sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Cedo demais*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. A sinergia, conceito de gestão criado em 1965 por Igor Ansoff, deu um pretexto maravilhoso para os gestores tornarem maiores as suas empresas. É que, afiançava-se, a sinergia obtida na agregação ou fusão de empresas, facilmente fazia que dois mais dois fossem cinco. Ou mais.

Repare-se: enquanto há meio século a malta desengravatada se entretinha com a “paz e amor” de Jim Morrison e Janis Joplin, a malta da gestão começou a tripar com este “alucinogénio” que usou durante décadas — é assim que o livro “Funky business, o capital dança ao som do talento” goza com a sinergia.

Mal o li há dez anos, devia ter logo malhado aqui nos “sinérgicos”: é que conglomerar empresas, bastas vezes, em vez de dois mais dois cinco, dá, mas é, três e meio, quando não muito menos.

Entretanto, a malta que estava sempre com o paleio da sinergia na boca deixou-se disso e vende agora, com o mesmo entusiasmo, “start-ups” e “empreendedorismo”. Já não vale a pena malhar-lhes. É “tarde demais”.

2. António, o genial cartoonista do Expresso, tem uma exposição dos seus desenhos na Biblioteca Municipal de Viseu, até 8 de Outubro. A não perder.

Ele contou a este jornal que, mal começou a perestroika de Mikhail Gorbachev, o desenhou com um mapa-mundo na cabeça, tirando partido visual da sua mancha na testa.

O problema é que, então, as agências estavam a apresentar fotografias retocadas de Gorbie, com a cabeça limpa. António teve que esperar por meses de aparições televisivas do líder soviético até os leitores se familiarizarem com a mancha e poderem perceber. Foi um desenho feito "cedo demais".

3. Depois da demissão de Assunção Cristas — que não vai conseguir ser eleita vereadora em Lisboa —, é elevada a probabilidade de, à direita, o CDS começar a imitar o populismo eurocéptico do bloco e o nacionalismo eurofóbico do PCP.

Bem sei: fazer uma previsão destas é capaz de ser “cedo de mais”.

como se atira o dardo com o corpo todo

Fotograma de "As Mil e Uma Noites", de Pier Paolo Pasolini (1974)


como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
Herberto Helder

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Árvores*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Setembro de 2006


1. Em poucos anos, Marzovelos transformou-se num dos maiores núcleos urbanos de Viseu, onde habitam milhares de pessoas.

Muitas delas não sabem que, mesmo no meio da rua principal de Marzovelos, havia um grande pinheiro que era o orgulho da terra.

Quando começou o “boom” da construção, a “pinheira” (era assim que era conhecida) caiu sobre um prédio em obras. O Restaurante “A Pinheira”, junto ao Parque Infantil, é a única referência que ainda resta no bairro a essa árvore magnífica.

Depois de milhões e milhões de euros de investimento público e privado, ainda não apareceu em Marzovelos nada tão bonito como era aquela “pinheira”.


Fotografia Oho de Gato
2. Sempre que venho do Sul, na N2, passadas as bombas de gasolina da GALP de Vila Chã de Sá, procuro-o com os olhos no fundo da recta. Quer venha de longe, quer venha de perto, só sinto que estou quase a chegar a casa quando vejo aquele cedro alto que parece um cão de orelhas espetadas e boca aberta. 

Aquele cedro curioso está em perigo porque a estrada está a ser duplicada. Não haverá forma de o preservar?

3. O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, acaba de determinar em Despacho: “Os tempos mínimos para a leccionação do programa do 1º Ciclo são: Língua Portuguesa – 8 horas lectivas de trabalho semanal, incluindo uma hora diária para a leitura.”

Para além de terem de ouvir a professora a “capuchinhar” até ficar de garganta seca, os meninos do 1º ano vão, para já, passar uma hora por dia a lerem “a tia tapa o pote”. Mais para o Natal, todos os meninos de seis anos, do Minho ao Algarve, quando souberem mais umas letritas, vão ler em coro: “já lemos graças ao Lemos”.
Lerão uma hora. Se for mais, não faz mal. Menos é que nem um segundo. Ordens são ordens. Mesmo que pensadas com os pés.

Sem palavras nem coisas

Fotografia de Nino Oshkhereli



Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo, e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.
António Franco Alexandre







quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Judas

Calvário, de Grão Vasco
Óleo sobre madeira — 1535-1540
Museu Grão Vasco, Viseu

Este quadro magnificente é a obra maior de Grão Vasco. Mesmo que seja só para o ver, vale a pena visitar Viseu e o seu museu.

Nas horas e horas de contemplação que levo deste quadro, é em Judas, na sua silhueta, que acabo por focar sempre o olhar, naqueles trinta dinheiros pendurados, a oscilar ao vento, de onde se evola um espectro.

É mesmo isto que Grão Vasco quis, que nos fixemos em Judas, o trágico Judas, o espectral Judas a cumprir o seu destino até ao final dos tempos.

 Judas teve que seguir o guião que Cristo lhe predestinou, e só depois de lhe ter dado o beijo que O entregou, quando tudo o que era importante já estava consumado, é que Judas pôde recuperar o livre arbítrio e então, e só então, abjurar o que tinha feito, pendurando-se numa figueira.

 Desde então, Judas, o menos livre de todos os homens, passou a ser sinónimo da ignomínia da traição.




Neste episódio, Bob Dylan é apupado. Acontecia muito naquela altura em que muitos dos seus fãs, adeptos do cânone acústico do folk, se sentiam atraiçoados por ele ter começado a usar guitarras eléctricas.  

Durante a pausa entre duas canções, alguém da audiência grita alto: "Judas!" e Bob Dylan responde-lhe: "I don't believe you, you're a liar", e diz à banda "Play it fucking loud!" enquanto iniciava "Like a Rolling Stone".


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Le jardin

Fotografia de Henri Cartier-Bresson



Des milliers et des milliers d'années
Ne saurait suffire
Pour dire
La petite seconde d'éternité
Où tu m'as embrassé
Où je t'ai embrassée
Un matin dans la lumière de l'hiver
Au parc Montsouris à Paris
À Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre
Jacques Prévert


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Síndrome de Tourette de esquerda

Fotografia de Rodrigo Cabrita
Lisboa, Junho de 2005, manif de extrema-direita


Palavrão

Não, não se fala mal
português em portugal
não se diz caralho
a torto e a direito
ou vai sempre a direito
ou só se diz quando
a coisa dá para o torto
não, não se fala mal
o português no Porto
e se um filho da puta
chama a um lisboeta
cabrão
é porque os dois o são
e por isso não é palavrão
não, não se fala mal
português em portugal
e se alguém só pensa
não diz que se foda
é porque você ouviu mal
Joaquim Castro Caldas




domingo, 25 de setembro de 2016

Uvas




Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese


sábado, 24 de setembro de 2016

Fire and ice*


Mapa completo do Inferno, Stradanus (1523 - 1605)


Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
Robert Frost




* Wiki:
“Fire and Ice” is one of Robert Frost's most popular poems, published in December 1920 in Harper's Magazine


According to one of Frost's biographers, "Fire and Ice" was inspired by a passage in Canto 32 of Dante's Inferno, in which the worst offenders of hell, the traitors, are submerged, while in a fiery hell, up to their necks in ice: "a lake so bound with ice, / It did not look like water, but like a glass ... right clear / I saw, where sinners are preserved in ice."



In an anecdote he recounted in 1960 in a "Science and the Arts" presentation, prominent astronomer Harlow Shapley claims to have inspired "Fire and Ice".

Shapley describes an encounter he had with Robert Frost a year before the poem was published in which Frost, noting that Shapley was the astronomer of his day, asks him how the world will end. Shapley responded that either the sun will explode and incinerate the Earth, or the Earth will somehow escape this fate only to end up slowly freezing in deep space. 
Shapley was surprised at seeing "Fire and Ice" in print a year later, and referred to it as an example of how science can influence the creation of art, or clarify its meaning.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mudar de pele*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A geringonça está a mudar a pele do PS e isso causa desorientação e confusão no partido do governo.

No último fim-de-semana, em Coimbra, uma sala de socialistas perdeu a vergonha, como lhe solicitou Mariana Mortágua, e aplaudiu o ataque da deputada bloquista a quem “acumula dinheiro”. Hoje, na universidade de verão do PS-Lisboa, será a vez de botar faladura José Sócrates, esse desacumulador do dinheiro “vivo” proveniente de Carlos Santos Silva. Dinheiro “vivo” porque, como explicou um advogado de defesa de José Sócrates, “se calhar, não confia no sistema bancário”.

Já só falta o PS promover uma conferência de Armando Vara intitulada: “A CGD e a confiança no sistema bancário".


2. Eis as “fases” vividas pelas autarquias do distrito de Viseu no mandato 2013-2017:

Fotografia editada a partir daqui
(i) “fase da pesada e da leve herança”: foi a determinação estóica de Leonel Gouveia a recuperar da falência o município de Santa Comba Dão e foram os 25 milhões de euros deixados por Fernando Ruas a António Almeida Henriques que tanto têm feito pela amizade entre ambos;

(ii) “fase da metapolítica”: foi a logomaquia paralítica dos conselhos de estratégia, de igualdade, de juventude, e afins, e foi a estreia dos orçamentos participativos; não houve ainda referendos locais, lá chegará o tempo;

(iii) “fase do colapso”: já foram tratadas aqui as maldades e os sarilhos em Nelas e em Lamego; o colapso, na câmara de Viseu, primeiro da oposição centrista e depois da oposição socialista talvez mereça autópsia em futuro texto;

(iv) “fase do nervoso miudinho”: começa agora e irá em crescendo até ao dia das eleições; maiores dores-de-cabeça dos líderes distritais: o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da “sua” Resende.

História do homem que perdeu a alma num café

Daqui


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.

Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.

De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.

José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.

Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.
Rui Manuel Amaral




quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Súmula

Fotografia Olho de Gato

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.




As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ó trevas, que enlutais a Natureza

Daqui


Ó trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
Manuel Maria Barbosa du Bocage




terça-feira, 20 de setembro de 2016

Amigas, eu oí dizer*

Fritz Zuber-Bühle - A Reclining Beauty

Gif de Rino Stefano Tagliafierro





Esta cantiga fez Dom Gonçal'Eanes do Vinhal a Dom Anrique em nome da rein[h]a Dona Joana, sa madrasta, porque diziam que era seu entendedor, quando lidou em Mouron com dom Rodrigo Afonso que tragia o poder del-rei.


Amigas, eu oí dizer
que lidarom os de Mouron
com aquestes d'el-rei e nom
poss'end'a verdade saber:
          se é viv'o meu amigo,
          que troux'a mia touca sigo.

Se me mal nom estevesse
ou nom fosse por enfinta
daria esta mia cinta
a quem m'as novas dissesse:
          se é viv'o meu amigo,
          que troux'a mia touca sigo.
Gonçalo Anes do Vinhal














* Gonçalo Eanes do Vinhal alude aqui aos propalados amores da rainha-viúva D. Joana, madrasta de Afonso X, com o seu outro enteado, D. Henrique, irmão do rei. Estamos, pois, perante uma cantiga de escárnio, sob esta subtil e inesperada forma de cantigas de amigo.
Se bem que a alegada relação amorosa entre D. Henrique e a sua madrasta possa não passar de simples maledicência, todas as referências históricas feitas na cantiga são exactas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

You're lousy, Big Brother! (#3)

Segunda-feira, 12 de Setembro
Fotografia Olho de Gato



Quinta-feira, 15 de Setembro
Fotografia Olho de Gato

Segunda-feira, 19 de Setembro
Fotografia Olho de Gato


Fúrias

Fotografia de Erwin Blumenfeld



Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contratempo
Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 18 de setembro de 2016

só o som permanece

Fotografia de Daido Moriyama



por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.

por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?

o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.

por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.

som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.

na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.

o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
Forough Farrokhzad
Paráfrase de Ricardo Domeneck (daqui)





sábado, 17 de setembro de 2016

Guerra fria

5 de Agosto
17 de Setembro

Mandato social

Fotografia de Alfred Eisenstaedt




Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades.
Denunciar a tinta
gasta em discursos.
Os mitos criam-se de baixo para cima.
As plantas enraízam
e só depois recortam o céu
ou são colhidas para efeitos vários.
O boletim metereológico diz que vai chover,
mas nunca se sabe se vem um ciclone,
e então salve-nos Deus
se não soubermos prever
os alicerces,
o boato dito pelo telefone,
o sonho, esse mesmo, em que se morre
de estupidez, o coração a bater
como de cavalo que ganhou a corrida
e é levado pelo dono
ao parque do hipódromo.
Basta de balancé
entre o que é, o que virá, o que não é.
Basta de poetas com as mãos cruzadas
e de operários a cair de sono.
Basta de velhotes impotentes
a fornicar sabedoria antiga.
O mandato social é desobriga
como na Páscoa a comunhão dos homens.
Somos poucos mas vale a pena construir cidades
e morrer de pé.
Ruy Cinatti






sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Hesite no Brexit*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Setembro. As lojas, ainda no “regresso às aulas”, já suspiram pelo Natal. Chegam as contas dos cartões de crédito. O bronze empalidece. Os dias apequenam-se. Do Verão, quase a acabar, memórias.

2. Ia o Verão ainda só no seu terceiro dia quando os britânicos votaram Brexit. A votação mostrou um corte geracional: o voto dos velhos foi paroquial, o voto dos jovens foi cosmopolita.

Foi um abalo tectónico com epicentro no velho continente e sentido em todo o mundo. O Conselho Europeu de Relações Internacionais já recenseou trinta e quatro pedidos de referendo hostis à “Europa” em dezoito países diferentes; mesmo que cada um deles tenha só 5% de hipóteses de sucesso, a probabilidade de pelo menos um ser bem-sucedido é de 83%.

Num texto intitulado “Reversing Brexit”, Anatole Kaletsky desenhou o melhor plano que conheço para tentar pôr “o génio da desintegração [europeia] outra vez dentro da garrafa”.

Primeira prioridade: evitar o contágio; há um referendo em Itália já daqui a duas semanas, é importante derrotar os populistas eurocépticos.

Segunda prioridade: não ter pressa no Brexit; há que mostrar flexibilidade nas negociações pondo termo à rigidez estúpida dos burocratas de Bruxelas; no longo e hesitante processo que agora se inicia, há que persuadir com bons argumentos os eleitores britânicos; para isso, há que tratar não dos “termos da saída” com Theresa May mas sim dos “termos com que a maioria dos britânicos deseje ficar”. Desejo esse, claro, que depois terá que ser expresso em votação.
Daqui


3. Já só faltavam dez dias para o Verão acabar, quando, na CNBC, Mário Centeno confessou aos mercados globais aquilo que ainda não tinha confessado aos portugueses: a sua “principal tarefa” é evitar o segundo resgate.

Há aqui uma asneira histórica dentro da asneira política: o que há a evitar não é o segundo mas sim o quarto resgate da terceira república: 1977, 1983, 2011, 201?.

névoa

Lana

fosforesces na névoa
que subiu da terra húmida
A. Khimm


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

You're lousy, Big Brother! (#2)

Segunda-feira, 12 de Setembro
Fotografia Olho de Gato



Quinta-feira, 15 de Setembro
Fotografia Olho de Gato

Política*

* Texto publicado há exactamente dez anos, em 15 de Setembro de 2006


1. Mesmo correndo o risco de perder imediatamente 80% dos leitores habituais, devo dizer que este Olho de Gato é dedicado à política nacional.

2. Muito aplaudidos e com a bênção do Presidente da República, José Sócrates e Marques Mendes acabam de assinar um pacto para a reforma da justiça.

Eu não aplaudo. O PS e o PSD devem assumir as suas diferenças sem complexos. Uma democracia precisa de alternativas claras, feitas debaixo do escrutínio público. O prestígio do Parlamento acaba de levar mais um tiro. Para que são precisos 230 deputados, se meia dúzia é que riscam, reunidos secretamente, em pequeno comité?

3. Contudo, depois do que aconteceu no caso Casa Pia, em que o país estarrecido percebeu o estado a que tinha chegado a Justiça, não fiquei nada admirado com esta reacção do poder político.

Num espectáculo desolador, ficou a saber-se que um cidadão pode ser detido sem ser informado de que factos em concreto é acusado. Soube-se, até, que um juiz desembargador, na altura número 1 da Judiciária, comentava pacatamente pormenores do processo com um jornalista.

4. Os portugueses vão ser chamados a pronunciarem-se em referendo sobre o que pensam da despenalização do aborto já em Janeiro (ou Fevereiro). Já daqui a pouquíssimos meses, portanto. Sobre este assunto está toda a gente a “assobiar para o lado”. O país parece desinteressado do problema.

Talvez seja bom lembrar um facto constitucional básico: se não votarem, pelo menos, 50% mais um dos eleitores, o referendo não vai servir para nada.

das bancadas

Lauren


muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière
Rosalina Marshall


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"And Now For Something Completely Different" (#120)


Small wire

Fotografia de Brett Walker



My faith
is a great weight
hung on a small wire,
as doth the spider
hang her baby on a thin web,
as doth the vine,
twiggy and wooden,
hold up grapes
like eyeballs,
as many angels
dance on the head of a pin.

God does not need
too much wire to keep Him there,
just a thin vein,
with blood pushing back and forth in it,
and some love.
As it has been said:
Love and a cough
cannot be concealed.
Even a small cough.
Even a small love.
So if you have only a thin wire,
God does not mind.
He will enter your hands
as easily as ten cents used to
bring forth a Coke.
Anne Sexton




terça-feira, 13 de setembro de 2016

Não despertes o que não podes calar

Fotografia de René Groebli



Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar
José Tolentino Mendonça


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

You're lousy, Big Brother!

Fotografia Olho de Gato

Anjo enlouquecido pelo tempo

Gif deste filme achado aqui


Esmaga-Te um grande círculo que eram
as ruas. Vi-Te ao longe tactear
e correr. Despedi-me a olhar o Teu pânico.
Da varanda vi as ruas que eram sórdidas.

Naquela luz de verão Tu estavas nítido.
Os despojos das flores roxas emaranhados
nos Teus pés no alcatrão escuro
esvoaçavam. Automóveis esbatiam-Te

a figura. Qualquer eco ao partires
havia de morrer. Pedras tornavam
as ruas uma paisagem onde cabeceavas.
Tu partias arrastado pelo Tempo.

Assim como eu ficava a ver-Te ao longe
entre as folhas. Grandes copas verdes
todas de flores minúsculas escondem
o rosto dos Teus movimentos. Dócil ante

o destino eu imagino-Te. Tu eras frágil
como as minhas sílabas vagarosas.
Fiama Hasse Pais Brandão



domingo, 11 de setembro de 2016

11S — 15 anos




8:46:26 (hora de NY): 
o voo 11 embate a 790 km/h na
torre norte do World Trade Center, 
entre os pisos 93 e 99


9:02:59 (hora de NY)
o voo 175 embate a 950 km/h na
torre sul do World Trade Center, 
entre os pisos 77 e 85

Malditos sejam os assassinos!

Palha dourada

Fotografia de Ryan Calder



Somos o que a perfeição
nos deixa ser.
As abelhas zumbem
na tarde de verão
e o mundo é vão:
mão que escorrega
no corrimão;
raio de sol
no chão.

Somos tudo o que se esvai:
a sombra, o grito,
o amor, a fumaça.
O dia passa
como um gavião.
E a tua mão
pousa afinal,
palha dourada,
na minha mão.
Lêdo Ivo