quinta-feira, 30 de junho de 2016

Dickhead

Daqui


20/20 vision, just a pair of empty frames
dressing like a nerd although I never got the grades.


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Violência urbana (#23)

Fotografia Olho de Gato

Written on the body




Fotografia de Christine Guibert



Explore me’ you said and I collected my ropes, flasks and maps,
expecting to be back home soon. I dropped into the mass of you
and I cannot find the way out. Sometimes I think I’m free, coughed up
like Jonah from the whale, but then I turn a corner and recognise myself
again. Myself in your skin, myself lodged in your bones, myself floating in the cavities that decorate every surgeon’s wall. That is how I know you. You are what I know.
Jeanette Winterson


terça-feira, 28 de junho de 2016

Eu disse tudo

Farinelli, um filme de Gérard Corbiau (1994)

Eu disse tudo, mas não no lugar certo.
Em cera e em metal, por mãos de gente
e estojos de veludo me deitei
e quantos me tiveram sabem quanto
amei e amo a foice do teu rosto,
os cinco ou mais sentidos que me dás.
Um sopro humano, a boca, um coração,
me tocam e alimentam, como antes
águas de chuva no lazer do pântano
quando o vento passava nos pinhais;
sou teu igual, não mais, e no meu corpo
inteiramente novo é que perdura
a liberdade, glória do teu canto.
Desejo meu, em tua sede habito;
meu mestre, escravo, amante, pois servimos
no mesmo chão o mesmo antigo lume.
António Franco Alexandre



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Deixa a dormir a menina

Gif daqui




Rouxinol de bico preto,
Deixa o bago do loureiro,
Deixa a dormir a menina
Que está de sono primeiro.
Canção de embalar — Cinfães


sábado, 25 de junho de 2016

Women, they're so subtle...

Gif daqui



I swear, I have absolutely no idea what women are thinking. I do...

I swear, I have absolutely no idea what women are thinking. I don't get it, okay? I I I admit, I, I'm not getting the signals. I am not getting it!

Women, they're so subtle, their little everything they do is subtle. Men are not subtle, we are obvious. Women know what men want, men know what men want, what do we want? We want women, that's it!

It's the only thing we know for sure, it really is. We want women. How do we get them? Oh, we don't know 'bout that, we don't know. The next step after that we have no idea.

This is why you see men honking car-horns, yelling from construction sites. These are the best ideas we've had so far. The car-horn honk, is that a beauty? Have you seen men doing this? What is this? The man is in the car, the woman walks by the front of the car, he honks. E-eeehh, eehhh, eehhh! This man is out of ideas.

How does it? E-e-e-eeeehhhh! "I don't think she likes me." The amazing thing is, that we still get women, don't we? Men, I mean, men are with women. You see men with women. How are men getting women, many people wonder. Let me tell you a little bit about our organization. Wherever women are, we have a man working on the situation right now. Now, he may not be our best man, okay, we have a lot of areas to cover, but someone from our staff is on the scene. That's why, I think, men get frustrated, when we see women reading articles, like "Where to meet men?" We're here, we are everywhere. We're honking our horns to serve you better.
Jerry Seinfeld 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Banif*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Faltavam apenas onze desluminosos dias para acabar 2015. Esteve frio na Ibéria naquele domingo, 20 de Dezembro, em que, no lado de lá de Vilar Formoso, o eleitorado acabou com décadas de hegemonia do PP e do PSOE e, no lado de cá, o Santander comprou em saldo o Banif.
Fotografia de Guilherme Marques  (daqui)

Daquele negócio sobrou um buraco de 2.255 milhões de euros para tapar: 489 milhões pelo Fundo de Resolução e 1.766 milhões por nós, pagadores de impostos. Esta segunda verba foi logo aviada em Fevereiro através de uma emissão fechada de dívida pública, sem consulta ao mercado, junto do... Santander.

A partir de então, a geringonça tem atirado as culpas para cima da caranguejola e a caranguejola para cima da geringonça. Ambas estão cheias de razão: esta longa campanha eleitoral de 2015, 2016 e 2017 vai custar-nos os olhos da cara. E aqueles 1766 milhões de euros vão ser pagos por nós, os nossos filhos e os nossos netos.

Pedro Passos Coelho podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Cuidou do buraco do estado, descuidou do buraco dos bancos. No Banif, arrastou os pés. Fez mal.

António Costa podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Faltavam só onze desluminosos dias para a entrada em vigor da nova regulamentação europeia para resgates bancários que poupa os contribuintes. Desde 1 de Janeiro, são os depositantes acima de 100 mil euros, os obrigacionistas seniores e o sistema financeiro europeu a tapar os buracos dos bancos.

O governo português diz que foi obrigado a esta solução pela "inquietude e pressão" da Comissão. Esta lava as mãos da asneira dizendo que a operação foi "da total responsabilidade das autoridades portuguesas". Um deles está a mentir.

Ricardo Cabral, bloguista do Público, aconselhou o governo a interpor uma acção no Tribunal Europeu contra a Comissão e o BCE. Só o anúncio desta acção podia aumentar o nosso "poder negocial" na UE. Mas, como muito bem observou a The Economist, a geringonça ladra muito em Lisboa, mas, quando chega a Bruxelas, não morde.

Das considerações

Fotografia de Pedro Meyer



Nas fábricas, nos campos, nos escritórios, nos barcos, nas escolas, nas pequenas oficinas, nos hospitais, nos quartéis, nas prisões, nos postos de venda, nas obras, nos armazéns, é justamente considerado como um grande porco aquele que passa a vida a pregar umas coisas e depois faz outras.
Eastwood da Silva


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Vildemoinhos*

* Texto publicado há exactamente dez anos, em 23 de Junho de 2006


1. Fialho de Almeida escreveu em “Os Gatos”: "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu Ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ron-ron e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie.” “Câlinerie” pode traduzir-se por “meiguice” ou “ternura”. Que seja, então, “meigura”.

O Olho de Gato, por hoje, esquece-se da “repentina unha” de que tão bem fala Alexandre O’Neill num dos seus mais conhecidos poemas. Outra vez será a vez da unha.

2. Começo este ponto com uma declaração de interesses: pertenço aos Corpos Sociais do Cine Clube de Viseu (CCV); sou também sócio da ACERT, de Tondela, e gosto muito da sua actividade.

O CCV e a ACERT são os promotores da COMUM – Rede Cultural, projecto que foi contratualizado com sete Câmaras Municipais e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e que teve financiamento de Abril de 2004 a Abril de 2006. Nestes dois anos, as 224 actividades da COMUM tiveram quase 40 mil espectadores, tendo 8 mil deles participado em actividades pedagógicas e formativas.

Depois de um período em que as Câmaras construíram museus, bibliotecas, auditórios, teatros, galerias, pavilhões multiusos, etc., agora as autarquias precisam de software cultural, feito profissionalmente, e que circule em rede pelos vários equipamentos culturais. A COMUM é um bom exemplo de colaboração entre agentes culturais, municípios e governo. Penso que devia ser-lhe dada continuidade e ser alargada a outras autarquias que estão interessadas.

3. Vou sentir muito a falta das palavras claras da Liliana Garcia aqui no Jornal do Centro.

4. As tílias perfumam o ar. Viseu está lindo. Vildemoinhos convoca-nos.
Cavalhadas de Vildemoinhos/2008
Fotografia Olho de Gato

We are hard on each other

Fotografia de Joan Colom

i

We are hard on each other
and call it honesty,
choosing our jagged truths
with care and aiming them across
the neutral table.

The things we say are
true; it is our crooked
aims, our choices
turn them criminal.



ii

Of course your lies
are more amusing:
you make them new each time.

Your truths, painful and boring
repeat themselves over & over
perhaps because you own
so few of them




iii

A truth should exist,
it should not be used
like this. If I love you

is that a fact or a weapon?


iv

Does the body lie
moving like this, are these
touches, hair, wet
soft marble my tongue runs over
lies you are telling me?

Your body is not a word,
it does not lie or
speak truth either.

It is only
here or not here.
Margaret Atwood


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Lágrimas tristes tomarão vingança

Fotografia de Jeffrey Silverthorne



Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera, mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Me faz crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.

Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.

Desta arte darei vida a meu tormento,
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.
Luís Vaz de Camões


terça-feira, 21 de junho de 2016

O let me weep (The Plaint)



O let me weep, for ever weep,
My Eyes no more shall welcome Sleep;

I'll hide me from the sight of Day,
And sigh, and sigh my Soul away.

He's gone, he's gone, his loss deplore;
And I shall never see him more.
Beautiful and sorrowful aria sung by Titania 
in "The Fairy Queen" by Purcell





segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mais


Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.
Sophia de Mello Breyner Andresen


sábado, 18 de junho de 2016

A manif — um texto de JB

A 18 de…

Reconheço na CGTP uma força sindical forte, organizada e que foi (é) um baluarte fundamental na luta pela defesa dos direitos dos trabalhadores.

Recentemente, só a mobilização, o empenho, a tenacidade e a luta dos seus dirigentes e associados conseguiu colocar um travão nos desmandos da direita pura e dura de Passos/Portas/Cavaco.


Vem esta introdução a propósito da manifestação de dia 18, encetada pela FENPROF, e em defesa da escola pública. É evidente que o patamar, de ambos os lados, já não é o ensino mas a ideologia, o papel do Estado, etc e tal... É evidente que o PCP não quer perder a oportunidade de continuar a ser o mobilizador número 1! É evidente que Bloco, PS, o grupo da Drago (nome?), e etc´s terão que estar presentes.

Aqui entra a minha divergência na oportunidade desta manifestação. Considero (politicamente) muito discutível a realização de uma manifestação sindical (ou da sociedade civil, como queiram…) em defesa do actual ministro. Na verdade, por vezes, fico com a ideia que Arménio Carlos tem uma folha Excel em que os sindicatos associados têm que cumprir cotas de manifestações ou greves, a realizar por ano.

Hoje a defesa do que se designa por «escola pública» é muito mais do que a relação com os operadores privados do setor, há aspectos relacionados com o modelo de gestão escolar, de transferência de competências, dos concursos de professores, ou da carreira docente sobre a qual não conhecemos qualquer opinião digna de nota, por parte do governo.

É uma evidência que a equipa ministerial da Educação tem mostrado vontade, determinação e tem um elemento de qualidade: é o caso de Alexandra Leitão.

Mas, é sabido que uma evidência não é absoluta garantia de extinção da polémica. Disso nos dá prova a ruidosa discussão a que se tem assistido em torno das escolas privadas e dos chamados contratos de associação.

O desinvestimento na escola pública e nos seus profissionais é notório e choca ainda mais os que olham perplexos para os poucos, e pouco fundamentados, defensores de grande parte dos colégios "privados". É que não se trata apenas de repor decência orçamental numa nódoa do Estado de direito, exige-se a recuperação dos caminhos democráticos, no mais amplo sentido, na organização da rede pública de escolas.

A direita de Passos Coelho e Nuno Crato fez da Educação um negócio ao serviço de entidades privadas. Essa opção político-ideológica também esteve bem patente no Ministério da Educação de Sócrates/Lurdes Rodrigues….!

“Pago impostos, tenho direito a escolher a escola dos meus filhos”, resume perfeitamente a confusão instalada no debate. Não. Não tem esse direito. Os impostos que pagamos são para manter um ensino público que garanta da melhor forma possível um princípio base das democracias europeias: a igualdade de oportunidades. Qualquer família é livre de escolher a escola dos filhos: pública e, portanto, gratuita; privada e, portanto, pagando as propinas devidas.
Qual seria a escola privada que estaria em condições de prestar o serviço de uma escola pública, por exemplo, num dos bairros mais pobres dos arredores de Lisboa, onde muitos dos alunos são de origem africana? Quem integra os ciganos? Quem admite qualquer cidadão a exame externo?

“Não somos escolas para meninos ricos nem para betinhos” (publico.pt) - Claro que não! O Doutor Zé Moinas, de Chelas, e o Engenheiro Jaquim Mãozinhas, da Cova da Moura, estudaram lá, como bem glosava um humorista.

"Cá não há misturas, é tudo boa gente!"; “Costa, rameira da esquerda”!! Que maravilha de palavras de ordem... Certamente espontâneas e de origem nas crianças de bibe amarelo.

Em conclusão: a causa é justa a defesa da Escola Pública é um dever de todos nós. Lamento é que continuemos a viver ao sabor de interesses: sejam privados, sejam grupos de pressão, sindicais, políticos, etc. Andar ao sabor de grupos de pressão não é, de certeza, boa ideia.

E frontalmente: entrar numa manifestação ao lado de Maria de Lurdes Rodrigues, seja por educação, limpeza das cidades, defesa dos trabalhadores da CM de Viseu ou do aumento das cotas leiteiras…NUNCA!

O eleitor um dia voltará a decidir, mas com a certeza de que se a direita voltar ao poder, vai financiar escolas privadas onde não é preciso, com o dinheiro do contribuinte, pois ficou patente que a direita considera alguns subsídios do Estado como benéficos.
Nada é impossível quando verdadeiramente se crê e a Educação não é negócio!

Eppur si muove….
JB


PS: Para que conste - apoio a “geringonça” mas, como dizia Zeca Afonso: “gosto de ser o meu próprio comité central”.

Requiem

YouTube



As relações afectivas deviam ter funerais
Poríamos dentro de uma caixa o que
correspondesse à dita - livros, cartas,
sapatos, ramos de flores secas, fotografias
de férias, os recados deixados na cozinha
as roupas de ocasiões especiais

convidaríamos os amigos mais próximos
testemunhas da sua existência e do seu fim
seguiriamos pelas ruas atrás da caixa levada
por um coveiro distante de pormenores
num silêncio, ou entre as palavras próprias de
quem segue um finado

chegados ao sítio do enterro, nada de muito diferente
abrir-se-ia a terra, talvez não fossem necessários os
sete palmos
duas ou três carpideiras para tornar o momento mais sério e credível
porque já se sabe que as relações não são materiais
punha-se a caixa na cova, atirava-se-lhe a terra para cima
quem quisesse podia deixar flores, talvez os que mais
tivessem acreditado na defunta

apenas uma placa com o nome dos que a constituiram
e lhe deram uma realidade palpável
"aqui jaz a relação de fulana e fulano tal" acrescido da
data de início e fim

posto isto poderia ir embora quem quisesse, poderiam
chorar os mais sensíveis
as carpideiras demorariam ainda mais uns minutos, devendo
ser as últimas a ir embora para que ninguém duvidasse do
triste final
há relações que não ficam bem enterradas
que se desenterram, que voltam para confundir

ao cair da tarde, ficaria a relação sozinha na cova
a largar o fogo-fátuo de imagens a preto e branco
Cláudia R. Sampaio

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Papel higiénico*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Eis duas anedotas que circulavam nos regimes comunistas antes da queda do Muro de Berlim, lembradas por Slavoj Žižek no seu livro “O Ano Em Que Sonhámos Perigosamente”:

(i) Um trabalhador da Alemanha do Leste arranjou emprego na Sibéria e, como sabia que todas as suas cartas iam ser lidas pela censura, combinou com os amigos o seguinte: em carta a azul, tudo verdade; em carta a vermelho, tudo mentira.
Passado um mês, os amigos receberam uma carta com a inconfundível letra do emigrado escrita a azul: «Tudo é bom aqui, as casas são grandes e aquecidas, há muita comida, as lojas estão bem abastecidas, os cinemas passam muitos filmes ocidentais, as mulheres são lindas e gostam de namorar — a única coisa que cá falta é tinta vermelha.»

(ii) Na Polónia, um cliente chega a uma loja e pergunta: «Você não deve ter manteiga, pois não?»
Resposta da empregada: «Desculpe, a loja do lado de lá da rua é que não tem manteiga; nós não temos é papel higiénico...»

2. O papel higiénico é um clássico do desabastecimento comunista. Falha sempre. E, portanto, tinha que falhar no chavismo. Regime que, nos dezasseis anos em que governa a Venezuela, já derreteu mais de um bilião de dólares de proventos do petróleo — um balúrdio que dava para pagar bem mais do que uma dúzia de bancarrotas socráticas.


Imagem daqui
Veja-se o seguinte imbróglio kafkiano que aconteceu a um industrial venezuelano. Uma cláusula do contrato colectivo da fábrica impõe que os sanitários estejam sempre guarnecidos com papel higiénico; mal os rolos lá são postos, logo os “utentes” se apropriam daquela raridade; a seguir, vem o aviso implacável: se o papel higiénico faltar, há greve.

Em desespero, o industrial foi abastecer-se em força ao mercado negro. Azar. Alguém o chibou e ele teve uma visita da polícia chavista a ameaçá-lo de prisão. Lá teve ele de untar os bolsos dos polícias. Com dólares americanos.

É que o bolívar venezuelano nem para papel higiénico.

Um amor

Fotografia de René Groebl


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Caminho sem pés e sem sonhos

Gif daqui



Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.
Daniel Faria

terça-feira, 14 de junho de 2016

Pastelaria

Gif daqui



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Difícil poema de amor

Fotografia de Hans Feurer



Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa
do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes
me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes
de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos
do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor
são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste
número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico
como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-
me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?



Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me. Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado
com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro
ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros
coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá
outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.




Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao
mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam
este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão
por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço

nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclu-
-sos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me ador-
-mecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

Luiza Neto Jorge



domingo, 12 de junho de 2016

Trivelas

Lançamento de búzios hoje da TSF

Sua excelência o presidente da república professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa está optimista e preocupado, umas vezes mais com o primeiro estado de alma, outras vezes mais com o segundo.

Sua excelência o primeiro-ministro doutor António Costa está hiper-optimista porque confia, tanto confia nos multiplicadores faralhados de Mário Centeno, como confia nas trivelas exactas do Quaresma.*

* Parágrafo reescrito às 14H00, acentuando a hiper-confiança hiper-optimista do PM

Indecisão


Exército ou marinha?

sábado, 11 de junho de 2016

Ederlezi

Tempo dos Ciganos, de Emir Kusturica (1988)



Sa me amala oro khelena
Oro khelena, dive kerena
Sa o Roma daje
Sa o Roma babo babo
Sa o Roma o daje
Sa o Roma babo babo
Ederlezi, Ederlezi
Sa o Roma daje

Sa o Roma babo, e bakren chinen
A me, chorro, dural vesava
Romano dive, amaro dive
Amaro dive, Ederlezi

E devado babo, amenge bakro
Sa o Roma babo, e bakren chinen
Sa o Roma babo babo
Sa o Roma o daje
Sa o Roma babo babo
Ederlezi, Ederlezi
Sa o Roma daje






sexta-feira, 10 de junho de 2016

1989*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Tem sido muito interessante acompanhar a reflexão que se seguiu ao lançamento, em Maio, do último livro de Timothy Garton Ash — “Free Speech: Ten Principles for a Connected World”.

Segundo o autor, a liberdade de expressão está na defensiva desde o prodigioso ano de 1989 e dos seus quatros acontecimentos “seminais”: a queda do muro de Berlim, o aparecimento da internet, o massacre de Tiananmen e a fatwa contra Salman Rushdie.

Quer a queda das ditaduras comunistas quer a internet são marcos luminosos, embora com zonas de sombra: o putinismo é tudo menos saudável para o jornalismo independente e a internet tanto é usada pelos maluquinhos inofensivos das teorias da conspiração nas caixas de comentários dos jornais, como é a ferramenta de mobilização de perigosos radicais religiosos.

O massacre de Tiananmen é um buraco negro informativo levado a cabo pelo “maior aparelho censório da história da humanidade”, na opinião de Timothy Garton Ash. Quantos chineses foram liquidados a 4 de Junho de 1989? Não se sabe. Também não se sabe o nome daquele homem que, no dia seguinte, sozinho e desarmado, fez parar uma coluna de tanques na “Praça da Paz Celestial”, entretanto já limpa do sangue dos manifestantes.


Fotografia daqui
Mas foi a fatwa lançada por Khomeini, e que encheu a rua islâmica de ódio contra Salman Rushdie, que mais estragos causou à liberdade de expressão. 

Esse terramoto intolerante de 1989 continua a ter réplicas. Uma delas foi o massacre no Charlie Hebdo, em Janeiro de 2015.

Logo a seguir a esta tragédia, Timothy Garton Ash apelou para que, num movimento global pela liberdade de expressão, fossem republicados os cartoons de Charlie Hebdo nos media de todo o mundo. “De outra maneira, o veto dos assassinos prevalecerá”, avisou ele. Infelizmente, este apelo caiu em saco roto.

Num país como Portugal, em que se desama tanto a liberdade, a edição de obras como esta é mais do que uma necessidade: é um imperativo.

A ti tudo te foi dado



A ti tudo
te foi dado
e não tratas
os outros
com doçura

És um nababo
e és um nabo
(quem te dera
seres um nabo)
Adília Lopes





quinta-feira, 9 de junho de 2016

Cuba*

* Texto publicado há exactamente dez anos, em 9 de Junho de 2006


1. Recebi um e-mail da Embaixada de Cuba em Portugal a discordar do Olho de Gato de 28 de Abril, intitulado “Havana Blues”. Penso que foram as palavras finais daquela crónica que mais incomodaram a Embaixada de Cuba. Recordo-as: “É um dilema dali, de Cuba, daquela gente, daquele país congelado, à espera que a biologia cumpra o seu papel e Fidel Castro saia de cena. De vez.”

Agradeço a atenção com que Mercedes Martínez Valdês, Conselheira da Embaixada de Cuba, leu aquele Olho de Gato. Ela aponta o bloqueio americano como o causador dos males que sofre Cuba. O bloqueio americano é, de facto, um erro que causa grande sofrimento ao povo cubano. Penso que, se os americanos tivesse mudado de política quando terminou a Guerra Fria, Cuba já seria uma democracia.

Assim, a má sorte dos cubanos é dupla: dum lado, sofrem o bloqueio americano; do outro, vêem eternizar-se o regime castrista, muito para além do seu prazo de validade. É que Fidel é exímio a aproveitar todo o “capital de queixa” que os cubanos têm dos “gringos”.

2. António Costa Pinto escreveu no Diário de Notícias, de 27 de Maio: “(…) nesta constante luta dos chefes políticos para se manterem no poder, levando muitos regimes do século XX aos absurdos reais do século XVIII, como nos casos de Estaline, Mao ou Franco, morrendo ingloriamente no cargo por entre criados incapazes de os afastar a tempo.” Nas democracias os líderes são substituídos, sem problemas, pelo voto e por dispositivos de limitação de mandatos enquanto que nalgumas ditaduras, como na Coreia do Norte, o poder chega a passar até de pai para filho.


Fotografia de Javier Galeano/AP (daqui)

Em Cuba, quem está na linha de sucessão a Fidel é o seu irmão, Raúl. Quantos anos mais vai este país maravilhoso continuar congelado?

3. Esta coluna reivindica a criação do “Dia do Gato”.

Na varanda de Florbela



Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.
Eugénio de Andrade


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Eles amputaram

Fotografia de Imogen Cunningham

As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro.
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.
Yehuda Amichai







terça-feira, 7 de junho de 2016

Uma espécie de perda

Fotografia de Kishin Shinoyama

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos,
utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos.
Fizemos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e
por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
( — o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.

Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann