na descida de Monsanto
para o viaduto Duarte
Pacheco, o ponteiro
da velocidade desaparecia
completamente, perdido
para lá da marca laranja
dos 120 quilómetros por hora.
O carro trepidava e tudo à nossa
volta — o motor em alta rotação,
as estrelas através da capota aberta,
a silhueta de Lisboa, as infinitas
bifurcações da juventude - tudo
à nossa volta era uma vertigem.
José Mário Silva