segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Tántalo

Suplício de Tântalo, de Gioacchino Assereto


Los dioses determinan su venganza
Con impulso cruel y insensitivo
Haciendo al hombre un mísero cautivo
Sin fe, sin liberdad, sin esperanza.

Tántalo sin cesar la mano avanza
Ya con fera ansiedad, o ardor furtivo;
La sed e el hambre lê consumem vivo,
Pero ni la água ni la fruta alcanza.

El hombre lanza su deseo al viento;
La mujer le recoge e le rechaza.
Se ofrece e se retira en un momento,

Ya la vez se desnuda y se disfraza.
Y el hombre queda solo en su tormento,
Con nada entre los brazos cuando abraza.
Francisco Hidalgo



domingo, 19 de Outubro de 2014

Fear — Medo

Fotografia de Leonard Freed


Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I've said that.
Raymond Carver






Medo de ver a polícia parar diante da casa.
Medo de adormecer durante a noite.
Medo de não adormecer.
Medo de que o passado regresse.
Medo de que o presente levante voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo das tempestades eléctricas.
Medo da mulher da limpeza que tem uma cicatriz no queixo.
Medo dos cães que me disseram que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter muito, apesar de ser difícil de acreditar.
Medo dos perfis psicológicos.
Medo de chegar tarde e medo de chegar antes de todos.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de os ver morrer antes de mim e de me sentir culpado.
Medo de ter que viver com a minha mãe, na velhice dela e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine em tristeza.
Medo de acordar e de ver que te foste embora.
Medo de não amar e medo de amar demasiado.
Medo de que o que eu ame seja letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demasiado tempo.
Medo da morte.

Isso já disse.

sábado, 18 de Outubro de 2014

O alfabeto da devassa

Fotografia de Kishin Shinoyama


Por mais duro que pareça agora
isso tudo passará.
A tempestade irá embora.

As nuvens pesadas se dissiparão.
Poderemos olhar o céu,
sol poente; novamente

Guardaremos a lição:
para cada azul cintilante
brilhando sob nossas cabeças

existe igual noite de trevas
mosaico invertido,
grafite da escuridão.
Luiz Roberto Nascimento Silva


STAIRWAY TO HEAVEN escrita por Jimmy Page dos Led Zeppelin ou por Randy Craig Wolfe dos Spirit...



«Quando gravas o momento gravas a morte do momento» [3'00]


A seguir a eXistenZ, David Cronenberg 
fez esta reflexão sobre a morte — CAMERA (2000)*




"Todos os jovens fotógrafos que se agitam no mundo, dedicando-se à captação da actualidade, não sabem que são agentes da Morte. É o modo como o nosso tempo assume a Morte: sob o alibi denegador do terrivelmente vivo, de que o fotógrafo é, de certa forma, o profissional. Porque, historicamente, a Fotografia deve ter alguma relação com a «crise da Morte», que começa na segunda metade do século XIX (...)

Porque, numa sociedade, a Morte tem de estar em qualquer lado, se ela já não está (ou está menos) no religioso, deve estar em qualquer outra parte. Talvez nessa imagem que produz a Morte, pretendendo conservar a vida. Contemporânea do recuo dos ritos, a Fotografia corresponderia talvez à intrusão, na nossa sociedade moderna, de uma Morte assimbólica, fora da religião, fora do ritual, uma espécie de mergulho brusco na Morte literal."
in A Câmara Clara,
de Roland Barthes


* Esta curta foi achada no Aventar

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Surdina *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A crise sistémica global estoirou no Outono de 2008 quando faliu o Lehman Brothers. O que aconteceu nestes seis anos é razoavelmente conhecido embora ainda não bem compreendido.

Os Estados Unidos, e não só, estão, desde então, a “tipografar” dinheiro com fartura o que costumava significar inflação. A Alemanha fez isso nos anos de 1920 e foi uma tragédia. Na crise que vivemos, os preços nos países mais endividados estão sob controle. Há duas teorias que tentam explicar isso:
(i) a inflação está a ser exportada para os países emergentes;
(ii) a liquidez chega aos bancos e estes, afogados em activos tóxicos, não a põem a circular.

Se as profecias de hiperinflação falharam, todas as previsões pessimistas sobre o comércio mundial e a globalização falharam ainda mais clamorosamente. Nenhum país relevante na economia mundial se fechou ou aumentou taxas aduaneiras por causa desta crise.

Isso é bom: em 1980, a classe média mundial era de mil milhões de pessoas; em 2012, já era de dois mil milhões; em 2020, prevê Homi Kharas do Brookings Institute, chegará aos três mil milhões. Isso deve-se ao comércio livre e a uma cada vez maior circulação de pessoas, ideias, capitais e bens.

O que a nossa esquerda diz da globalização é centrado no umbigo do ocidente. Os chineses e os indianos têm tanto direito a ter um carro como o professor "alter-mundialista" Boaventura Sousa Santos.

2. Na última assembleia municipal, um António Almeida Henriques vago e enigmático queixou-se de “alguma oposição” (sic) que, em “aparente surdina” (sic) e “má-fé” (sic), espalha “boatos” (sic) e alimenta "rumores" (sic).


Fotografia Olho de Gato
Ora, José Junqueiro, desde o seu fundíssimo 13º lugar na lista das europeias, não tem dito nada audível. Hélder Amaral ainda menos: vai-se fazendo substituir no Rossio por um vereador sobresselente anódino.

Quem será aquela rumorejante “oposição” cuja “surdina” tanto incomoda o presidente da câmara de Viseu?

Mujeres

Fotografia de Bruce Gilden



La mujer imposible,
La mujer de dos metros de estatura,
La señora de mármol de Carrara
Que no fuma ni bebe,
La mujer que no quiere desnudarse
Por temor a quedar embarazada,
La vestal intocable
Que no quiere ser madre de familia,
La mujer que respira por la boca,
La mujer que camina
Virgen hacia la cámara nupcial
Pero que reacciona como hombre,
La que se desnudó por simpatía
(Porque le encanta la música clásica),
La pelirroja que se fue de bruces,
La que sólo se entrega por amor,
La doncella que mira con un ojo,
La que sólo se deja poseer
En el diván, al borde del abismo,
La que odia los órganos sexuales,
La que se une sólo con su perro,
La mujer que se hace la dormida
(El marido la alumbra con un fósforo),
La mujer que se entrega porque sí
Porque la soledad, porque el olvido…
La que llegó doncella a la vejez,
La profesora miope,
La secretaria de gafas oscuras,
La señorita pálida de lentes
(Ella no quiere nada con el falo),
Todas estas walkirias
Todas estas matronas respetables
Con sus labios mayores y menores
Terminarán sacándome de quicio.
Nicanor Parra


quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Quem dá €99,76 de prémio a um aluno não é um político é um dono de uma boutique na época de saldos

1. 



O valor dos prémios lembram uma loja de roupa, no período de saldos. 




2.
Nos idos de mil novecentos e noventa e muitos, propus a criação em Viseu do "prémio para os melhores alunos" das escolas do concelho de Viseu.

Estava a "vereador da oposição" na altura, presidia à câmara o dr. Ruas; a proposta foi chumbada sem apelo nem agravo, como eram todas as propostas da oposição.

No caso o argumento da recusa foi o seguinte verbalizado pelo dr. Américo Nunes: os prémios iam ser ganhos pelos "filhos dos senhores professores / filhos dos ricos".

Um cronista das esquerdas, num jornal da terra, criticou a minha proposta ainda mais acerbamente. Argumento:  os socialistas estavam a ultrapassar o PSD pela direita e queriam promover o "elitismo" nas escolas.

Tanto o PSD camarário como aquele cronista tinham o mesmo quadro mental — não passava por aquelas cabeças que pudesse haver um pobre inteligente. 

La luz araña los cristales

Fotografia de Mayumi Terada

La luz araña los cristales
y cubre de pavas la mesilla.
Suenan muelles, toses, cañerias.
La peña, de un portazo, se embarca
hacia el talego. Afuera el autobús
cierra sus hojas.

Es la vida
que vuelve como un preso a su cadena.
Violeta C. Rangel


quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

A maçã do pagador de impostos em Portugal


"O futuro vem nos livros!", um texto de JB *

* Comentário de JB ao post "Sísifo" deste blogue, publicado na sexta-feira 


Seguro já se apagou e será recordado pelo seu discurso estereotipado e pela “abstenção violenta", que ficará como uma página de vergonha para o PS. Esteve bem o autor deste blog quando recordou que a paciência tem limites, apontando que Maria de Belém não cumpriu na sua qualidade de presidente do partido socialista. O caminho da saída, é óbvio!

A escolha de Ferro Rodrigues para liderar os deputados socialistas é um bom sinal para um início de mandato, mas Sérgio Sousa Pinto foi demolidor no seu facebook quando afirmou: 
”Está visto que mais depressa passa um camelo por um buraco da agulha que um rico sobe ao céu ou o PS se liberta da sua cultura do unanimismo. É uma coisa pré-democrática, de quem acha que as diferenças devem ser niveladas, as ideias fundidas como uma bola de plasticina e a unidade construída numa espécie de comunhão de missa, onde os salmos cedem lugar a bandeiras e punhos erguidos. Lamento a autenticidade perdida do passado”. 
Mas clamam os interessados, apelam os poderosos que o tempo é de unir o que esteve desavindo dentro do PS.

Com um governo a entrar na fase do descalabro, a chamada pré-implosão, sendo a justiça e a educação dois casos flagrantes. Em ambos, não há inocentes, mas uma ideia política de destruição do bem público. No caso da educação, a imagem de descrédito montada por Lurdes Rodrigues e continuada por Crato (curiosamente dois ex “muito à esquerda”) é muito dolorosa de assistir e vai ter efeitos inimagináveis. A náusea persiste mas o governo resiste a todos os empurrões. E como cenário, há um senhor em Belém que diz sempre: “eu avisei”!

O verdadeiro desafio está no PS e nas suas futuras práticas políticas. Que orientação política? Um parceiro confiável do PSD e do CDS e um parceiro de referência dos detentores do poder económico e financeiro ou um PS fiel ao seu ideário social-democrata e socialista? Ao fazer uma Santa Aliança com os seguristas (que se irá refletir na elaboração de listas, blá, blá), Costa abre espaço ao temor de que se possa caminhar para uma Sagrada Aliança com o CDS ou uma Suprema Aliança com Rui Rio, num futuro breve, perto de si. E esse cenário de um PS no governo, a aplicar o Pacto Orçamental com cortes, privatizações a preço de saldo, desregulação, despedimentos, desemprego, desigualdade, caridade, miséria e a andar de braço dado com os impiedosos e desumanos “mercados” (numa economia de casino) será fatal para o sistema político e benéfico para os “marinhos salvadores pintos”.

Costa não precisa de prometer muito (até porque não tem espaço) mas uma imagem e prática de credibilidade será fundamental. Se Costa tiver o firme objetivo de aprofundar e dar um sentido de justiça e ética à democracia, se tiver a coragem de fazer uma política que ponha a justiça à frente da finança, de construir na União as alianças necessárias para inverter as políticas desastrosas que nos afundam, de pôr em causa o Tratado Orçamental, de impor aos credores uma renegociação justa da dívida, então teremos um PS mais mobilizado e empenhado numa trajetória politicamente mais ambiciosa e socialmente mais justa. As pessoas estão descrentes e uma vaga esperança, nada de radical, já é alguma coisa. Obama provou que mais importante que políticas concretas é mudar o estado de espírito das pessoas.

E só o tempo dirá como se vai relacionar Costa com a esquerda à esquerda do PS e vice-versa. Mas a mirífica unidade de esquerda não tem grandes hipóteses de vingar com a mentalidade dos atuais donos (e herdeiros) da esquerda toda, ainda muito tocados pelo “síndrome de 1975”.

Não participei nas primárias do PS e não comungo de grandes esperanças num António Costa socialista (embora lhe reconheça maior capacidade de diálogo à esquerda e com a sociedade civil e os movimentos sociais), mas não perco a capacidade de me indignar e sobretudo não me demito de opinar, de me interrogar e de desafiar os outros para me acompanharem nas inquietações, dúvidas e enganos mas sempre primando pela defesa dos valores da liberdade, da democracia, do Estado social, da igualdade e do cosmopolitismo.


Bem que precisámos de um Moretti a gritar: 

"Digam alguma coisa de esquerda!"

Esta é a melhor altura do ano

Fotografia de Elliott Erwitt

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo – profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin –
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.
Golgona Anghel