domingo, 26 de março de 2017

Carpe Diem

in Ancient Marks: The Sacred Origins of Tattoos and Body Marking

Daqui a alguns anos,
todas as novidades serão velhas.

E ainda mais tarde, quando os calendários
marcarem outro século,
e quando esse outro século for velho,
lápides testemunharão nossa passagem,
efêmera passagem pelo mundo.

É incrível admitir que este momento,
este instante de agora,
novo, atual, moderno,
será passado um dia...

os últimos modelos de automóvel
(que já hoje raros chamam de automóvel)
e os mais modernos aviões
(que um dia se chamaram aeroplanos),
tudo será futuramente
atracção de museu...

Colhamos (doce ou amargo) o momento presente
antes que ele se torne antigamente...
Sânzio de Azevedo

sábado, 25 de março de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#136)


Díptico




No hay luz sino estupor de luz
en este jardín abrasado
de frío y lenta escarcha donde
alguien cuya sombra te evoca
remueve sin prisa la tierra
y deja en los surcos un hilo
de luz fría donde mis ojos
desde esta página te anuncian
y dicen verte, aunque no estés.

Hago inventario de tu ausencia:
ojos no usados, aire intacto,
las horas como lumbre escasa
que el aire no aventa ni excita.
En todo espío transparencias,
temblor que es tu cuerpo inasible.
Hago inventario de tu ausencia
para que sepas de tu vida
a mi lado, cuando no estás.
Jordi Doce





sexta-feira, 24 de março de 2017

O homem do escadote*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


No domingo passado, pelas quinze horas, um homem subiu a um escadote...

Fotografia Olho de Gato
... e compôs os painéis azuis e brancos da agência da Caixa Geral de Depósitos, sita na intersecção entre a Rua do Comércio e a Rua Formosa, da formosa cidade de Viseu.

O homem cumpriu com brio e profissionalismo a encomenda do dr. Paulo Macedo, esse mau-carácter que, durante o passismo, tentou destruir o serviço nacional de saúde (fazendo fé nos avisos da esquerda, brinco do dr. Galamba incluído), perdão!, a encomenda do dr. Paulo Macedo, esse messias que agora, durante o costismo, vai salvar a CGD (fazendo fé na mesmíssima esquerda, brinco do dr. Galamba incluído).

Encomenda urgente aquela, não há tempo a perder, é necessário esticar as telas retro-iluminadas da CGD, perdeu-se um ano com aquele Domingues, um calaceiro que só serviu para derreter tempo com éssiémiésses para o ministro Centeno, para regozijo do dr. Lobo Xavier, esse direitolas, e para escândalo do competente dr. Jorge Coelho (produtor de bom queijo e bom requeijão junto à ermida de Santo António dos Cabaços, em Mangualde) e do flexível dr. Pacheco Pereira (guru do autoritarismo do dr. Cavaco, guru uns anos depois da asfixia democrática da dra. Manuela, guru agora da geringonça do dr. Costa, e guru no futuro do músculo populista do dr. Rio).

Pena é já não ser possível ao homem do escadote tratar das telas azuis da caixa na sua agência La Seda (de onde se impariram 476 milhões de euros), ...



... nem na agência Efacec (de onde se escafederam 303 milhões), ou na agência Vale do Lobo (de onde se desvararam 283 milhões), ou na agência Espírito Santo (de onde se salgadaram 237 milhões), para não falar da agência Lena (de onde se offchoraram 225 milhões) ou da agência Berardo, ou...

Pena é o homem do escadote ter andado, no último domingo deste inverno do nosso descontentamento, a esticar as telas de um dos 180 balcões da CGD que já não vão fazer outro inverno.

Deixar de ser

Daqui


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Cecília Meireles


quinta-feira, 23 de março de 2017

Abaixo

Fotografia de Sebastião Salgado



É abaixo de todos os seres humanos, em último lugar, que colocamos a criada!
Há-de haver alguma razão.
Não nos esqueçamos disto.
Patti Smith



quarta-feira, 22 de março de 2017

A mais estreita linha

Fotografia de Ren Hang


Da terra não,
da terra não poderia falar,
apenas da estreita linha
em que o meu vestido passa
por demais perto do chão

dessa linha
um pouco suja
e tão mais do que eu real
onde o tecido arrasta
e guarda o rasto do passar

dessa leve coincidência
entre o que está
e o que passa
entre o que ondula
e o que estaca

entre uma coisa e outra
passa levíssima a aragem
e eu passo
e nada se abre nem fecha
nessa estrada

disso —
de um saber sem perguntar
— talvez um dia

nem da terra nem de mim
— dessa linha tão precisa
que imagino eu
há-de ter por nome
uma palavra como perto
Rosa Maria Martelo


terça-feira, 21 de março de 2017

Mujer de azul

Fotografia de Parker Day


Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
— y esto es lo único innegociable —
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.
Cysko Muñoz


segunda-feira, 20 de março de 2017

Pas de deux



A flor e o vento começam o seu pas-de-deux intemporal
Felizes um com o outro e sem sentirem a falta de nada
Enquanto o nosso mundo mortal embarca ainda e outra vez num novo dia
Kalikiano Kalei



Pas de deux, de Norman McClaren (1967), from National Film Board of Canada on Vimeo.


«Para mim, na verdade, num filme abstracto as formas mais agradáveis são aquelas que mais se aproximam da música.
Deve haver equivalência visual.»
Norman McLaren

domingo, 19 de março de 2017

Hasta los huesos — de René Castillo

Es la historia de un hombre y su llegada al mundo de los muertos, donde es recibido por un gusano, calacas sonrientes y la mismísima Catrina.

Poco a poco nuestro personaje descubre que, salvo algunos inconvenientes, estar muerto no es tan malo.



4'45" aos 7'40" — "La Llorona", por Eugenia León

O charme discreto da blogomania

Gif Olho de Gato


presa nesta aritmética
do dia-a-dia
consulto a estatística
como quem dedilha uma sonata
num teclado incerto
conheço todos os atalhos
que me levam às notas mais agudas
e entro e saio
abro e fecho páginas
para viciar o Stats for December:
faço contas plos dedos
impróprios
e aplico a prova dos nove
pra verificar o resultado
– que já sei
Ana Paula Inácio




sábado, 18 de março de 2017