quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Corujinhas

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Julho de 2010


1. No ano passado, muitas pessoas estavam preocupadas com o licenciamento das captações de água. O prazo imposto pelo Decreto-Lei n° 226-A/2007 queimava em 31 de Maio de 2009.

Era necessário entregar uma “peritagem técnica de captação” feita por um especialista em “hidrogeologia”. Coima mínima para os faltosos: 25 mil euros.

Uma pessoa amiga, radicada na Alemanha, marcou as férias em Maio para “tratar dos papéis” do pequeno poço que tinha no quintal.

É que na Alemanha as leis são para levar a sério. Chegado cá, percebeu que afinal a “licença dos poços” era para esquecer.

Felizmente, esteve bom tempo. O nosso emigrante fez praia em Maio e foi a Fátima no dia 13 acender uma velinha para alumiar os nossos paridores de leis.


Fotografia daqui
Uma família de emigrantes na Alemanha, ao chegar a sua casa em Portugal, percebeu que tinha na chaminé um ninho cheio de corujas e corujinhas que faziam um barulho infernal toda a noite.

Como bons cidadãos preocupados e ecológicos, eles decidiram tratar do assunto “à alemã” e foram apresentar o caso à GNR.

Resultado: durante estas férias não conseguiram dormir uma noite sequer por causa do barulho dos bichos. Estão proibidos de tocar nas corujas. É uma espécie protegida. Não sabem se no próximo verão vão ter o problema resolvido. Já foram avisados que vão ser eles a pagarem todas as despesas.


2. Com disse Alberto Gonçalves no DN, o secretário de estado Paulo Campos foi um “firme propagandista dos chips nas matrículas”. O governante tem razões para estar feliz. E o seu ex-assessor, que tem o jackpot da venda dos “chispes” e dos pórticos, também.

Lisboa olha para este Big-Brother com bonomia. Pensa: «se nós pagamos portagens, que pague também a ‘província’.»

É só dar tempo ao tempo. Estes pórticos hão-de dar óptimas portagens à entrada de cidades falidas.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Nove meses*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia editada

Depois, quando os achar, 
 porei aqui detalhes sobre 
a autoria da fotografia original
1. António Almeida Henriques (AAH) tomou posse a 22 de Outubro. Na próxima terça-feira o seu mandato faz nove meses. É o tempo de gestação de uma criança. Se há, ou não, bebé novo na política concelhia fica para depois. Desta vez olho para a forma como o novo presidente da câmara de Viseu se dá com os outros municípios.

No "eixo da A25", com Aveiro e a Guarda, AAH tem feito lobby pela linha ferroviária Aveiro-Vilar Formoso. É o dossier mais importante que tem em mãos: ou se faz (e AAH fica na história) ou não se faz (e Viseu e AAH sofrem uma derrota terrível). O "plano B" de que se fala - fazer um "ramal" Viseu-Mangualde, para ligação à linha da Beira Alta - não faz sentido. Cem milhões de euros para substituir uma viagem de vinte minutos de carro?

Nas tradicionalmente frias relações entre Viseu e Coimbra, AAH pôs mais gelo em cima do gelo ao defender uma auto-estrada Viseu-Condeixa em que as viagens de e para Lisboa não passam por Coimbra. Esta ideia é boa logo que a nova auto-estrada não estrague o IP3, que deverá ser mantido como alternativa não portajada.

Já no que se refere às relações de Viseu com os concelhos vizinhos, como se viu na CIM Viseu Dão Lafões, estes nove meses foram infecundos, apesar de AAH, em todas as suas intervenções, referir e tornar a referir Viseu como "cidade-região". A esta bengala de linguagem ainda não correspondeu nenhum conteúdo político nem nenhuma alteração relacional com os municípios vizinhos.

2. AAH fez os Jardins Efémeros em cima do calendário do tondelense Tom de Festa, o mais antigo festival português de músicas do mundo.

Em primeiro lugar, não se põe um evento com o impacto dos Jardins Efémeros, que não depende da bilheteira, a concorrer com o Tom de Festa que precisa da receita da bilheteira.

Mas o pior é político: AAH enche a boca com o slogan "Viseu, cidade-região" para quê? Para secar a região à volta?

ÍTACA


Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!

Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:coral e madrepérola,
âmbar e marfim,e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto, para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Constantine P. Cavafy (Kavafis)
Tradução: Jorge de Sena

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

O assobio *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Julho de 2010


1. Os filmes de Emir Kusturica são únicos e inconfundíveis: têm alegria, fantasia, delírio. E muita bicharada. Os seus filmes são sempre um grande zoo.

Revi há pouco “A Vida É Um Milagre”, um filme que mostra Kusturica em baixa de forma, a repetir-se nas fórmulas e nos processos, mas que, mesmo assim, é muito divertido e recomendável.

Uma das personagens de “A Vida É Um Milagre” é uma burra desgostosa que se pranta em pranto no meio da linha do comboio e não sai, nem puxada, nem empurrada, nem ameaçada, nem batida. 

A burra só se mexe e deixa passar o comboio quando se lhe assobia com jeito às orelhas.

A ala esquerda do PS, nos últimos cinco anos, não foi a consciência crítica que o partido e José Sócrates precisavam.

Em 2009, antes das eleições, a esquerda do PS preocupou-se com lugares e deixou as ideias a cargo de um homem de negócios chamado António Vitorino.

Agora, nas últimas jornadas parlamentares do PS, Ferro, Soares e Pedroso puseram-se no meio da linha a chorarem a falta de debate e de vitalidade no PS, tal qual a burra de “A Vida É Um Milagre”.

Sócrates, um cinéfilo atento, resolveu aquilo com facilidade. Só precisou de lhes assobiar com jeito às orelhas o seu novo discurso “anti-neoliberal”.



2. Caras vereadoras e caros vereadores da oposição de todas as câmaras do país, deixo-vos aqui um conselho de amigo: mesmo perante uma proposta de deliberação com parecer favorável do técnico responsável, mesmo que a decisão em causa seja adequada para o interesse público, mesmo assim votem sempre contra. Sempre.

Podem deixar a seguinte declaração de voto nas deliberações: «Apesar de concordar, voto contra porque não estou disponível para, daqui a uns anos, ser multado.»

Desta forma simples, evitam futuros processos kafkianos em tribunal. Quem vos avisa…