quarta-feira, 1 de julho de 2015

Minibiografia

Gif daqui


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.
Luiza Neto Jorge

terça-feira, 30 de junho de 2015

caminha pelo sangue

Fotografia de Ellen von Unwerth



caminha pelo sangue, na pele
rugosa do amanhecer,
a tão pequena tosse do outro
lado das palavras: como se
se dividissem os sentidos,
a visão, o tato animal,
o veneno riscado, arrancado
às paredes da luz
e sobre o flanco abrisse
uma doença uma razão
meticulosa de existir,
um sofrimento a cada
instante mais veloz, mais ágil
uma secreta ausência perdoada
António Franco Alexandre


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Em simulacro: os anjos

Gif daqui



Mas como navegar em tempo branco
ou rio de uma só margem?
Não há água possível de apagar o sol,
nem voz capaz de amedrontar
esses anjos maiores

Mas não são eles
que desejo aqui,
não me cantam os anjos de Rilke,
nem os anjos de Klee,
só o resto talvez encantará

Nesse resto te quis,
despojo de anjo, asas cortadas,
rasgado em branco, o branco
transformado em roxo cor de morte,
como o amor e a morte
aí vacilam

Noutra língua recuso-me a falar,
nesta tela recuso-me a pintar,
nestas cores —
nunca esboçando um anjo
pintado a inocência

Na iminência de te ter amado,
sonho-te: asas cortadas,
tudo o mais rasgado
nas dobras do mais alto do poema,
nas dobras da pintura,
fotografia a preto e branco

Rasgar-te-ei a branco,
serás moldura horizontal,
desagregada.
Braços, asas abertas,
algum dourado em torno,
mas gesto e desviada: a cor

Em torno da mudança tornarei,
sem dizer “meu amor”,
que a língua em que falei
vivia em melodia,
mas não esta —

E sob a minha pele,
aí estiveste, anjo desagregado
e sem guitarra,
varrendo lentamente o céu das
outras mãos

Sem corpo agora,
sem asas,
sem o conforto que a poesia traz,
mesmo que na memória,
ou no sonhado, serás:
um anjo condenado ao paraíso,
sem licença nem bênção do inferno

A ti amei:
imagem,
simulacro nem de mim

O resto:
um intervalo —
Ana Luísa Amaral


domingo, 28 de junho de 2015

Cedo ou tarde

Gif daqui


Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
Albano Martins

sábado, 27 de junho de 2015

todo lo que he aprendido

Gif daqui


todo lo que he aprendido es farragoso
y me da miedo

todo lo que desconozco también

lo que sé y lo que ignoro
me obliga a permanecer en guardia

sólo puedo flotar inmóvil
feliz como si fuera nuevo
en los escasos segundos que transcurren
entre la intuición y el desastre
Íker Biguri




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poder moderador*

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A dita "lei da cópia privada" foi aprovada na assembleia da república, vetada pelo presidente, mas, depois, o parlamento decidiu reconfirmar o diploma. Cavaco Silva, nos termos constitucionais, mesmo discordando teve que o promulgar.

Num regime semi-presidencial como o nosso, o PR exerce o poder moderador que, nas monarquias constitucionais, é atribuído ao rei. 



O PR/rei pode vetar uma lei, salvando com esse veto a sua face, e essa lei é na mesma aplicada se for essa a vontade do poder legislativo.

2. Cavaco esteve bem no caso das "cópias privadas" e esteve muitíssimo bem no problema mais agudo que teve que resolver nos seus dois mandatos quando recusou a demissão "irrevogável" de Paulo Portas, em Julho de 2013, em pleno programa de resgate. Se esta demissão tivesse sido aceite, Portugal ficava num trilho político parecido com o grego.

Contudo, o balanço global dos dois mandatos de Cavaco Silva é negativo porque falhou nas duas funções principais do poder moderador:

(i) um PR deve ser a válvula de escape do "vapor" acumulado pela conflitualidade política; um PR deve ouvir e dar voz aos "perseguidos" e aos "vencidos" pelos governos. Ora, Cavaco ao "mata" de Sócrates disse sempre "esfola" (que o digam os professores no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues); ora, Cavaco ao "mata" de Passos "esfolou" ainda mais depressa;

(ii) um PR deve ser um símbolo e um factor de unidade nacional e Cavaco Silva não o conseguiu ser no seu segundo mandato; tudo começou logo na noite da segunda vitória quando ele não teve grandeza para ultrapassar a campanha sujinha feita pelo poeta Alegre e o tiririca Coelho da Madeira.

3. Estas duas funções presidenciais serão bem exercidas por Marcelo Rebelo de Sousa. O feitio crispado de Rui Rio parece mais à vontade em matéria de unidade nacional do que como "válvula de escape" do regime. Sampaio da Nóvoa, pelo que se tem percebido, nem numa coisa nem noutra.

As mulheres têm uma assombrada roseira

Gif daqui

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.

As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois a boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga –
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
Alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais.
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
de depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
Herberto Helder


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Com grandes esperanças já cantei

Fotografia de Pratik Naik— Gif daqui  

Com grandes esperanças já cantei
com que os deuses no Olimpo conquistara;
depois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pela mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n’alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Solstício*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 24 de Junho de 2005


1. Os dias estão grandes e as noites pequenas. O sol, vertical, mingua-nos a sombra. A lua fraqueja por cima dos candeeiros de iluminação pública. As tílias fazem-nos respirar fundo o fundo dos pulmões. No ar, aromas conhecidos.

O calor prenuncia o S. João. Vildemoinhos. Cavalhadas.
Cavalhadas de Vildemoinhos, 2008
Fotografia Olho de Gato


O calor anuncia a festa dos corpos. Repetem-se os rituais dos dias maiores do ano. Aí estão novamente as festas solsticiais. É assim há milénios, desde os tempos pagãos.

Pendurados nos nossos aparatos e na nossa tecnologia, julgamo-nos diferentes dos nossos tetravós. Não somos. Somos só o que verdadeiramente importa: somos humanos.

2. No último Olho de Gato, falei de amnésias, de esquecimentos, de perca de memória. Foi uma ideia que me ocorreu a partir do colapso do disco rígido do meu computador.

Hoje quero falar do contrário. Quero falar das alturas em que a memória funciona bem. Em que nos lembra bem o acontecido. Em que ficam documentos para esbaterem a nossa incerteza e para desafiarem as nossas dúvidas.

3. Está a ser feita a musealização da muralha da Rua Formosa.
Muralha coeva da lista do Bloco de Esquerda por Viseu, disse eu, com ironia, no início deste ano, para escândalo e fúria dos meus amigos bloquistas.

Estas pedras são a prova da ocupação milenar do nosso território. Os nossos avós andaram por aqui e marcaram, com a muralha, um dentro e um fora.

Sempre foi claro, para mim, que aquele achado era muito importante. Tinha que haver uma forma de dar testemunho dele às pessoas. Na altura, não fui meigo aqui, no Olho de Gato, com uma técnica que recomendou o enterramento daquelas pedras.

Politicamente, foi feito com eficácia e na altura própria o que tinha que ser feito. Vai ser colocado vidro por cima da muralha. Espero que, para lá das quadrículas de vidro, das luzes e das máquinas, se saiba mostrar aos passantes e aos visitantes, a singularidade daquele lugar.

Têm a palavra os especialistas. Falem também os criativos, os poetas, os músicos, os artistas. Saiba-se contar a história daquilo. Com aquela nossa memória preservada, faltam agora as histórias daquela história.

4. Anna Larina tinha 16 anos quando se apaixonou por Nikolai Ivanovitch Buckarine, um líder bolchevique de topo, na altura com 42 anos. Casaram algum tempo depois. É uma história de amor sublime e é uma história trágica porque se cruza com o período de terror estalinista.

Nikolai Ivanovitch foi preso em Fevereiro de 1937 e executado com um tiro na nuca, depois dum julgamento paranóico em que “confessou” um conjunto de crimes que nunca cometeu, nem nunca poderia ter cometido.

Quanto à bela Anna Larina, foi presa poucos meses depois do seu marido, esteve em vários campos de concentração, sofreu horrores, mas conseguiu sobreviver ao comunismo.

Anna passou a vida empenhada na reabilitação política e histórica do seu amor. Conseguiu-o, de uma forma definitiva, em 1988; governava então, na União Soviética, Mickahil Gorbatchov.

A Terramar acaba de editar “Bukharine, Minha Paixão”, a autobiografia de Anna Larina Buckharina. O preço (31,50 euros) está a pedir que o leitor aproveite os descontos da Feira do Livro.
Um mês antes de ser preso, em Janeiro de 1937, Bukharine, que sabia que ia morrer uma morte desonrada, ajoelhou-se aos pés da sua Anniutchka e fê-la “(…) aprender de cor, como uma oração, o seu testamento, a sua Carta à Geração Futura dos Dirigentes do Partido”. (p. 14/15)

Anna guardou este testamento político na memória. Nunca o pôde escrever em lado nenhum. Um texto assim, apanhado pelos esbirros comunistas, significava a morte. Anna guardou-o na sua cabeça e viveu décadas na obrigação de o não poder esquecer. O texto foi publicado, pela primeira vez na URSS, em 17 de Abril de 1988. Mais de 50 anos depois.

Soneto do amor difícil

Fotografia de Mark Seliger


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira

terça-feira, 23 de junho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O país das maravilhas

Gif daqui



Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
António Cícero