sábado, 20 de dezembro de 2014

Regressar

Fotografia de Leonid Tishkov


Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar
Carlos Poças Falcão





sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Há corrupção boa?

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia Olho de Gato
1. Os "presépios" de verdura que a câmara de Viseu espalhou na cidade fizeram-me ir reler “Maus Samaritanos, o Mito do Livre-Comércio e a História Secreta do Capitalismo”, de Ha-Joon Chang.

Este livro conta a história económica “não oficial” dos países desenvolvidos (os tais "Maus Samaritanos"), países que se fartaram de plagiar e roubar invenções uns aos outros, mas que não aceitam agora que o mesmo seja feito pelos países em vias de desenvolvimento.

Os "Maus Samaritanos" agora tanto patenteiam o que é original como o que não o é. Chegam a patentear até saber tradicional e secular. E mais: estão a alargar os prazos de protecção dos direitos de autor e de patente para além do tolerável.

Nos tempos que correm, uma boa ideia não precisa só de uma boa equipa de engenheiros, precisa também de um exército de advogados especialistas em propriedade intelectual.

Volto ao ponto de partida: será que os “apontamentos de verdura anatalados” da câmara de Viseu são um plágio dos Jardins Efémeros? Respondo usando a relutante doutrina deste livro nesta matéria: não, não são plágio.

2. Como explica Ha-Joon Chang, “um suborno é a transferência de riqueza de uma pessoa para outra. Ela não tem necessariamente efeitos negativos sobre a eficiência e o crescimento económico.”

O autor exemplifica com os casos de Mobutu e Suharto. Mobutu governou 32 anos e roubou entre quatro a cinco vezes o PIB zairense. Já nos 32 anos de Suharto o roubo foi bem superior a cinco vezes o PIB indonésio e foi investido pelos filhos do ditador, que ficaram riquíssimos.

A Indonésia ainda foi mais corrupta que o Zaire, mas, “enquanto o padrão de vida do Zaire caiu três vezes durante o governo de Mobutu, o da Indonésia aumentou três vezes durante o governo de Suharto.”

Juízos sobre o que aconteceu ao Portugal do sr. Salgado e dos seus dois mordomos políticos, o sr. Barroso e o sr. Sócrates, ficam por conta e risco do leitor.

Ao tempo, esse patife

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A pressão dos mercados

Fotografia de Antanas Sutkus 

Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?

É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba – o ar –
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.
Nuno Júdice


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Força *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Dezembro de 2004

Fraga
Fotografia de João Manuel Barros
1. Fui ver Twister, uma peça de teatro com texto e direcção de Jorge Fraga. O espectáculo foi em Torredeita, na Metalúrgica Ministros. Quando as pessoas compravam o bilhete recebiam, ao mesmo tempo, um cobertor para aguentarem os zero graus da “sala”. O frio não assustou dezenas e dezenas de felizardos que lotaram completamente o espaço.

Jorge Fraga continua a debruçar-se sobre os seus temas preferidos: o “homem lobo do homem” e o destino. Destino marcado pelos dados a rolar no chão de cimento ou pela leitura de sina na planta dos pés. Jorge Fraga continua em boa forma; André Cardoso e Zé Pedro Ramos, as duas vozes e os dois corpos deste carrossel, são nomes a seguir com atenção.

Saí com os pés e as mãos quentes de debaixo do cobertor, neste espectáculo cujo dispositivo de cumplicidade entre o “palco” e o público fica como uma das minhas experiências culturais mais singulares de 2004. Em Torredeita. Numa oficina.

2. José Barroso deu o poder dinasticamente a Pedro Santana Lopes. Em democracia o poder conquista-se através dos votos; não se herda nem se dá de herança. Não era preciso ser nenhuma águia para perceber que a coisa ia correr mal. Tivemos quatro meses e treze dias de circo, com um primeiro-ministro patético, atofegado pelos seus, numa incubadora. Foi ele próprio que o afirmou.

Depois da obscena demonstração da sua incompetência, Pedro Santana Lopes quer-nos agora convencer que é um Calimero, injustiçado por imaginárias centrais de intoxicação e por conspiradores avulsos dirigidos a partir de Boliqueime. E o mais extraordinário é que o aparelho do PSD parece que vai engolir, sem pestanejar, este isco estragado e este anzol tosco.
Como sempre, “um rei fraco faz fraca a forte gente.”

3. Estamos agora ainda em mais apuros que estávamos em Julho. Não podemos embarcar em discursos da tanga. Não devemos dar crédito aos cínicos, por mais inteligentes que nos pareçam. Chega de negrume. Basta de desdém.

Imponhamos uma dieta às nossas elites que engordam com os dinheiros europeus e nem se dão à decência de pagar impostos. Já chega de festim. Queiramos políticos que não se ajoelhem perante as corporações e os interesses.

Achemos força juntos. Queiramos clareza e carácter nos nossos líderes. Que sejam gente sem medo de perder porque só assim merecem ganhar. E nós com eles.

Digam-nos que os tempos que vêm são difíceis, porque é a verdade. Mas não se esqueçam de nos dizer que temos futuro. Que merecemos esperança. Que temos força.

E se não souberem dizê-lo, ponham, ao menos, a música dos Da Weasel a tocar nos comícios:


Força (Uma Página De História)
(...)
(Respiro fundo)
E lembro-me da força
(Guardo dentro do meu corpo)
Espero que ela ouça

Todo o amor deste mundo
Perdido num segundo
Todo o riso transformado
Num olhar apagado
Toda a fúria de viver
Afastada do meu ser
Até que um dia acordei
E vi que estava a perder
Toda a força que cresceu
Na vida que Deus me deu



A vontade de gritar bem alto:
"O meu amor morreu"
Todo o mundo há-de ouvir
Todo o mundo há-de sentir
Tenho a força de mil homens
Para o que há de vir
Vai haver um outro alguém
Que me ame e trate bem
Vai haver um outro alguém
Que me ouça também
Vai haver um outro alguém
Que faça valer a pena
Vai haver um outro alguém
Que me cante este poema

acordar, mexer nos búzios, elucidar

Fotografia de Donigan Cumming



acordar, mexer nos búzios, elucidar
o coração: são as mais dóceis
tarefas.
andamos enganados nestas portas
de veludo, ou nos velhos tapetes
das ombreiras.
quando dormes, há um búzio que mexe
no teu coração.
António Franco Alexandre


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Cine Clube de Viseu faz hoje 59 anos e exibe um filme de um grande cineasta e cineclubista —Satiajit Ray

A primeira sessão do CCV foi em 16 de Dezembro de 1955, com o filme "Passaporte Para o Paraíso", teve que levar o ok prévio "A Bem da Nação"


Hoje às 21H30: O COBARDE
Kapurush, de Satyajit Ray, Índia, 1965, 74'




O COBARDE era um dos filmes preferidos de Satyajit Ray, realizador incontornável do cinema indiano, um dos grandes mestres da História do Cinema. Natural de Calcutá, Satyajit Ray realizou quase quatro dezenas de obras, entre ficção, documentário e curtas-metragens. Em 1992 venceu um Oscar honorário entregue pela Academia de Cinema dos Estados Unidos da América.

Neste filme, um argumentista é surpreendido ao encontrar uma antiga namorada. Recordando a sua incapacidade para se comprometer e o consequente fim da relação, vai tentar acertar contas com o passado mas descobre que o tempo ainda não sarou as feridas.

Dormir um pouco...

Fotografia de Lisette Model




Homenagem a Federico García Lorca

Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.
Albano Martins


Rio Pavia — Viseu

7.12.2014
Fotografia Olho de Gato

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os ouvidos de Aquilino

Fotografia Olho de Gato

As pessoas civilizadas quando querem ouvir música na rua ouvem-na com auscultadores, sem incomodarem os outros. 

Uma cidade civilizada evita o ruído e valoriza o silêncio.

Terem posto "música ambiente" nas ruas de Viseu foi uma ideia terceiro-mundista.

Aquela coluna pendurada num ferro, a debitar "jingle-bells" para a estátua de Aquilino Ribeiro, é uma tortura que o mestre não merecia.

O valor do vento

Imagem daqui


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Ruy Belo