A deserção dos homens*

* Hoje no Jornal do Centro

Nos seus mais de vinte e quatro anos de vida, o Olho de Gato nunca teve falta de assunto, pelo contrário sempre teve muitos em “lista de espera”. Dois deles — o facto de São Teotónio se recusar a confessar mulheres sozinho e muitos chefões de Wall Street, depois do #MeToo, só reunirem com mulheres com a porta aberta —  aguardaram anos pela oportunidade certa. Vai ser hoje, depois de ter tropeçado num texto de Rachel Drucker, no New York Times, com o título Homens, para onde foram? Por favor, voltem, em que a autora se queixa de os homens estarem a trocar o namoro presencial pelo virtual.

São Teotónio recusava confessar mulheres a sós — prudência de santo que já desconfiava que a intimidade, mesmo sacramental, precisa de testemunhas. Séculos depois, os banqueiros de Wall Street, pós-#MeToo, redescobriram a mesma sabedoria empírica. Do confessionário ao open space, a receita repete-se: porta aberta, colega por perto, ninguém encurralado com ninguém.

De Brian Rea (New York Times)
Chega agora o New York Times com as últimas novidades: os homens deixaram a porta aberta e fugiram pelo corredor fora. Rachel Drucker encontra, em Chicago, mulheres a jantar sozinhas ou em bando e nenhum homem à vista — não por pudor devoto, nem por medo de processo, mas por overdose de scroll.

Reparem na escalada: Teotónio evitava ficar a sós com uma mulher por temor a Deus; o banqueiro de 2018, por temor ao departamento de recursos humanos; o homo contemporanus nem precisa de motivo — está a sós com o telemóvel e isso basta-lhe. Já nem há tentação a resistir: a alternativa está sempre a um deslizar de dedo. A mesma fuga da intimidade, com menos justificação moral e mais Wi-Fi. Do confessionário à app de encontros, a porta continua aberta — só que agora já ninguém aparece para a atravessar. 

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