sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Meia-noite todo o dia

Fotografia de William Albert Allard


Tenho humor e vendo-o barato.

Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Golgona Anghel


Na estrada (#1)


Fotografia Olho de Gato

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O golpe da lista única no Mirita sobra para a câmara

Diário de Viseu, 22.1.2014 

Como é sabido, o "presidente" do CCDV/Mirita comprometeu-se a respeitar a deliberação da Assembleia Geral de Maio e prestou declarações aos jornalistas nesse sentido (pode conferir-se nos recortes do Público e do Jornal do Centro aqui).

Agora, tudo indica, o "presidente" do CCDV/Mirita prepara-se para dar o dito por não dito e organizar umas eleições de lista única na assembleia geral do dia 1 de Fevereiro.

O "presidente" do CCDV/Mirita está colado ao poder,  mesmo que esse poder seja só o poder de mandar nas teias de aranha de um auditório fechado há anos.


Isto está a acontecer na mesma altura em que, apesar de avisada pelos vereadores da oposição, a maioria camarária acaba de decidir correr o risco de ser multada pelo Tribunal de Contas e atravessar-se com 73 200 euros do dinheiro dos nossos impostos nos "especialistas em museologia" do CCDV/Mirita. 

Desde Maio de 2013 não acontecia nada no CCDV/Mirita. 
Agora oito meses depois aparece dinheiro da câmara, agora oito meses depois eclode uma assembleia geral do CCDV/Mirita.

Esta "coincidência" temporal acaba por ter consequências: se, na assembleia geral do próximo sábado do CCDV/Mirita, não forem aceites todas as listas como foi deliberado na assembleia geral de há oito meses e for consumado o golpe de lista única, o imbróglio que dali resultar sobra para a câmara. 


Fotografia Olho de Gato

Meta juízo no CCDV/Mirita, caro Antonio Almeida Henriques.
Golpes de lista única não. 

Tu és tudo o que eu quero ter, do pescoço para baixo...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pranto pelo dia de hoje

Fotografia de Ed van der Elsken


Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen


Convites*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 29 de Janeiro de 2010



1. Em duas semanas seguidas, este jornal publicou protestos de leitores contra a qualidade das obras na N229, no troço Viseu - Sátão. Fui ver. De facto, há ali muita falta de respeito pelas pessoas.

Para já - mais por causa do desleixo que por causa das obras - aquele troço parece uma picada. Depois, quando acabarem os trabalhos, como muito bem dizem aqueles dois leitores, vamos passar a ter uma rua entupida entre a rotunda do Betão Liz e a saída para Contige.

E, claro!, vai ficar a faltar uma estrada decente entre Viseu e o Sátão.

2. O concurso para o lugar de director do museu Grão Vasco teve uma tramitação demoradíssima e o novo director acabou por tomar posse só em Setembro de 2009.
António Filipe Pimentel (Fotografia Olho de Gato)

Nos quatro meses seguintes, António Filipe Pimentel criou expectativas na cidade e na região. Só que o novo director não teve tempo para criar mais nada. A ministra da Cultura veio cá abduzi-lo. Fez-lhe um convite para director do museu nacional de arte antiga.

Gabriela Canavilhas deixou o museu Grão Vasco, mais uma vez, sem director. Ora, ela tinha a obrigação de saber que lá as coisas não andam bem desde 2004 e que foi muito difícil e demorado arranjar uma solução directiva.

A câmara de Viseu, e muito bem, aprovou um voto de protesto contra esta instabilidade, voto de protesto que não foi apoiado pelos vereadores socialistas.

Depois de Miguel Ginestal ter desistido da câmara de Viseu, a oposição socialista que lá ficou não acerta uma. Quando as coisas aquecem, ou cala-se ou desconversa. Desta vez, achou bem António Filipe Pimentel ir-se embora porque “as pessoas têm direito às suas ambições”.

Ora, como é evidente, não se reprova ter sido aceite o convite. O que se reprova é ter havido convite.

The Ray Band — sábado

Viseu “JET7” na Fábrica (Antiga Provir em Viseu) - 23H00

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sir, I admit your general rule

Fotografia de Margaret Bourke-White

Sir, I admit your general rule
that every poet is a fool:
but you yourself may serve to show it
that every fool is not a poet.
Alexander Pope,
ou Matthew Prior,
ou Samuel Coledrige
(não se sabe qual deles)


O Albino vai longe ...

Imagem achada aqui

... com António José Seguro ele agora é mais que o emplastro da Marilú:

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Impropéria

Fotografia de Marc Baptiste


Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.
Que venham ambas, numa só, iluminar a treva.

Trazer conhecimento;
Visão, sobretudo visão pra quem a pede.
Pra quem a não pede... mas que venha cedo.

A hora é de pasmar, calamitosa.
A hora funde a espada nas entranhas.
A hora é de comer raízes frias
Ou de tecer mais espessa a teia que nos cobre.

porque nem tudo se perdeu, nem tudo
É como quer quem se vendeu aos poucos
A outrem ou a si — pior que tudo.
Porque nem sempre é preciso descer escadas
Perseguido pelo fantasma que em nós vive.

Porque ainda há vozes traiçoeiras
Capazes de indicar caminho ignoto.
Eu canto, mas imploro, eu invoco
A multidão dos anjos debruçada
Sobre o ser vivo, sobre um corpo morto
Geladamente; iluminado apenas
Por assassinos focos...

Eu canto: sonho e vivo, mas não tremo,
Invoco de novo os anjos — testemunhos
Calados, pacientemente aflitos
Do mal que cresce;
Nos afunda, afoga
Em cada um de nós.

Porque tudo se perdeu ou perde.
Nem tudo é como queríamos que fosse
Sonhado ou procurado...
Porque nem sempre a fome é saciada,
Menos a sede, ainda a mais violenta,
Eu canto, eu imploro, eu invoco:

Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.

Mas se a hora é de comer raízes frias
(Meus queridos anjos tão abandonados...)
Que venha Cristo em fogo alimentar-nos!
Ruy Cinatti

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pederastia como arma

Fotografia de Helmut Newton

Ao garoto que conhecera no cinema
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:

Você pode dizer aos seus amigos
que dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac
Erich Fried

sábado, 25 de janeiro de 2014

La loca del pelo rojo

Julianne  Moore (daqui)

No, no te parecías a Van Gogh
(salvo en el pelo rojo, que, en tu caso,
no era de nacimiento, sino apócrifo).
Te faltaban la barba y el talento,
y las cartas a Theo. Te sobraba
una oreja. Definitivamente
no tenías que ver nada con Vincent.
Pero estabas tan loca como él.
Luis Alberto de Cuenca


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Imagens

Fotografia de Erwin Blumenfeld


Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

*
*    *

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

*
*    *

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.

E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chova corra a apanhar-te,
não te vás desbotar ou romper,

ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

*
*    *

Mas é que não és tu:
sou eu que ando estragada:
as minhas solidões não as preciso

e a minha paz, coitada,
já teve a mesma sorte
que os bocados mentais de que falava

no verso três
da página anterior.
Ana Luísa Amaral

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Elephant talk

Fotografia de Charles Harbutt


Talk, it's only talk
Arguments, agreements, advice, answers,
Articulate announcements
It's only talk

Talk, it's only talk
Babble, burble, banter, bicker bicker bicker
Brouhaha, boulderdash, ballyhoo
It's only talk
Back talk

Talk talk talk, it's only talk
Comments, cliches, commentary, controversy
Chatter, chit-chat, chit-chat, chit-chat,
Conversation, contradiction, criticism
It's only talk
Cheap talk

Talk, talk, it's only talk
Debates, discussions
These are words with a D this time
Dialogue, dualogue, diatribe,
Dissention, declamation
Double talk, double talk

Talk, talk, it's all talk
Too much talk
Small talk
Talk that trash
Expressions, editorials, expugnations, exclamations, enfadulations
It's all talk
Elephant talk, elephant talk, elephant talk


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Em Viseu há vereadora da cultura?

Foto Olho de Gato

Em 18 de Maio de 2013, realizou-se uma esdrúxula assembleia geral do centro cultural distrital de Viseu (CCDV) — entidade titular do Auditório Mirita Casimiro.

A tentativa de truquezito de aparelho que aconteceu naquela assembleia geral foi descrita, na altura, neste post deste blog.

O facto é que o CCDV/Mirita Casimiro está enrodilhado em irregularidades e não apresenta contas há anos.

Perante um dispositivo estatutário que torna impossível o aparecimento de listas não subscritas pela direcção, o "presidente" do CCDV, Luís Filipe, prometeu acatar a decisão das associações presentes e comprometeu-se a subscrever todas as listas que se apresentassem a sufrágio. 

Vejam-se estes dois recortes:






Eis como estão as coisas agora a dez dias da próxima assembleia geral do CCDV/Mirita: 

1. em Maio de 2013, o senhor Luis Filipe, "presidente" do CCDV, disse que respeitava uma decisão da sua assembleia geral e que subscreveria todas as listas que se apresentassem a sufrágio;

2. soube-se ontem que o senhor Luis Filipe, "presidente" do CCDV, deu o dito por não dito, não subscreve uma lista apresentada por onze associados, e pretende tirar partido dos estatutos para tentar assegurar um acto eleitoral de lista única. Inqualificável. 

Espera-se que o senhor Luís Filipe reconsidere e respeite o que foi decidido na assembleia geral de Maio.

Como tudo isto está a acontecer ao mesmo tempo em que a câmara de Viseu — com votos contra dos vereadores da oposição — decidiu injectar dinheiro dos nossos impostos no CCDV/Mirita importa olhar para o que está a ser feito na cultura concelhia, importa fazer um primeiro balanço.

Com objectividade, constata-se que, para já, o presidente da câmara, António Almeida Henriques, nestes três meses de mandato só tem feito duas coisas: metapolítica e o enterro do ruísmo.

Em matéria cultural, então, a metapolítica tem sido um abuso, e tem tornado a decisão nesta área uma coisa difusa e gelatinosa.

Há um rosto responsável pelo que se passa na cultura municipal em Viseu? É o  Forum Viseu Cultura? É o Centro Coordenação Cultural de Viseu? É a vereadora? A vereadora da cultura existe?

Quem é o cómico, ou a cómica, que escreveu em documento oficial da câmara de Viseu que o CCDV/Mirita Casimiro é "um agente cultural local capaz de colaborar com o Município de Viseu no apoio, desenvolvimento e dinamização da rede municipal de museus" e, em resultado disso, lhe vão ser entregues, em seis prestações mensais, 73 200 euros?

Bilal*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 22 de Janeiro de 2010

1. Bilal é a personagem principal de um filme que ficciona a vida dos ilegais que se fixam em Calais na esperança de chegarem à Inglaterra.

Bilal “é” um curdo iraquiano de 17 anos que conseguiu adentrar-se na “Europa” de Schengen mas ficou bloqueado em Calais. Ele fez aqueles milhares de quilómetros para se juntar à sua amada que estava em Londres.



Bilal precisava de passar para o lado de lá do Canal da Mancha, mas ficou preso do lado de cá, na França de Sarkozy, na França que tem um ministro da Imigração, Integração e Identidade Nacional.

Sim, há na França de Sarkozy uma política que mistura imigração com identidade nacional. O ministro deste monstro chama-se Eric Besson. É um homem que desertou do PS francês e está a fazer tudo para ganhar os votos da extrema-direita nas próximas eleições de Março. Há quem compare Eric Besson a Pierre Laval, um oficial francês colaborador entusiasta das políticas racistas dos nazis nos anos de 1940.

Há dois meses, no Piaget de Viseu, George Steiner, durante a sua desencantada comunicação sobre a condição humana, disse: «Não precisamos de ir a Guantánamo Bay para vermos tortura. Basta irmos a uma esquadra da polícia francesa.»

Só percebi integralmente de que falava George Steiner depois de ter visto agora, no Cine Clube de Viseu, as desventuras de Bilal no imperdível “Welcome”, um filme de Philippe Lioret. Já há em DVD.




2. Há cada vez mais sinais que a ETA se quer instalar em Portugal. Em 9 de Janeiro foram presos dois operacionais que iam para a zona de Coimbra.

O jornal I. perguntou a José Galamba, o advogado dos dois etarras:

«Simpatiza com as vítimas da ETA?»

«Claro, é evidente. Em princípio.»

É muito antipática esta relutante simpatia do senhor José Galamba.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

"Dons do Amante" dito por Guilherme Gomes

Marcus Stone - Loves Daydream End (gif de Rino Stefano Tagliafierro)

Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.

Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.

Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.

E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.

Poema Índio (América do Norte)
Versão de Herberto Helder

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Definição

Fotografia de Joseph Goh Meng Huat

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os própnos
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.
Nuno Júdice


Violência urbana (#10)

Fotografia de Olho de Gato

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Violência urbana (#9)

Fotografia de Olho de Gato

Uma peta*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. O orçamento municipal para 2014 em Viseu é um desapontamento, contudo o PS, o CDS e o PCP abstiveram-se na sua votação na assembleia municipal. Ficaram-se por um “nim” cinzento e átono perante um orçamento que, ao contrário do que vinha a fazer Fernando Ruas, aumenta as despesas correntes em vez de as diminuir.

Politicamente, os quatro vereadores da oposição deixaram-se emparedar, a sua voz não chegou a lado nenhum sobre este assunto. 


Foram muito vocais perante alguns milhares de euros da festa de fim-de-ano, perante os milhões do orçamento afonizaram.

Merece referência a clareza política de Carlos Vieira do bloco de esquerda, o único deputado municipal que votou contra um orçamento que, só em taxa de resíduos sólidos, prevê fazer pagar aos viseenses mais um milhão de euros do que pagaram em 2013.

2. Como é sabido, José Sócrates embaralhou-se todo sobre o que fez durante o heróico Portugal – Coreia, em 1966. Disse ele na televisão que ia a caminho da escola enquanto Eusébio e os magriços viravam o resultado. O problema é que o jogo foi num sábado à tarde de um 23 de Julho. Tempo de férias.

Como explicou Baudelaire, a memória é um palimpsesto, a memória é um pergaminho que se vai apagando para tornar a escrever por cima. Sem darmos conta “alteramos a história de cada vez que voltamos a recordá-la”, lembra Nassim Nicholas Taleb em “O Cisne Negro”.

Sócrates disse uma peta sobre o que aconteceu naquela longínqua tarde de Verão de 1966? Claro que sim. A si próprio.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ou sim ou sopas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 15 de Janeiro de 2010.

Na última sexta-feira reuniu-se em sessão extraordinária a assembleia municipal de Viseu. Coisa grave e extraordinária.
Assunto em debate: “universidade pública – ou sim ou sopas”.

Fotografia Olho de Gato
Ou “sim” do ministro das universidades ou “sopas” em grandiosa manifestação promovida por Fernando Ruas.

Eis como foi pensada a coisa: ou o ministro diz sim à universidade de Viseu ou o povo manifesta-se com pancartas e palavras de ordem na Praça da República, no ano do centenário da dita. Depois, em sequência e consequência, o ministro Mariano Gago, movido e comovido por toda esta dinâmica conceptual, acabará por abjurar a sua anterior abjuração – e dizer sim à universidade viseense.

Pelo que se percebeu, este foi o plano para aquela extraordinária assembleia municipal extraordinária de 8 de Janeiro.

Nela, depois de horas de debate, depois de laboriosas negociações em que Correia de Campos esvoaçou de nenúfar em nenúfar e António Joaquim Almeida Henriques, já a pensar em 2013, começou a descolar de Fernando Ruas, a assembleia municipal de Viseu lá acertou o texto de uma moção, provavelmente a ducentésima vigésima quarta moção sobre o assunto.

Desta feita, na dita moção pede-se uma “task force” e que essa “task force” faça acontecer num “curto prazo” algo à universidade pública de Viseu.

Saiu, portanto, uma coisa entre o “sim” e as “sopas”: saiu uma “task force”. Porém – espera-se… – uma “task force” extraordinária.

Houve dez deputados municipais que se abstiveram na votação deste manicómio.

Ah!, é verdade!, tudo isto na semana em que o ministro das obras públicas António Mendonça anunciou que todas as SCUTs vão ter portagens. Portanto também as “nossas” auto-estradas, a A24 e a A25.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Poemacto I


Fotografia de Alfred Eisenstaedt

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade canta luzes.
Penso agora que é profundo encontrar as mãos.
Encontrar instrumentos dentro da angústia:
clavicórdios e liras ou alaúdes
intencionados.
Cantar rosáceas de pedra no nevoeiro.
Cantar sangrento nevoeiro.
O amor atravessado por um dardo
que estremece o homem até às bases.

Cantar o nosso próprio dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo.
Ao nome que sangra.
Que vai sangrando e deixando um rastro
pela culminante noite fora.
Isso é o nome do amor que é o nome
do canto. Canto na solidão.
O amor obsessivo.
A obsessiva solidão cantante.
Deito-me, e é enorme. É enorme levantar-se,
cegar, cantar.
Ter as mãos como o nevoeiro a arder.

As casas são fabulosas, quando digo:
casas. São fabulosas
as mulheres, se comovido digo:
as mulheres.
As cortinas ao cimo nas janelas
faíscam como relâmpagos. Eu vivo
cantando as mulheres incendiárias
e a imensa solidão
verídica como um copo.
Porque um copo canta na minha boca.
Canta a bebida em mim.
Veridicamente, eu canto no mundo.

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha
treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.

Imagino o meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela.
Nata. Flecha. Objecto cantante.
Corpo com sua morte que canta.
Imagino uma colina com vozes.
Uma escada com canto de estrela.
Imagino essa espessa nata cantante.
Uma que canta flecha.
Imagino a minha voz total da morte.
Porque tudo canta e cantar é enorme.

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Herberto Helder


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Quero a fome de calar-me

Fotografia de Corinne Noon



Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória no mundo — ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança
Daniel Faria



Violência urbana (#8)

Fotografia Olho de Gato

domingo, 12 de janeiro de 2014

Secagens


Em caso de fogo

Fotografia de António Pedrosa



Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder
a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer
sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo,
desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde
por sinal há muito mais fogos do que no litoral.

Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O
restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou
a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para
pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no
litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas
mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
António Pocinho

sábado, 11 de janeiro de 2014

A república sarkollandesa

Numa república assuntos da cama do presidente não são assuntos de estado;
numa monarquia assuntos da cama do rei são assuntos de estado.


Para os media franceses, com Sarkozy e agora com Hollande, as coisas não são bem assim. 

pseudo blues

Fotografia de Dominique Isserman


dentro de cada um
tem mais mistérios do que pensa o outro
uma louca paixão avassala
a alma o mais que pode
o certo é incerto,
o incerto é uma estrada recta
de vez em quando acerto
depois tropeço no meio da linha
tem essa mágica
o dia nasce todo dia
resta uma dúvida
o sol só vem de vez em quando
o certo é incerto,
o incerto é uma estrada recta
de vez em quando acerto
depois tropeço no meio da linha
Jorge Salomão


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Uma boa notícia — de novo nas bancas o Correio Beirão

O regresso às bancas de um jornal é sempre uma felicidade...



... essa felicidade é maior quando o jornal que regressa é o Correio Beirão que foi também um espaço de liberdade que acolheu a minha "escrítica" — numa coluna chamada Asa de Mosca — e uma casa onde conheci o Rui Bondoso, o Ricardo Bordalo, o Jorge Plácido, muito mais sorte minha que deles:

Na pessoa da Teresa Adão, actual directora, desejo o máximo de felicidades ao Correio Beirão, neste seu regresso.

Para ficar

Fotografia Olho de Gato


Devia ser uma hora da noite
ou uma e meia.
A um canto da taberna,
atrás da divisória de madeira.
Só nós ainda na deserta sala
que um candeeiro mal iluminava.
O criado, obrigado a esperar, adormecera à porta.

Ninguém nos teria visto. Mas, embora,
estávamos os dois tão excitados,
que nada nos faria ter prudência.

A roupa se entreabria... – muito pouca
na ardência de um divino mês de Julho.

Prazer da carne,
por entre a roupa;
o rápido surgir da carne – e a imagem dela
cruzou vinte e seis anos, até vir
a estes versos, para ficar.
Konstandinos Kavafis

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"Why do I love" You, Sir?

Fotografia de Mert Alas e Marcus Piggot


"Why do I love" You, Sir?
Because—
The Wind does not require the Grass
To answer—Wherefore when He pass
She cannot keep Her place.

Because He knows—and
Do not You—
And We know not—
Enough for Us
The Wisdom it be so—

The Lightning—never asked an Eye
Wherefore it shut—when He was by—
Because He knows it cannot speak—
And reasons not contained—
—Of Talk—
There be—preferred by Daintier Folk—

The Sunrise—Sire—compelleth Me—
Because He's Sunrise—and I see—
Therefore—Then—
I love Thee—
Emily Dickinson


Bordados*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O “video-mapping” é uma espécie de fogo-de-artifício audiovisual sem pólvora. 


O que foi encomendado pela câmara de Viseu para a passagem de ano foi matéria de controvérsia, com a “oposição” a acusar a “situação” de despesismo.

Como prometi aos leitores, fui com doze passas e espumante ver e avaliar o “evento”: 
(i) o espectáculo foi bom e há vários vídeos no YouTube onde se pode conferir essa qualidade
(ii) o Adro da Sé tinha pouca gente e isso foi uma pena; 
(iii) as clareiras entre o público deixaram pendurada esta primeira tentativa de António Almeida Henriques de fazer de Viseu uma “cidade de eventos”.

Recordo que Portugal tem tido uma “estratégia” de desenvolvimento movida a “eventos”: foi a XVII, a Expo, as “capitais de…”, o Euro 2004. Até Viseu também já pecadilhou disso com um mundial de andebol.

De “eventos” no país tivemos muito, de desenvolvimento é que pouco.

Fica aqui matéria para reflexão do presidente da câmara, já que nenhum “conselho estratégico” ou outra instância metapolítica, das que ele anda agora a multiplicar, pode substituir a interpretação do interesse público de um político eleito com a responsabilidade para decidir.


2. Não é anedota: neste país falido, a assembleia municipal de Viseu aprovou mesmo por unanimidade uma moção a pedir uma ligação ao sul em via com “perfil de auto-estrada” e sem portagens.

Atenção!: não se trata de uma auto-estrada, trata-se de um “perfil de auto-estrada”.

Não admira que as sessões da assembleia municipal demorem horas e mais horas. É que nada derrete mais tempo do que fazer bordados com as palavras.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eu era apenas quanto


Fotografia de Donata Wenders



Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.

Eu era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.

Foste quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.

Foste, a agitar cortinas,
quem, na humidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.

Eu era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.

E, assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.

Em meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.
Joseph Brodsky
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher


Notícias do túnel*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 8 de Janeiro de 2010



Em todo o mundo os políticos falam de “sinais de retoma”. É “wishful thinking”. É um “oxalá aconteça” inconsistente. A crise sistémica global, infelizmente, continua. Por enquanto ainda não se vê luz. Só túnel.

Em 2009 o comércio internacional caiu 10%, uma enormidade nunca vista. Há cada vez mais desemprego. A recuperação bolsista só tem servido para um ou outro banqueiro aparecer outra vez a arrotar a postas de pescada.

Os governos estão a manipular as estatísticas do emprego e a endividarem-se. A The Economist de Junho trazia uma infografia muito fácil de ler e que diz tudo sobre a cavalgada da dívida pública. 

O Laboratório Europeu de Antecipação Política prevê grandes dificuldades já na primeira metade deste ano.


Fotografia daqui
Os governos, ao não terem deixado que os bancos sofressem as consequências dos seus erros, puseram o nó corrediço dos défices à volta do pescoço. A economia precisa de outro plano de estímulo – já que as medidas tomadas em 2009 falharam - e agora não há dinheiro.

É expectável mais inflação, mais impostos e cessação de pagamentos de alguns países.

Da inflação ainda não fala a imprensa mundial.

A subida de impostos vai massacrar a classe média e os reformados, enquanto os pobres, cada vez mais pobres, vão ser deixados ao “Deus dará”. Matéria que vai dizer muito a D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu, director desta edição do Jornal do Centro.

Quanto ao risco de falência de países, o que aconteceu no Dubai foi um primeiro sinal. O último relatório de risco de crédito publicado pela CMA Data Vision coloca a Venezuela, a Ucrânia e a Argentina na primeira linha. Portugal, para já, não está no vermelho. Há países bem pior.