A lua e Marilyn


Tinha duas faces como a lua

Uma que toda a gente conhece

e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)

e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer

É esse o teu lado que me fascina

que sempre me fascinou

Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)

como uma borboleta

e não pesavas mais do que isso

e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir

o pólen que trazias agarrado nas mãos

Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo

(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)

custa-me a entender como é que tu ao passares a língua

pela casca de um fruto carnudo

lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa


90-60-90…


São essas rigorosamente as medidas do universo

em que te movias

as medidas do pesadelo

que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes

e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra

Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens

desaguam desesperadamente

O mar está encapelado

Nem me dou conta que está morta –

Subiram o pano

A sessão da tarde vai começar…

Gostaria de me encontrar depois contigo

num dos manicómios desta cidade

(há vários e vai ser difícil escolher)

Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas

amarelas e fragrantes

nos jardins da nossa inconsistência 

Jorge Sousa Braga


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