quarta-feira, 26 de abril de 2017

Encontro

Pintura de Troels Carlsen


Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.
António Franco Alexandre


terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade respira-se*

Imagem daqui

Uma história exemplar
Entrei.
— Tire o chapéu – disse o Senhor Director.     
Tirei o chapéu.    
— Sente-se – determinou o Senhor Director.     
Sentei-me.
O que deseja? – investigou o Senhor Director.     
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.
Mário-Henrique Leiria




* Reedição

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amor como em casa

O Barbeiro (The Man Who Wasn't There)de Ethan e Joel Cohen (2001)



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina


domingo, 23 de abril de 2017

Menina

2046, de Kar-Wai Wong (2004) 

Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro…
Elisa Lucinda



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Uma coisa tipo bazófia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. A campanha publicitária que pôs Viseu a pedir meças a Florença, a Barcelona, à Suíça, à Islândia, e ao diabo a quatro, deu origem a algum bruaá nas televisões e nas redes sociais. Luís Pedro Nunes, no “Irritações” da SIC Radical, gozou o nada “humilde” marqueteiro, chamou-o “Leonardo da Vinci”, enquanto Carla Hilário Quevedo, no mesmo programa, disse achar graça àquilo porque era “uma coisa tipo bazófia”.



Termos a cidade gozada por causa duma fatelice publicitária deixou furioso o director do Expresso, o viseense Pedro Santos Guerreiro, que, no seu Facebook, disparou: “É pá, Luís Pedro Nunes, estou-me nas tintas para o anúncio, nem sequer gosto da campanha e acho que fazerem uma campanha da Câmara neste momento não é indiferente a haver autárquicas este ano. Mas gozares com Viseu faz de mim um Viking”.

Este caso, mais uma vez, faz lembrar uma lei de bronze: as diásporas são, por norma, mais radicais e entricheiradas na defesa da sua terra natal do que quem não emigrou. Radicado em Lisboa, o “viking” Pedro Santos Guerreiro explodiu como ninguém por cá.

2. Depois destes estragos, a Viseu Marca sentiu necessidade de fazer um comunicado em que concede: “(...) não temos uma Broadway, mas damos espectáculo. (...) não estamos em Bordéus, mas os vinhos do Dão são um milagre.”

Esta resposta da Viseu Marca a Luís Pedro Nunes e ao programa “Irritações” foi também uma resposta encapotada a Pedro Santos Guerreiro, embora sem o nomear, mas isso não tem grande importância.

Importante é que, por causa deste tropeção, foi necessária esta manobra de controlo de danos. Importante é que continua sem solução um problema já aqui levantado no Olho de Gato: quem controla e escrutina a Viseu Marca e o seu gestor Jorge Sobrado? É que este, apesar de não eleito, tem mais poder do que os vereadores e ultimamente, como se viu no Teatro Viriato e agora nesta bazófia, anda com tendência para a asneira.

Mentira

Daqui


Menina, me conte uma mentira.
Suas mentiras suaves e delicadas
Adornam a minha vida
Stefano Nardi

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nothing

Fotografia de Friedrich Seidenstücker


Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
Patricia Galvão (Pagu)


quarta-feira, 19 de abril de 2017

«Sim»

Fotografia Olho de Gato


E perguntei-te se também morrias.
E tu disseste: «Sim».
E eu disse-te: «Que vai ser de mim?»
E tu disseste que nesse momento já seria crescido.
E eu disse-te: «Não vejo a relação».
E tu disseste que sim, que havia uma relação.
E eu disse: «Bom».
E tu disseste que todos nós tínhamos de morrer.
E eu perguntei-te se para sempre.
E tu respondeste : «Sim».
E eu disse-te: «Então, e o céu como é?»
E tu disseste que isso era depois.

Sim.

E eu disse que havia de levar-te flores.
E tu perguntaste-me: «Quando?»
E eu respondi: «Quando morreres».
E tu fizeste: «Ah!»
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas».
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso.
E eu disse-te: «Porquê?»
E tu disseste-me: «Porque sim».
E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde.
E tu respondeste-me: «Sim».
E eu disse: «Ainda bem».

Sim.

E depois perguntei-te quem a tinha inventado.
E tu disseste: «Inventado o quê?»
E eu disse: «Essa história da morte».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse: «E o resto?»
E tu disseste: «Qual resto?»
E eu disse: «Essa história do céu».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse-te: «É boa». E disse-te ainda: «Pois». E depois disse-te: «Quando morreres, faço da tua barriga um tambor».
E tu disseste-me: «Isso não se diz».
E eu disse-te: «É pecado?»
E tu disseste: «Não».
Fernando Arrabal


terça-feira, 18 de abril de 2017

Uma história para crianças




Fazes o silêncio dos lilases que esvoaçam
na minha tragédia do vento no coração.
Fizeste da minha vida uma história para crianças
onde naufrágios e mortes
são pretextos de cerimónias adoráveis.
Alejandra Pizarnik


segunda-feira, 17 de abril de 2017

O presente do futuro

Daqui

Plotino disse que há três tempos, e os três são o presente
- Um é o presente atual, o momento em que falo. Quer dizer, o momento em que falei, porque esse momento já pertence ao passado.
A seguir, há o outro, que é o presente do passado e que se chama memória.
E o outro, o presente do futuro, que vem a ser aquilo imaginado por nossa esperança ou por nosso medo.
Jorge Luis Borges