segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

El tango

Imagem daqui

¿Dónde estarán? pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer, pudiera
ser el Hoy, el Aún, y el Todavía.

¿Dónde estarán? (repito) el malevaje
que fundó en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones
la secta del cuchillo y del coraje?

¿Dónde estarán aquellos que pasaron,
dejando a la epopeya un episodio,
una fábula al tiempo, y que sin odio,
lucro o pasión de amor se acuchillaron?

Los busco en su leyenda, en la postrera
brasa que, a modo de una vaga rosa,
guarda algo de esa chusma valerosa
de Los Corrales y de Balvanera.

¿Qué oscuros callejones o qué yermo
del otro mundo habitará la dura
sombra de aquel que era una sombra oscura,
Muraña, ese cuchillo de Palermo?

¿Y ese Iberra fatal (de quien los santos
se apiaden) que en un puente de la vía,
mató a su hermano, el Ñato, que debía
más muertes que él, y así igualo los tantos?

Una mitología de puñales
lentamente se anula en el olvido;
Una canción de gesta se ha perdido
entre sórdidas noticias policiales.

Hay otra brasa, otra candente rosa
de la ceniza que los guarda enteros;
ahí están los soberbios cuchilleros
y el peso de la daga silenciosa.

Aunque la daga hostil o esa otra daga,
el tiempo, los perdieron en el fango,
hoy, más allá del tiempo y de la aciaga
muerte, esos muertos viven en el tango.

En la música están, en el cordaje
de la terca guitarra trabajosa,
que trama en la milonga venturosa
la fiesta y la inocencia del coraje.

Gira en el hueco la amarilla rueda
de caballos y leones, y oigo el eco
de esos tangos de Arolas y de Greco
que yo he visto bailar en la vereda,

en un instante que hoy emerge aislado,
sin antes ni después, contra el olvido,
y que tiene el sabor de lo perdido,
de lo perdido y lo recuperado.

En los acordes hay antiguas cosas:
el otro patio y la entrevista parra.
(Detrás de las paredes recelosas
el Sur guarda un puñal y una guitarra.)

Esa ráfaga, el tango, esa diablura,
los atareados años desafía;
hecho de polvo y tiempo, el hombre dura
menos que la liviana melodía,

que solo es tiempo. El Tango crea un turbio
pasado irreal que de algún modo es cierto,
el recuerdo imposible de haber muerto
peleando, en una esquina del suburbio.
Jorge Luis Borges

"SLR", de Stephen Fingleton (2013)* — curta pré-candidata aos óscares/2015


* a história de um voyeur

Realização e argumento: 
Stephen Fingleton

Com
Liam Cunningham
Ryan McParland
 Amy Wren 




domingo, 23 de Novembro de 2014

Rosas e cantigas

Fotografia de Hedi Slimane


Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? - Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.
Afonso Duarte

sábado, 22 de Novembro de 2014

Presidenciais 2016



Candidatos fortes da direita às presidenciais/2016: 
Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio 

Candidato folclórico da direita às presidenciais/2016: 
Pedro Santana Lopes

Candidato tóxico da direita às presidenciais/2016: 
Durão Barroso 

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Candidato forte da esquerda às presidenciais/2016:
António Guterres 

Candidato folclórico da esquerda às presidenciais/2016: 
António Sampaio da Nóvoa

Candidatos tóxicos da esquerda às presidenciais/2016: 

Os Amantes de Novembro

Fotografia de Elina Brotherus



Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
Alexandre O'Neill


sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Abaixo-de-cão *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Na semana passada aqui no Jornal do Centro, Manuela Barreto Nunes contou uma experiência levada a cabo por Doris Lessing quando já era uma escritora muito conhecida e decidiu escrever com pseudónimo “Os Diários de Jane Somers”.

Doris queria saber o que acontece a “uma nova escritora, sem o benefício de um nome”? Muito mal comparado, tipo Paris Hilton a perguntar ao espelho: «sou amada pelo meu corpo ou pela minha fama?»

Sem surpresa, “Jane Somers” vendeu pouco e recebeu críticas frias. O “hermeneuta” do Los Angeles Times, por exemplo, carimbou-lhe a prosa de “críptica”, e acrescentou que era “um pouco como uma linda camisola tricotada por uma mulher com artrite”. Os críticos costumam ser assim cruéis com os “underdogs”.



Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007, hora de ponta. Junto a uma escada do metropolitano de Washington, um homem de jeans e t-shirt pega no seu violino, coloca um saco aberto com algumas moedas à sua frente, e começa a tocar "Chacone" de Bach. Durante quarenta e três minutos, ele toca seis peças. Passam 1070 pessoas. Sete param para o ouvir. Trinta e sete dão dinheiro. Ao todo 32 dólares.

O violinista era Joshua Bell, um dos melhores do mundo, a tocar num Stradivarius de 1713 que valia mais de três milhões de dólares. Há vídeo disto no YouTube.



Quer Doris Lessing quer Joshua Bell provam que para se ser bem sucedido dá jeito ser conhecido. Que o “sucesso faz sucesso”. Aqueles livros depois, já sem pseudónimo, venderam milhões; três dias depois daquele seu número “abaixo-de-cão” no metro, Bell esgotou um enorme auditório, a cem dólares o bilhete.


Ao contrário, os casos em que um “underdog” se torna numa celebridade são mais inspiradores. Um exemplo: Susan Boyle.




2. Somada ao absentismo de Hélder Amaral na câmara, a saída agora de Fernando Figueiredo da assembleia municipal deixa o CDS-Viseu muito mal perante o seu eleitorado.

para onde é que nós vamos quando a música não dói

Fotografia de Paul Fusco


para onde é que nós vamos quando a música não dói
cega de unhas
no urro dos pulsos

a faca de costas para o espanto da cigarra
e um grilo algemado
entre o lábio e a terra

eu queria dizer-te que o fim é quase mudo,
como a tília
Emanuel Jorge Botelho


quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Confraria do tintol


Caro António Almeida Henriques, muitas felicidades neste projecto de engenharia social que quer afastar as nossas crianças dos malefícios do fast-food e aproximá-las dos benefícios dos — como se diz em politiquês local — nossos "produtos endógenos".

Um pequeno reparo, caro António Almeida Henriques  — uma "confraria" é um "produto" da sociedade civil, uma "confraria" nunca pode ser um "produto" de políticas municipais.  

A caminho da quarta bancarrota

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O que diz a Morte

Ivan Shishkin — Rain in an oak forest
Gif de Stefano Tagliafierri

"Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem." -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria.

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Traumas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 19 de Novembro de 2004


1. Há 30 anos, conheci, em Cinfães, um professor que tinha sido ferido em combate, na Guiné. Em Dezembro de 1973, a sua companhia sofreu ataques quase diários. Naquele ano, ele teve um péssimo Natal, acabou ferido no esterno e no maxilar inferior e foi evacuado para a metrópole, como se dizia na altura.

Era uma pessoa culta e inteligente com quem gostava de dar longos passeios a pé. Num fim de tarde, logo no início de um dos nossos passeios, ao longe, ouviram-se foguetes a anunciar uma festa de Verão. Imediatamente, o meu amigo mudou de comportamento. O barulho dos foguetes fez-lhe mal. As explosões dos foguetes implodiram-lhe na cabeça. Perdeu a calma e a racionalidade. Os seus olhos mostraram medo. Acompanhei-o a casa. Dei-lhe conforto. Para além das feridas no corpo, a guerra tinha-lhe deixado feridas na alma. Não sei como era na altura, mas essas feridas agora têm nome: chamam-se stress pós-traumático.

2.  Há circunstâncias excepcionais que tiram as pessoas do seu “viver habitualmente” e a guerra é uma dessas circunstâncias.

É por isso que a guerra é uma coisa grave.

De que lado há mais heróis na Guerra do Iraque, do lado dos ocupantes americanos ou dos lados dos insurgentes de Bagdad?

Esta pergunta faz mais sentido do que parece. É que esse criar de heróis é também uma guerra: é a guerra pelos imaginários. O fabrico de heróis da Guerra do Iraque, vai ter tanta importância como as operações de limpeza em Fallujah. E, nas narrativas islâmicas, quantas dessas histórias futuras de heróis não serão hagiografias de mártires para semear novos mártires?

Mas a maior parte das vezes, não há heróis. Depois dos combates, fica só a “carne para canhão”, ficam os “soldadinhos de chumbo”, que os generais esqueceram, com feridas no corpo e na alma, como o meu amigo de Cinfães, que não vejo há muito tempo, mas que sei que conseguiu recuperar dos traumas da guerra colonial.

3.  O Los Angeles Times, do último domingo, citou especialistas que calculam que um em cada seis soldados americanos regressados da Guerra do Iraque sofre de stress pós-traumático. São milhares e milhares de pessoas. Aquele jornal da Califórnia, num artigo intitulado “Estas feridas invisíveis cortam fundo”, contou a história dalguns desses homens:


Matt LaBranche, um sargento de 40 anos, carregou uma metralhadora no Iraque durante nove meses. Antes da guerra vivia normalmente com a sua mulher e o seu filho. Depois da missão em Bangor, no Iraque, regressou uma pessoa diferente.


Ameaçou seriamente a vida da mulher (agora ex), pelo que corre o risco de ser condenado a uma pena de prisão num julgamento já marcado para o próximo mês.


Daqui
Por agora, Matt LaBranche passa as noites no sofá dum irmão, onde tenta dormir um dormir químico e cheio de pesadelos. Neles revive permanentemente a morte duma iraquiana nos seus braços depois de a ter baleado a ela e aos filhos. Avariou e só diz obscenidades. Mandou tatuar-se nas costas com uma espada ao longo de toda a coluna vertebral e com a seguinte frase: “Eu vim para vos trazer o inferno”. Diz que se sente morto por dentro.

Por sua vez, o tenente Julian Philip Godrum procura agora a solidão dos cinemas e o bálsamo dos amigos. Evita o tráfego pois o barulho dos carros e o fumo dos motores fazem-no ter flash-backs para a guerra e imagina atiradores em todo o lado, a manterem-no debaixo de mira.

“Treinei-me, era um soldado excelente e de carácter forte. Como pôde a minha cabeça avariar?” – pergunta ele ao repórter do Los Angeles Times, enquanto toma mais uma pílula.

Matt LaBranche e Julian Philip Godrum não são heróis. São traumas para varrer para debaixo do tapete da américa de Bush.

Há palavras que nos beijam

Fotografia de Nobuyoshi Araki


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill