Olho de Gato #1111 — O fim
* Hoje no Jornal do Centro aqui
O primeiro Olho de Gato, publicado em 29 de Março de 2002, teve o seguinte título: “O real tem muita imaginação”. Embora soubesse isso e o tivesse explicado logo, nunca imaginei que o real ia conseguir pôr-me a gravar 283 podcasts e trazer esta coluna até esta bonita capicua — 1111. É um bom número para acabar.
Agradeço a simpatia com que os leitores e o Jornal do Centro sempre me trataram, ao longo destes vinte e quatro anos, três meses e vinte dias. Como as despedidas são sempre tristes, façamos de conta que isto é apenas mais um Olho de Gato e vejamos o último assunto desta coluna:
Bufaria
Com o passar dos séculos, os nomes podem ter mudado — delator, bufo, chibo —, mas o mecanismo da delação é sempre o mesmo: a satisfação moral de entregar alguém em nome de uma causa superior.
Entre 1536 e 1821, os portugueses fizeram milhares e milhares de denúncias à Inquisição e, quando alguém se gabava disso, fazia-o apenas diante dos vizinhos.
No século XXI, esta actividade transferiu-se, em boa medida, para as redes sociais e exerce-se sobretudo através da acusação de “discurso de ódio”.
Os ratos-do-teclado gostam de exibir as suas denúncias como medalhas de bom comportamento perante a tribo a que pertencem, fazem questão de anunciar que denunciaram; publicam capturas de ecrã do chibanço e comemoram os dissabores sofridos pelos seus alvos.
A denúncia deixou de ser apenas um instrumento; tornou-se também uma performance pública de virtude. Nas lutas identitárias, denunciar confere estatuto. Seja pela via activa — denunciar alguém da bolha adversária —, seja pela via passiva — ser denunciado pela bolha adversária —, ambas as facções transformam a denúncia, ou a condição de denunciado, num distintivo moral.
Uma coisa, porém, não mudou: dentro ou fora das redes sociais, a bufaria foi, é, e será, quase sempre, praticada por gente a exsudar boa consciência por todos os poros, convencida de estar do lado certo da História.
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Ao terminar assim, o Olho de Gato deixa o que há-de vir entregue ao real. Que, felizmente, tem muita imaginação.


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