sábado, 6 de fevereiro de 2016

Debaixo do crânio



Isso que não pára, pulsa
e dispara, isso sou eu?
Mas como? É só
a massa cinzenta de dentro.
Ela me observa,
eu a observo.
Um surpreende o outro.
Nem sempre meu cérebro faz
o que eu quero. Mal-entendidos,
conflitos não faltam.
Quando cai a noite,
eu tento, simplesmente,
desligá-lo. Em vão.
Ele segue a trabalhar, a produzir,
invenções de própria lavra,
e delas nada sei,
por elas mal respondo.
Volta e meia, sem consultá-lo,
eu também faço das minhas.
E só muito tarde paramos
de espreitar um ao outro
e deixamos estar.
Então se faz, por fim, a paz.
Hans Magnus Enzensberger





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ca-martelo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Wikipédia
1. A Estrada Nacional 2 (N2) é a coluna vertebral do país, atravessa-o de Chaves a Faro. São 738,5 quilómetros de rectas, curvas, subidas, descidas, planuras, paisagens belíssimas.

Depois de 8 de Dezembro de 2011, data em que foram accionados os pórticos da A24, a N2 reganhou trânsito. Sempre que posso é por lá que circulo.


Ora, no início daquele fatídico ano da bancarrota, na descida de Vale de Azia para a Ponte Pedrinha de Castro Daire, houve uma parte da N2 que colapsou talqualmente o país. Metade da estrada desapareceu. Um perigo: numa zona de curvas e pouca visibilidade, sobraram uma faixa de rodagem e um abismo.

Passou 2011. Passou 2012. Passou 2013. Passou 2014. Vários acidentes aconteceram ali. Felizmente, não morreu lá ninguém. Foi só no passado Verão, quatro anos depois, que a “Estradas de Portugal” (será este o nome? estão sempre a mudar o nome às instituições, nem vale a pena fixá-los...) avançou o concurso para acabar com aquela armadilha. Quatro anos. O caso foi contado na altura por este jornal. Sabe qual foi o custo daquilo? Um “balúrdio”. Trinta mil euros. Aquelas criaturas precisaram de quatro anos para fazer uma obra de... trinta mil euros.

2. Entretanto, em 14 de Outubro, saiu a portaria nº 357/2015 a fixar as taxas a pagar pelos “usos privativos do domínio público rodoviário do Estado”.

Precisa de compor um muro à beira de uma estrada nacional? Prepare 500 euros para abertura do processo, mais €146,50 para autorização da obra e mais cinco euros por cada metro de muro. Tem um acesso de garagem para a N2 ou para a N222? Prepare duzentos euros por ano para a “autoridade pública” das estradas.


Ó ministro Mário Centeno, o senhor que tem sido um campeão a martelar contas mude agora de ferramenta. 

Largue o martelo e pegue num camartelo. 

Faça o favor de demolir esta desvairada portaria da sua predecessora, a “sodona” Maria Luís Albuquerque.

Metade

Fotografia de Bernard Plossu



Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque a metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra…
também.
Ferreira Gullar

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Inventário de lugares propícios ao amor

Fotografia de Robert Doisneau



Son pocos.
La primavera está muy prestigiada, pero
es mejor el verano.
Y también esas grietas que el otoño
forma al interceder con los domingos
en algunas ciudades
ya de por sí amarillas como plátanos.
El invierno elimina muchos sitios:
quicios de puertas orientadas al norte,
orillas de los ríos,
bancos públicos.
Los contrafuertes exteriores
de las viejas iglesias
dejan a veces huecos
utilizables aunque caiga nieve.
Pero desengañémonos: las bajas
temperaturas y los vientos húmedos
lo dificultan todo.
Las ordenanzas, además, proscriben
la caricia (con exenciones
para determinadas zonas epidérmicas
— sin interés alguno —
en niños, perros y otros animales)
y el «no tocar, peligro de ignominia»
puede leerse en miles de miradas.
¿Adónde huir, entonces?
Por todas partes ojos bizcos,
córneas torturadas,
implacables pupilas,
retinas reticentes,
vigilan, desconfían, amenazan.
Queda quizá el recurso de andar solo,
de vaciar el alma de ternura
y llenarla de hastío e indiferencia,
en este tiempo hostil, propicio al odio.
Angel González


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

História*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Fevereiro de 2006


1. O que se segue não tem nada de original mas, às vezes, é necessário recordar factos básicos da história dos povos:

Em 1945, Winston Churchill tinha levado a Inglaterra à vitória sobre Adolf Hitler. Churchill, na altura já com mais de 70 anos, tinha resistido e vencido a máquina assassina da Alemanha nazi. Com “sangue, suor e lágrimas”, a barbárie foi derrotada e erradicada da Europa. (Regressaria com Milosevic e o colapso da Jugoslávia, nos anos 90 do século XX, mas isso já é outra história.)

Regressemos ao fim da II Guerra Mundial. Ainda fumegavam os canos dos canhões, quando houve eleições gerais na Inglaterra. Foi uma campanha entre Winston Churchill, do Partido Conservador, e Clement Atlee, do Partido Trabalhista. Apesar de tudo o que tinha feito durante a guerra, Churchill perdeu e Atlee ganhou.

É assim a democracia. O povo escolhe e há que respeitar a vontade do povo. Passados 60 anos, poucas pessoas saberão quem foi Clement Atlee mas toda a gente sabe quem foi Churchill.

2. É verdade que Mário Soares teve um péssimo resultado. Não é só nos sectores da direita mais troglodita que se vê uma mal disfarçada alegria pela “humilhação” que Mário Soares teve no dia 22 de Janeiro.

Especialmente a quem está tão divertido quero lembrar que, até agora, só há três nomes que vão ficar na História da República Portuguesa: Afonso Costa, Oliveira Salazar e Mário Soares. O que aconteceu agora, em Janeiro de 2006, ficará como uma mera nota de rodapé na biografia de Mário Soares.

3. Manuel Alegre deixou que lhe fizessem uma estátua em vida. 

A estátua está, algures, em Coimbra. 

Quem deixa que lhe façam uma estátua em vida tem o ego avariado. 

Não voto em gente com o ego avariado. 

Fica feita já a minha declaração de voto para 2011.

Acrilírico

Fotografia de Hans Feurer




as suas ágeis mãos sonharam tempo
quase entre os meus recados, os secretos
canais onde altos barcos, a
brancura,
sabia o som das vozes imortais.
juntou-me ao seu cabelo, à sua audaz
mudança de memória.
agora encosto os cantos nas esquinas
na prata enevoada dos seus dedos.
já me esqueci? não sei se me persiste
um duro chão, a escada
redonda onde nasci,
a breve idade.
estou no vento que escorre as suas águas
na barreira de incesto que nos move.
em suas mãos dissimulado
avança, entre clareiras, o roteiro
de nossas mansas aves.
aceito a sua água, o seu retrato
junto à ponte, no meio
de inúteis castiçais.
ouço-a, de noite, sussurrar as penas
que a língua não consente.


é o seu bafo que me aquece
as brilhantes retortas
o doce candelabro.
eis a sua pálida figura, o seu retrato
a giz nos vastos
armazéns do império.
és este cuspo de óleo, este ligeiro
verso da lembrança.
ou ficará de mim esse outro rastro?
no resto dos seus olhos
pousarei o lençol, lembrando
o ângulo das chuvas, e os brandos
meteoros.
passeio-me
de tranças, com um fio
azul por entre as franjas
flexíveis da memória.
encontro esse motivo nos teus dedos,
na sua carne de curtume branco.
deixa que viva nos seus olhos, rosto.
entornou-se no vento foi delgada
como as ruínas de uma
breve espera.
António Franco Alexandre


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

o terror da beleza

Fotografia de Pedro Lombardi


até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa
Herberto Helder


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mirita Casimiro — dois anos de nada

Fotografia Olho de Gato

No dia 1 de Fevereiro de 2014, no Auditório Mirita Casimiro, foi "eleita" uma direcção filha de lista única, num processo eleitoral patético que pode ser relembrado aquiaquiaqui, aquiaqui.

Faz hoje exactamente dois anos que essa direcção filha de lista única "comanda" aquela casa. Resultado: nada. Nada acontece ali. Uma casa integralmente paga com dinheiros públicos, no centro da cidade e zero. Nicles. Népias. Moscas e teias de aranha.

Parabéns à prima!

Defensa de la alegría

Fotografia de Bruce Davidson



Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría.
Mario Benedetti


domingo, 31 de janeiro de 2016

Deja vu

Fotografia de Francesca Woodman


Vuelve a soñar
que en tus pies
te caben mis zapatos.

No le temas al tiempo
que has pasado
sin rozarte con mi sombra.

Tu cárcel de palabras
no me importa,
mis zapatos
están llenos de ti,
me perteneces cada vez que camino
por tu memoria suicida
de amante condenado
al desamor perpetuo.

Vuelve a soñar
que soy yo la que te mira
en el espejo del baño,
y tu abrazo me hace ser
idéntica a ti.

No le temas al tiempo
que dejaste pasar
cada vez que mis labios
evocaban tu rastro
de pequeño secreto
guardado en un reloj
con forma de juguete.

Vuelve a soñar
que nos cruzamos
en un desierto lleno
de lagartijas y aguacates,
y las mañanitas se transforman
en nuestro último baile.

Vuelve a soñarme ahora
que ya eres viejo
y me atrevo a buscarte
sin pedirte permiso
porque fuiste mi cuerpo
y a mi también me duelen tus cadenas.
Ana Merino


sábado, 30 de janeiro de 2016

O Mistress mine, where are you roaming?


Fotograma do videoclip 




Twelfth Night, Act II, Scene III

The Clown, singing


O Mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love’s coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journeys end in lovers’ meeting—
Every wise man’s son doth know.

What is love? ’tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What’s to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,—
Then come kiss me, Sweet-and-twenty,
Youth’s a stuff will not endure.
William Shakespeare


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Presidenciais — 2011 e 2016*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 24 de Janeiro de 2011, no dia a seguir à segunda vitória de Cavaco, José Sócrates, muito bem-disposto, chamou Mário Soares a S. Bento:

«Ó Mário, acabámos com aquele &ß#Ω$§!»

«Eh pá, não gosto disso. Palavra que não gosto disso, não é bonito, não diga isso.»

«Eh pá, mas ele estava na merda, eu nunca o vi assim.»

«Pode ter estado, mas não se esqueça que o Alegre pode ter defeitos mas também tem os seus méritos.»

Mário Soares contou isto numa entrevista a Joaquim Vieira, autor da biografia “Mário Soares, Uma Vida”. Passaram cinco anos. Não precisamos da transcrição de nenhum diálogo entre António Costa e Carlos César ou Ana Catarina Mendes para intuirmos que o primeiro-ministro ficou muito contente com o colapso eleitoral de Maria de Belém.

Portanto: em duas presidenciais seguidas, tivemos dois secretários-gerais socialistas satisfeitos com o afundanço eleitoral de dois seus destacados militantes. Esta esquizofrenia do PS tem-lhe dado derrotas eleitorais nada “poucochinhas”, ora um pouco acima ora um pouco abaixo dos 30%. Nenhuma “geringonça” consegue esconder esta fragilidade política. E ética.

Fotografia daqui
2. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou à primeira volta. Sem surpresa. Estas eleições foram civilizadas, ao contrário das de há cinco anos.

Desta vez, até o voto anti-sistema foi para um candidato amável: Vitorino Silva. Tino de Rans ficou em sexto a nível nacional e foi quarto no distrito de Viseu. Em Cinfães e S. João da Pesqueira, o grande Tino arrebatou 8,5% e a medalha de bronze.

A votação de Sampaio da Nóvoa, tal como a de Fernando Nobre de há cinco anos, não vai servir para nada. Os resultados de Marisa Matias (muito bons) e Edgar Silva (péssimos), os outros candidatos da “geringonça”, também não acrescentam nada.

O emprego de António Costa nunca dependeu das presidenciais. Para já, ele depende, acima de tudo, da credibilidade que a “Europa” e os mercados vão dar à folha-de-cálculo de Mário Centeno.