sábado, 31 de março de 2012

Salário

Fotografia de Walker Evans


Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.
Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 30 de março de 2012

Isabel Moreira

... enquanto os deputados socialistas
gongorizam durante horas a prepararem
"agarrem-me senão eu mato-o":

Resende — cerejeiras em flor











Estas vão ser temporãs

Murmúrio *

* Publicado hoje no Jornal do Centro

     1. Foi uma pena o filme “Tournée”, apesar de premiado no Festival de Cannes de 2010, não ter tido vida que se visse nos cinemas. 
     O realizador, Mathieu Amalric, faz ele próprio a personagem principal: interpreta um produtor chamado Joachim Zand que reúne um grupo de americanas bem-dispostas, com curvas generosas e tremeluzentes, que brilham num espectáculo de “novo burlesco” para adultos, em salas de terceira categoria na França de Sarkozy, todas a sonharem que o show culmine com a epifania do sucesso em Paris.
     Em qualquer lugar a que chega, Joachim pede para desligarem as televisões — como se, assim, com o silêncio que sobreviria, fosse carregado o botão “pause” da marcha do tempo, tempo que corre contra ele. O problema é que ninguém lhe faz a vontade. Nada interrompe a cacofonia proveniente dos aparatos.

     2. No meu bairro há um café excelente, com uns pastéis de nata magníficos, mas cuja ecologia é estragada por duas televisões sempre ligadas com som alto o que põe a clientela a falar alto para se ouvir por cima do ruído de fundo.
     Num notável discurso em 2009, Umberto Eco bateu-se pelo “regresso ao silêncio” e lembrou que “é apenas no silêncio que funciona o único e verdadeiramente poderoso meio de informação que é o murmúrio”.
     Há que ultrapassar o medo do silêncio, medo que plantou “som ambiente” em todo o lado. Até para dar sentido à esperável generalização dos veículos eléctricos.

     3. Em 29 de Março de 2002, o primeiro Olho de Gato saiu com este título: “O real tem muita imaginação”. Porque, como então escrevi, “por mais que tentemos perceber as coisas e o mundo, há sempre algo que nos escapa, e é esse ficar aquém e além, é essa distância que dá sal à nossa vida e combustível ao nosso espírito.”
     Aqui se vai continuar a gastar desse combustível numa escrita em desacordês.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Parque Escolar — escolher os vencedores

Quando um estado faz isto 
— escolher os vencedores — 
as consequências são invariavelmente:
 irracionalidade económica e 
desperdício de dinheiros públicos.

No DN de hoje

O PS de Seguro tem-se desmultiplicado a pôr a mão debaixo da Parque Escolar, desvalorizando a dinâmica sumptuária, novo-rica, inecológica e bacoca
daquela empresa pública.

Faz, evidentemente, mal.

O primeiro Olho de Gato — 29 de Março de 2002

* Foi há exactamente dez anos que foi publicado este primeiro Olho de Gato no Jornal do Centro. Na altura eram crónicas quinzenais.

     
O real tem muita imaginação
1. A estrutura desta coluna será fragmentada por vários assuntos, escolhidos para ilustrar a ideia que dá título a esta Crónica: “O real tem muita imaginação”.

Trocado por miúdos quer dizer que, por mais que tentemos perceber as coisas e o mundo, há sempre algo que nos escapa, e é esse ficar aquém e além, é essa distância que dá sal à nossa vida e combustível ao nosso espírito.

2. O líder distrital do CDS-PP, Hélder Amaral, veio lembrar que as nomeações políticas, a acontecerem na sequência das eleições de 17 de Março, têm que ser conversadas entre o PSD e o CDS-PP.

Parece lógico e, no respeito pelos resultados eleitorais no Distrito, por cada 5 boys (ou girls) laranjas terá que ser colocado 1 popular. Será de acompanhar com interesse este bordado melindroso que só é fácil na aritmética das nomeações.

3. Como de costume, os jornais locais do último fim-de-semana, traziam as suas páginas muito influenciadas pelos Serviços de Comunicação da CMV.

Reparei num título de primeira página dum jornal cujo conteúdo é, há vários anos, quase exclusivamente dedicado à informação oficial da CMV: “Para Recuperar Prédios Degradados, Câmara dá Dinheiro e Isenta de Taxas”. Esta é uma deliberação positiva de incentivo e facilitação administrativa aos proprietários de casas com necessidade de recuperação.

Mas é também tentar tratar com aspirinas uma infecção grave.

Há poucos dias, caiu mais uma casa no Centro Histórico.

Décadas de desleixo, rendas baixas e uma ausência de política para o Casco Histórico onde é preciso pôr gente a morar, levam a este cenário preocupante, visível por exemplo na Ruas Nossa Senhora da Piedade e Augusto Hilário. É preciso vontade política para recuperar casas no Centro Histórico e destinar essas casas a jovens. 

4. Lê-se na primeira edição deste Jornal e acredita-se: na escola do Massorim, este ano uma mãe fornece o papel higiénico para a escola, pelo que não vai haver ruptura de abastecimento. Os pais fizeram o isolamento térmico e acústico do Pavilhão, deram a fotocopiadora, a televisão e o vídeo. Os professores pagam despesas da escola do próprio bolso. O dinheiro proveniente da Câmara dá, com muita dificuldade, para o Expediente e Limpeza.

A Escola tem computador e Internet. Abençoado Ministro Mariano Gago, que nunca teve da Educação uma visão de serviços mínimos! 

5. É uma fotografia de Sharbat Gula, uma afegã de olhos verdes, misteriosa, que foi capa da revista National Geografic, em 1985. 
Agora esta afegã foi reencontrada pelo mesmo fotógrafo da Agência Magnum, Steve McCurry e foram publicadas em todo o mundo as duas fotografias de Sharbat Gula separadas pela marca de 17 anos de sofrimento.

     São dois documentos impressionantes que me fizeram lembrar um canto afegão que transcrevo, do livro Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro:

O Céu cairá sobre nós

E ainda assim estarei por cá para vos amedrontar.
As nossas barbas deixarão de ser grisalhas
E os nossos ossos regressarão à terra que os deu a nascer
mas ainda assim cá estarei para vos atrapalhar.
Há muito que este solo sagrado deixou de ser fértil
E as nossas mulheres são feias;
Porque quereis então este território?

Ao contrário que dizem este poema e as burkas das mulheres afegãs, o rosto de Sharbat Gula marcado pelo sofrimento ainda é lindo, mesmo depois da queda do céu soviético, mesmo depois da queda do céu taliban, mesmo ainda depois do céu americano ter caído sobre o “solo sagrado” infértil do Afeganistão.   

"And Now For Something Completely Different" (#76)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Paulo Ribeiro, 15 anos em 43 minutos e 27 segundos

Praça D. Duarte - Viseu

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus. 
Eugénio de Andrade


terça-feira, 27 de março de 2012

Dia Mundial do Teatro — Viseu




Dr. Ruas, no verão é muito cedo

Depois das obras, o Parque Aquilino Ribeiro ficou muito bem e é muito usado

O horário de fecho no verão devia ser repensado

Primeiro Motivo da Rosa

Fotografia de Khaled Hasan



Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trémula, que penso ver, efémera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trémula, serás eterna. E efémero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho… E frágil.
Cecília Meireles

segunda-feira, 26 de março de 2012

Oh Cabeçudo, não queiras isso, pá!

Tu não vês que se fores almoçar ao restaurante da Segurança Social, além de gastares um balúrdio, 
perdes o emprego?

Tu não percebes que só tens o sucesso que tens 
porque não se sabe quem tu és?


Ora, como é que tu consegues almoçar 
sem tirares a tua cabeça cabeçuda, pá?

If

Imagem de Wawi Navarroza

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream - and not make dreams your master,
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!
Rudyard Kipling 


sábado, 24 de março de 2012

António Almeida Henriques

Expresso de hoje

     Com esta "requisição", Luís Filipe Meneses pôs um problema a Fernando Ruas:
     — ou
Fernando Ruas aproveita a sua comunicação ao congresso para fazer o mesmo e "requisitar" o secretário de estado António Almeida Henriques para a próxima disputa à câmara de Viseu;
     —  ou Fernando Ruas não diz nada, o que pode ser interpretado como preferência por Carlos Marta.

Argentina ontem em Viseu

Quimera Quinteto no Lugar do Capitão

Viseupédia — A descrição da cidade de Viseu







"Descrição da Cidade de Viseu" (1638) I:8

Da Lusitana em o meio está assentada
Uma Cidade antiga, populosa,
Não menos nos engenhos sublimada
Que nas sanguíneas armas belicosa.
De serras e altos montes rodeada,
E de rios, que a fazem mais fermosa,
Torres, muralhas, alta fortaleza
Publicam sua antiga e grã nobreza.




 * Poesia e imagem garimpadas no FB de Sara Augusto.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Diagnóstico - prognóstico - novo diagnóstico - novo prognóstico

Em Março de 2011, 
há um ano, quando José Sócrates 
ainda era mas já não era,
fiz neste blogue um "prognóstico sobre o futuro" 
que publico hoje outra vez:

     Enquanto, em 2005, o PS-Viseu estava muito mal colocado junto de José Sócrates, agora o PSD-Viseu está muito bem colocado junto de Pedro Passos Coelho.
     O PSD-Viseu foi um dos esteios da vitória  interna do líder   do PSD.
     Ora, isso vai ter consequências e uma delas é óbvia: Fernando Ruas vai deixar a câmara de Viseu na mão de Américo Nunes ainda este ano. 
     Ruas não vai resistir ao apelo de Lisboa.
     Pena o PS concelhio não poder dizer grande coisa  quando isso acontecer porque tem um telhado de vidro enorme chamado Miguel Ginestal que não honrou o voto dos viseenses que nele votaram e, ainda por cima, deixou a substituí-lo na câmara de Viseu uma liderança pífia .


       O que está dito acima tem um ano e foi um fiasco. Um naufrágio.
       Chegados a esta fase, a este desastre que nunca aconteceu a génios como o professor Marcelo Rebelo de Sousa, podia meter a viola no saco, engolir em seco, e desistir. Mas não, não desisto.
       Apesar de todos os avisos em contrário do célebre João Pinto do FêCêPê, vou fazer mais um "prognóstico sobre o futuro"

O dr. Ruas não deixou oficialmente 
a câmara nas mãos do dr. Américo Nunes em 2011
 mas vai fazê-lo em 2012.

       Porque é que digo isso? 
       Repare-se: o super-ministério do Álvaro está abanado. Um secretário de estado já foi borda fora empurrado por António "três gargantas" Mexia, da EDP. O ministro leva tiros todos os dias.
       Ora Viseu tem uma cota de três representantes no Ministério da Economia e do Emprego: o Álvaro, António Almeida Henriques e Sérgio Silva Monteiro. Este ministério podia e devia ter a sua sede em Viseu, conforme este blogue sugeriu em devido tempo.
      Mas regresse-se ao "prognóstico" para 2012: quando o desgastado Álvaro cair, para se manter a cota de Viseu no governo, entra para o seu lugar o fresco Fernando Ruas e fica Américo Nunes a fazer oficialmente na câmara da cidade de Viriato aquilo que já está a fazer oficiosamente.

Murmúrio




Sound of Silence

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted
In my brain still remains
Within the sound of silence

In restless dreams, I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash
Of a neon light that split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices
Never share and no one dared
Disturb the sound of silence

"Fools", said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words, like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said,
The words of the prophets are written
On the subway walls and tenement halls
And whispered in the sounds of silence

Anonymous tomou conta do site da embaixada portuguesa no Brasil

A esta hora o site continuava

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Pântano *

* Publicado hoje no Jornal do Centro



     O Jornal do Centro, como faz dez anos, desafiou os colaboradores a escreverem “à volta desta data redonda”. Ora, há dez anos que este jornal conta, como lhe compete, as histórias do pântano em que o país caiu depois da demissão de Guterres.
     E há dez anos que o pântano é assim:


corrupção: os banqueiros e a grande advocacia de negócios capturaram o poder político; 
já o escrevi aqui: Barroso e Sócrates foram os mordomos do sr. Salgado do BES;


 
     centralismo: Lisboa chamou a si todo o poder; agora perdeu-o para a Troika;
     impostos: há dez anos o IVA estava a 17%, agora está a 23%; há dez anos o IMI ainda não era a renda que agora temos que pagar, com língua de palmo, ao dr. Ruas;
     desorçamentação: a despesa é varrida para debaixo de tapetes fora do perímetro orçamental; os hospitais EPE do sr. Correia de Campos são um exemplo desta cosmética;
     endividamento: subtracção de futuro aos nossos filhos através de transferências de fundos de pensões, antecipação de receitas e, já na fase junkie a caminho da bancarrota, overdoses sucessivas de PPPs directamente para a veia.
     Nestes dez anos de pântano, Viseu, tal como todo o país, perdeu poder. Agora já não há nenhuma estrutura distrital com autonomia e capacidade de decisão.
     Viseu em 2002 não teve força para dizer sim à universidade pública criada na despedida de Guterres, Viseu em 2012 não tem força para dizer não às portagens, nem tão pouco nos troços da A25 feitos em cima do “velho” IP5.
     Em 2002, no assunto universidade pública, os “nossos” políticos falaram grosso, agora, no assunto portagens, nem piaram.
     Uma coisa é certa: o país e Viseu vão dar a volta isto. Com sofrimento, com fibra moral e com força interior. Se a terceira república não se limpar, cria-se a quarta.
     O Jornal do Centro cá estará para contar essa saída do pântano.

Igual - Desigual

Fotografia da peça Eira, em cena no Lugar do Capitão
   
Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.

Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.

Todo o ser humano é um estranho
ímpar.


Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, 21 de março de 2012

Querido blogue "Novos Horizontes"

Que aconteceu ao post 





Escafedeu-se?

Adenda às 19H55: Fernando Gonçalves, do Blogue Novos Horizontes, explica o que aconteceu aqui.

Eu sei, mas não devia

Fotografia de Sucheta Das

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti



terça-feira, 20 de março de 2012

A mulher fatal

«Could you please stop staring at me?»

Eira, no Lugar do Capitão

Março 20 —21 —22 e 27 — 28 —29
21H30
Na Green Room do Lugar do Capitão 

Criação Sónia Barbosa e Helena da Silva
Encenação e Cenografia Sónia Barbosa
Interpretação Helena da Silva
Desenho de Luz Cristóvão Cunha
Sonoplastia e Design Gráfico Nuno Rodrigues
Figurinos Sílvia Correia Silva e Elisabete Pinto
Produção NACO
Produção Executiva Cristina Ferrão
Apoio na construção de cenário António Diniz


     Eira é um monólogo inspirado em alguns textos de autores das Beiras (nomeadamente Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro e Ana de Castro Osório), na ruralidade, crenças e tradições destas gentes.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Brigada 22 de Março...

Vítor Constâncio não viu nada 
e Dias Loureiro não estava lá dentro.

Quando vier a primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma




Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro

domingo, 18 de março de 2012

Serração da Velha

Ontem em Oliveirinha







Os advogados da Parque Escolar

... nada se faz neste país 
sem a advocacia dos negócios ...
Correio da Manhã, hoje

O Que Será (À Flor da Pele)

O que será, que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho
 
O que será, que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
 
O que será, que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo




O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque / Milton Nascimento

sábado, 17 de março de 2012

Os mercados acabam por se dobrar à lei do mais forte ... e ao medo de perder mais

Saiu o boletim de Março de Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP/E2020) de que se transcrevem dois extractos. *

1

     A histeria colectiva mantida pelos media anglo-saxónicos e os eurocépticos durante a segunda metade de 2011 [na assim chamada "crise do euro] não se aguentou muito: a Eurozona impõe-se cada vez mais como uma estrutura sustentável e permanente e o euro está outra vez na moda nos mercados e nos bancos centrais dos países emergentes, o par Eurogrupo / BCE funcionou com eficácia e os investidores privados tiveram que aceitar um um "corte de cabelo" até 70% nos seus activos  gregos o que confirma a previsão da antecipação que o LEAP/E2020 fez em 2010, antecipação que na altura previa um "corte de cabelo" até 50% quando então quase ninguém era capaz de imaginar essa possibilidade sem uma "catástrofe" que significaria o fim do euro.
Imagem original daqui

Em última 
instância, os 
mercados acabam 
por se dobrar à 
lei do mais forte... 
e ao medo 
de perder mais, independentemente 
do que possam 
dizer os teólogos 
do liberalismo.


     É uma lição que os líderes políticos deverão guardar religiosamente porque estão para vir aí mais "descontos" nos Estados Unidos, no Japão e na Europa.


2
     Segundo as previsões do LEAP/E2020, cinco tempestades devastadoras  vão marcar o verão de 2012 e acelerar o processo de mudança geopolítica global: 
     — recessão no Estados Unidos num pano de fundo de estagnação europeia e desaceleração dos BRIC; 
     — bancos centrais num beco sem saída e os juros a subir; 
     —tempestade nos mercados de divisas e das dívidas públicas ocidentais; 
     — Irão, a guerra "longe demais"; 
     — novo crash nos mercados e nas instituições financeiras.


* Tradução "às três pancadas".

Slavoj Žižek diz à "rua" grega *

«Até este momento, 
tudo aquilo que vocês 
conseguiram foi que, 
em vez de um 
primeiro-ministro 
da esquerda moderada, 
meteram no poder 
um tecnocrata 
completamente neutro 
e um governo que 
até integra fascistas.»
Slavoj Žižek,

* Achado no blogue A Terceira Noite, de Rui Bebiano

sexta-feira, 16 de março de 2012

Louco na Serra — Shakespeare no Montemuro

Depois de, na semana passada, 
ter tido um esquecível "Animais Nocturnos",
 da Companhia da Noite, 
o Teatro Regional da Serra do Montemuro 
leva agora à cena
uma adaptação de "Rei Lear", de William Shakespeare 

Sábado, 17 de Março, pelas 21H00

Texto Peter Cann e Steve Johnstone  
Encenação Steve Johnstone  
Direcção Musical Simon Fraser 
Cenografia Andrew Purvin 
Interpretação Abel Duarte, Eduardo Correia, 
Paulo Duarte 

SERRAÇÃO DA VELHA — em Oliveirinha no sábado à noite

Coisas antigas que se fazem para expulsar o inverno ...

Cortes de cabelo *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     1. A “Europa” aprovou um novo resgate à Grécia que vai dar para ela se segurar durante algum tempo.
     Segundo se percebe, os credores privados que emprestaram dinheiro ao estado grego vão ser os bombos da festa: por cada cem euros que eles emprestaram, cinquenta escafederam-se no ar; dos cinquenta sobrantes, quinze serão pagos no prazo (o financês agora diz “na maturidade”); os restantes 35 serão transformados em títulos de dívida a 30 anos a uma taxa de juro que os gregos possam pagar, talvez dois-três por cento.
     A linguagem desbacterizada dos “responsáveis” chama a este caloteirismo “corte de cabelo”. Diz-se agora em inglês nas televisões: foi feito um “haircut” à dívida grega.
     O problema é que os credores, em vez de um “corte de cabelo”, sentem a coisa mais como um “escalpe”. Percebem que, agora, o euro é um filme de caubóis e esperam que ele não vire um western-spaghetti. É que, ao contrário da Grécia, a Itália é demasiado grande para cair.

     2. A Polícia Moral do Iraque disse em comunicado que está a seguir “o fenómeno emo”, a que chama também “adoração do diabo”, e disse que os adolescentes que “vestem estranho” e “usam anéis nos narizes e línguas” estão a “afectar a sociedade e a transformarem-se num perigo”.
     Em sequência, grupos de extremistas religiosos apanharam dezenas de adolescentes com aspecto “emo” ou “estranho” e apedrejaram-nos até à morte. Noventa a cem adolescentes foram lapidados.
 Supostamente, um adolescente assassinado pela polícia religiosa por ter um corte de cabelo "emo" (© Al Tahreer News)
     Não admira que, a seguir, se tenha ouvido dizer nas televisões a um jovem iraquiano desorientado e em pânico: “Tenho cabelo comprido mas isso não significa que sou um emo. Não sou menos homem por usar cabelo comprido.”
     Para que se saiba: depois da criminosa guerra de Bush e Blair, o Iraque agora tem uma Polícia Moral. Que verifica “cortes de cabelo”.

Escurecer

Fotografia de Belen Lopez


fecha a janela
e cerra as cortinas
apaga a luz
e dorme
(a escuridão engana os olhos
abertos)
Pedro Du Bois

quarta-feira, 14 de março de 2012

A fundura do buraco de Santa Comba Dão (#2)

O sufoco financeiro da câmara de Santa Comba Dão já foi tratado aqui neste blogue mas recorda-se:





Dívida total 
€19 820 769.77
(212% das 
receitas totais)





Dívida com 
atraso no 
pagamento 
superior 
a 90 dias 
€6 148 784.47
(66% das 
receitas totais)






     O autarca de Santa Comba publica hoje um artigo de opinião no Diário de Viseu:
Clicar na imagem para a ampliar
     Como se pode ler, o autarca assume a "grave situação financeira que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão atravessa" e malha no ministro Relvas que, nos tempos que correm, é uma espécie de saco de boxe sempre a levar porrada, sempre a rir-se.
     Já os argumentos do autarca santacombadense não se percebem: como é que uma lei, mesmo que seja a Lei das Finanças Locais, pode levar uma determinada câmara ao buraco?
     Lido o artigo há que fazer a seguinte pergunta a João Lourenço: todas as câmaras do país com "densidade populacional" e "território" idênticos aos de Santa Comba Dão estão falidas como a sua?
     Se sim, João Lourenço tem razão e é preciso mudar a lei.
     Se não, o autarca da "marca Salazar" não tem razão e os apuros financeiros do município são da sua responsabilidade e não das costas largas da Lei das Finanças Locais.