Acordismos *

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de dezembro de 2011


Desde a minha terceira classe que não dava erros ortográficos. Agora, de quando em vez, dou. A nova ortografia — que ainda não escrevo mas que já vou sendo obrigado a ler — tornou a minha escrita insegura. Não é importante, mas irrita.   

Como escreveu Miguel de Sousa Tavares em Agosto, o novo acordo ortográfico assinado entre Portugal e o Brasil é um “acto de desforra colonial através do qual nós traímos a nossa língua e eles não passaram a respeitar-nos mais por isso — antes pelo contrário.”     

Ironia: Miguel Sousa Tavares escreveu isto no Expresso, o primeiro jornal acordista português. Pinto Balsemão, avarento como é, quis logo poupar tinta nas consoantes mudas.      

Os acordistas costumam dizer que é agora, com esta (tentativa de) uniformização ortográfica, que a língua portuguesa vai ter uma importância transcendente no mundo. Esse argumento não vale, evidentemente, um caracol: os ingleses chamam ao vizinho “neighbour”, os americanos chamam-lhe “neighbor”, e não é por isso que a língua inglesa perde a importância planetária que tem.     

A língua portuguesa será tanto mais importante quanto mais se afastar da uniformização que querem os acordistas. Não é bom termos uma língua portuguesa, é bom termos muitas línguas portuguesas.

É bom, por exemplo, termos o português de Reinaldo Moraes que, na sua acabada de editar entre nós “Pornopopeia”, escreve assim:     

“Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado.  Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz e não enche o saco.”   

Acordista, não enche o saco. Mania tua de carimbar como velho do Restelo quem desacorda o acordo, mermão.  Ganha lá os teus euritos a dar acções de formação sobre a coisa, toda a gente precisa de ganhar o pão, babaca.


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