terça-feira, 28 de abril de 2015

Tiro ao Cavaco ou a verdade de um não Presidente?* — por JB

* Comentário de JB ao post "Cavacofobias"


1. Memória:

Em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou atribuir a Salgueiro Maia uma pensão, que tinha sido pedida pela viúva de Salgueiro Maia, pelos "serviços excepcionais e relevantes prestados ao país" devido à participação no 25 de Abril, por Salgueiro Maia.
A recusa ou a falta de resposta ao pedido só vieram a público três anos depois quando Cavaco Silva concordou com a atribuição de pensões a dois ex-inspectores da PIDE, um dos quais estivera envolvido nos disparos sobre a multidão concentrada à porta da sede daquela polícia política.

Só em 1995, já com António Guterres como primeiro-ministro, Salgueiro Maia viria a receber uma "pensão de sangue".

No entanto, em 2009, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, que decorreram na cidade de Santarém, o Presidente da República depositou uma coroa de flores junto à estátua de Salgueiro Maia. 
Uma tentativa de “branquear” a atitude de vinte anos antes…

Sobre a falta de Cavaco Silva, ao funeral de José Saramago, o conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa desvalorizou a ausência afirmando: «Está presente espiritualmente».

Já em 2013 Cavaco Silva destacou os efeitos positivos da aprovação da sétima avaliação da Troika para Portugal para declarar que se tratou de uma “inspiração de Nossa Senhora de Fátima”.

Carlos do Carmo? Quem é? Um morador no largo do Carmo, não é?
E ainda há mais: etc…etc….etc….

Um Presidente que Abril proporcionou e nunca um cravo vermelho colocou na lapela.

De Cavaco não teremos saudades. Um mau Presidente da República!


2. Realidade:

Uma Assembleia da República sem ideais, um Presidente da República que nos arremeda - o retrato da nossa condição actual.

Está hoje tudo mais claro que nunca : a Democracia é "o conflito, a dialética", como afirmou Eanes. O general Eanes foi o único que fez mais valia teórica, porque ainda gosta de estudar. Foi bom recordar que a democracia é essencialmente crise, como é típico de um Estado que quer ser racionalidade e, portanto, tem de gerir as crises de modo dinâmico.

3. O Futuro:

“Precisamos de um Presidente da República que não venha a ser presidente de outro partido qualquer. Estamos a acabar o segundo mandato de um Presidente que tem sido uma lástima, um desastre, é presidente de uma facção, acabou com aquilo que Eanes, Soares e Sampaio protagonizaram. Uma vez eleitos foram presidentes de todos os portugueses. Não podemos agora correr o risco de ter um presidente que seja o presidente de outro partido qualquer. Agora é do PSD, a seguir é do PS. Não pode ser! Temos de ter um Presidente que seja capaz de ser o Presidente de todos os portugueses.” 
Vasco Lourenço
I online, 27 de Abril de 15

Um novo ciclo para Portugal se aproxima e nós temos a obrigação de lutar por ele.

A meu favor

Gif daqui



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos
Alexandre O’Neil


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Cavacofobias

— 1 —

Um dos exercícios mais repetidos no nosso espaço público é o "tiro-ao-cavaco".  A seguir a estas declarações do início de 2012...




... o presidente da república nunca mais recuperou popularidade e passou a ser um "saco de boxe".  Até lhe "malham" pelos tropeções na gramática e pelos problemas de saúde. 

Como não gosto de alcateias, nunca mais o critiquei. É de evitar "bater" em quem está por baixo.

Aliás, desde então, Cavaco Silva só tem sido confrontado com coisas de intendência, nada de muito relevante. Todo o bruááá noticioso e comentadeiro à volta do que o PR tem feito não é mais do que espuma em cima de espuma. 

A única situação não espumosa foi a crise da "demissão irrevogável" de Paulo Portas, em Julho de 2013, que ele resolveu de uma forma exemplar e a merecer elogio. Cavaco Silva tentou até dar a mão a Seguro mas aquilo era demasiada areia para a fraquíssima camioneta do então líder do PS.

Depois deste longo intróito, que ainda não é o balanço dos dois mandatos do presidente da república, devo confessar que também já sofri de "cavacofobia". 

O texto de 2002 que se segue — com o título UMA CAVACADA — que penso ter publicado no Diário Regional de Viseu* (agora Diário de Viseu), é um exemplo de "cavacofobia", coisa que agora é uma "epidemia", mas então não era. 

De qualquer forma, estou curado dessa "maleita" e o texto que se segue corresponde só a um achado quase "arqueológico" no meu computador.



— 2 — 

UMA CAVACADA



“Como é que nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações. Só nos resta esperar que acabem por morrer…”
Cavaco Silva, 
Porto, 27 de Fevereiro de 2002


Este “deles”, de que fala Cavaco Silva, são os funcionários públicos.
Falou assim. Desta forma. Nem mais nem menos.

O doutor Cavaco Silva está preocupado com os funcionários públicos.
Quer-se livrar deles.

São demais. Muitos. Uns chatos. Uma maçada.
Estragam as contas públicas, embora descontem para a Caixa Geral de Aposentações.

São um alerta rápido da Comunidade Europeia, são o fim do Aeroporto da Ota, são a suspensão do Instituto Universitário de Viseu**, são uma incineradora dedicada em qualquer ponto do país à excepção de Coimbra ou Setúbal, são uma descida dos Impostos para os mais ricos.
Em suma: os funcionários públicos são uma página menos brilhante numa qualquer autobiografia política.

E depois, douto doutor Cavaco Silva, há uma outra angústia à volta deste problema: qual será a esperança de vida dos funcionários públicos?
Para não falar das funcionárias.
Será que ultrapassam - pela direita e pela esquerda, naturalmente - a esperança média de vida dos portugueses?

Será que Portugal vai precisar de privatizar a Caixa Geral de Depósitos para lhes pagar?
Será necessário abrir um off-shore nas Berlengas? Claro que seria um off-shore com poucos benefícios fiscais, e depois da necessária autorização do Dr. João Jardim da Madeira, esse expoente social-democrata da governação sem défice.

Como resolver este problema magno tão magnificamente identificado por V. Exa.?
Chegará um cartaz com uma criancinha rabina a fazer uma pergunta inteligente: 
“Vovó, porque é que os funcionários públicos não gostam da eutanásia?
Ou outro cartaz, de 8 metros por 3, com um guri, de olho vivo, perguntando: 
“Mamãiee, o Cavaco e o Durão não eram do mesmo governo?”

Assim como assim, e apesar de tudo, votos de longa vida a V. Exa., doutor Cavaco Silva.
Longa vida mesmo depois de ter deixado de descontar para a Caixa Geral de Aposentações.

* Escrevi-o para o DRV, mas não acho o recorte, pelo que não sei a data exacta da publicação.

** O Instituto Universitário de Viseu foi criado na fase final do governo de António Guterres mas não avançou por oposição expressa do primeiro-ministro seguinte, Durão Barroso.

eis-me acordado

Fotografia de René Peña


eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo

a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita de partilhar um segredo

este corpo em que me escondi
gastou-se

quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu

pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita

mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
Al Berto



domingo, 26 de abril de 2015

Violência urbana (#15)

Fotografia Olho de Gato


Não desisti de habitar a arca azul

Fotografia de Anna Williams

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.
António Ramos Rosa

sábado, 25 de abril de 2015

Estação


Fotografia de Robert Doisneau



Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny

Exiit qui seminat seminare semen suum

Pintura de Graça Bordalo Pinheiro

Exiit qui seminat seminare semen suum.

     Ermo semeador da liberdade, 
Saí sozinhos, antes da estrela;
Com a mão límpida e sem pecado, 
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o grão vivificante — 
Pena perdida: perdi meu tempo,
Meus bons desígnios e meus cuidados...

     Pastai então, povos mansos, pastai!
Não vos acorda o clamor da honra.
Os dons da liberdade a um rebanho
à matança ou tosquia destinado?
Vossa herança é, por todo o sempre, 
O jugo de chocalhos e a aguilhada.
Aleksandr Púchkin 
[1823]







sexta-feira, 24 de abril de 2015

"Acordos de regime" faralhados

Fotografia de José Sena Goulão daqui


António Costa já fez duas tentativas de "acordos de regime" do PS com a direita:
(i) — em Novembro, o regresso das pensões vitalícias dos políticos;
(ii) — agora em Abril, a censura prévia aos media.

Nada contra "acordos de regime", muito pelo contrário. O PS, o PSD e o CDS deviam entender-se, em sede de rigor orçamental, de forma a impedir a quarta bancarrota.

Mas privilégios de casta?!
Mas fazer de Portugal uma Hungria?!

Estas duas poucas-vergonhas foram abortadas pela reacção violenta da opinião pública. 

Era importante que os socialistas se lembrassem da nulidade cívica que foi o partido nos tempos autoritários de Sócrates onde aconteceu, em todos os patamares da hierarquia, um enorme défice de coluna vertebral.

Sete anos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Um pequeno factóide: depois da sobredose "revolucionária" dos media por alturas do 25 de Abril e do 1º de Maio, as sondagens costumam detectar uma ligeira viragem do eleitorado à direita. Será que este ano se repete?

2. Nenhum dos candidatos presidenciais folclóricos que já apareceram parece capaz de mais do que os cinco minutos de fama já obtidos.

Já tanto Paulo Morais como Henrique Neto vão continuar a ser ouvidos mesmo que não cheguem a reunir as sete mil e quinhentas assinaturas. Eles são dois homens estimáveis que têm denunciado a corrupção e os podres da terceira república. Estranhamente, nem um nem outro põe em causa o equilíbrio constitucional do regime. Paulo Morais declarou até que o PR não precisa de mais poderes.


Sondagem feita a um povo sábio
Artigo completo aqui
Será mesmo assim? Recordemos: todos os quatro presidentes — Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco — tiveram dois mandatos. Os presidentes foram sempre reeleitos e isso não foi por acaso. É que, nos primeiros cinco anos, todos eles foram umas nulidades só preocupadas com uma coisa: a sua reeleição. Recordo os dois casos mais danosos — o presidente Soares aplanou a vida ao primeiro-ministro Cavaco até 1991 e o presidente Cavaco aplanou a vida ao primeiro-ministro Sócrates até 2011.

É por isso que seria desejável um mandato presidencial não renovável de sete anos, para evitar os decorativos cinco anos iniciais da função presidencial.

3. A chegada do "2020", o dinheiro da "Europa", fez regressar o sonho húmido preferido dos nossos políticos — as infra-estruturas.

Ele é a auto-estrada de Viseu para o sul com geografias cada vez mais estranhas. Ele é um comboio novo-em-trinque na estação de Viseu. Ele é um comboio recauchutado na estação de Mangualde. Ele é o PSD — o exacto mesmo que faliu a câmara de Santa Comba Dão — a querer de novo um pouca-terra-pouca-terra no ramal do Dão, com maquinista, pica e passageiros a dizerem adeus-adeus às licras da ecopista.

Não se aprendeu nada com a bancarrota de 2011.

O Sena não se vende


Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Jorge de Sena



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Triste de mim mais triste que a tristeza

Fotografia de William Eggleston



Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral
Fernando Assis Pacheco