domingo, 28 de maio de 2017

Song of myself *

Daqui

1
I celebrate myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.

I loafe and invite my soul,
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass.

My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air,
Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same,
I, now thirty-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.

Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy.

2
Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with perfumes,
I breathe the fragrance myself and know it and like it,
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.

The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the distillation, it is odorless,
It is for my mouth forever, I am in love with it,
I will go to the bank by the wood and become undisguised and naked,
I am mad for it to be in contact with me.

The smoke of my own breath,
Echoes, ripples, buzz’d whispers, love-root, silk-thread, crotch and vine,
My respiration and inspiration, the beating of my heart, the passing of blood and air through my lungs,
The sniff of green leaves and dry leaves, and of the shore and dark-color’d sea-rocks, and of hay in the barn,
The sound of the belch’d words of my voice loos’d to the eddies of the wind,
A few light kisses, a few embraces, a reaching around of arms,
The play of shine and shade on the trees as the supple boughs wag,
The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields and hill-sides,
The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising from bed and meeting the sun.

Have you reckon’d a thousand acres much? have you reckon’d the earth much?
Have you practis’d so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?

Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
You shall no longer take things at second or third hand, nor look through the eyes of the dead, nor feed on the spectres in books,
You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
You shall listen to all sides and filter them from your self.
(...)
Walt Withman



* 1892 version complete here

sábado, 27 de maio de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#145)

Esta desgraça:


Afinal, teve graça:

Deixa que nos chamem

Fotografia de Aaron Feaver


Deixa que nos chamem
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.

Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.

Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
Raquel Nobre Guerra




sexta-feira, 26 de maio de 2017

Logomaquia

Como muito bem reflecte Bárbara Reis hoje no Público, o bruaá de ontem sobre a "cara de pedra" do papa Francisco numa fotografia da Associated Press foi um flagrante caso de "fake news".

Fotografia de Evan Vucci (Associated Press) 
Vermos Trump, depois da sua campanha escorada em "fake news", ser vítima do mesmo tem alguma graça. Só isso.

As "conclusões" sentenciosas que se acogumelaram em todo o lado sobre este não-caso diz muito sobre a actual ecologia mediática — vivemos numa bolha de logomaquia inconsequente pendurada no vazio.

Tubos tirados*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Em 2009 e 2010, Portugal teve os dois maiores défices públicos consecutivos em tempo de paz da sua história. Foi coisa em grande — a dívida pública só naqueles dois anos pulou 21% do PIB, quase quarenta mil milhões de euros. Uma tal hemorragia fez com que, em 2011, o país tivesse quer ser levado ao bloco operatório pelos credores.


Fotografia daqui

Como se sabe, uma cirurgia começa por tirar a uma pessoa toda a autonomia, quando a põe a dormir. Depois, o regresso do doente a si, à inteireza de si, não é imediato. Ele está entubado, algaliado, há uma conversa tubular, química, de dentro para fora e de fora para dentro, monitorada, feita de insegurança e dor, dor que é a fala do corpo doente.

Depois, com o passar do tempo, os tubos vão sendo tirados, as funções corporais recuperadas, e isso, a retirada de cada tubo, mais do que um alívio, é sentida como uma libertação.

Portugal, em 2011, viu o seu corpo invadido por tubos estranhos postos pelos cirurgiões da troika, tubos que têm vindo, ao longo destes negros anos, a ser retirados um a um. Esta semana foi tirado o último: o do procedimento por défices excessivos. O país está agora completamente autónomo. Pode escolher o seu caminho.

A terceira república já teve três idas ao bloco operatório: em 1977 levou uma transfusão de 1% do PIB; em 1983, transfusão de 2,8%; e, em 2011, foi uma brutalidade: 45,5% do PIB. Haja agora juízo para se evitar a quarta.

2. Manuel Delgado, secretário de estado da saúde, chegou-se junto de Cílio Correia, director do hospital, e disse-lhe na presença das forças vivas da cidade: saiba o meu amigo que, em vez de um centro oncológico em Viseu, vamos ter uma extensão do de Coimbra, saiba o meu amigo que vamos fazer um bunker no hospital de Viseu para dois aceleradores lineares, mas não há dinheiro, saiba o meu amigo que vamos começar por instalar um só acelerador para poupar 30% do dinheiro que não temos.

O tão badalado anúncio da radioterapia em Viseu foi este nada.

Claridade dada pelo tempo

Fotografia de Emma Katka


Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
poesia
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Mário-Henrique Leiria


quinta-feira, 25 de maio de 2017

TB*

* Este texto foi publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 25 de Maio de 2007, por alturas da saída de TB (essa lamentável criatura...)
     
1. O primeiro livro que li na vida foi um volume de contos religiosos que achei em casa dos meus avós. Um desses contos impressionou-me tanto que ainda hoje me lembro dele. Era mais ou menos assim:
     
O frade TB viveu uma longa vida de santidade. Quando chegou a hora de prestar contas a Deus, juntou-se uma coorte de anjos para assistirem ao julgamento, cujo veredicto só podia ser um: o Paraíso.

Numa nuvem dourada e brilhante, instalou-se a balança da justiça de Deus, com os seus dois pratos: o prato do bem e o prato do mal. Perante todos, em retrospectiva, reviu-se o filme da vida do frade. Em todas as terras Frei TB dera esmola aos pobres e confortara os doentes, ajudara os desesperados e dera calor aos seus corações. O prato do bem vergava ao peso daquela vida de virtude.
     
Eis senão quando, para estupefacção de todos, o prato do mal começou a descer. «Que mal fez ele?» - perguntavam todos em estado de choque. O prato do mal, inexorável, afundou-se. Viu-se, então, o filme do que aconteceu: Frei TB a aproximar-se dum leitãozinho rosado, a matá-lo e a fazer uma fogueira…

Aquele homem, uma e só uma vez, depois de tantos jejuns e privações, por uma vez sem exemplo, ele, aquele santo, condenara-se às chamas do Inferno, ao soçobrar ao pecado da gula.
     
2. A crueldade desta história assombrou muito os meus sete anos. Frei TB tinha feito uma espécie de “paragem técnica” na Mealhada, terra de martírio dos pequenos recos saborosos. E quem nunca “parou na Mealhada” que atire a primeira pedra...
     
3. É a hora de pôr a funcionar a balança do bem e do mal para Tony Blair. No prato do bem, uma vida de virtude política. No prato do mal, a Guerra do Iraque.
     
Vá para o Inferno, Mr. Blair!

If I could tell you

Fotografia de Wawi Navarroza

Time will say nothing but I told you so
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reason why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.
W. H. Auden


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Não te iludas, não te desiludas

Fotografia de Khaled Hasan


Não te iludas, não te desiludas
não há ninguém do outro lado
da linha, não precisas de bateria
para te ligarem,
nunca serás tu a pagar rodadas,
és invisível e não vale a pena
tentares gostar de vinho.
Não te iludas,
nada te tenta como uma romã antes
do tempo delas, frésias em dezembro
podem ser comoventes
mas não são frésias ou não é dezembro,
ninguém tas estende.
Se parecem pétalas nos cabelos das crianças
não são tuas. Não te iludas,
acende a luz.
Não te desiludas,
não há quem goste de ti e de dióspiros,
podes tentar, mas não tentas ninguém,
és uma solução fácil,
demasiado prosaica,
os teus versos não convencem mulheres
melhores
homens
crianças,
principiantes de toda a sorte,
riem-se das tuas palavras
e do teu dia-a-dia banal. Não há o que esconder
para além do despertador
e do comboio, nem entre uma coisa e outra.
Não te iludas,
podes ter inventado alguma coisa quase grande,
mas a dor da queda sente-se especialmente no
calcanhar. (Era a última curva que te prendia
ao chão a que voltarás e pertences.)
Havia uns sapatos vermelhos, sorrisos grátis e outras
formulações previsíveis
que te encantaram
porque vinham do outro lado da rua,
mas
não te desiludas:
um copo de vinho é um copo vazio
antes ou depois de teres dito tudo,
se é que alguém esticou os dedos.
As tuas estrofes são demasiado
iguais, serves-te
de um dicionário escolar
e o teu melhor poema foi o primeiro.
Não te desiludas,
os outros são sempre outros.
Não vale a pena ofereceres-te para escrever
sms ou requerimentos,
os teus desejos são irrevelantes
face a um novo par,
os saltos altos fazem pessoas diferentes.
Não te iludas
não corras, nunca terás o calçado
adequado para cada ocasião
– dança descalço –
não espreites perfis alheios
não te deixes embalar pelo toque de chamada,
a voz da operadora telefónica
lê todos os sinais que dizem que não és desejado
antes de encostares o peito ao que te estendem.
Não corras,
sem pressa evitas melhor chegar à verdade
(não há mais de mil verdades)
e saber que o fim
não é quando rodas o botão
e o fogo azul se apaga.
Margarida Ferra


terça-feira, 23 de maio de 2017

Propinquity






I, being born a woman and distressed

I, being born a woman and distressed
By all the needs and notions of my kind,
Am urged by your propinquity to find
Your person fair, and feel a certain zest
To bear your body’s weight upon my breast:
So subtly is the fume of life designed,
To clarify the pulse and cloud the mind,
And leave me once again undone, possessed.
Think not for this, however, the poor treason
Of my stout blood against my staggering brain,
I shall remember you with love, or season
My scorn with pity, —let me make it plain:
I find this frenzy insufficient reason
For conversation when we meet again.
Edna St. Vincent Millay



Propinquity had a special meaning at the time Edna used it. It meant there was a powerful force acting on a man and woman in close proximity compelling them to have sex. It also meant the presumption that a man and a woman living together were having sex. Thus a woman's reputation would be tarnished if she lived with a man - as his housekeeper, for instance.

I mention this because the dictionaries I consulted didn't make this meaning of propinquity clear. Also the word has been hijacked by psychologists to endue their beliefs.

Edna's candle burned brightly but it didn't last, as she predicted. "Youth's a stuff will not endure", as my mate Will put it.
SpokenVerse

segunda-feira, 22 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017