segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Fúrias

Fotografia de Erwin Blumenfeld



Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contratempo
Sophia de Mello Breyner Andresen


1 comentário:

  1. FÙRIAS, verdadeiras e sentidas...

    Ler:
    http://www.dn.pt/portugal/interior/policias-e-militares-reformados-seis-anos-mais-cedo-sem-penalizacoes-5393662.html

    "Militares das forças de segurança já não vão ter cortes por deixarem de trabalhar seis anos mais cedo do que os outros funcionários públicos".

    Eu, continuo a ser o "estúpido de serviço"!!!
    Escola, hoje, local em que:
    "E o tempo é transformado
    Em tarefa e pressa
    A contratempo".

    Mudam os governos mas não muda a ideia central da Educação Tapa-Buracos, ou na feliz expressão e pensamento do Paulo Guinot - a educação LOW COST!

    Não abdicar da nossa inteligência – já nem digo da independência, esse conceito com práxis mítica - pois afligem os aparelhistas de serviço, os que só sobrevivem na base do lambe-botismo e do cartão da cor certa, porque esses são o estrato mais baixo de uma mediocridade extrema, em que não há que esperar diferente.

    Phosga-se, ao menos respeitem quem ainda usa o único neurónio sobrevivente!
    Não me lixem, pá!

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