quinta-feira, 17 de Abril de 2014

SMS #10 — o clepto-keynesianismo*

* Esta SMS foi escrita para o Correio Beirão, simpático jornal das "Terras do Demo" que agora suspendeu a sua publicação



Jornal do Centro, 28 de Março de 2014

Carlos Alberto Oliveira, o director da Escola Secundária Viriato, a terceira secundária de Viseu, disse a um jornal cheio de razão: 

“com o que foi gasto nas escolas Alves Martins e Emídio Navarro talvez pudessem ter sido feitas três obras, em vez de apenas duas.”


De facto, a “festa da arquitectura” da Parque Escolar foi mesmo à tripa-forra.

Se criou uma nova corrente económica, o clepto-keynesianismo, é coisa que o futuro dirá.

Isabel Moreira, de longe a mais eficaz deputada da oposição




Não foi Seguro, não foi Jerónimo, não foi a bicefalia bloquista, que infligiram as duas maiores derrotas políticas da maioria PSD/CDS que nos governa desde o Verão de 2011.

As duas maiores derrotas da direita devem-se à iniciativa política de Isabel Moreira:

1. A Isabel Moreira se deve não estarem completamente perdidos os subsídios de férias e de Natal.

Em 2011, a "abstenção violenta" de António José Seguro e o imobilismo de Jerónimo de Sousa não se mexeram para suscitar a constitucionalidade daqueles cortes. 

Foi ela que mobilizou os deputados socráticos e bloquistas para submeterem o caso ao Tribunal Constitucional.

2. A Isabel Moreira se deve a aprovação inicial da co-adopção no parlamento.

Esse movimento, que só a ela se deve, obrigou Pedro Passos Coelho a tirar a máscara tolerante e vir mostrar que, também ele, é reaccionário em matéria de costumes. 

Para além da triste figurinha dos deputados cujas convicções são mais moles que gelatina.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Ser “ex”

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Abril de 2010


Fotografia do Jornal de Negócios
1. A EDP paga bem. O senhor António Mexia leva para casa 3,1 milhões euros. A senhora Ana Maria Fernandes, da EDP-Renováveis, leva 2,4 milhões.

O caso de Ana Maria Fernandes foi pouco falado por cá mas isso não admira já que a empresa que ela dirige tem sede em Madrid. Foi feito à EDP-Renováveis o mesmo que o senhor Correia de Campos fez às grávidas de Elvas. A empresa foi espanholizada e, em consequência, em vez de parir impostos, dá à luz “impuestos”.

Já os 3,1 milhões do senhor Mexia causaram comoção cá na pátria. Com gigawatts de razão, António José Seguro considerou-os “obscenos” e “uma imoralidade".

O senhor Mexia tem a melhor profissão de Portugal – ele é “ex-ministro”. Ser “ex-ministro” é meio caminho andado para se obter um lugar bem pago nos “negócios” porque os “negócios” em Portugal carecem duma ecologia muito especial. Os nossos grandes grupos económicos vivem aconichados no estado, parasitam-no, prosperam a partir dele sem correrem riscos. E tudo é feito entre “ex-ministros” e futuros “ex-ministros”.

Deste tráfico pingam chorudos prémios. “Obscenos” como diz António José Seguro. Nada nestes prémios tem a ver com competência gestional. O talento desta gente é só um: ter uma “rede de contactos”.

Estas “redes de contactos” tanto engendram submarinos, como aumentos da electricidade, como contentores, como obras em liceus por ajuste directo. Com a divina bênção do Espírito Santo que, em Portugal, como se sabe, está em todo o lado.

2. O Decreto Legislativo Regional nº 14/2010/A, de 9 de Abril, isenta os veículos açorianos da obrigatoriedade de usarem o dispositivo electrónico de matrícula. Os Açores disseram não aos “chispes” das matrículas.

Falta agora o resto do país fazer o mesmo.

Portas pintadas (#5)


terça-feira, 15 de Abril de 2014

Poeminha de insatisfação absoluta

Fotografia de Emile Savitry


O que me dói
É que quando está tudo acabado
Pronto pronto
Não há nada acabado
Nem pronto pronto
Pintou-me a casa toda
Está tudo limpado
O armário fechado
A roupa arrumada
Tudo belo, perfeito.
E no mesmo instante
Em que aperfeiçoamos a perfeição
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
Não sei onde,
Está começando
Na pintura da casa
E as traças, não sei onde,
Estão batendo asas
E a poeira, em geral, está caindo invisível,
E a ferrugem está comendo não sei quê
E não há jeito de parar.
Millôr Fernandes

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

HORA SOLAR APARENTE — exposição de relógios de sol construídos por Pedro Almeida Gomes


A partir de hoje, 14 de Abril (18H00) e até 10 de Maio

Realização da agência de Viseu do INATEL nas suas novas instalações na Av. Calouste Gulbenkian


Ar

Fotografia de Nobuyoshi Aracki


É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.
Olga Savary

Desfile Afonsino (#1)

Viseu, 21 de Setembro de 2009
Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Vistos dourados *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Portugal, depois de terminado o comércio de escravos no Brasil em 1891, virou-se para o proveitoso comércio com países em guerra. Comércio legal ou não legal.

Foi assim na guerra anglo-boer no virar do século XIX para o século XX, foi assim com os abastecimentos aos nacionalistas durante a guerra civil espanhola nos anos de 1930, foi assim na década a seguir com a venda de volfrâmio à Alemanha nazi. Aqui nas beiras fez-se bom dinheiro com esse volfrâmio.

Mais tarde, já durante a guerra colonial, Portugal soube tirar partido da situação marginal dos estados racistas da Rodésia branca e da África do Sul.

A nossa diplomacia é boa a tratar “da cobrança de facilidades” em “situações de marginalidade internacional”. 


Toda esta informação vem descrita no último livro de José Medeiros Ferreira: “Não há mapa cor-de-rosa, a história (mal)dita da integração europeia”, cuja leitura vale a pena, muito mais que perder tempo com a retórica indigente destas eleições europeias.


Imagem daqui
Medeiros Ferreira, com o seu sentido de humor inigualável, chamou a esta nossa especialidade: “drenagem atípica de rendas exógenas”. Nisto somos bons e há muito tempo. Esta experiência acumulada tem agora um novo campo de aplicação: a venda de vistos dourados a milionários chineses.

E as coisas podem não ficar por aqui: a tríade que manda — formada pela advocacia de negócios, pela banca e pela alta burocracia partidária — ainda se vira para o mercado dos milionários russos e faz um rombo na mais proveitosa “indústria” do Chipre.

2. Os 28 mil euros da reintegração na reforma do ex-vereador Cunha Lemos foram levados à sessão da câmara de Viseu mas não para serem votados. 
Foi só “para conhecimento”. Foi só um momento filosófico.

O assunto é trazido aqui também “para conhecimento” dos leitores. No mês em que pagam a primeira prestação do IMI.

SMS #9 *

* Publicado hoje no Correio Beirão



Imagens e detalhes sobre a bancarrota de 1892 aqui
José Dias Ferreira foi o primeiro-ministro da nossa bancarrota de 1892. A sua bisneta Manuela Ferreira Leite foi ministra das finanças 110 anos depois, em 2002.

Por sua vez, Joaquim Pedro Oliveira Martins foi o ministro da fazenda do “não pagamos” em 1892. O seu sobrinho-bisneto Guilherme d'Oliveira Martins foi ministro das finanças 109 anos depois, em 2001.

Passam os anos, repetem-se os apelidos. E as bancarrotas.