quarta-feira, 2 de setembro de 2015

tal como és, assim te quero

Fotografia de Martha Vriens



tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.
Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.
Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;
e pedirei à noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te
António Franco Alexandre


terça-feira, 1 de setembro de 2015

El cuerpo canta

Fotografia de Philippe Halsman



El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.
Miguel de Unamuno


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Elites — um #2 por JB*

* Comentário visual de JB à minha última crónica no Jornal do Centro intitulada Elites


Avenida do Brasil, Figueira da Foz, Agosto de 2015
Fotografia de JB 


A drinking song




Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.
W. B. Yeats


domingo, 30 de agosto de 2015

A chave

Fotografia de Richard Sandler




No meio da noite, configura
a fragrância das palavras mágicas
Na chave da noite, a ternura,
pluma que verte enigmas

Nas mãos do tempo,
o arado que rasga os mistérios
do sentimento que define
O homem da meia noite,

em seu caminho de volta
que faz

ao adentrar a meia lua
das unhas dos enigmas.
A mão da noite destrava a chave
da fragrância das palavras mágicas
Alice Spínola


sábado, 29 de agosto de 2015

Vertentes

Fotografia de Erwin Olaf



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
António Ramos Rosa


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Elites*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Depois dos milhões e milhões da “Europa” e das privatizações, as nossas elites deram-nos três bancarrotas, um estado disfuncional (só funciona o fisco) e endividado (com défices ano após ano); deram-nos um estado capturado (mal a troika saiu, logo os remédios recomeçaram a aumentar) e injusto (Ricardo Salgado destruiu a PT e as poupanças de milhares de pessoas mas continua a apanhar o sabonete no chuveiro de sua casa).

As nossas elites não criam riqueza, vivem aconichadas ao estado e compram a decisão política. E, com Barroso e Sócrates, habituaram-se a consegui-la barata. Veja-se o caso dos submarinos ou das PPP ou da Parque Escolar.

Em matéria de responsabilidade social, basta lembrar que a Pordata, da fundação do Pingo Doce, é só um oásis no deserto da nossa filantropia privada. Como os nossos ricos sempre foram assim, já ninguém estranha.


2. Já nos EUA o falhanço das elites na guerra do Iraque e na actual crise global acendeu um debate intenso. Um dos livros sobre este assunto com mais impacto foi “O Crepúsculo das Elites: a América depois da Meritocracia”, de Christopher Hayes.

Nele, Hayes defende duas teses. A primeira constata algo que sempre se repetiu ao longo da história: também as elites norte-americanas perderam o contacto com a vida real dos “de baixo” e tornaram-se irresponsáveis.

A segunda tese é inesperada: a “meritocracia”, a escolha dos melhores através de provas duras e objectivas, é um avanço que é consensual à direita e à esquerda, mas que tem dois grandes problemas:

(i) leva à “oligarquia” já que só os ricos podem pagar aos seus filhos as ferramentas cognitivas necessárias para superarem as provas de admissão nas melhores escolas;

(ii) o mérito demonstrado e o trabalho árduo são um pretexto moral poderoso para justificar o aumento da desigualdade, mesmo quando esta é cada vez mais insuportável.

3. O que o PS, PSD e CDS querem fazer às receitas da segurança social diz tudo sobre a irresponsabilidade das nossas elites.

Misteriosa

Fotografia de Horst P Horst



— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?

— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.

De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.

Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.

Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.

Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.

Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.

De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...

Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.

É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.

Nada mais sei. Será uma fada? algum génio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogéneo
Da Salammbô e da Gioconda.

Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fora
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
Filinto de Almeida


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

o primeiro amor

Imagem daqui



com o passar dos anos, o ursinho de peluche foi trocado
por um lego, o lego foi trocado por um livro, o livro foi
trocado por uma consola, a consola foi trocada pelo
primeiro amor, o primeiro amor foi trocado por uma
mulher, a mulher foi trocada pelos filhos, os filhos foram
trocados pelo trabalho, o trabalho foi trocado pela solidão,
a solidão foi trocada pelo ursinho de peluche. um homem
regressa sempre ao seu primeiro amor.
Henrique Manuel Fialho


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A boca

Fotografia de Philip-Lorca diCorcia


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.
Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pontos luminosos

Gif daqui



No silêncio basta um sopro e todo o tempo estremece
como se afasta cantando mais para dentro
a própria noite

Guardei para ti relâmpagos inúteis
prata feita de medidas vagas
e inclinada superfície implacável
cordas e alçapões

Do ponto mais alto do céu a 56 milhões de quilómetros
um dia me dirás
«desde a idade do gelo nunca estivemos tão próximos»
José Tolentino Mendonça



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A noite abre meus olhos

Gif daqui




Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só
José Tolentino Mendonça