quinta-feira, 31 de Julho de 2014

O meu eu triste

Fotografia de Bruce Gilden


Por vezes quando tenho os olhos vermelhos
subo ao cimo do Edifício RCA
e contemplo o meu mundo, Manhattan —
os meus edifícios, as ruas das minhas proezas,
apartamentos, camas, andares de águas correntes
— a 5ª Avenida em baixo que também recordo
os seus carros como formigas, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham, do tamanho de bolas de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
o pôr-do-sol sobre New Jersey onde nasci
e Paterson onde brinquei com formigas —
os meus amores tardios na Rua 15,
os meus maiores amores no Lower East Side,
as minhas antigas paixões fabulosas no distante
Bronx —
caminhos cruzando-se nestas ruas escondidas,
a minha história resumida, as minhas ausências
e êxtases em Harlem —
— o sol a brilhar em tudo o que possuo
num relance até ao horizonte
na minha última eternidade —
a matéria e a água.

Triste,
apanho o elevador e desço,
ruminando,
e caminho nos passeios questionando as vidraças humanas, caras,
perguntando-me quem ama,
e paro, atónito
em frente da montra de um stand de automóveis
perdido em pensamentos tranquilos,
o tráfico passando pelo edifício da 5ª Avenida, atrás de mim
esperando um momento quando...

São horas de ir para casa e fazer o jantar e ouvir
na rádio as românticas notícias da guerra
... todo o movimento se detém
e eu a caminho na tristeza intemporal da existência,
com ternura a escorrer dos prédios,
com as pontas dos dedos tocando a cara da realidade,
a minha própria cara riscada por lágrimas de vidro
de uma janela — no crepúsculo —
em que não desejo —
bombons — ou possuir os vestidos ou os quebra-luzes
japoneses de compreensão —
Confundido pelo espectáculo à minha volta,
Um homem pela rua acima lutando
com pacotes, jornais,
gravatas, fatos elegantes
em direcção ao seu desejo
Homens, mulheres, jorrando pelos passeios
semáforos marcando o tempo de relógios apressados e
o movimento na berma —

E todas estas ruas que se cruzam,
buzinando, pausadamente,
em avenidas
onde grandes edifícios se erguem ou enquistadas em vielas
pelo tráfico vacilante
carros que guincham e máquinas
tão doloroso para este
campo, este cemitério
esta quietude
em leito de morte ou montanha
que visto uma vez
não se recupera ou deseja
na memória futura
em que todo o Manhattan que vi irá desaparecer
Allen Ginsberg
Trad.: José Alberto Oliveira

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Patrioteirismos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 30 de Julho de 2010


1. Esta crónica ri-se do patrioteirismo de pacotilha que anda por aí à volta dos negócios da PT e recomenda a leitura de “O Império”, dos marxistas Michael Hardt e Toni Negri.

A ideia de nação não é uma ideia natural, é uma construção mental que tem evoluído ao longo dos tempos. Como disse Benedict Anderson: a nação é uma “comunidade imaginada” que, depois, “se tornou a única forma de imaginar a comunidade”.

Foi com o absolutismo e, mais tarde, com a burguesia e o capitalismo que a “nação” se organizou nos estados modernos. A nação definiu o “nós” e o “outros”, a nação declarou a guerra e a paz. Foi até a ideia de nação que acabou com as “nações subalternas” a que se chamava colónias.

O enterro do colonialismo e o derrube do muro de Berlim aceleraram a globalização. Os grandes problemas deixaram de ter soluções à escala dos países, por maiores que eles sejam.


Imagem daqui
Instituições supra-nacionais como as Nações Unidas ou o G-20 têm um papel cada vez maior. O processo globalizador criou muita jurisprudência internacional e fez surgir, até, justiça penal internacional.

Tudo isto teve consequências políticas: há cem anos, as esquerdas eram internacionalistas e cosmopolitas e as direitas eram nacionalistas e paroquiais. Agora, perante a globalização, os papéis inverteram-se.


2. José Sócrates, em dificuldades, vai disparando em todas as direcções. Já Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Manuel Alegre (o mais anacrónico dos três) respondem à actual crise sistémica global com um pensamento nacionalista que só é útil aos nossos grupos económicos que vivem aconichados no estado e são incapazes de criarem riqueza. Ou de pagarem impostos decentes, como se vê na banca.

Infelizmente, ninguém nas próximas presidenciais parece capaz de agitar este pântano. A esquerda desistiu de as tentar ganhar. E Cavaco não tem rasgo.

Elegia (Saudade)

Fotografia de Stephan Vanfleteren



Hoje é um dia de perfeito Verão. Já nele vejo,
com a dor de não querer ver, coisas de Outono
quedas e melancolias, preparações do fim.
É por vezes em esplendor que as durações terminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Mas hoje ainda é Julho e dia de Verão
não queria ver a água tão limpa deste tanque
tocada pelas folhas que a vide já perdeu.
Não queria ver ainda, mas a alma mesmo cega
por distracções diurnas e brilhos mensageiros
não deixa de guardar em cofre o que não viu
para um momento exacto de silêncio e solidão.

Hoje é dia de Julho mas são coisas de Outubro
que já nele vaticinam melancolia e fim.
Não queria ver ainda este voo de andorinhas
caindo para sul - elas são chamadas a desaparecer.
Também este sossego no pátio das traseiras
ainda não o queria ver - aí já morrem pétalas
dos vasos das hortênsias. Frutos não colhidos
apodrecem pelo chão - ameixas de Julho
lançadas a Novembro. E tu, com a beleza
que o Verão concede ao corpo: não queria ver ainda
essa expressão furtiva de quem se desengana
e entrega ao desamor. E no entanto é isso:
já cedo anoitece em províncias do teu rosto.

Hoje é dia de verão. Pudesse eu percebê-lo
sem os declínios e as forças sombreantes
antes nesse esplendor em que as durações culminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Oh, deixemos a tristeza desta lúcida saudade
e vamos para o sol e os jardins cheios de gente
louvemos as bebidas tão frescas e os risos
o rumor da aragem nas tílias e nas bétulas
e os cortinados leves arfando nas janelas.
As raparigas brilham e os rapazes são de sempre
no perfeito verão do seu dia de calor.
Que importa reparar que a hora já rodou
e o meu corpo lança uma sombra sobre o teu?
Carlos Poças Falcão



terça-feira, 29 de Julho de 2014

em folhas de acetato me proteges

Imagem de Katerina Belkina 



em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.
António Franco Alexandre




segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Lúcia Araújo Silva


A  anterior presidente da concelhia do PS-Viseu tem vindo a destacar-se pelo envio de spam aos militantes socialistas, usando a base de dados do partido.

Em 1 de Junho,  Lúcia Araújo Silva mandou aos militantes um texto anónimo anti-socrático. 

Percebeu-se então que, ao divulgar um texto que caracterizava José Sócrates como um "deliquente compulsivo" que "jogou irresponsavelmente os destinos do país", Lúcia Araújo Silva, afinal, sempre execrara o anterior primeiro-ministro. 


É necessária muita solidariedade e compreensão com o sofrimento interior da ex-presidente da concelhia do PS-Viseu. 

Dá para imaginar, entre 2005 e 2011 durante o consulado socrático, a inquietação ética e as insónias de Lúcia Araújo Silva?  

Felizmente parece tudo bem com ela. Ontem, em comunicado enviado aos militantes, depois de muita e confessada "auscultação", o anti-socratismo de Lúcia Araújo Silva saiu do armário e vai a votos.

Que tenha muitos.

Gosto das mulheres que envelhecem

Fotografia Olho de Gato


Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Nuno Júdice


domingo, 27 de Julho de 2014

Autobiografía

Fotografia de Richard Sandler



No he estado nunca solo. Siempre estuve
rodeado de amor. Tranquilamente
me dejaba querer: quiso la gente,
no sé por qué, tenerme en una nube
muy blanda de cariño. Yo flotaba
de mi madre a un amigo, de mi hermano
al recuerdo de un verso, del verano
a aquel silencio en el que Dios me hablaba.
Pero quise estar solo y ser más hondo.
Crispé los puños, apreté la boca,
y huí de los demás como una roca
que se suelta en un pozo. Y vi, en el fondo,
lo que busqué: a mí mismo, esta mirada
girando en espiral hacia la nada.
Enrique García-Máiquez


sábado, 26 de Julho de 2014

George Steiner sobre Ludwig Wittgenstein

"(...) a questão tabu: em que medida terá podido ser Ludwig Wittgenstein o deliberado arquitecto (a arquitectura foi uma sua paixão especializada) da sua própria lenda, do halo dramático que coroava e rodeava a sua presença.


Que poderá ter havido de intencional — e, por momentos, de histriónico — nas suas excentricidades, no seu recurso ao anátema, nos acessórios da sua abstinência, como a célebre cadeira de repouso em que constava que dormia?



Que terá havido de estratégico ou de alegórico na sua confissão de que só o andante do terceiro quarteto para cordas de Brahms o preservara do suicídio?





Trata-se aqui tão-só de sugerir que Wittgenstein foi também o virtuoso de uma «anti-retórica» formidavelmente retórica."
in A POESIA DO PENSAMENTO, 
de George Steiner

Slow food

Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Rendas (#3) *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. No último verão, tratei aqui em dois Olhos de Gato do regresso às rendas que está a acontecer na economia global.

Em vez de tratar de assuntos da silly season, escrevi então aqui: "Está a acontecer um movimento contrário ao início do capitalismo. Na altura, formas de riqueza imóvel (as terras e as suas rendas) foram ultrapassadas por formas móveis de propriedade (o lucro da produção industrial)."

Ao fim e ao cabo, tudo o que o sr. Ricardo Salgado, o rentista-mor da república, e os seus mordomos Barroso e Sócrates, andaram a fazer na década que nos levou à bancarrota ilustra bem esta sede de rendas.

O capitalismo financeiro vai tomando conta do comum (a água, o solo, o subsolo, as estradas, o vento, ...) através de formas cada vez mais complexas de propriedade (vejam-se os nós com que foram atados os contratos das rendas das eólicas, ou das PPPs rodoviárias, ou das águas do sul do distrito, ou...) Esses contratos fazem pingar nos beneficiários generosas rendas durante décadas, retirando futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

Como explica o economista suíço Christian Marazzi, quem gaba as virtudes da "economia real" contrapondo-as às maningâncias da "finança" não percebe o essencial: o combustível económico é, agora, cada vez mais a renda e cada vez menos o lucro. E o controlo da "economia do concreto" é exercido à distância.

Quem é, de facto, o "dono" dos Centros Escolares de Santa Comba Dão feitos em PPPs? Quem é o verdadeiro "dono" da A25?

Cada vez haverá mais formas imateriais de propriedade a viverem de rendas. E importa não esquecer o imaterial mais decisivo na economia do conhecimento: as ideias, as patentes, os direitos de autor.


 A partir de uma fotografia de Enric Vives-Rubio para o Público
2. António José Seguro, não contente com a confusão das primárias, marcou, também para Setembro, eleições para líderes distritais do PS.

O homem só é diferente do comandante do Titanic porque quer mesmo bater num iceberg.

Desde 1955

Fotografia Olho de Gato