terça-feira, 27 de junho de 2017

A pele

Fotografia de Berenice Abbott


A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.
Pia Tafdrup




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Uma espécie de "A cultura em Viseu só funciona para amigos? - parte II" seguido de anticlímax — por JB

* Dois comentário de JB ao post "Amoras"  
** Ver também três notas de rodapé deste blogue






------- Comentário 1 -------



(E esta cidade, sabe a pouco...)

Eu sei.
Eu sei que sou maçador, entediante, enfadonho com este assunto.
Mas, não me calo.


Não entendo porque tenho que ir ao Teatro Aveirense para ver a fabulosa Sílvia Pérez Cruz 



— só em 2017: “consiguió el Premio Goya 2017 a la mejor canción original de la película Cerca de tu casa y fue nominada como mejor actriz revelación a los Premios Goya 2017”.




Não entendo porque tenho que ir a Albergaria-a-Velha (FESTIM) para ver o fantástico guitarrista tuaregue Bombino:






Não entendo porque tenho que ir ao Teatro Municipal da Guarda para ver um imperdível Jay-Jay Johanson:





Não entendo porque está Viseu arredada da agenda desta (e de outra) gente.


E mesmo o Seu Jorge há muiii….to que passou pela ACERT/Tondela!


Aqui, só temos Agir…!!!
Uma categoria!

------- Comentário 2 -------
 E para não dizerem que tenho mau feitio...

Coisa boa que vai passar por Viseu, nos Jardins Efémeros.
 

— versão de “April 14” dos Aphex Twin - (que tocaram no Porto/Primavera Sound)


ou

JB


-------
Notas do Olho de Gato:

1 — O post "A cultura em Viseu só funciona para amigos?" foi publicado aqui há quase um ano, em 18 de Julho, e teve bastante impacto nas redes sociais; 99% desse impacto foi muito interessante e cheio de sentido de humor;

2 — O 1% restante foi merdeiro, tendo havido até quem, de má-fé, tivesse querido sugerir que o JB era um pseudónimo do autor deste blogue, como se eu precisasse de me esconder atrás de alguém para dizer o que penso;

3 — Entre o post de Julho de 2016 e este surgiu em Viseu a programação cultural do Carmo'81, que é excelente, designadamente na sua programação musical.

5 049 734

Faz exactamente hoje um ano que 
5 049 734 espanhóis votaram nesta criatura:

Amoras




O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Eugénio de Andrade








domingo, 25 de junho de 2017

Na idade perfeita

Fotografia de Irving Penn


O sabor do café e o cigarro,
o pausado passeio cada tarde,
o cheiro da terra quando chove,
a grata conversa com um amigo
e uma rara página gostada
são teu amor à vida, os teus sentidos.
Aprofundam-se as feridas com o tempo
embora ele mesmo esconda as cicatrizes.
Passou a juventude e o que tens
chamam-lhe os néscios maturidade.
Fernando Ortiz


sábado, 24 de junho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#149)


Cinema's Most Disturbing Smooches from FilmDrunkDotCom on Vimeo.

Saío a noiva muito bem trajada

Daqui


A uns noivos que se foram receber, 
levando ele os vestidos emprestados, 
e indo ela muito doente e chagada


Saío a noiva muito bem trajada,
Saío o noivo muito bem trajado,
O noivo em tudo muito conchegado,
A noiva em tudo muito conchagada.

Ela uma enágoa muito bem bordada
ele um capote muito bem bordado;
Do mais do noivo tudo d'emprestado,
Do mais da noiva tudo d'emprastada.

Folgámos todos os amigos seus
De ver o noivo assim com tanto brio,
De ver a noiva assim com tantos brios.

Disse-lhe o cura então: ― Confio em Deos,
E respondeo o noivo: ― E eu confio.
E respondeo a noiva: ― E eu com fios.
D. Tomás de Noronha



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pata de galinha*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O referendo do brexit foi há exactamente um ano, em 23 de Junho.

Dois dias depois, o congresso do bloco de esquerda quis aproveitar a maré e debateu a hipótese de um referendo similar cá. Pela primeira vez, um partido com representação parlamentar punha em cima da mesa o “sim ou não” à UE. Catarina Martins não percebeu a natureza do voto brexit, um voto nacionalista e anti-imigração, um voto do passado contra o futuro — 64% dos eleitores britânicos com menos de 25 anos votaram para ficar na “Europa”.

O bloco não o percebeu mas o eleitorado espanhol percebeu-o muito bem, e, três dias depois do brexit, retirou um milhão de votos a Pablo Iglesias. Todas as eleições seguintes na UE puseram no poder partidos europeístas e foram tirando fôlego aos populistas. Em França, os populistas de esquerda e de direita acabam de ser reduzidos à insignificância no parlamento. Em Setembro, Angela Merkel vai ser reeleita pelos alemães para um quarto mandato.

Passou um ano, o panorama mudou: o eixo franco-alemão está forte outra vez, a “Europa”, viva e a crescer. Por sua vez, o Reino Unido e os EUA estão nas mãos de dois aprendizes de feiticeiro: Theresa May e Donald Trump.

Passou um ano, o “brexit-means-brexit” de May não sai do sítio. Tanto Londres, a poderosa “cidade-estado” sede da City, como o eleitorado cosmopolita e jovem tudo farão para que ele fique mesmo assim. Parado e quedo.



2. O Jornal do Centro fez uma infografia sobre a auto-estrada Viseu-Coimbra que parecia a pata de uma galinha. A sul de Santa Comba Dão, um dos três “dedos” da pata do bicho apontava para a A1 em Trouxemil, o “dedo” meeiro apontava para Coimbra e o outro para a A13.

Confesso que antes da pata de galinha vi naquele desenho o símbolo da paz. A paz com que Sócrates lançou a obra em cerimónia luzidia em 2008, a paz com que Passos fez o mesmo em 2015, a paz com que, neste ano de autárquicas, a geringonça se embrulha em estudos empaliantes.

Saca-a

Daqui



liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
Nuno Moura


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Jardim Infantil

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Junho de 2007


1. Aconselho a leitura do Despacho de Acusação ao professor Fernando Charrua. Pode ser consultado aqui**


Daqui
De facto, o ridículo mata. Margarida Moreira, a Directora Regional, conseguiu fazer da DREN um Jardim Infantil:
“Era uma vez o Fernandinho que disse umas maldades sobre o chefe da Guida. O Rolando, o Rogério, o Manuel e o Basílio ouviram. Um queixinhas foi dizer à Guida. A Guida ficou muito zangada e pôs o Nandinho de castigo. Ele agora, como não pode brincar mais às casinhas nem no escorrega, chora muito e jura que a Guida também diz maldades do chefe dela. O queixinhas espera receber uma PlayStation Portable no Natal.”

2. O que se passa na DREN não é mais que a versão em anedota do autoritarismo da Ministra da Educação. Que o diga a Associação de Professores de Matemática “convidada a sair” dum projecto só porque tornou públicas opiniões diferentes das de Maria de Lurdes Rodrigues.

Também se percebeu claramente a pulsão autoritária da ministra no Concurso para Professores Titulares. Foi um filme de terror do início ao fim. Na primeira proposta de regulamento daquele concurso ai do professor que fosse ao funeral de um familiar. Até fazer greve era penalizado. Uma coisa do 24 de Abril. Tão, tão inconstitucional que dava dor de cabeça.

3. No sábado passado, em Abrantes, José Sócrates, confrontado com a contestação de centenas de populares, foi falar com eles. Afirmou a seguir: “o Governo precisa de crítica e de a encarar com fair-play, porque tudo faz parte da festa da democracia”. Ali, no calor dos acontecimentos, tanto nas palavras como nos actos, José Sócrates mostrou a fibra que tem e deu uma lição de democracia.

Será que esta lição chegou ao Jardim Infantil?

** O link do jornal Sol publicado há dez anos já não funciona.

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões

Fotografia de Vicente Ansola

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
José Miguel Silva