Fracturas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 8 de Julho de 2016


1. O estado português começou logo no primeirinho dia deste mês de Julho a "rolar" dívida. Fez um "deslizamento", com "alargamento da maturidade", a 547 milhões de euros que eram para pagar em 2017, a 315 milhões que venciam em 2018 e a 150 milhões em 2019.

Traduzido em miúdos, o sr. geringonço chegou junto dos srs. credores (bancos e fundos de investimento) e disse-lhes: 
«caros amigos, preciso de uma folga para os três próximos anos, pode ser? Eu compro-vos 1012 milhões de títulos de dívida emitida e vendo-vos uns títulos novos, 733 milhões a vencerem em 2025 e os restantes 279 milhões em 2037. O novo juro é convosco. Pode ser? Excelente!»

Em 2037, quando esta dívida contraída pela dupla da bancarrota for paga, José Sócrates faz 80 anos e Teixeira dos Santos 86. Espera-se que ambos com muita saúde.

Dirijo-me especialmente aos leitores mais novos, lembrando o aviso de Daniel Innerarity: "dívida é ocupação do futuro", do vosso futuro, dívida é impostos que vocês vão pagar, com o vosso trabalho. Leiam o livro daquele filósofo basco* de esquerda: "O Futuro e os seus Inimigos".

Meus caros, não se esqueçam: quando a "Europa" impõe menos défice aos governos, ela está do vosso lado, está a impedir que políticos egoístas, velhos ou novos, ocupem ainda mais o vosso futuro com dívida.

2. No Reino Unido, 64% dos eleitores com menos de 25 anos votaram pela permanência do país na União Europeia. Por sua vez, os eleitores de 65 ou mais anos votaram maioritariamente Brexit (58%).

Esta fractura geracional é feia de ver.

3. Em Portugal, a fractura entre os interesses dos jovens e dos velhos não é na questão europeia, é na dívida.

E há ainda outra fractura pronta para ser explorada por políticos novos que queiram correr com os instalados: a que se vai agravando entre quem vive do orçamento de estado (com ou sem horário de 35 horas) e quem o paga (com desemprego ou trabalhando 40 ou mais horas).

* Por lapso, na edição de papel chamei-lhe catalão

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