sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Paciente zero*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Chama-se “paciente zero” ao iniciador de uma epidemia. No caso da sida nos EUA, essa maldição foi atribuída erradamente ao comissário de bordo Gaëtan Dugas, falecido em 1984. Embora ele tivesse sido um espalhador do HIV nas saunas gay das cidades onde aeroportava, a verdade é que não foi o primeiro: recentes análises a amostras de sangue recolhidas nos anos de 1970 mostram que o HIV já circulava antes em Nova York.

Acrescente-se: o nome de Gaëtan constava de um estudo científico mas nunca devia ter vindo a público, foi um jornalista inescrupuloso que, para se best-sellar, o prantou num livro sobre a sida.

Num artigo de 29 de Outubro no New York Times, Donald G. McNeil Jr interroga-se sobre se, eticamente, é correcta esta procura científica pelo “paciente zero”. A resposta é afirmativa, é importante saber-se a origem de uma epidemia e, ainda mais, identificar os super-espalhadores, alguns deles assintomáticos, a quem o “bicho” não mata mas mata quem eles contagiam.

2. O festival “Tinto no Branco” trouxe, a Viseu, Bruno Vieira do Amaral e Fernando Pinto do Amaral para indagarem “que mestres restam à literatura”.


 Fernando Pinto do Amaral, Maria João Costa (moderadora) e Bruno Vieira do Amaral
Fotografia Olho de Gato

Os dois escritores foram excelentes: não se ficaram pelas historiecas usuais dos festivais literários, muito menos pelo exercício de atirar nomes para o Olimpo.

Bruno Vieira do Amaral sublinhou que onde há mestres há discípulos, tensão entre eles e necessidade dos segundos se rebelarem contra os primeiros.

Já Fernando Pinto do Amaral definiu mestre como aquele que “cria um território novo”, como é o caso de Aquilino que até “inventou uma língua nova”. Para ele, agora já não há tensão nenhuma, os discípulos glosam, todos prazerosos, os mestres. E acrescentou: um mestre é o “paciente zero”, o “inaugurador de uma epidemia”.

3. Duas magníficas notícias: a Itália disse não ao sinistro plano do sr. Renzi de concentração de poderes no governo e a Áustria não se tornou no “paciente zero” da Europa.

Um azul tão azul




Agora falarei dos olhos gregos de Ariane,
que não são de Ariane nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de água dos oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul
que são mesmo o azul dos olhos de Ariane.
Sophia de Mello Breyner Andresen



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Tiririca — um texto de JB

Leio no Diário de Viseu - on line 6/12/16:
“Os autarcas de 22 dos 24 concelhos do distrito de Viseu assinaram ontem, nas instalações do Regimento de Infantaria n.º 14, em Viseu, um protocolo com o ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, o ministro da Educação, Brandão Rodrigues, e o secretário de Estado das Autarquias Locais, Carlos Miguel, que visa impulsionar a implementação do “Referencial de Educação para a Segurança, Defesa e Paz”.

PS Viseu, sempre a "trabalhar bem"!
Oferece lançamento da campanha em espaço “politicamente correcto”, em função do poder autárquico.


Boa notícia para o Boletim da Câmara e com excelentes fotos:
Fotografia daqui 

Ministro da Educação continua campanha de "manteiga ou margarina".... sirvam-se do que desejarem. Eu pago!

João Paulo Rebelo marcou presença na qualidade de ex-vereador, membro governo ou bom rapaz?
Aliás, no PS-Viseu, são todos bons rapazes e boas raparigas. É uma chatice é haver gente que pensa, é o que é…

O/A candidato(a) à CMVvai ser um estrondo! É como o Tiririca, pior não fica!

Sugestão para a música da campanha autárquica do PS-Viseu: 



JB

La chica que conocí en una boda

Daqui

fue la prima que entonces se casó
luego hubo baile
piano y batería mucho vino
yo diría que gentes más bien pobres
con los trajes de muerto de las fiestas
nevaba muchos viejos
que echaban la colilla en un barreño
y sacudían la mota
mucha música
la pizpireta que se está
bajando las bragas
se pone de puntillas
mira a la galería
con aquellos ojazos virgen santa
y aquel reír el vino
estuvo luego haciendo lo restante
hasta que ya no pude contenerme y se lo dije
no a ella
a mis amigos
y estuve enamorado como un mes
Antonio Martínez Sarrión


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Generais*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2006


1. O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.

Temos agora aí o novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) que cria duas categorias de docentes: o professor e o professor titular. Os professores titulares vão ganhar mais e vão ser a elite. É suposto ser a eles que vão ser entregues as tarefas mais complexas e que exigem mais experiência.

Depois da manifestação de 25 mil professores em Lisboa, a 5 de Outubro, a ministra teve que ficar calada mais de um mês e foi José Sócrates que veio para o terreno defender o novo ECD.

O primeiro-ministro usou então repetidamente a metáfora da tropa: as escolas são como a tropa e na tropa só poucos e os melhores é que chegam a generais.

2. O novo Estatuto da Carreira Docente reserva em exclusivo aos professores titulares sete funções: (i) coordenação pedagógica; (ii) direcção dos centros de formação; (iii) coordenação de departamentos; (iv) supervisão da prática pedagógica; (v) acompanhamento do período probatório; (vi) elaboração e correcção de provas nacionais; (vii) participação em júri de provas para professores titulares.

Como se vê, afinal, para pertencer ou presidir a um Conselho Executivo, não é necessário ser professor titular. Isto faz algum sentido? Haverá, numa escola, função mais importante do que dirigi-la?

Para quê tanta conversa sobre hierarquia do mérito, ...
Daqui
... se vamos ter nas escolas “sargentos” a mandar em “generais”?

3. Ao fundo da Avenida da Europa, o tiquetaque do relógio do POLIS não engana: faltam 24 dias para as obras ficarem prontas. O Dr. Ruas vai ter muito trabalho até ao fim do ano…

the crunch

Daqui


too much too little
too fat
too thin
or nobody.
laughter or
tears
haters
lovers
strangers with faces like
the backs of
thumb tacks
armies running through
streets of blood
waving winebottles
bayoneting and fucking
virgins.
an old guy in a cheap room
with a photograph of M. Monroe.
there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock
people so tired
mutilated
either by love or no love.
people just are not good to each other
one on one.
the rich are not good to the rich
the poor are not good to the poor.
we are afraid.
our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners
it hasn't told us
about the gutters
or the suicides.
or the terror of one person
aching in one place
alone
untouched
unspoken to
watering a plant.
people are not good to each other.
people are not good to each other.
people are not good to each other.
I suppose they never will be.
I don't ask them to be.
but sometimes I think about
it.
the beads will swing
the clouds will cloud
and the killer will behead the child
like taking a bite out of an ice cream cone.
too much
too little
too fat
too thin
or nobody
more haters than lovers.
people are not good to each other.
perhaps if they were
our deaths would not be so sad.
meanwhile I look at young girls
stems
flowers of chance.
there must be a way.
surely there must be a way that we have not yet
thought of.
who put this brain inside of me?
it cries
it demands
it says that there is a chance.
it will not say
"no."
Charles Bukowski


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Por este rio acima

Rio Douro
Gif Olho de Gato


Continuando nosso caminho por este rio acima, tudo quanto a vista alcançava era embarcações com toldos de seda e muitos estandartes, guiões e bandeiras e varandas pintadas de diversas pinturas. 

Ali se trocam e oferecem todas as sortes de caças e carnes quantas se criam na terra, que nós andávamos como pasmados como requeria tão espantosa e quase incrível maravilha. Noutras embarcações vêm grande soma de amas para crianças enjeitadas e outras, pelo tempo que cada um quiser, mulheres velhas que servem de parteiras dando mezinhas para botarem crianças, e fazerem parir ou não parir. 

Noutros barcos há homens honrados que servem de correctores de casamentos e consolam mulheres enlutadas por morte de maridos e filhos e outras coisas desta maneira. Em barcaças de muitas cores, com invenções de muitos perfumes e cheiros muito suaves vêm homens e mulheres tangendo em vários instrumentos para darem música a quem os quiser ouvir. 

Na terra do labirinto das trinta e duas leis, nesta terra toda lavrada de rios, a China, há uma tamanha observância da justiça e um governo tão igual e tão excelente, que todas as outras, por mais grandiosas que sejam, ficam escuras e sem lustro.
Fernão Mendes Pinto
Peregrinação



domingo, 4 de dezembro de 2016

Bolas novas

Uma lei da vida: bolas novas ocupam o lugar das bolas velhas.
Fotografia Olho de Gato


O barco vai de saída

Fotografia Olho de Gato



Me socedeo hum caso que me pos a vida em tanto risco, que para a poder saluar me foy forçado sairme naquella mesma ora de casa, fugindo cõ a mayor pressa que pude, & indo eu assi tão desatinado co grande medo que leuaua, que não sabia por onde hia, como quẽ vira a morte diãte dos olhos, & a cada passo cuidaua que a tinha comigo, fuy ter ao cayz da pedra onde achey hũa carauella d'Alfama, que hia com cauallos & fato de hum fidalgo para Setuual, onde naquelle tempo estaua el Rey dõ Ioão o terceiro que santa gloria aja cõ toda a corte, por causa da peste que então auia em muytos lugares do Reyno: nesta carauella me embarquei eu, & ella se partio logo, & ao outro dia pella menhã sendo nos tãto auante como Cezimbra nos cometeo hum Frances cossairo, & abalroando com nosco, nos lãçou dentro quinze ou vinte homẽs, os quais sem resistencia, nẽ contradição dos nossos, se senhorearão do nauio, & despois que odespojarão de tudo quãto acharão nelle, que valia mais de seis mil cruzados, o meterão no fundo, & dezasete que escapamos cõ vida, atados de pès & de mãos nos meterão no seu nauio, cõ fundamento de nos leuarem a vender a Larache, para onde se dizia que hião carregados de armas que de veniaga leuauão aos Mouros.
Fernão Mendes Pinto
Peregrinação



sábado, 3 de dezembro de 2016

Volta até mim no silêncio da noite

Daqui


Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré cheia da manhã com que
todos os náufragos sonharam.
Nuno Júdice