terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Viseu — video-mapping, hoje

Foto Olho de Gato

Um anedota para acabar o ano



2009*

* Texto publicado em 2009 no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 31 de Dezembro de 2009.



Fica aqui uma pequena “antologia” da forma como esta coluna viu Viseu ao longo de 2009.


Fotografia Olho de Gato
16 de Janeiro
Ainda não foi desta vez que a câmara municipal anunciou lugares de estacionamento reservados aos moradores. Foi pena. É uma medida tão necessária para dar vida ao centro histórico como a tão falada loja do cidadão.


6 de Fevereiro
Que fazer para que o fiasco do Pavilhão Multiusos não se repita no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu?


13 de Março
O que Viseu menos precisa é do velho e costumeiro pingue-pongue entre Fernando Ruas e José Junqueiro, com o dr. Ginestal a servir de apanha bolas. Mais um funeral como o da universidade pública não, por favor!


3 de Julho
Já devia haver internet sem fios gratuita nas ruas de Viseu. Era tão bom ver putos a guglarem nos seus Magalhães, com os dedos lambuzados de gelado, sentados no Rossio ao lado dos reformados!


18 de Setembro
Enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu. Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.


9 de Outubro
Cresceu muito a burocracia municipal. A câmara engordou e tem dificuldade em acomodar todas as suas adiposidades no edifício da Praça da República.


16 de Outubro
Quando Fernando Ruas vem, como lhe compete, dizer que “Lisboa prejudica Viseu”, é necessário aos socialistas engolirem sempre o anzol, a linha e a cana?


27 de Novembro
Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

As figuras de 2013 — escolha Olho de Gato

Figura internacional do ano — Edward Snowden
Só homens como ele poderão evitar a destruição dos estados liberais, onde, com o pretexto da "guerra contra o terrorismo" e usando sem freios nem escrutínio os avanços tecnológicos, os governos estão a destruir o direito das pessoas à privacidade.



Figura nacional do ano — Anónimo de Belém
Anónimo porque dificilmente será tornado público o nome do conselheiro de Belém que convenceu o presidente da república Cavaco Silva a revogar a demissão irrevogável de Paulo Portas com o mais importante discurso da sua carreira política.




Figura local do ano — Abel Encarnação 
A escolha do meu amigo Abel para figura local do ano é a ilustração do impacto da comunicação viral impulsionada pelo formigueiro das redes sociais. 
Para a decisão final, tinham ficado dois nomes. Uma pesquisa no Google acabou com as dúvidas:




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

chuva acesa no centro do abismo

Fotografia de Steven Meisel



água, tua música de pele
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs

terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz

ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente

fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração
Afonso Henriques Neto


Ide lá — de propósito — conhecer Maria Keil

Até 19 de Janeiro no Solar do Vinho do Dão, Fontelo, Viseu. Mais info aqui


Fotografias Olho de Gato


domingo, 29 de dezembro de 2013

Açoite

Fotografia Olho de Gato
Tal qual, não apesar do açoite,
antes por causa da agonia,
o masoquista que riria
caso lhe perguntassem "dói-te?",

cada qual tenta, dia a dia,
sem que, por muito que se afoite,
possa, ante a boquiaberta noite,
colher minimamente o dia

(que, tudo indica, não é parque
temático, mas sim, malgrado
os lapsos lúdicos que abarque,

centro no qual processam dados
sem uso salvo o de informar que
todos os dias são contados).
Nelson Acher

Matemática da última assembleia de freguesia de Viseu: VODKA-LARANJA menos VODKA = LARANJA

João Serra, o eleito da CDU, faltou à última Assembleia de Freguesia de Viseu e esta falta automaticamente aprovou o orçamento do PSD.
O eleito da CDU podia ter-se feito substituir e não o fez.

Pelo que se percebe, tivemos na Assembleia de Freguesia de Viseu (que, convém lembrar, representa mais eleitores que 21 das 24 câmaras do distrito)  um caso clássico de vodka-laranja. Tivemos, na prática, uma coisa tipo Loures de Bernardino Soares, admirador da democracia norte-coreana.

Só que aqui, em Viseu, aconteceu uma ruptura de stock de vodka. A vodka não apareceu. Ficou só a laranja.

O Paulo Neto esmiuça bem o caso no Rua Direita. Paulo Neto fustiga também o bicéfalo bloco, a quem chama "esquerda 'filet-mignon'", mas deve ser porque não gosta de caviar.

sábado, 28 de dezembro de 2013

No está hecho para los cobardes

Fotografia Olho de Gato

Elige al que te hiere
al que te grita
al que te trata como un
zapato de hace diez temporadas
al que no te deja librarte
del martillo de tus errores
al que te mira con deseo
sólo cuando se la chupas
al que el resto del tiempo
no es capaz ni de deletrear
la palabra deseo

elige al que te hace sentir idiota
al que lleva un reloj en el culo
y mide el tiempo al ritmo de sus pedos
al que te lleva al cine y al macdonalds
para una noche romántica
al que nunca te dejará
espacio, mejor,
así no tendrás que fijarte
en ti misma.

No te arriesgues lo más mínimo
en este asunto

que si encuentras a alguien que
te quiera de verdad
a ver que haces
cuando te deje.
Cysko Muñoz

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Earth Tremors Felt in Missouri

Fotografia Olho de Gato

The quake last night was nothing personal,
you told me this morning. I think one always wonders,
unless, of course, something is visible: tremors
that take us, private and willy-nilly, are usual.

But the earth said last night that what I feel, you feel;
what secretly moves you, moves me.
One small, sensuous catastrophe
makes inklings letters, spelled in a worldly tremble.

The earth, with others on it, turns in its course
as we turn toward each other, less than ourselves, gross,
mindless, more than we were. Pebbles, we swell
to planets, nearing the universal roll,
in our conceit even comprehending the sun,
whose bright ordeal leaves cool men woebegone.
Mona Van Duyn


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dito no Jornal do Centro em 2013*

* A última crónica do ano é uma espécie de "antologia" — muito tesourada para caber** — dos textos publicados este ano no Jornal do Centro ***


António José Seguro — que chegou à liderança do PS com uma agenda anti-corrupção - foi mandado calar sobre o assunto pelos socratistas e calou-se.


Nuno Crato, ao contrário do que sempre escreveu e teorizou, chegado ao governo, em vez de focar as escolas no “produto” (os conteúdos que os alunos têm que aprender), fá-las gastar cada vez mais energias no “processo” (burocracia, centralismo, nevoeiro regulamentar).


Quando há notícias de uma viagem das elites portuguesas a Angola há quem se interrogue: “mas afinal eles vão lá ensinar ou aprender?”


António Zambujo, Sé de Viseu, 13.7.2013 (fotografia Olho de Gato) 
Cozinhado das listas autárquicas de Viseu: 

(i) nos lugares elegíveis para a câmara e assembleia municipal, o aparelhismo partidário mais seguidista e acrítico, polvilhado aqui e ali com um ou outro académico para enfeitar;

(ii) nas listas de freguesia, generosidade e amor à comunidade.

Embora menos kitsch e parola agora com José Moreira, mesmo assim a Feira de S. Mateus sempre procedeu como se Viseu fosse uma aldeia e que aquele certame fosse “o” largo da cidade. Não é. Era só o que faltava que fosse.


Visabeira que é um caso admirável de sucesso, a que a cidade muito deve e de que depende, sendo essa dependência um risco, porque todas as monoculturas o são.


Estarmos em “crise” é o nosso estado natural desde 1143 e cá nos vamos aguentando.


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** Antes da tesourada, esta "antologia" tinha este tamanho:

4/Jan:

António José Seguro — que chegou à liderança do PS com uma agenda anti-corrupção - foi mandado calar sobre o assunto pelos socratistas e calou-se.

28/Fev:

Nuno Crato, ao contrário do que sempre escreveu e teorizou, chegado ao governo, em vez de focar as escolas no “produto” (os conteúdos que os alunos têm que aprender), fá-las gastar cada vez mais energias no “processo” (burocracia, centralismo, nevoeiro regulamentar).

28/Mar:

O trabalho de Angela Merkel é tratar dos interesses dos alemães respeitando a constituição alemã. Quanto mais o dr. Soares disser mal da “senhora Merkel” (é assim que ele a chama), melhor ela estará a fazer o seu trabalho.

4/Abril:

Cavaco e Sócrates foram os únicos primeiros-ministros da terceira república com maiorias absolutas monopartidárias, foram ambos autoritários e sem capacidade de diálogo e foram ambos objecto de culto de personalidade nos seus partidos.

25/Abril:

Quando há notícias de uma viagem das elites portuguesas a Angola há quem se interrogue: “mas afinal eles vão lá ensinar ou aprender?”

9/Maio:

Fica já aqui o meu juízo objectivo sobre o trabalho do dr. Ruas: ele foi um bom presidente da câmara, fez coisas bem, fez coisas mal, mas fez muito mais coisas bem que coisas mal.


15/Agosto:

Duas primeiras constatações sobre o cozinhado das listas autárquicas de Viseu: 

(i) nos lugares elegíveis para a câmara e assembleia municipal, o aparelhismo partidário mais seguidista e acrítico, polvilhado aqui e ali com um ou outro académico para enfeitar; 

(ii) nas listas de freguesia, generosidade e amor à comunidade.

5/Set: 

Uma aldeia tem um largo. Uma cidade tem muitos.
Embora menos kitsch e parola agora com José Moreira, mesmo assim a Feira de S. Mateus sempre procedeu como se Viseu fosse uma aldeia e que aquele certame fosse “o” largo da cidade. Não é. Era só o que faltava que fosse.

26/Set: 

Tento sempre seguir a melhor tradição do pensamento europeu: há que tomar partido, isto é, escolher uma parte, e depois exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

3/Out: 

Depois de quatro anos de deserção e falta de fibra, o PS-Viseu continua a olhar para o umbigo. Ninguém se demite?

10/Out:

Em 18 de Maio, numa assembleia geral no Auditório Mirita Casimiro, o sempitermo presidente daquilo ficou encarregado de organizar umas eleições que pudessem ressuscitar aquela sala há anos a ganhar teias-de-aranha.
Passaram cinco meses. Nada foi feito. O homem nem coiso nem sai de cima...

17/Out: 

Nestes 24 anos, a força da cidade que residia nos comerciantes passou para as instituições do estado e para a Visabeira. Visabeira que é um caso admirável de sucesso, a que a cidade muito deve e de que depende, sendo essa dependência um risco, porque todas as monoculturas o são.

28/Nov: 

Não é bom ver António Almeida Henriques nomear para a captação de investimento nos parques empresariais uma pessoa [Ana Paula Santana] que percebe tanto daquilo como de lagares de azeite.

12Dez: 

Bem vistas as coisas, nós estamos há quase nove séculos em “crise”. Estarmos em “crise” é o nosso estado natural desde 1143 e cá nos vamos aguentando.

*** Todos encontráveis neste blogue com a etiqueta Jornal do Centro

A mistura da política com os negócios

Onde formigas bem colocadas trabalham pouco mas aconicham-se bem em pinguentos lugares...


Dois exemplos desta notável infografia animada que pode e deve ser vista aqui:


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Uma curta sobre o Nöel com uma Maria má como as cobras*

Como o vídeo que se segue, devido à sua controversa qualidade, não mereceu exibição no recente Conselho da Diáspora Portuguesa nem na sessão solsticial do excelente Shortcutz Xpress Viseu, fica aqui para os estimados visitantes deste blogue espalhados pelo mundo em geral e pela França em particular:


Se ao menos nevasse

Fotografia Olho de Gato


Nesse tempo chegávamos ao natal
isto é um modo de dizer por carreiros de cabras
num labirinto de curvas e obras no pavimento que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e de outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê dava-se como exemplo a dinamarca.

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonhos fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam posto e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo.

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus se tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços.

A verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão dos pinheirinhos de plástico com
o logótipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será tão reciclado que
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não fodem nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo.

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã.
José Carlos Barros

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Noite de Natal*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 24 de Dezembro de 2009



Ia neura pela rua fora.

Não fazia outra coisa que não fosse cismar na sua filha. A filha que o fez dar no duro nas obras da Visabeira. Tanto trabalho, tantas privações, tudo para ela tirar um curso.

Foi uma alegria quando ela se formou. Ele tinha uma filha doutora! Até pagou uma rodada de cervejas aos colegas da obra.

Depois veio a desilusão. Durante um ano, ela só conseguiu arranjar um part-time num call-center e uns meses numa caixa do Intermarché, em substituição de uma grávida.

Finalmente, apareceu uma luz ao fundo do túnel, uma vaga para um lugar bem pago, onde ela podia aplicar aquilo para que tinha estudado. Só que era em Sydney, na Austrália. Que neura!

«Pai», dizia ela, «a gente fala todos os dias na internet. Aquilo é tão bonito. Olhe esta fotografia da ópera de Sydney.»

Já não faltava muito para a consoada. Ia ele, naquele dia frio, naquela rua onde tinham posto uma alcatifa, naquela rua aberta aos ventos de Espanha, a fugir daqueles jinglebéles nos altifalantes, que atroavam o ar. Ele ia a cismar. Nem deu conta que estava a pensar em voz alta:

«Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»

Rua fora, ao fundo, viu a praça, o Rossio, as casinhas do Rossio.


Fotografia Olho de Gato


Estava lindo o Rossio, de presépio e de charrete, luzes de Natal a pingarem das tílias, táxis à espera, brasileiros ao telemóvel, ucranianos de camisa aberta, africanos de gorro na cabeça.

Não lhe passou a neura. Em cada uma daquelas caras, em cada um daqueles estrangeiros, em cada um daqueles olhos tristes, ele via a sua filha, sozinha, num Rossio qualquer de Sydney, do outro lado do mundo.

Chegou a casa e disse:

«Filha, nesta noite de Natal tens que me ensinar a mexer no computador…»

Los paraguas, los taxis





Acabo de tirarlo,
35 minutos bajo la tormenta
— esperando un maldito
taxi —
han podido con él.

Pero cómo se ha portado.

Ésa es la diferencia:
los taxis son como ciertos amigos,
nunca están cuando más los necesitas.

Los paraguas, en cambio, mueren por ti.
Karmelo C. Iribarren


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Metade da vida

Fotografia Olho de Gato




Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.
Friedrich Hölderlin
Trad. Manuel Bandeira

Da ladroagem

Verdadeiramente de que é que Pedro Henrique está a falar aqui na TVI?

Este estabelecimento deseja Boas Festas aos seus clientes e amigos

Fotografia Olho de Gato

domingo, 22 de dezembro de 2013

El remordimiento

Fotografia Olho de Gato

He cometido el peor de los pecados
Que un hombre puede cometer. No he sido
Feliz. Que los glaciares del olvido
Me arrastren y me pierdan, despiadados.
Mis padres me engendraron para el juego
Arriesgado y hermoso de la vida,
Para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida
No fue su joven voluntad. Mi mente
Se aplicó a las simétricas porfías
Del arte, que entreteje naderías.
Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.
Jorge Luis Borges


Ó Crato, o sindicalista do bigode trocou-te o nome!


Declarações de Paulo Guinote ao Expresso de 21/12* e à Visão de 24/12**:



* Acrescentado ao post em 22.12, às 10:55
** Acrescentado ao post em 25.12, às 11:15

sábado, 21 de dezembro de 2013

Até às 17H10 ainda é Outono — a mais bela estação do ano

Fotografia Olho de Gato



Fotografia Olho de Gato
Fotografia Olho de Gato

Viseu revisited




Não falo das ruas da minha infância,
nem as nomeio,
para que ignorem a pequenez do meu mundo.

Tinham, porém, fauna e flora,
as árvores davam sombra e frutos,
os homens bom-dia e os pássaros cantavam.
Fernando Ferreira de Loanda


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um céu e nada mais

Fotografia Olho de Gato



«Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.»
Ana Luísa Amaral

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pau e cenoura*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Daniel H. Pink é um aclamado conferencista. Acham-se vídeos dele notáveis na internet.

Ele não se cansa de divulgar um estudo feito inicialmente com um grupo de alunos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Foram distribuídas aos estudantes tarefas com três níveis de recompensa: execução suficiente, pequeno prémio em dinheiro; execução mediana, mediana quantia; execução muito boa, muito boa quantia.

Eis o que aconteceu: em tarefas mecânicas ou pouco sofisticadas, o esperável, quanto maior o prémio melhor o desempenho. Já em tarefas que exigiam criatividade o resultado foi uma surpresa — quanto maior o prémio pior o desempenho.

Este estudo — financiado pela capitalista Reserva Federal - obteve os mesmos resultados “socialistas” tanto no MIT como, depois, em Madurai, numa zona rural da Índia.

Em “tarefas do século XX”, repetitivas e rotineiras, as motivações externas funcionam bem: “se” não te aplicares “então” levas zero; “se” te aplicares “então” és premiado. Já em “tarefas do século XXI”, que exigem capacidades cognitivas elevadas, importa mais a motivação interior.

O pensamento económico precisa de incorporar este facto: o “se... então” ou, dito de outra maneira, o habitual “pau e cenoura” estreita o pensamento e prejudica a criatividade.

Por enquanto as notícias da morte do Jornal do Centro têm-se revelado manifestamente exageradas


e o 




Atenção: todos os obituários acertam no objecto já que tudo é perecível, por vezes são é prematuros. 

O título deste post refere-se à reacção de Mark Twain quando foi, com manifesto exagero, noticiada a sua morte. 

A resposta de Alice Cooper, perante a mesma obituação precoce, também é muito boa — pode ser lida aqui.



Tantos nomes que não há para dizer o silêncio

Fotografia de Manuel Estheim

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio —

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Herberto Helder

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Saiam uns óculos 3D para Daniel Oliveira, por favor!

Detalhes aqui no jornal Público



Onde estará em 2015 o socratismo de Daniel Oliveira?
E a luta-de-classes de Manuel Carvalho da Silva?
E o cosmopolitismo de Rui Tavares?

Quem irá ser o "jamé" do primeiro-ministro António Costa?

Sobre águas


Fotografia de Brigitte Lacombe


Na água
fervente
ausente
resseco a terra
onde me instalo:

destruo no caminho
as margens e sobre
a linha
restante
resto
na água
gelada
da tormenta.

Na água restante
afogo pensamentos.
Pedro Du Bois

Cenários*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 18 de Dezembro de 2009



Imagem daqui
No próximo ano, o governo vai aprovar o orçamento com a direita e o casamento homossexual com a esquerda. O resto, que para aí se fala, é treta.

Faltam treze meses para as presidenciais.

Tudo indica que Cavaco Silva se vai recandidatar e vai ter o apoio de toda a direita. Cavaco tem feito um mau mandato e pode ser o primeiro presidente não reconduzido pelo voto dos portugueses. É derrotável pela esquerda, embora não seja fácil.

Neste tipo de eleições, na primeira volta escolhe-se e na segunda rejeita-se. Explico: na primeira volta o eleitor escolhe o candidato mais do seu agrado e na segunda volta rejeita o finalista que mais lhe desagrada (na hipótese, bem entendido, do seu favorito ter ficado pelo caminho).

O pior que pode fazer a esquerda é ir com um candidato único. Há três partidos à esquerda e cada um deve apresentar o seu candidato. Depois, o melhor deles disputa a segunda volta com Cavaco Silva.

O país está metido num sarilho. É necessária clareza na política. O PS não pode ir às presidenciais de braço dado com a agenda estéril da extrema-esquerda.

Eis os candidatos ideais e mais fortes para umas presidenciais clarificadoras:
- à direita, (i) Cavaco Silva;
- à esquerda: (ii) Carvalho da Silva, apoiado pelo PCP; (iii) Manuel Alegre, apoiado pelo bloco de esquerda; e (iv) Jaime Gama, apoiado pelo PS (é sabido que Guterres não deixa a ONU e Vitorino não desgruda dos negócios).

Parece certo o apoio do bloco a Manuel Alegre.

O PCP receia a independência de Manuel Carvalho da Silva e, por isso, vai preferir um geronte qualquer do comité central.

Por sua vez, o PS se se misturar numa campanha alegre com o bloco, vai perder o eleitorado central, e oferecer numa bandeja o segundo mandato a Cavaco Silva.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Com unhas e dentes

Imagem daqui


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.
Luís Filipe Parrado

Hoje — apresentação do livro FORAIS MANUELINOS DE VISEU de Jorge Adolfo M. Marques


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Explicação da nossa bancarrota de 2011

A terceira república já teve três intervenções do FMI: em 1977, 1983 e 2011. 

E, pelo andar da carruagem, Portugal não se safa da quarta visita do FMI.

 É que nenhum dos responsáveis por este roubo do futuro, em forma de "cimento escolar", vai ser preso:

in jornal Público


a outra voz

Fotografia de Henry Clarke




não adianta, nada neste mundo

pertence a ti, nem essa ínfima parte

que te compete recifrar em arte.

só é teu o circo das desilusões,

o canto das sereias, o naufrágio

no qual perdeu-se a vida, o rumo, a nave,

a memória da ilha em que viveste

o ato inaugural da tua odisséia.

Penélope esgarçou-se em muitas faces,

e mesmo a guerra, com seus alaridos,

só sobrevive nas versões dos bardos.

não há mais ilha, nem há mais princípio:

teu principado é só imaginário.

Geraldo Carneiro

CCV — Passaporte para o Paraíso


16 de Dezembro de 1955 — primeira sessão do Cine Clube de Viseu, com o filme "Passaporte para o Paraíso".

E foi: um paraíso cinéfilo que completa hoje 58 anos.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Anúnciame

Fotografia de Andreas Waldschuetz


Anúnciame
Espanta las sombras que ladran a mi paso
y los ojos curiosos que desde los resquicios
me ven andar a tientas
desandando

Alláname el camino
que tropiezo
porque no estaba escrito que volviera

(el polvo sacudido de mi cuerpo
se levanta de nuevo y se me pega)

Anticípame
Nada quiero dejarle a la sorpresa
Salí de mí huyendo de este grito
pero el grito me alcanzaba adonde fuera
América Martínez Ferrer


sábado, 14 de dezembro de 2013

Caderno

Fotografia de Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin


Tudo o que fizemos e dissemos e amámos — ou
talvez nem isso —
cabe num mísero caderno onde o esplendor não
lança os seus raios.
De mais ou menos palavras se faz o tempo de
semear,
mas nenhuma colheita retomará o calor do feno,
nada que se possa tocar com a alegria dos dedos,
nada de inocente e sagrado
que nos deixe adormecer sobre o linho.
José Agostinho Baptista