Procusto*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Março de 2016

1. Procusto tinha em sua casa uma cama de ferro para receber viajantes. Essa cama era uma bitola: o hóspede tinha de ser do exacto tamanho da cama. Se ele fosse maior, Procusto serrava-lhe as pernas, se ele fosse mais pequeno, Procusto esticava-o.

Este mito grego representa a intolerância perante a diferença. É uma parábola sobre a igualitarização compulsiva de tudo. Não faz mal nenhum lembrá-lo agora quando começam a chegar a Portugal refugiados, a quem é decente ajudar e a quem não é decente “serrar” ou “esticar” para encaixar à força na nossa “cama” de valores.

Esta interdição é, evidentemente, metafórica e bi-direccional — nem nós a eles, nem eles a nós. Principal melindre: a condição da mulher. Não podemos ceder nos avanços conseguidos na igualdade entre homens e mulheres.

Foi com muito sofrimento, coragem e determinação que se conseguiu vencer, nestas matérias, a oposição do Vaticano e dos estados do Islão que sempre se aliaram nos fóruns internacionais. “Santa aliança”, assim lhe chamou, com desagrado e conhecimento de causa, o ex-presidente da assembleia geral da ONU, Diogo Freitas do Amaral.**

Chegados a este ponto, resta dizer: defendo uma lei da república que proíba o uso da burca no espaço público. 
Fotografia daqui
E não, não acho que esta seja uma “lei de Procusto”. 
Ela não “serra” nem “estica” ninguém.

Fotografia daqui 
Só não tolera o intolerável. 
E vestuário para esconder o rosto é intolerável.

2. A reeleição de António Borges como líder distrital do PS teve resultados “norte-coreanos”: 94,71% no mapa distrital, 92% no site nacional do PS. 

Como a informação do partido não bate certo e é opaca, resta-nos fazer perguntas. Quantos eram os militantes com capacidade eleitoral no país, nos distritos e nos concelhos? Qual foi a abstenção nacional, distrital e concelhia?

Aquele chapéu em Lamego a transbordar de votos em António Borges, com uns espantosos zero brancos e zero nulos, quer dizer que os socialistas lamecenses o querem como candidato à sua câmara em 2017?

** Edição do Jornal Público, 16.07.1999

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