António José Seguro em Belém, Pierre-Henri Tavoillot em Viseu*

 * Hoje no Jornal do Centro

1. Depois de uma campanha difícil e longa — em que teve contra si o comentariado, os cheganos, os lobistas, os justicialistas, os liberais, as esquerdas radicais e os “desinfluencers” do costismo —, António José Seguro obteve a maior votação de sempre em Portugal (3.505.846 votos).

Fotografia Olho de Gato (3'1'26)
Na semana em que tomou posse deixo aqui os seguintes conselhos ao novo Presidente da República:

— fale pouco e seja paciente;

— não ligue à conversa do comentariado;

— una o deslaçado, aproxime o diferente, seja duro quando necessário;

— despreze as guerras culturais estéreis dos fachos e dos wokes, que só servem para nos tirar chão comum;

— evite o “promulgo, mas…”, os vetos por tudo e por nada e, ainda mais, o amém a tudo;

— não faça como todos os seus antecessores que, nos primeiros mandatos, preocupados com a sua reeleição, foram uma espécie de sacristãos dos primeiros-ministros de turno.


2. Continuam excelentes as conferências do “BEIRA – Observatório de Ideias Contemporâneas Azeredo Perdigão”, organizadas em Viseu, uma em cada estação do ano.

Fotografia Olho de Gato (7'3'26)
A do Inverno de 2026 aconteceu no sábado. Nela, o filósofo francês Pierre-Henri Tavoillot fez uma comunicação intitulada “A política entre poder e impotência: superar a desilusão democrática” onde entrou logo a matar. Disse ele: “a democracia é um regime ‘decepcionante’, absurdo e incompreensível. É preciso partir daí, em vez de — como acontece demasiadas vezes — terminar aí.” A democracia decepciona porque a promessa absoluta de liberté, égalité e fraternité é inalcançável, porque é absurdo o povo ser ao mesmo tempo sujeito e objecto de governo e é incompreensível porque não se sabe bem o que é o povo e o que é governar.

Tavoillot enunciou três sentidos para povo: o povo-sociedade (o conjunto de indivíduos que querem viver juntos), o povo-Estado (querem viver juntos de uma forma organizada e duradoura) e o povo-opinião (“os indivíduos que, vivendo juntos e querendo viver juntos, debatem entre si a maneira de o fazer”).

Ora, “estas três figuras do povo” são “potencialmente concorrentes” e, como “cada uma aspira secretamente a devorar as outras duas”, temos as “três doenças crónicas das democracias liberais”:

— a “hipertrofia da sociedade” que leva à “tentação anárquica de tudo privatizar”;

— a “hipertrofia do Estado” que engendra o “sonho (ou pesadelo) tecnocrático ou autocrático”;

— a “hipertofria da opinião” que leva à “mediacracia e ao regime abominável da transparência absoluta”.

Como sarar estes “males do presente”? Pierre-Henri Tavoillot propõe pensarmos a democracia menos como uma substância e mais como um método assente em quatro momentos primordiais: eleições, deliberação pública, decisão e prestação de contas.  

No mundo atual, o equilíbrio desses quatro momentos — “se um faltar ou se um deles ficar enfraquecido, a democracia vacila e o povo desaparece” — está a ser ameaçado pela democracia radical (que “já não quer Estado, mas apenas liberdade”), pela democracia iliberal (que “já não quer liberdade, mas apenas prosperidade e eficácia”) e a nomocracia (que “já não quer política nem sociedade, mas apenas legalidade” e tecnocracia).

No fundo, a democracia é a civilização das pessoas adultas: aquelas que cresceram e assumem “a tarefa de fazer crescer os outros” porque “não há verdadeiramente outra maneira de crescer senão fazendo crescer os outros: as crianças, as empresas, as associações, o país.”

A democracia é um regime que permite e exige que todos cresçam, que todos sejam capazes de assumir as suas responsabilidades.

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