domingo, 2 de agosto de 2015

Um início

Imagem daqui



De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.
Hélia Correia


sábado, 1 de agosto de 2015

Pés

Fotografia Olho de Gato


Se a alma te reprova — soneto 135

Fotografia de Rafael Trobat



Se a alma te reprova eu venha perto,
Jura à cega, que o teu ardor eu fosse;
Ardor tem, como saber, sítio certo,
E assim me enchas, amor, medida doce.
Ardor enche de ardor e amor teu cofre,
Ai, lardeia-o de ardor!, e ardor apronto
E bem prova que em vazadouro sofre:
Se o número é grande, eu só não conto.
Então que eu passe em grupo sem ser visto,
Sendo um nas contas dessa feitoria;
Tem-me em nada, se te agradar registo
De que este nada em ti é doçaria.

          Faz só meu nome teu amor e amor;
          E amas-me então pois eu te chamo Ardor.

William Shakespeare
Trad.:Vasco Graça Moura


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dois a zero*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. Nos últimos anos, onze mil empresas gregas instalaram-se na Bulgária. Perante um eventual Grexit, elas trataram de se salvaguardar, visto que a cotação do lev búlgaro está alinhada já com o euro, o país tem uma dívida pública inferior a 29% do PIB e vai entrar na eurozona. Este movimento empresarial massivo procura também, claro, salários que são um terço dos gregos.

Como explica o blogue de esquerda “Vias de Facto”, a abordagem nacionalista do Syriza, com o seu referendo da tanga, foi e é desajustada perante a realidade transnacional / supranacional / multinacional (usar prefixo a gosto) em que se movimenta o dinheiro. Perante a mobilidade do capital, a mobilidade do trabalho através da emigração é virtuosa mas insuficiente.

Como se viu neste desgraçado meio ano syrízico, a esquerda patina quando se encerra na crítica paroquial contra o “capital financeiro” ou contra a “sra. Merkel e o sr. Schäuble” (agora mais ele que ela). Uma abordagem “patriótica” a fazer coro com a sra. dona Marine Le Pen não leva a lado nenhum.

Tal como é necessária democracia com a eleição do “sr. Europa”, também as lutas dos trabalhadores têm que se tornar supranacionais, com sindicatos europeus.


2. Taxas moderadoras na interrupção voluntária da gravidez, muito bem. Nem se percebe por que razão elas ainda não são cobradas.

Consultas psicológicas compulsivas, como querem o PSD e o CDS, muito mal. E anti-deontológico. Profissional que as faça contra a vontade da mulher, alegando o clássico “estou a cumprir ordens”, deve ser posto a limpar retretes em Nuremberga.



3. Mal um vip do PS-Viseu publicou no facebook a fotografia dos cabeças-de-lista socialistas das próximas legislativas, levou logo com o seguinte comentário: «não se vê ninguém de Viseu.»

Se for “facebookada” uma fotografia dos cabeças-de-lista da direita, o comentário será: «olha o Leitão Amaro, olha o José Cesário.»

Mota Faria, 2 — António Borges, 0

Álbum japonês

Fotografia de Nobuyoshi Araki


A gueixa dentro de mim
aprova o homem que tu és
Já meu samurai
retesou-se ao máximo
quando a mulher dentro de ti
soltou os cabelos
nuvens douradas sobre os ombros
e ofereceu-me sensualmente
a cabeça para que os prendesse
As minhas mãos
prontas para o vôo
ficaram ao longe de meu corpo
nenhum músculo se mexeu.
Só meu coração
era cavalo bravo
galopando
alucinado
de desejo.
Eliane Pantoja Vaidya

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pedaladas

1ª etapa da Volta a Portugal'2015 

Foi muito boa a ideia de fazer um contra-relógio no belo centro histórico de Viseu

Fotografia Olho de Gato




Fotografia Olho de Gato


Fotografia Olho de Gato


Fotografia Olho de Gato

As barcas gritam sobre as águas

Gif daqui



As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Herberto Helder


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Em Creta com o Minotauro

Minotauro, bebedor y mujeresCobre, aguafuerte, Pablo Picasso, 1933


I

Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.






II

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da "langue".
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.





III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.




IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.




V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.
Jorge de Sena



terça-feira, 28 de julho de 2015

Não sei quem em vós mais vejo

Banksy. Hell’s Kitchen, New York


Não sei qu'em vós mais vejo; não sei que
mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
não sei qu'entendo mais, té no calar,
nem quando vos não vejo a alma que vê;

Que lhe aparece em qual parte qu'esté,
olhe o céu, olhe a terra, ou olhe o mar;
e, triste aquele vosso suspirar,
em que tanto mais vai, que direi qu'é?

Em verdade não sei; nem isto qu'anda
antre nós: ou se é ar, como parece,
se fogo doutra sorte e doutra lei,

Em que ando, e de que vivo; nunca abranda;
por ventura que à vista resplandece.
Ora o que eu sei tão mal, como o direi?
Sá de Miranda


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Casa mia

Jacqueline Du Pré e Daniel Barenboim



Sorpresa
dopo tanto
d'un amore
Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo
Giuseppe Ungaretti





domingo, 26 de julho de 2015

alguma coisa em mim

Gif daqui

alguma coisa em mim
ainda vai longe
alguma coisa em mim
não vai dar pé
alguma coisa em mim
parece que foi ontem
alguma coisa em mim
quer acontecer
alguma coisa em mim
não é mais minha
alguma coisa em mim
saiu da linha
alguma coisa em mim
não disse a que veio
alguma coisa em mim
acerta em cheio
alguma coisa em mim
não tá na cara
alguma coisa em mim
não tá com nada
alguma coisa em mim
não dá desconto
alguma coisa em mim
eu nem te conto
alguma coisa em mim
não tem mais fim
Alice Ruiz

sábado, 25 de julho de 2015

O PS-Viseu não foi 'smart' e ainda compra um — um texto de JB

* Comentário de JB à minha crónica publicada ontem no Jornal do Centro, intitulada "Grupos grandes"

1. Recordemos que o primeiro governo de Alexis Tsipras era formado por um número assinalável de académicos: seis economistas, um professor de Direito, um professor de Relações Internacionais, um matemático e um professor emérito de Filosofia. Era o gabinete com maior formação académica da Europa.

“Entre a desilusão e o festejo vai um caminho enorme. Deste lado pesa a desilusão, claro. Mas nada é a preto e branco, como sempre. A luta continua.” – Marisa Matias.

Todos criticam o Varoufakis, mas quantos já se deram ao trabalho de consultar o impressionante currículum do sr?

Por cá quantos Lusófonos, copy-paste, equivalentes, tecnofórmicos ou impenitentes gabarolas internacionais.

E pelos vistos ainda não passaram da fase “grupos grandes tendem a decidir mal, grupos grandes e com sono é asneira certa.”



2. Quanto a Viseu, um partido que se dá ao ”luxo” de despedir um deputado trabalhador, interveniente, atento e culto como Acácio Pinto, está de malas aviadas para comprar um Smart!

Bem podem tentar negar, jurar que foi tudo um mal-entendido, afirmar que bem tentaram, fazer-se de inocentes, prometer, que agora é que vai ser. Vira o disco e toca o mesmo e eles conseguem não se desmanchar a rir...

Deitaram fora o bebé com a água do banho.