terça-feira, 2 de Setembro de 2014

The Three Oddest Words

Fotografia de Sergueï Yurkévitch


When I pronounce the word Future,
the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,
I destroy it.

When I pronounce the word Nothing,
I make something no non-being can hold.
Wislawa Szymborska


segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Projecto

Fotografia de Pieter ten Hoopen


a) Linha de montagem

De tudo um pouco.
Assim se faz um homem.

Cabeça, tronco e membros,
o coração na boca
ou na palma da mão.
Onde apareça e mostre
a que vem e a que não.
Tenha o corpo saúde
bastante para a guerra
e o que não seja corpo
construa sua paz
Meticulosamente
em partes desiguais
receba amor e dor.
Vença a máquina os testes
de resistência mínima
e fantasia máxima.
Alimentos terrestres
e o céu de cada dia
sustentem sua fé
pelos sete sentidos.


Com teoria e prática
assim se faz um homem.
Sem qualquer garantia.





z) Sucata

De tudo um pouco,
que assim se faz um homem.
Com pouco estudo,
que assim se culpa o acaso.
Algum cuidado
é bom, para que dure,
endureça e endurando
diga do pouco
que fique uma palavra
salva do fogo
e da fuga, uma voz,
ressalva do homem,
resíduo desse tudo.
Que fique uma palavra.
Izacyl Guimarães Ferreira


domingo, 31 de Agosto de 2014

Caro António Almeida Henriques, querer a Feira de S. Mateus "auto-sustentável" é pouco...

Diário de Viseu, edição de 29/8

... a Feira de S. Mateus tem que dar lucro.

Sempre foi assim: a EXPOVIS organizava os seus demais eventos ao longo do ano, todos eles deficitários, com a almofada financeira arrecadada durante a Feira de S. Mateus.  

Toma lá Cinco!

Fotografia de Otto Stupakoff



Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)
Alexandre O'Neill

sábado, 30 de Agosto de 2014

As portas do mundo não sabem

Imagem de Grete Stern



As portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas:
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.
Sandro Penna


sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

As eleições ganham-se com votos ou com dinheiro?

Quando lerem esta notícia, na edição de hoje do Jornal do Centro, reparem em casos ridículos como o de Tabuaço...

Música ambiente*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Imagem não do bar desta história, mas daqui
Num dos primeiros dias do ano, fui a um bar ter com uns amigos. Nunca lá tinha entrado. Achei-o agradável. Balcão bonito, espaço amplo e bem decorado, pessoas, muitas pessoas, em modo de sexta-à-noite. Tudo muito agradável aos olhos.

Atrás do balcão, fitadesivada, uma chalaça numa folha A4: 
NÃO HÁ WI-FI, FALEM UNS COM OS OUTROS.

Lá me sentei à mesa.

Chegado por último, apanhei boleia na conversa que decorria animada. Era uma conversa anti-austeritária nas palavras, sem défice nenhum de argumentos e contra-argumentos, uma conversa sobre o desconcerto deste país a precisar de conserto. Às sextas-à-noite, entre amigos, salva-se o mundo, o país, a cidade. Salva-se a noite. É o melhor que há, desacordos concordados, bem-humorados, os casacos a enfumararem, depois arejam na varanda, muito vento à noite, era inverno naquela sexta-à-noite.

Entretanto, os decibéis da "música ambiente" foram aumentando, aparecera um "dijei", muito pro, muito concentrado nas suas "remixações". O som ficou alto. Muito alto.

O bar continuava agradável ao olhar. Por cima do som agora alto, em todas as mesas, as conversas estavam todas, também elas, mais altas. O "dijei" punha música em cima do ambiente, o ambiente punha conversa em cima da música.

Olhei à volta. Não havia espaço nenhum para dansação. Todas as pessoas, as das mesas e as do balcão, desouviam a "remix". Toda a gente falava com toda a gente, menos a namorada do "dijei", que, melancólica no seu vestido de sexta-à-noite, mexia, com a unha de gel, o gelo da caipirinha.

Um dos meus amigos chamou o dono do bar.

«Desculpe, pode dar-me a palavra-passe?»

«Não viu o aviso?», impacientou-se o homem todo "não-há-wi-fi-conversem-uns-com-os outros".

«Sabe, meu caro», gritou o meu amigo, porque tinha de ser a gritar, «era mesmo para falarmos uns com os outros. No messenger.»

ABC


Fotografia de Alex Prager


Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto
Wyslawa Szymborska


quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Meditação anciã — Ruy Belo dito por Guilherme Gomes

Fotografia de Brett Walker


Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus
Ruy Belo

Velas

Fotografia de Tazio Secchiaroli



Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.

Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.

Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.

Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.
Konstandinos Kavafis

Domingo às 19 horas em Lisboa

Gif de Joe Smith