segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Soneto do membro monstruoso

Museu do Vaticano

Esse dysforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.
Manuel Maria Barbosa du Bocage



Malta que veio dos Balcãs às Caldas da Rainha em missão de espionagem:

domingo, 30 de outubro de 2016

A canalha

Daqui

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo nem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.
Jorge de Sena

sábado, 29 de outubro de 2016

Madrugatas

Daqui



Encontramo-nos um dia ao rés-do-chão e fazemos menção dos elementos, quer chova, quer não. É a hora de gatas. Mas que é isto do horário, mas que é isto do pão, mas que é isto dos bicos de gás, mas que é isto da companhia, mas que é isto da pele sobre o osso (vendo-a esfriada, unha negra, pelo de arrepio), e fica-se com o fósforo suspenso ou bico fechado. Se dormíssemos com convicção era certo que vinham dizer-nos que sim. Mas eram tantos com a linguinha de fogo na cabeça a alumiá-los em pé – de se ficar ceguinho de encandeia, assim, a lume brando. De gatas, pois, no ar, fintar o sono, o sonho (nele detém a almotolia, o azeite que sobrenada a água chilra, a virgem prudente da mão decepada, morrão pendente do dente, que, mesmo inconsciente, sente). 
N.B.: os jogos da mente são os primeiros signos da doença da palavra, i. e., de que a língua pátria já não alumia o utente.

As gatas são pois a alternativa dos voos picados. Agachar-se é sempre à contra-pássaro. Alguns gatos morrem de pé, mas isso é o másculo da história. Eu disse gatas. É preciso escapar por uma unha e raspar com ela no caixote próprio ou alheio até que faça peixe. Improvável. É pois de improviso o sobreaviso sobrevivo — olhai os pássaros da água e os peixes no chão ao vir da luz. Que isto é tudo uma permuta, uma apara de vidas, línguas de companhia, contos adiados. Deixai os meio-vivos encovar suas órbitas, escamar-se a esta hora, choro à borla e segue. A bem-aventurança é a posta póstuma a esta hora. A poça onde as gatas sape-sapam de lambidas. Poça. Olha se não pingassem sangue ou choro, choco desta tinta, nacos de peixe vivo na calçada.
Capital, 26-4-1972
Maria Velho da Costa


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Gargantas fundas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. António Costa, à semelhança do que fez no anterior orçamento de estado, há-de ter deixado entre trinta a quarenta milhões de ossos, perdão, de euros, para ATL dos deputados na próxima discussão na especialidade do OE.

Para já, a ideia mais ridícula pertence à socialista Helena Roseta, que quer criar um subsídio para senhorios pobres impedidos por lei de subir as rendas. Os deputados, para fazerem prova de vida, costumam ligar o complicómetro: em vez de subsídios às rendas, subsídios aos senhorios.

Outras ideias esdrúxulas como esta vão jorrar daquelas cabeças.


2. Corria pacato o mês de Julho, quando o jornal Público titulou, na primeira página e em letras grandes: “Cavaco estraga unanimidade do Conselho de Estado sobre sanções”. A notícia veio a revelar-se falsa, o ex-PR não referiu nunca as putativas sanções.

Como se sabe, as sessões do Conselho de Estado são à porta fechada e os seus membros têm o dever de sigilo. Alguém embarretou o jornal mas este não pediu desculpa aos leitores, nem revelou, como devia ter feito, o nome da sua garganta funda aldrabona.

Semanas depois, igual barrete calhou ao Jornal de Notícias ao ter publicado informação falsa acerca de um juiz que tinha decidido uma providência cautelar a favor dos colégios privados.


Este caso não se passou na Venezuela, passou-se em Portugal: uma “fonte ligada ao governo” (assim o reconheceu o jornal em editorial) conspirou contra um juiz, ainda por cima com aldrabices. O JN pediu desculpa aos leitores e ao visado, mas também não divulgou o nome da garganta funda mentirosa.

Esta semana o El País divulgou o audio de várias intervenções feitas, à porta fechada, na importantíssima sessão do comité federal do PSOE que decidiu deixar passar um governo Rajoy.

Neste caso a garganta funda do El País não mentiu. Limitou-se a ter as pilhas carregadas do gravador de bolso para mostrar aos aparelhistas dos partidos que já não há o “cá dentro” e o “lá fora”.

Tarde com sol

Fotografia de Imogen Cunningham

As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.

As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.

São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.
Nuno Júdice


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Diplomacias*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Outubro de 2006


A saudosa Livraria da Praça de Viseu 
 Fotografia daqui
1. Paulo Mendo, ex-Ministro da Saúde de Cavaco Silva, esteve na Livraria da Praça, a falar dos 14 séculos de relações entre o Islão e o Ocidente. Paulo Mendo é um apaixonado pela cultura islâmica e luta por uma aproximação entre Portugal e Marrocos (onde tem casa).

Na conversa com o público vieram à baila as palavras do papa Bento XVI, na Universidade de Ratisbona, que incendiaram a “rua árabe” que anda de pavio muito curto, como se sabe. Paulo Mendo não gostou das palavras de Razinger e não as achou inocentes.

Eu penso que elas foram só um tropeção. Bento XVI não vai pôr em causa a aliança estratégica entre o Vaticano e o Islão contra Israel e o Ocidente laico e de costumes “dissolutos”. Poderá haver entre o Vaticano e o Islão um ou outro episódio menos risonho como este, mas a “Santa Aliança” entre eles não me parece estar em perigo.

2. Portugal acaba de se abster, na Comissão de Descolonização da ONU, numa Resolução a favor da autodeterminação do Sahara Ocidental. Esta posição, que certamente agradou a Marrocos, é uma viragem na política externa portuguesa. Com esta doutrina nunca teria havido um Timor independente, já que o Sahara Ocidental está para Marrocos como Timor estava para a Indonésia.

O actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, apoiou George W. Bush e Tony Blair na desgraça iraquiana. No Parlamento, no caso dos voos da CIA, tem tomado as dores que deviam ser do PSD e do CDS/PP, deixando branquear os erros políticos de Barroso e Portas na questão do Iraque e da luta contra o terrorismo. Esta votação de 16 de Outubro, na ONU, sobre o Sahara Ocidental, vem enegrecer ainda mais o panorama.

Volta, Freitas, estás perdoado.

Even crocodiles do it

Croc foreplay, fotografia Eirik Lande

Let's do it, let's fall in love

Birds do it, bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love

Birds do it, bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love

In Spain, the best upper sets do it

Lithuanians and Latts do it
Let's do it, let's fall in love

The Dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the Fins
Folks in Siam do it - think of Siamese twins

Some Argentines, without means, do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it, let's fall in love

Romantic sponges, they say, do it
Oysters down in oyster bay do it
Let's do it, let's fall in love

Cold Cape Cod clams, 'gainst their wish, do it
Even lazy jellyfish, do it
Let's do it, let's fall in love

Electric eels I might add do it
Though it shocks em I know
Why ask if shad do it - Waiter bring me
"shad roe"

In shallow shoals English soles do it
Goldfish in the privacy of bowls do it
Let's do it, let's fall in love
Cole Porter



Façamos

Os cidadãos no Japão, fazem
Lá na China um bilhão, fazem
Façamos, vamos amar
Os espanhóis, os lapões, fazem
Lituanos e letões, fazem
Façamos, vamos amar
Os alemães em Berlim, fazem
E também lá em Bonn
Em Bombaim, fazem
Os hindus acham bom
Nisseis, nikeis e sanseis, fazem
Lá em São Francisco muitos gays fazem
Façamos, vamos amar
Os rouxinóis e os saraus fazem
Picantes pica-paus fazem
Façamos, vamos amar
Os jaburus no Pará, fazem
Tico-ticos no fubá, fazem
Façamos, vamos amar
Chinfrins galinhas afins fazem
E jamais dizem não
Corujas, sim, fazem
Sábias como elas são
E os perus, todos nus, fazem
Gaviões, pavões e urubus, fazem
Façamos, vamos amar
Dourados do Solimões, fazem
Camarões e camarães, fazem
Façamos, vamos amar
Piranhas, só por fazer, fazem
Namorados, por prazer, fazem
Façamos, vamos amar
Peixes elétricos bem, fazem
Entre beijos e choques
Garçons também fazem
Sem falar nos hadocs
Salmões no sal, em geral, fazem
Bacalhaus do mar em Portugal, fazem
Façamos, vamos amar
Libélulas e nambus, fazem
Centopéias sem tabus, fazem
Façamos, vamos amar
Os louva-deuses, por fé, fazem
Dizem que bichos de pé, fazem
Façamos, vamos amar
As taturanas também fazem
Um amor incomum
Grilos, meu bem, fazem
E sem grilo nenhum
Com seus ferrões, os zangões, fazem
Pulgas em calcinhas e calções, fazem
Façamos, vamos amar
Tamanduás e tatus, fazem
Corajosos cangurus, fazem
Façamos vamos amar
Coelhos só e tão só, fazem
Macaquinhos no cipó, fazem
Façamos, vamos amar
Gatinhas com seus gatões, fazem
Dando gritos de ais
Os garanhões fazem
Esses fazem demais
Leões ao léu, sob o céu, fazem
Ursos lambuzando-se no mel, fazem
Façamos, vamos amar
Façamos, vamos amar
Versão Chico Buarque



Outra versão  diz, e bem, que a Maria Antonieta também o fazia, mas não acho som dela no sr. google (se algum leitor conseguir esse milagre, este modesto estabelecimento agradece) *:
The world admits bears in pits do it
Even Pekingeses at the Ritz do it
Let's do it, let's
fall in love

The royal set sans regret did it
And they considered it fun
Marie Antoinette did it -







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Adenda, 28.10.2017, 11:00
* No primeiro video, Shirley MacLaine e Frank Sinatra cantam esta referência a Maria Antonieta

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PARTNERS, a short by Joey Ally’s


"In just under seven minutes, the film brings the viewer into the complexities of a modern-day relationship."
Ian Durkin



PARTNERS from Joey Ally

Director: Joey Ally
Writers: Jen Tullock, Hannah Pearl Utt
Stars: Ty A. Smith, Jen Tullock, Hannah Pearl Utt


+ details here and here

algumas horas outras

Fotografia de Edward Steichen




1

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignorância deitará
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia
ingere as minuciosas palmeiras sobre a
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?




2

e ainda o sossego das interrogações não se deixa
facilmente esborratar, ou a qualidade
das tintas, assim no meio do lençol,
o impediu até agora. algumas
são as horas do vasto almofadão translúcido
onde as janelas germinaram, e são
as solenes sardinheiras ardidas
na boca do início. soçobrando a música
produzimos os locais inamovíveis, as persianas
corridas sobre o papel meticuloso das suas
amenas enseadas. não olhes,
outras algumas horas que a madeira se parte
e os carinhosos garfos se encolhem na gengiva.




3

quem nelas arde mastigando o musgo
fluvial, ou as longas cortinas inundadas,
dificilmente evitará outras incertas mesas
onde dorme. observem como estão cobertas
pela (metáfora da) nuvem sobre o fundo
de actos responsáveis, gracejos gratuitos, animais de
pequeno porte. eles mesmos
se esquecerão, no solene rebordo das horas,
de quem foram, de quem teriam sido
as campânulas inamovíveis, e essas feridas
precocemente supuradas. então outros se cobrem
com (a metáfora das) sedas mais cruéis,
algumas outras horas que adivinham em garfos
naufragados, o silêncio, a secura.




4

observem como rapidamente esquecem, mudando de cor
a cada rotação das ventoinhas. e ainda
imagem é pouco fiel, dada a distância
e o sucessivo afastamento das delicadas
membranas, observem como
se dividem, no instante anterior à queda.
não se encontra explicado o sombrio abcesso
de cólera, ou de timidez, quando as nódoas estalam
ao frio pouco vulgar nesta estação do mês.
ou será isto, e nada mais, o que esquecemos?
António Franco Alexandre


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sei lá

Fotografia de Rosalind Solomon


O relógio marca
quarenta e oito horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer.
Alice Ruiz


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Oração na boa

Fotografia de Ellen Von Unwerth



abaixo a caridade e o amor
parido em laboratório
e muito cuidado com o senhor
tu és pó e se não tiveres juízo
ao pó voltarás
cordeiro de deus devolve
as seringas imediatamente
nunca digas desta não snifarás
porque sobre a tua pedra
ninguém constrói a sua
não comungues dessa
olhas as hóstias são ácidos
pega na escova de dentes
no cosmos e na miúda
nada será como dantes
como penitência compra
um citroen haxixe
e reza 24 prestações
faz-te à estrada põe-te na vida
por teu risco e conta
Joaquim Castro Caldas

sábado, 22 de outubro de 2016

do coração é que não



o meu amor é glandular
e o teu é perpendicular relativamente ao eixo da minha secreção
Mafalda Gomes


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Patos sentados*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. “Lá vamos, que o sonho é lindo! Torres e torres erguendo. Rasgões, clareiras, abrindo”, cantava-se assim no hino da mocidade portuguesa salazarista, uma cantoria mais tarde aplicada em força à construção civil.

Patos bravos rasgaram clareiras e abriram urbanizações de torres e torres nos arredores das cidades. Ao mesmo tempo, nos quarteirões centrais, as rendas congeladas foram deitando casas abaixo e, no seu lugar, patos taveiras ergueram pós-modernices envidraçadas, o metro quadrado sempre upa-upa, um ai-jesus para ricos, emigrantes bem-sucedidos, angolanos, vistos gold, ultimamente airbnbs, malta com pilim, dinheiro da estranja que em Portugal pilim não há desde o reinado do magnânimo D. João V.

O estado, a mando do divino espírito santo e seus colegas, foi ajudando os patos bravos e os patos taveiras de três modos: matou o mercado do arrendamento ao manter as rendas congeladas, deu descontos no IRS às hipotecas e isentou, por prazos generosos, o imposto sobre o imobiliário.

É claro que os spreads do divino espírito santo e dos seus colegas que, como se sabe mas convém relembrar, não tinham pilim, eram spreads de bancos estrangeiros aplicados em casas que as pessoas tiveram que comprar porque não havia para arrendar. É por isso que a dívida privada portuguesa é muito maior que a dívida pública.

2. De 2012 a 2015, as câmaras do distrito de Viseu passaram de uma receita de IMI de 26,2 milhões de euros para 38,5 milhões. Um incremento de 47% nos quatro anos negros que se seguiram ao resgate.


Porquê? A resposta é simples: as casas não têm rodas. Os seus proprietários são “patos sentados” (os ingleses inventaram a expressão: “sitting ducks”). As nossas alegres casinhas, tão modestas e longe do mar, agora já não têm o bem-bom da isenção de IMI e estão à mercê dos xutos e pontapés de um estado sem pilim nem vergonha na cara, que, em vez de diminuir despesa, todos os anos aumenta os impostos.

Mais 47% de IMI. Em quatro anos.

Carta de Outono

Daqui



Pensarás que não te escrevi antes porque o verão
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.
Nuno Júdice

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sadcore




Ride

I was in the winter of my life
and the men I met along the road were my only summer.
At night I fell asleep with visions of myself dancing and laughing and crying with them.
Three years down the line of being on an endless world tour
and my memories of them were the only things that sustained me,
and my only real happy times.
I was a singer, not a very popular one,
who once had dreams of becoming a beautiful poet
but upon an unfortunate series of events,
saw those dreams dashed and divided like a million stars
in the night sky that I wished on over and over again
sparkling and broken. But I didn’t really mind because
I knew that it takes getting everything you ever
wanted and then losing it to know what true freedom is.

When the people I used to know found out
what I had been doing, how I had been living
they asked me why
But there’s no use in talking to people who have a home,
they have no idea what it’s like to
seek safety in other people,
for home to be wherever you lie your head.

I was always an unusual girl,
my mother told me I had a chameleon soul.
No moral compass pointing due north, no fixed personality.
Just an inner indecisiveness that was as wide and as wavering as the ocean.
And if I said that I didn’t plan for it
to turn out this way, I’d be lying
because I was born to be the other woman.
I belonged to no one
who belonged to everyone, who had nothing
who wanted everything with a fire for every experience and an obsession
for freedom that terrified me to the point
that I couldn’t even talk about
and pushed me to a nomadic point of
madness that both dazzled and dizzied me.

I’ve been out on that open road
You can be my full time, daddy
White and gold
Singing blues has been getting old
You can be my full time, baby
Hot or cold

Don’t break me down
I’ve been travelin’ too long
I’ve been trying too hard
With one pretty song

I hear the birds on the summer breeze, I drive fast
I am alone in the night
Been trying hard not to get into trouble, but I
I’ve got a war in my mind
So, I just ride
So, I just ride
So, I just ride
So, I just ride

Dying young and I’m playing hard
That’s the way my father made his life an art
Drink all day and we talk ‘til dark
That’s the way the Road Dogs do it, ride ‘til dark

Don’t leave me now
Don’t say goodbye
Don’t turn around
Leave me high and dry

I hear the birds on the summer breeze, I drive fast
I am alone in the night
Been trying hard not to get in trouble, but I
I’ve got a war in my mind
I just ride
I just ride
I just ride
I just ride

I’m tired of feeling like I’m fucking crazy
I’m tired of driving ‘till I see stars in my eyes
I look up to hear myself saying
“Baby, too much I strive, I just ride”

I hear the birds on the summer breeze, I drive fast
I am alone in the night
Been trying hard not to get in trouble, but I
I’ve got a war in my mind
I just ride
I just ride
I just ride
I just ride

Every night I used to pray that I’d find my people
And finally I did — on the open road.
We had nothing to lose, nothing to gain,
nothing we desired anymore
except to make our lives a work of art.

Live fast. Die Young. Be Wild. And Have Fun.

I believe in the country America used to be.
I believe in the person I want to become.
I believe in the freedom of the open road.
And my motto is the same as ever —
I believe in the kindness of strangers.
And when I’m at war with myself — I ride. I just ride.

Who are you? Are you in touch with all of your darkest fantasies?
Have you created a life for yourself where you’re free to experience them?
I have.
I am fucking crazy. But I am free.
Lana Del Rey



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O coração dos homens

Branca de Neve e sua Madrasta, 1995 
Paula Rego




I

Quando pequena, fui o espelho numa encenação de Branca de Neve e os sete anões.
A peça era toda falada em inglês.
E o público, crianças monoglotas da pré-escola.

Tínhamos dez anos e mal falávamos inglês.
Aliás, mal falávamos português.
Havia um colega que dizia “largatixa” em vez de “lagartixa”.

Ele nunca adoçava o suco de uva com açúcar mascavo.
Ouvia “mascado”
e tinha nojo.

Este meu colega também sofria de incontinência urinária
e não tinha os mamilos:
em seu abdómen, só havia o umbigo.

Para nos assustar, ele levantava a camiseta
e corria atrás de nós mostrando o branco dos olhos.
Tínhamos muito medo dele.

Não lembro qual foi seu papel na peça.
Lembro quem foi o Príncipe
e lembro quem foi a Branca de Neve.

A Branca de Neve tinha alergia a lã.
Só usava roupa de tecido sintético,
especialmente um casaco azul e amarelo de náilon.

Em seus aniversários, se os colegas não levavam presentes,
ela não tinha pudores: impedia-os de entrar na festinha
e anotava os nomes dos relapsos numa caderneta cor-de-rosa.

O Príncipe era filho da professora da primeira série.
Ele se tinha em altíssima conta
e todas as meninas queriam namorar com ele.

(Menos eu.
Eu era apaixonada por outro colega:
um menino moreno, brincalhão, que morreu de leucemia aos onze anos.)

Mas não lembro mesmo o papel do meu colega sem mamilos.
Talvez tenha sido um dos sete anões,
embora eu não lembre também quem foram os outros seis.

Eu era o espelho.
Minha melhor amiga era a madrasta.
Quando a madrasta se transformava em bruxa, aí já era outra pessoa.

Também não lembro quem fazia a madrasta quando esta se transformava em bruxa.
Mas lembro que ela dizia:
“This is the poisoned apple”.

Depois, ela devia gargalhar,
muito e alto,
como bruxa de desenho animado.

Mas a menina que fazia o papel não sabia rir,
menos ainda gargalhar.
Foi outra colega que lhe ensinou.

O aprendizado se deu no banheiro, transformado em camarim.
Do lado de fora, só se ouviam as gargalhadas das duas meninas.
Ninguém mais escutava o que se dizia no palco.

A professora de inglês se irritou com a barulheira.
Interrompeu a encenação
e entrou no banheiro de vassoura em punho.

Ela queria bater nas meninas,
mas o diretor da escola a impediu.
E ela, de raiva, mordeu o lábio até sangrar.

Lembro que todos passaram dias envolvidos com a confecção do figurino
e com a elaboração da maquiagem
e com a escolha dos adereços que comporiam seus personagens.

Mas eu não,
porque eu era o espelho,
e o espelho seria um espelho de verdade.

Eu ficaria atrás do espelho.
Um espelho grande, de pé, antigo,
com moldura de madeira.

Pouco importava a roupa que usaria,
quase nada de mim apareceria na peça.
Subiria ao palco com o uniforme cinza e vermelho da escola.

Lembro que a madrasta e a bruxa usavam o mesmo vestido.
Na hora da transformação, o zíper do vestido trancou,
e a bruxa demorou quinze minutos para entrar em cena.

Sem saber o que fazer, a Branca de Neve deu uma de Gata Borralheira:
varreu e tirou o pó de todos os cantos da casa dos anões.
E as crianças, que já não estavam entendendo nada, entenderam menos ainda.

Lembro também que a madrasta perguntava ao espelho logo no início da peça:
“Mirror, mirror on the wall,
who is the fairest of us all?”.

E o espelho respondia:
“Her lips are like blood, her hair is like night,
her skin is like snow, her name’s Snow White”.

Algum tempo depois, inconformada, a madrasta procurava novamente o espelho:
“Mirror, mirror on the wall,
who is the fairest of us all?”.

E o espelho entregava o paradeiro da Branca de Neve:
“She is with the seven dwarfs. She will spend the night.
She is the fairest, and her name’s Snow White”.

Essas eram minhas duas falas.
Todos tinham que recitar pelo menos uma frase.
A idéia era que a turma inteira exibisse seu inglês capenga.

O problema era que não havia papel para todo mundo.
A entourage da Branca de Neve não era tão grande assim,
e nós éramos trinta e cinco na turma.

A solução: povoar a floresta.
Tinha de tudo entre a casa da madrasta e a casa dos anões.
De coruja a mendigo.

Teve até gente que foi árvore,
gente que foi banquinho de madeira.
(E a professora cogitou aumentar o número de anões.)

E todos falavam.
Falavam mal.
Mas falavam.

Na falta do que falar, delatavam a Branca de Neve.
Apontavam a casa dos anões e sussurravam à bruxa:
“She is there”.

Em geral, nosso inglês era incompreensível.
A Branca de Neve, por exemplo, nunca achava nada,
ela sempre afundava.

Ao colocar os anões para dormir, ela os cobria com merda,
em vez de lençóis.
E, ao fim da peça, o Príncipe convidava todos para a festa de suas vinte orelhas.

Os monoglotas da pré-escola não perceberam os erros de inglês.
(Afinal, eram monoglotas.)
Logo se entediaram.

Alguns bocejavam.
Outros cabeceavam.
Os mais debochados riam e cochichavam nos ouvidos uns dos outros.

Não demorou muito para começarem a jogar coisas na gente.
Primeiro, foram chicletes e bolas de papel.
Depois, lápis e gizes de cera.

A situação se tornou mais crítica quando passaram a cuspir.
Corriam como boçais para a beira do palco improvisado
e soltavam catarrões verdes e grudentos naqueles que se achavam ao alcance.

A Branca de Neve levou um catarrão na testa e ameaçou chorar.
Os anões riram às pampas.
E a bruxa arremessou sua cesta de maçãs nos monoglotas.

Alguns foram atingidos.
Outros, não.
E os debochados nos mostraram a língua.

As professoras da pré-escola se enfureceram:
queriam acabar com a peça
e mandar a bruxa para o castigo.

A professora de inglês não se abalou.
Virou-se para nós e disse com um exagerado acento britânico:
“The show must go on”.

Foi aí que menstruei.
Era minha primeira vez.
Ninguém notou.

Eu ficava atrás do espelho.
Ninguém me via.
Só me ouviam (e olhe lá).

Eu também não via ninguém.
Meu horizonte era o verso do espelho:
uma grande moldura de madeira mofada.

Nos ensaios, a idéia era que meu rosto fosse visto acima do espelho.
Mas a professora não gostou do resultado
e tirou minha cabeça de cena.

Na apresentação final, apenas oito dos meus dedos apareciam na peça.
Mesmo assim, só as pontinhas.
Os dedões, como o resto de mim, ficavam escondidos.

Todos viam o espelho,
e o espelho refletia todos −
menos a mim.

Por isso, ninguém percebeu quando menstruei.
Nem eu mesma.
Achava que tinha me mijado.

Comecei a exalar um cheiro diferente.
Um cheiro desconhecido.
Um cheiro que me lembrava podridão.

O mijo tem cheiro forte.
O sangue tem cheiro forte.
Mas o cheiro do sangue não é como o cheiro do mijo.

O sangue tem um cheiro adocicado.
Um cheiro persistente.
Um cheiro de morte.

O mijo tem um cheiro ácido.
Um cheiro passageiro.
Um cheiro de rodoviária.

Senti minhas calcinhas se ensoparem.
Não podia ser mijo.
Não cheirava como mijo.

Também não era tão líquido como o mijo.
Era mais visguento.
E eu não sentira vontade de ir ao banheiro.

Fiquei agoniada.
A peça não terminava nunca,
e as minhas calcinhas estavam cada vez mais molhadas.

Embora ninguém me visse, senti vergonha.
Eu devia estar vermelha,
como sangue.

Desde então, quando menstruo, o sangue desce feito cascata.
Se não troco seguidas vezes o absorvente, escorre pelas pernas
e forma poças dentro das minhas sapatilhas brancas de plástico.

(Uma amiga da minha mãe menstruou em pleno carnaval
e não percebeu:
suas pernas se tingiram de vermelho.)

Imagino que a menstruação excessiva se deva à ovulação igualmente excessiva.
Ou não.
Não sei.

(Minha melhor amiga um dia me disse:
“Eu ovulo muito.
Se gozarem nas minhas coxas, engravido”.)

As meninas do colégio me apelidaram de A Sanguinária.
Por causa da menstruação.
Mas não só.

Um dia, os meninos me pediram um absorvente usado.
Eu lhes dei,
e eles o colocaram na maçaneta da sala de aula.

A professora apertou aquele camundongo morto
e ficou com a mão suja de sangue.
Era a mesma professora de inglês.

Quando menstruei pela segunda vez, estava em outra apresentação.
Também na escola.
Mas agora sem o espelho.

A imigração era o tema.
Com comidas típicas,
roupas típicas,

músicas típicas,
danças típicas
e suco de uva.

A turma havia sido dividida em duas:
italianos de um lado,
alemães de outro.

Os morenos eram italianos.
Os loiros, alemães.
E a professora de história não sabia o que fazer com nossa única colega negra.

(Ela acabou do lado dos alemães.
Não por ironia.
Mas porque havia mais morenos do que loiros na turma.)

Eu fiquei do lado alemão,
porque, além de loira, tenho olhos azuis.
Mas queria ter ficado do lado italiano.

Não gosto de chucrute,
detesto cuca
e salsicha não é meu prato preferido.

Queria comer massa,
polenta
e galeto.

Todos tinham que levar um prato típico.
Um prato que a professora de história considerasse típico.
Porque nem todos os pratos eram de facto típicos.

Eu não sabia o que levar.
Minha mãe também não.
Ela nunca gostou de cozinhar.

Uma vez, ela trocou o creme de leite por leite condensado no estrogonofe.
Meu pai lavou tira por tira de filé mignon numa tentativa inútil de salvar o prato.
Acabaram dando tudo à cocker, que latia, na sacada, desgostosa com a comida.

Quando tinha festa na escola, minha mãe fazia sanduíches de presunto e queijo.
Ninguém gostava,
e eu comia todos para que ela não desconfiasse.

Daquela vez, ela teve a idéia de pedir a meu avô para preparar uma polenta.
Meu avô era filho de italiano
e fora criado por sua avó, italiana de Vicenza.

Ele fez uma de suas maravilhosas polentas rústicas,
toda recoberta com molho de tomate cozido durante horas
e enfeitada com lascas de parmesão e folhas de manjericão fresco.

Só tinha um senão: não era nada alemã.
Para minha mãe, não havia problema.
Ninguém iria notar.

Mas a professora de história notou
e teve um chilique.
Falou em jogar tudo fora e me suspender da atividade.

Comecei a chorar.
Torrencialmente.
Não sei de onde vinham tantas lágrimas.

Soluçava alto.
Dizia que me arrependia amargamente
de ter levado a polenta rústica.

Caí de joelhos no chão
e perguntava, repetidas vezes,
com os braços erguidos:

“Por que não fizeram salsicha bock para eu trazer?
Por que não linguiça?
Por que não chucrute?”

A professora de história pedia que eu me acalmasse.
Nada aconteceria comigo.
Ela me prometia.

E buscava conter sua impaciência
batendo com força sua plataforma de cortiça
no assoalho de madeira do hall do colégio.

Sequei as lágrimas com as costas das mãos,
lambi o ranho que escorria do nariz
e funguei.

Se não havia castigo,
estava tudo bem.
E perdoei mais uma vez em segredo a total falta de noção da minha mãe.

Chegara a hora das danças.
Toda a turma estava dividida em pares.
Em geral, meninos com meninas.

No entanto, nunca sobravam meninos para fazer par comigo.
Sempre fui uma das mais altas da turma.
E os meninos, nesta idade, continuavam tampinhas.

Acabava sendo obrigada a dançar com uma menina −
invariavelmente, uma varapau como eu
(naquela época, também me chamavam Poste).

Na apresentação organizada pela professora de história,
os italianos dançavam tarantela,
os alemães se vestiam de tiroleses (que, descobri depois, nem alemães eram).

Mas nem a tarantela nem as vestes tirolesas
eram típicas dos imigrantes que foram para o Sul.
A professora de história tinha uma versão muito particular da história.

Eu vestia camisa branca sob uma jardineira verde, curta e rodada.
Duas grossas tranças circundavam minha cabeça,
e meias brancas subiam até meu joelho.

Os meninos alemães estavam de bermudão verde com suspensório.
Por baixo, usavam uma camisa branca,
e meias brancas também subiam até seus joelhos.

Os meninos italianos vestiam um bermudão preto com uma faixa vermelha na cintura.
A camisa era branca, mas parcialmente escondida por um colete preto.
Nos pés, as indefectíveis meias brancas até os joelhos.

As meninas italianas trajavam saias vermelhas, compridas e rodadas.
Suas camisas também eram brancas,
e as horrendas meias brancas até os joelhos eram tapadas pelas longas saias.

Os italianos agitavam pandeiros com fitas coloridas.
Os alemães, nada.
No máximo, acarinhavam seus suspensórios.

Queria muito estar do outro lado.
A comida era melhor
e parecia ser mais divertido.

A tarantela era alegre e agitada.
A dança que inventaram para nós lembrava um minueto fúnebre.
Aliás, nunca soube de nenhuma dança parecida no folclore germânico.

Saltinho para cá,
saltinho para lá,
menstruei.

O sangue desceu como uma avalanche.
Não demorou para chegar aos joelhos.
Quando o vi se aproximar das malditas meias brancas, não titubeei:

corri até a mesa das comidas,
saltei e sentei na polenta rústica do meu avô.
O vermelho do molho se misturou ao vermelho do sangue.

Ninguém, de novo, percebeu que eu menstruara.
Mas fui suspensa por uma semana.
Desde então, peguei horror a ser mulher.

Na vigésima vez que menstruei, era Semana da Inversão:
professores se tornavam alunos,
alunos se tornavam professores.

Eu e minha melhor amiga escolhemos dar aula de religião.
Queríamos ver todo mundo se ajoelhando e rezando.
Estávamos nos divertindo com a idéia.

Levamos a turma em procissão até a sala que escolhemos para as rezas.
Eu carregava nos braços, junto ao peito, a Santa da minha mãe.
(Ela nem desconfiava que a sequestráramos.)

Todos tinham que se ajoelhar no chão duro e gelado
e entoar cinco pai-nossos, quatro ave-marias e dois credos.
E, depois, deviam ler, em uníssono, este trecho da Bíblia:

“Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue
e que seja fluxo de sangue do seu corpo,
permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras.

Quem a tocar ficará impuro até a tarde.
Toda cama sobre a qual se deitar com o seu fluxo ficará impura,
todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro.

Todo aquele que tocar seu leito deverá lavar suas vestes,
banhar-se em água
e ficará impuro até a tarde.

Todo aquele que tocar um móvel, qualquer que seja, onde ela tiver se assentado,
deverá lavar suas vestes, banhar-se em água,
e ficará impuro até a tarde.

Se algum objeto se encontrar sobre o leito
ou sobre o móvel no qual ela está assentada,
aquele que o tocar ficará impuro até a tarde.

Se um homem coabitar com ela, a impureza das suas regras o atingirá.
Ficará impuro durante sete dias.
Todo leito sobre o qual ele se deitar ficará impuro.

Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue de diversos dias,
fora do tempo das suas regras, ou se as suas regras se prolongarem,
estará no mesmo estado de impureza em que esteve durante o tempo das suas regras.

Assim será para todo leito sobre o qual ela se deitar,
durante todo o tempo de seu fluxo,
como o foi para o leito em que se deitou quando das suas regras.

Todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro, como quando das suas regras.
Quem os tocar ficará impuro, deverá lavar suas vestes, banhar-se em água,
e ficará impuro até a tarde.

Quando estiver curada de seu fluxo,
contará sete dias,
e então estará pura.”

“No oitavo dia –”
“Basta!”, interrompeu o professor de religião.
“Vocês estão pensando o quê?”

Sem esperar resposta, ele nos pegou pelo braço
e nos arrastou até a sala do diretor.
(Isso que nem havíamos lido a parte da gonorreia.)

No caminho, menstruei.
O professor e o diretor falavam falavam falavam
e eu nem prestava atenção.

Ao levantar da cadeira, percebi que havia se formado uma pequena poça.
Uma poça vermelha.
Uma poça de sangue.

Olhei, cabisbaixa, para os dois.
Eles olharam para a cadeira e, em seguida, para mim.
E eu disse:

“Todo aquele que tocar um móvel, qualquer que seja, onde ela tiver se assentado,
deverá lavar suas vestes, banhar-se em água,
e ficará impuro até a tarde.”





II

Uma vez, a mancha de sangue no absorvente parecia ter o formato do meu rosto.
Isso aconteceu no dia em que completei quinze anos.
Desde então, passei a ter um sonho recorrente.

Sonhava que tinha me acordado.
Precisava ir urgentemente ao banheiro,
mas não o encontrava.

Procurava-o por todo o apartamento.
Abria todas as portas com as quais deparava.
Mas nenhuma era o banheiro.

A vontade de mijar só crescia.
Pensava em me aliviar ali mesmo no corredor.
Até que notava a latrina ao meu lado.

Arregaçava a camisola,
sentava-me
e soltava um jato de urina que parecia não ter mais fim.

Ao me levantar, percebia que o fundo do vaso era puro sangue:
a cerâmica branca ficara completamente vermelha
e as paredes em volta, também brancas, tinham manchas encarnadas.

Eu me aproximava da latrina.
Espiava seu interior agora rubro:
sobre as águas sanguíneas, navegava um barquinho de papel.

O barquinho era alvo.
Dentro dele, estavam a Branca de Neve e o Príncipe −
não sei se mortos ou trepando.






III

A Santa chegou hoje aqui em casa.
Vai embora amanhã.
A vizinha da frente virá pegá-la assim que o sol nascer.

Nunca sei o que fazer com a Santa.
Desta vez, coloquei-a em cima da mesa da sala
do lado do porco de cerâmica.

Fiquei olhando para a Santa
e ela olhando para mim.
Não tínhamos nada para falar.

Foi quando percebi uns papeizinhos saindo de trás dela.
Peguei-a no colo.
Virei-a de bruços.

A Santa era oca
e tinha uma portinhola nas suas costas.
Dentro, muitos papeizinhos.

Abri um deles.
O mais amarelado e amassado.
Parecia ter sido esquecido ali.

Era um bilhete
escrito à mão
numa caligrafia de volteios:

“Minha mãezinha do céu,
eu te imploro,
me protege.”

Veronica Stigger