sexta-feira, 20 de abril de 2018

Fábrica do poema

Fotografia de John Noonan



sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará?
Waly Salomão


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Três coisas

Fotografia de Malcolm Green



Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro
Paulo Mendes Campos


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Obrar*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Abril de 2008

1. Entrámos em mais um ciclo de cimento e alcatrão. Com a chegada dos fundos comunitários e a pressão do calendário eleitoral, chegou o tempo das empreitadas; vamos ter um ano e meio de reportagens com políticos de fato escuro e capacete amarelo enfiado no cocuruto.

Do ministro com o livro de cheques mais recheado ao presidente de junta da mais pequena freguesia, tudo se prepara para “obrar” rapidamente e em força.

Portugal, com este obreirismo todo, progride como o caranguejo nos rankings da União Europeia. Vai ser ultrapassado até pelos países do leste que aderiram à União Europeia em 2004.

O dinheiro abundante e fácil dos últimos 20 anos, proveniente dos fundos comunitários, aumentou a corrupção e fez o país perder o sentido da frugalidade. A mancebia cada vez mais descarada entre as elites políticas e as elites económicas não ajuda nada.

Estraga-se muito. Esquece-se que o dinheiro dos fundos comunitários é fruto do suor do trabalho dos europeus (também do suor dos portugueses) e que deve ser gerido com critério e a pensar no interesse público.

Fotografia Olho de Gato

2. Li, na última edição deste jornal, que o Estudo para o Centro Histórico de Viseu recomenda a requalificação da Praça D. Duarte e da Rua Grão Vasco. Deve ser defeito meu, mas não percebo. Qual é a ideia? Tirar granito novo para pôr granito novo?

3. Tanto José Sócrates como Fernanda Câncio têm feito um esforço enorme para que a sua vida privada fique privada. Têm esse direito e merecem aplauso por esse esforço.

No último sábado, o vice-presidente do PSD, Rui Gomes da Silva, convocou uma conferência de imprensa e falou do “relacionamento” do primeiro-ministro. Apetece-me perguntar como o blogue Boas Intenções: “Estes senhores vêm com cérebro incluído?”

Frutos e flores

Fotografia de Marissa Price


Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
Marina Colasanti


terça-feira, 17 de abril de 2018

Juro

Fotografia de Craig Whitehead



Poema feito a partir do primeiro verso de As Ilhas VII, do livro "Navegações", 
um dos últimos da Sophia

Difícil é saber de frente a tua morte
Difícil é ter quarenta anos.
Difícil é saber que o teu amor
representa a morte para o teu amado.
Difícil é quereres partir
e eu sem herança para te dar:
faço-te a mala.
Difícil vai ser fazer arroz
e, no dia seguinte, comer a tua parte
arrefecida.
Difícil vai ser comprar menos pão,
menos ovos,
menos favas.
Palavra que vai ser difícil
e palavra dada é palavra jurada.
Ana Paula Inácio


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Imagínate ahora que tú y yo

Fotografia de Joshua Coleman


Imagínate ahora que tú y yo
muy tarde ya en la noche
hablemos de hombre a hombre, finalmente.
Imagínatelo,
en una de esas noches memorables
de rara comunión, con la botella
medio vacía, los ceniceros sucios,
y después de agotado el tema de la vida.
Que te voy a enseñar un corazón,
un corazón infiel,
Desnudo de cintura para abajo,
Hipócrita lector — mon semblable — mon frère!


Porque no es la impaciencia del buscador de orgasmo
quien me tira del cuerpo hacia otros cuerpos
a ser posible jóvenes:
Yo persigo también el dulce amor,
el tierno amor para dormir al lado
y que alegre mi cama al despertarse,
cercano como un pájaro.
¡Si yo no puedo desnudarme nunca,
si jamás he podido entrar en unos brazos
sin sentir -aunque sea nada más que un momento-
igual deslumbramiento que a los veinte años!.


Para saber de amor, para aprenderle,
haber estado solo es necesario.
Y es necesario en cuatrocientas noches
— con cuatrocientos cuerpos diferentes —
haber hecho el amor. Que sus misterios,
como dijo el poeta, son del alma,
pero un cuerpo es el libro en que se leen.


Y por eso me alegro de haberme revolcado
sobre la arena gruesa, los dos medio vestidos,
Mientras buscaba ese tendón del hombro.
Me conmueve el recuerdo de tantas ocasiones...
Aquella carretera de montaña
y los bien empleados abrazos furtivos
y el instante indefenso, de pie, tras el frenazo,
pegados a la tapia, cegados por las luces.
O aquel atardecer cerca del río
desnudos y riéndonos, de hiedra coronados.
O aquel portal en Roma en vía del Babuino.
y recuerdos de caras y ciudades
apenas conocidas, de cuerpos entrevistos,
de escaleras sin luz, de camarotes,
de bares, de pasajes desiertos, de prostíbulos,
y de infinitas casas de baños,
de fosos de un castillo.
Recuerdos de vosotras, sobre todo,
o noches en hoteles de una noche,
definitivas noches en pensiones sórdidas,
en cuartos recién fríos,
noches que devolvéis a vuestros huéspedes
un olvidado sabor a sí mismos!
La historia en cuerpo y alma, como una
imagen rota,
de la langueur goutée a ce mal d'être deux.
Sin despreciar
- alegres como fiesta entre semana -
las experiencias de promiscuidad.


Aunque sepa que nada me valdrían
trabajos de amor disperso
si no existiese el verdadero amor.
Mi amor,
          Íntegra imagen de mi vida,
sol de las noches mismas que le robo,
su juventud, la mía,
- música de mi fondo -
sonríe aún en la imprecisa gracia
de cada cuerpo joven,
en cada encuentro anónimo,
iluminándolo. Dándole un alma.
Y no hay muslos hermosos
que no me hagan pensar en sus hermosos muslos
cuando nos conocimos, antes de ir a la cama.


Ni pasión de una noche de dormida
que pueda compararla
con la pasión que da el conocimiento,
los años de experiencia
de nuestro amor.
Porque en amor también
es importante el tiempo,
y dulce, de algún modo,
verificar con mano melancólica
su perceptible paso por un cuerpo
— mientras que basta un gesto familiar
en los labios,
o la ligera palpitación de un miembro,
para hacerme sentir la maravilla
de aquella gracia antigua, fugaz como un reflejo.


Sobre su piel borrosa,
Cuando pasen más años y al final estemos,
quiero aplastar los labios invocando
la imagen de su cuerpo
y de todos los cuerpos que una vez amé
aunque fuese un instante, deshechos por el tiempo.


Para pedir la fuerza de poder vivir
sin belleza, sin fuerza y sin deseo,
mientras seguimos juntos
hasta morir en paz. Los dos,
como dicen que mueren los que han amado mucho.
Jaime Gil de Biedma





domingo, 15 de abril de 2018

She's crazy


Let me tell you a story
About a little girl I know
When she walks into a room
You know she steals the show
She's crazy
And it's more than I can stand






sábado, 14 de abril de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#190)

O adjectivo

Fotografia Olho de Gato



O adjectivo? Que horror
quando não é incisivo
quando atira para o vago
o pobre substantivo
ou o circunda de um halo
de um falso resplendor,
em que o ouro utilizado
não é ouro é só dourado!


O sol assim captado
é sol, mas sol de teatro,
ouro em falsete, luz barata,
e no prego não dá nada,


que o prego não acredita
(senão já estava falido)
nesse ouro sem quilate
que usam a valdevina

e o poeta que se orna
(que orneia, melhor diria)
de luzidias mentiras,
de poética poesia.

Disse pouco do que queria
na parte que antecede.
Se é discursiva, a poesia
também não serve...

Voltando ao adjectivo
(nada tenho contra ele):
é melhor ficar despido,
cosido co'a própria pele,

do que pedir emprestada
a piedosos enchumaços
aquela largura de ombros
que nos faz ginasticados,

quando, em verdade, não temos
mais ginástica do que essa
em que somos atletas
e que se resume apenas

no aguentar alegre
do peso quotidiano
(pode ser que para o ano
a terra nos seja leve).

Tal como do mal o menos
- e nesta regra redijo-
antes quero sóbrios termos
do que fingir que sou rico...
Alexandre O'Neill


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Fungo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Hannah Harendt, no seu livro “Eichmann em Jerusalém”, lembra-nos que o mal “pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro (...) porque se espalha como um fungo.”

Está a ser difícil achar um fungicida que atalhe o mal populista. As eleições na Hungria foram uma decepção. As denúncias sobre a corrupção do “Viktador” Orbán e da sua clique não lhe causaram estragos eleitorais nenhuns, antes pelo contrário.

A chegada de um partido populista ao poder não é, em si, uma tragédia. Por vezes, é até bom que as suas receitas simplistas choquem com a realidade. Veja-se o caso do Syriza. Depois de meio ano de desvario que culminou na vigarice do referendo OXI, Tsipras ganhou juízo. O mesmo há-de acontecer em Itália se chegar a haver um governo do Cinco Estrelas.

O populismo só se torna um fungo letal quando, chegado ao poder, tem força para anular os contra-pesos de uma democracia — a independência dos media e dos tribunais. Quando tal acontece, alapam-se, pelo voto não saem, só através da força.

As instituições democráticas norte-americanas parecem estar a resistir bem ao populismo trumpista. Mas na Hungria elas soçobraram ao fungo orbánista. O bando que manda no país está agora a fazer compras sistemáticas de terras, está a virar latifundiário. Os fundos europeus são mafiados assim perante o silêncio cobarde da “Europa”.


Fotografia Olho de Gato
2. António Costa, depois do bruaá feito pelos agentes culturais e da sonsice de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, foi rapar mais algum pilim no fundo das gavetas de Mário Centeno para apoiar as artes. A pergunta que se impõe agora é: como evitar que a parte de leão desse “mais algum” vá ficar, também ela, em Lisboa?

Para que se saiba: a geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato.

Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

Só um rumor

Fotografia de Patrick Fischer

acredita em mim: é só um rumor
não sei escrever o vento, nem como se nasce outra vez.

nunca soube como se tece no piano a face vazia do tempo.

por favor, não perguntes:
pois eu não sei como germina um poema,
nem quantos dias cabem no teu rosto.

E como se conjuga a cidade e o adeus?

Perguntas, mas eu não sei o que é a morte.
Ricardo Gil Soeiro

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Muito melhor seria

Fotografia de Louis Amal

muito melhor seria
se fosses devir
roldana água
cicatriz caixa de música 
em vez de caixa negra
liga desliga 
pavlov insurpreso
A. Khimm