sábado, 29 de outubro de 2016

Madrugatas

Daqui



Encontramo-nos um dia ao rés-do-chão e fazemos menção dos elementos, quer chova, quer não. É a hora de gatas. Mas que é isto do horário, mas que é isto do pão, mas que é isto dos bicos de gás, mas que é isto da companhia, mas que é isto da pele sobre o osso (vendo-a esfriada, unha negra, pelo de arrepio), e fica-se com o fósforo suspenso ou bico fechado. Se dormíssemos com convicção era certo que vinham dizer-nos que sim. Mas eram tantos com a linguinha de fogo na cabeça a alumiá-los em pé – de se ficar ceguinho de encandeia, assim, a lume brando. De gatas, pois, no ar, fintar o sono, o sonho (nele detém a almotolia, o azeite que sobrenada a água chilra, a virgem prudente da mão decepada, morrão pendente do dente, que, mesmo inconsciente, sente). 
N.B.: os jogos da mente são os primeiros signos da doença da palavra, i. e., de que a língua pátria já não alumia o utente.

As gatas são pois a alternativa dos voos picados. Agachar-se é sempre à contra-pássaro. Alguns gatos morrem de pé, mas isso é o másculo da história. Eu disse gatas. É preciso escapar por uma unha e raspar com ela no caixote próprio ou alheio até que faça peixe. Improvável. É pois de improviso o sobreaviso sobrevivo — olhai os pássaros da água e os peixes no chão ao vir da luz. Que isto é tudo uma permuta, uma apara de vidas, línguas de companhia, contos adiados. Deixai os meio-vivos encovar suas órbitas, escamar-se a esta hora, choro à borla e segue. A bem-aventurança é a posta póstuma a esta hora. A poça onde as gatas sape-sapam de lambidas. Poça. Olha se não pingassem sangue ou choro, choco desta tinta, nacos de peixe vivo na calçada.
Capital, 26-4-1972
Maria Velho da Costa


1 comentário:

  1. Na mouche: Aretha Franklin - "RESPECT".
    Isso mesmo! É o que EXIGIMOS!

    Telemóvel amigo enviou-me uma mensagem que dizia:” Vai ler - http://jumento.blogspot.pt/ Texto - Boys imbecis”.
    É um bom texto. Assertivo.
    Sobre estes cromos já tinha desabafado quando soube do "Dr" Roque. Mas depois do que se passou com o Relvas eu julgava (inocência...) que tudo isto seria inadmissível e irrepetível.

    Estes Drs da Mula Ruça são uns manhosos. Duas licenciaturas? É pouco. O próximo apresentará um doutoramento...
    A fantástica lata do “Dr” Félix está bem patente no seu face, em 4 de Abril de 2013, ao falar de Relvas e ao propor que todas as licenciaturas fossem averiguadas. E ele como voluntário desse grupo... (ver blog Delito de Opinião, texto: Karma is a bitch (do Facebook de Nuno Felix) por Rui Rocha, em 29.10.16).

    As habilitações são as novas minas anti pessoais do PS! Do piorio. O PS pós socrático é isto!
    E ter que ouvir aquele acéfalo do Amorim, do PPD, a debitar "lições de moral", dói muito.

    Já agora: onde fica o nacional-porreirismo do Ministro Tiago que, ao que consta, encobria o “Dr” Félix?

    O “Dr” Félix que fazia 400km por dia, com motorista e carro do Estado, para ir para casa jantar e dormir. Igualzinho qualquer funcionário das finanças, um professor, um médico do centro de saúde...
    E depois discutimos cêntimos para aumentar os reformados e pensionistas!? PINS, pá!

    Não é obrigatório ter um curso superior para ser um bom político. O que é obrigatório é ser honesto.

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