sexta-feira, 6 de março de 2015

Tiros no pé *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Antes das eleições, o Syriza convenceu-se de que ia causar problemas à "Europa" como em 2010 durante o primeiro resgate grego.

Yanis Varoufakis teorizou a coisa assim: “se isto também significar que, durante essas negociações, os juros da dívida pública de Portugal, Espanha e Itália sobem, tanto melhor.”

Depois, em plena campanha, Alexis Tsipras apocalipsou: “se recusarem as nossas exigências e nos fizerem sair do euro, será equivalente a uma terceira guerra mundial.”


Ora, o facto é que nada aconteceu. Quanto mais as golas de Varoufakis se levantavam nas negociações, mais os bancos gregos secavam, mais a receita fiscal colapsava, mais os juros das dívidas de Portugal, Espanha e Itália desciam.

O sonho húmido de Varoufakis valia menos do que o seu cachecol. Tsipras acabou por ter de lhe tirar o tapete e chegar a acordo, assinar branco onde antes dizia preto. O "real" é terrível e o primeiro-ministro grego, para tentar desamargar um pouco aquela pílula que o seu comité central tinha que engolir, tentou passar as culpas da derrota para Portugal e Espanha.

Em resposta, o ministro das finanças espanhol pôs números onde só se tem ouvido laracha: o terceiro resgate grego vai ser de 50 mil milhões de euros e Espanha vai participar com 7 mil milhões. Os contribuintes portugueses, calculo eu, com um sexto desse valor.

Será um esforço generoso que defendo. Registe-se que o sr. Anacleto Louçã que só se sente representado na "Europa" pelo governo grego vai inchar tanto como qualquer outro contribuinte. O que é pena.

2. António Costa já cometeu dois erros perfeitamente evitáveis. Em vez de fazer corresponder uma página política nova a um país sem troika, pôs Ferro Rodrigues no parlamento a remoer na herança de Sócrates.

Não contente com esse tiro no pé, o líder do PS, apesar da campanha populista e demagógica do Syriza, manifestou-lhe "simpatia". Essa “simpatia”, nas eleições do próximo outono, vai ser tóxica.

Perfil

Fotografia de Leon Levinstein




Tão fundo o teu perfil e longamente
lavrou os anos que joguei e perco
tão póstumos como ida a juventude

que bem poderia um pouco mais de tempo
a consumir-se o incêndio ter levado
ou breve embora ter deixado lume

bastante para acender o teu cigarro
se como às vezes temo por certo
ainda não estivermos conversados
Miguel Serras Pereira


quinta-feira, 5 de março de 2015

Caminho sem pés e sem sonhos

Fotografia de Sabine Weiss



Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.
Daniel Faria


quarta-feira, 4 de março de 2015

Ergo uma rosa

Fotografia de Marlene Marino


Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.

Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.

Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.

Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
José Saramago





Indústria de ponta *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Março de 2005


0. Começo esta crónica com um ponto zero. É um “antes do princípio” necessário. Joaquim Fidalgo de Freitas, no Jornal do Centro, e Carlos Vieira e Castro, no jornal Via Rápida, ambos candidatos do Bloco de Esquerda nas últimas eleições legislativas, expressaram forte discordância sobre os termos em que o Olho de Gato, de 28 de Janeiro, se referia ao Bloco e à sua lista candidata pelo distrito de Viseu.

Quero dar testemunho público da amizade e da admiração que tenho pela intervenção cívica tanto do Joaquim Fidalgo de Freitas como do Carlos Vieira e Castro.

Nunca é demais recordar que em democracia não há vitórias esmagadoras nem derrotas esmagadoras. É sempre bom ser humilde, mas é ainda mais necessário sê-lo quando se ganha. Eu acho que é positivo e é necessário termos uma esquerda plural. O Bloco de Esquerda e o PCP devem ser sujeitos e objectos de escrutínio democrático. A diversidade é estimulante em democracia. A combatividade e a força das convicções não o é menos.

Este testemunho já devia ter saído no último Olho de Gato. Tenho esperança que a amizade do Joaquim Fidalgo de Freitas e do Carlos Vieira e Castro aplique, a este atraso, o ditado: “Vale mais tarde do que nunca”.

1. No início desta semana, Pacheco Pereira escreveu no seu blogue: «Há hoje uma indústria de falar / escrever sob a forma de comentário que faz parte das novas tecnologias e é, meus caros amigos e inimigos, uma “indústria de ponta”».

Daqui
Já imaginava que este Olho de Gato era coisa pra-frentex, mas não supunha que o fosse tanto. Esta coluna tem “a forma de comentário”. É também, portanto, meus caros amigos e inimigos, “indústria de ponta”.

2. Da minha leitura dos resultados das eleições de 20 de Fevereiro, quero destacar o seguinte:

- Os portugueses continuam a acreditar na democracia e, por isso, os níveis da abstenção diminuíram.

- Jorge Sampaio fez bem em dissolver o Parlamento.

- As nossas empresas de sondagem são credíveis. As diferenças entre os resultados das sondagens e os resultados nas urnas foram desprezíveis.

- O PS teve a maioria absoluta. O mérito é de José Sócrates que mostrou ter uma estratégia para o país, mostrou competência e sentido de estado e soube indicar aos portugueses um caminho de esperança.

- A campanha do PSL (Partido de Santana Lopes) foi feia nos truques e errada na estratégia.

- O PS, em Viseu, ultrapassou pela primeira vez o PSD, acabando com o Cavaquistão. José Junqueiro e o PS/Viseu acrescentaram valor à dinâmica nacional e mereceram vencer porque foram claros e tiveram ambição.

- A derrota do PSD, em Viseu, foi impulsionada pelo desastre Barroso / Santana, mas essa derrota também teve causas locais. O PSD/Viseu amochou no problema das portagens e os viseenses não gostam de políticos fracos. Ainda por cima, Carlos Marta, um dos derrotados de 20 de Fevereiro, deixou que a Lista de Deputados do PSD fosse encabeçada por um pára-quedista medíocre.

- Fernando Ruas é outro dos derrotados. Ele já tinha apoiado a proto-candidatura de Pedro Santana Lopes à Presidência da República, preferindo Santana a Cavaco Silva. Agora, em 2005, Ruas foi o Mandatário de Honra. A sua fotografia apareceu ao lado da de Arnaut e de Santana, ajudando também à derrota do Cavaquistão.

3. Como foi possível a Santana Lopes chegar à liderança dum partido de poder? Quem falhou? Que falhou? Onde estão os filtros de mérito numa grande organização partidária? O desastre que aconteceu no PSD poderá acontecer, no futuro, no PS?

Fotografia de Miguel Baltazar, publicada no Jornal de Negócios

Devemos procurar respostas a estas perguntas. Para já, deixo uma certeza: a política é coisa demasiado séria para ser deixada só nas mãos dos políticos profissionais.

terça-feira, 3 de março de 2015

Ornitología

Fotografia de Gustavo Guimarães



Yo no sé cómo fue
pero ese día
se llenó la calle
de palomas.

Vos hacías como que no las mirabas
para que vinieran hasta nosotros.

Ellas temen del hombre
la mano que las capturará
si se descuidan.

Lo mismo que nosotros.
Pero con alas.
María Belén Aguirre

segunda-feira, 2 de março de 2015

Sete meses disto até às eleições?







Silêncio

Fotografia Olho de Gato




Silêncio
de salgueiro
sobre um braço de água parada,
silêncio
de nuvens imóveis,
silêncio
de caminhos intransitivos.

Solidão
de relvas de outono,
solidão
de pássaro sobre o pântano,
solidão
de datas insaciáveis.

Dor
de sol ensanguentado,
dor
de luz na penumbra,
dor
do não-vivido.
Ivan Minatti



domingo, 1 de março de 2015

Agora vai ser assim: nunca mais te verei


Fotografia de Brett Walker


Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,
e humano, como um destino orgânico e sensato,
fica em mim como um muro imóvel, um aspecto esquecido
e altivo de todas as coisas, de todas as palavras.
Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência
mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem. Marcávamos férias
em meses diferentes. O fim do ano, a páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,
a tua, não poderiam nunca encontrar-se no mundo.
António Franco Alexandre






sábado, 28 de fevereiro de 2015

A direcção do sangue

Fotografia de Brett Walker

Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Taxas e destaxas *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O parlamento avança para a aprovação da taxa sobre os dispositivos electrónicos com memória (telemóveis, pens, computadores, boxes, ...), taxa que se aplica mesmo a aparelhos onde só vamos ter fotografias e vídeos pessoais.

As receitas obtidas vão ser geridas por uma putativa “Associação para a Gestão da Cópia Privada” que, por sua vez, as vai distribuir pelas associações de gestão de direitos de autor que, por sua vez, dividirão a receita sobrante por autores (40%), intérpretes (30%) e produtores (30% ). O que ultrapassar 15 milhões de euros vai para a fome de fomentar do “Fundo de Fomento Cultural”.

Há sempre um lobby capaz de pôr políticos a tirarem dinheiro aos cidadãos em seu benefício.

Um smartphone novo, com mais esta alcavala, poderá ficar mais caro quinze euros. Isto é uma taxa ou uma taxona, ministro Piiiires de Liiiiima?

Ensaio completo publicado no Guardian aqui
2. Perante isto, há que achar os países sem esta taxa ou com uma menor para fazermos as nossas compras e perceber que a conversa dos “direitos de autor” em tempos de partilha online anda muito mal contada.

Para melhorarmos essa compreensão, nada melhor que procurar na net a notável reflexão feita em 15 de Novembro, no “Melbourne's Face The Music”, por Steve Albini (há décadas músico e engenheiro de som com centenas de discos editados e autor, em 1993, do importante ensaio “The Problem With Music”).

3. Quando um lobby consegue uma isenção, em vez de uma taxa passamos a ter uma destaxa.

Eis um exemplo recente de destaxa: os 1,8 milhões de euros perdoados ao Benfica pela câmara de Lisboa. Isenção que, graças ao alarido público, vai agora ser chumbada na assembleia municipal.

Os políticos não aprenderam nada com a bancarrota de 2011. Não aprenderam eles mas aprendeu a opinião pública que reagiu com violência a esta pouca-vergonha.

O país parece preparado para pregar um susto eleitoral aos partidos do sistema. É só aparecerem protagonistas novos credíveis.

Três haicais brasileiros

Fotografia de Kishin Shinoyama


1
o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer
Alice Ruiz





2
Na poça d'água
o gato lambe
a gota de lua.
Yeda Prates Bernis







3
Me comovem
tuas mãos limpas
e tua cabeça suja.
Eliane Pantoja Vaidya