domingo, 26 de Outubro de 2014

Meu corpo, que mais receias?

Fotografia de Alex Prager



— Meu corpo, que mais receias?
— Receio quem não escolhi.

— Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?

— Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.
Jorge de Sena

Outono em Viseu

Avenida da Europa, 23.10.2014
Fotografia de SM

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

#500 *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Este é o quingentésimo "Olho de Gato". Redondo número.


ONG 

Como explica Moisés Naím em "O Fim do Poder", à medida que o activismo político foi perdendo apelo, enredado que está na corrupção, no cinzentismo e na decadência, as Organizações Não Governamentais têm crescido em influência e importância planetária.

Os seus objectivos são mais claros e a sua organização é muito menos hierárquica e mais próxima dos seus membros. Estes sabem se pertencem a uma Ong filantrópica, ou ambiental, ou política, ou sanitária, ou..., e sabem fazer lobby e usar os media e as redes para imporem a sua agenda.

Em Portugal, para dar um exemplo, o Banco Alimentar Contra a Fome mantém uma extraordinária capacidade de mobilização. Apesar das asneiras que pendularmente Isabel Jonet expele pela boca fora, as pessoas percebem que o Banco Alimentar faz o que nunca nenhuma burocracia social do estado fará. E procedem em conformidade.


GONGO

As Gongo são "organizações não governamentais organizadas pelos governos", são um "faz-de-conta" usado pelos governos para tirarem partido da popularidade das Ong.

Um exemplo é a “Chiyoda - Associação Geral dos Residentes Coreanos”, sediada no centro de Tóquio, com 150 mil membros, dona de dezenas de escolas, uma universidade, várias empresas (até bancos), e que também... emite passaportes da Coreia do Norte, país que não tem relações diplomáticas com o Japão.


BONGO

Já o "Centro Português Para a Cooperação — CPPC", fundado por Pedro Passos Coelho em 1996 e pago pela Tecnoforma, não foi uma criação da sociedade civil como é uma Ong, nem uma criação de um governo como é uma Gongo.

O CPPC, que não tinha problemas de dinheiro, era, isso é certo, um "faz-de-conta" interessado no "sabor da selva" africana. 

À falta de melhor, chamemos-lhe uma Bongo.

Vão as serenas águas

Fotografia de Alfred Eisenstaedt




Vão as serenas águas
Do Mondego descendo
Mansamente, que até o mar não param;
Por onde minhas mágoas
Pouco a pouco crecendo,
Para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
Neste lugar ameno,
Aonde agora mouro,
Testa de nove e ouro,
Riso brando, suave, olhar sereno,
Um gesto delicado,
Que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente para mim vivia;
Em paz com minha guerra,
Contente com a pena
Que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
O esperar me enganava;
Longo tempo passei,
Com a vida folguei,
Só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
Que tão fermosos olhos não os há?

Oh quem me ali dissera
Que de amor tão profundo
O fim pudesse ver ind alguma hora!
Oh quem cuidar pudera
Que houvesse aí no mundo
Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
Para que desde agora
Perdesse a esperança,
E o vão pensamento,
Desfeito em um momento,
Sem me poder ficar mais que a lembrança,
Que sempre estará firme
Até o derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
Que daqui levar posso,
Com a qual defender-me triste espero,
É que nunca sentia
No tempo que fui vosso
Quererdes-me vós quanto vos eu quero;
Porque o tormento fero
De vosso apartamento
Não vos dará tal pena
Como a que me condena:
Que mais sentirei vosso sentimento,
Que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
Aqui acompanhando
Estes campos e estas claras águas,
E por mim ficarás
Chorando e suspirando,
E ao mundo mostrando tantas mágoas,
Que de tão larga história
Minhas lágrimas fiquem por memória.
Luís de Camões


«Marchar sobre São Bento!»

O genial João César Monteiro, sem dúvida e de longe o maior cineasta português, foi fazer gelados para o céu e deixou cá em baixo um vazio no cinema português que ... 






... só João Pedro Rodrigues será, talvez, capaz de preencher. 


Mas ainda tem que esgravatar muito.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

E fazer de Viseu a primeira cidade portuguesa com banda larga a um giga?

Daqui

Azuliante

Fotografia de William Klein

Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho      e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver       no meio do deserto       o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito       eu sei       choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem       sabem tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz       contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
os segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente       meu amor       de oriente a ocidente

Digo não       Eu digo não
digo o teu nome que diz não




No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos
passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite      mil e uma noites de quem espera
Meu amor      países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu       porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase da terra
tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua       eu a tempestade
de coração a coração

Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e      este será o sinal
António José Forte


quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

A vida

Fotografia de Lilian Brassman

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice




terça-feira, 21 de Outubro de 2014

A este vilancete velho

Fotografia de Sophie Calle





Saudade minha
quando vos veria?


Por terra já assi,
tudo em tal mudança,
que faz inda aqui
nenhuma esperança?
A minha lembrança,
a minha perfia,
que mais aperfia?

Que faz um desejo
tão desenganado?
Que faz o sobejo
deste meu cuidado,
comigo apartado
quando anoitecia,
quando amanhecia?

Saudades e suspeitas
a torto e a direito,
não sereis desfeitas,
quando eu for desfeito?
Inda o frio peito,
inda a língua fria
por vós bradaria.
Sá de Miranda



segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Tántalo

Suplício de Tântalo, de Gioacchino Assereto


Los dioses determinan su venganza
Con impulso cruel y insensitivo
Haciendo al hombre un mísero cautivo
Sin fe, sin liberdad, sin esperanza.

Tántalo sin cesar la mano avanza
Ya con fera ansiedad, o ardor furtivo;
La sed e el hambre lê consumem vivo,
Pero ni la água ni la fruta alcanza.

El hombre lanza su deseo al viento;
La mujer le recoge e le rechaza.
Se ofrece e se retira en un momento,

Ya la vez se desnuda y se disfraza.
Y el hombre queda solo en su tormento,
Con nada entre los brazos cuando abraza.
Francisco Hidalgo



domingo, 19 de Outubro de 2014

Fear — Medo

Fotografia de Leonard Freed


Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I've said that.
Raymond Carver






Medo de ver a polícia parar diante da casa.
Medo de adormecer durante a noite.
Medo de não adormecer.
Medo de que o passado regresse.
Medo de que o presente levante voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo das tempestades eléctricas.
Medo da mulher da limpeza que tem uma cicatriz no queixo.
Medo dos cães que me disseram que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter muito, apesar de ser difícil de acreditar.
Medo dos perfis psicológicos.
Medo de chegar tarde e medo de chegar antes de todos.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de os ver morrer antes de mim e de me sentir culpado.
Medo de ter que viver com a minha mãe, na velhice dela e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine em tristeza.
Medo de acordar e de ver que te foste embora.
Medo de não amar e medo de amar demasiado.
Medo de que o que eu ame seja letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demasiado tempo.
Medo da morte.

Isso já disse.