quinta-feira, 25 de julho de 2013

Progresso *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Bairro de Santiago (fotografia de Paula Magalhães)
1. Este texto tem três fontes: (i) um conjunto de fotografias extraordinárias de Paula Magalhães e Fernando Rodrigues sobre dois bairros de pobres de Viseu: o Bairro de Santiago e o Bairro da Cadeia; (ii) uma análise do Bairro da Cadeia feita em 2003 por David Ferreira; (iii) uma recensão sobre o último livro de John Gray, “The Silence of Animals: On Progress and Other Modern Myths” que põe em causa a ideia do “progresso”.


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A acção do filme Ágora, de Alejandro Amenábar, passa-se no século IV no Egipto então dominado por Roma, e tem como pano de fundo a luta entre o saber politeísta defendido pela filósofa Hypatia, guardado em rolos na Biblioteca de Alexandria, e o saber monoteísta cristão, liderado por Cyril, guardado no livro sagrado.

Os cristãos, na ofensiva, eram o novo, e o novo, quando substitui o velho, é bárbaro. A certa altura, na tentativa de evitar males maiores, aconselham a grande mulher:

«Converte-te, Hypatia, senão Cyril ganha...»

«Ele já ganhou...», respondeu ela, realista.

Não há nada que sobreviva às acções destrutivas da barbárie do novo e do tempo. Como sabia Hypatia, «ele já ganhou». Ele, aquilo a que se chama progresso. O novo substitui o velho. E o devir implacável do tempo arruina o novo e o velho. A barbárie e o tempo ganham sempre. E só há duas maneiras de lhes atardar a vitória — através da memória e do trabalho. Lembrar e trabalhar são o calhau que o homem/Sísifo está condenado a arrastar pelo monte do tempo acima.

Bairro da Cadeia (fotografia de Fernando Rodrigues)
Há ideias de se preservar, no Bairro da Cadeia, algum deste Portugal dos Pobres numa espécie de Portugal dos Pequeninos. Seja. Nada contra.

2. A câmara de Viseu calendarizou o “I Festival de Jazz de Viseu” para os exactos dias do “Tom de Festa” em Tondela. Tenho a certeza que no futuro, seja com José Junqueiro seja com Almeida Henriques, tal estupidez não se torna a repetir.

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