Mordomos*
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Junho de 2015
1. Em 2010, o supremo tribunal americano, no caso "Citizens United versus Federal Election Commision", decidiu que qualquer empresa, sindicato ou associação pode contribuir sem limites para as campanhas políticas, com o fundamento absurdo de que as entidades colectivas devem ter os mesmos direitos que os indivíduos. Onde havia "um-homem-um-voto" passa a haver uma espécie de "um-dólar-um-voto".
Como explica Guy Standing, em "O Precariado A Nova Classe Perigosa", este "acontecimento retrógado" vai chegar a "todo o lado" já que as decisões do supremo americano tornam-se "precedentes globais".
2. Durão Barroso e José Sócrates não precisaram de esperar por este "precedente global" americano para misturarem política com negócios. Eles fizeram o papel de "mordomos" políticos de Ricardo Salgado e a coisa correu mal. Levou-nos à bancarrota de 2011 e tudo quanto é grande empresa, seja ela rentista ou produtiva, foi sendo adquirida por capital estrangeiro.
No trambolhão foram-se os dois mastodontes do regime — a EDP e a PT. Décadas de acumulação patrimonial, proveniente de preços protegidos, estão agora ao serviço de estratégias não portuguesas.
Lembro um negócio de energia e outro de media que ajudaram a esta descida ao inferno:
— a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;
— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.
1. Em 2010, o supremo tribunal americano, no caso "Citizens United versus Federal Election Commision", decidiu que qualquer empresa, sindicato ou associação pode contribuir sem limites para as campanhas políticas, com o fundamento absurdo de que as entidades colectivas devem ter os mesmos direitos que os indivíduos. Onde havia "um-homem-um-voto" passa a haver uma espécie de "um-dólar-um-voto".
Como explica Guy Standing, em "O Precariado A Nova Classe Perigosa", este "acontecimento retrógado" vai chegar a "todo o lado" já que as decisões do supremo americano tornam-se "precedentes globais".
No trambolhão foram-se os dois mastodontes do regime — a EDP e a PT. Décadas de acumulação patrimonial, proveniente de preços protegidos, estão agora ao serviço de estratégias não portuguesas.
Lembro um negócio de energia e outro de media que ajudaram a esta descida ao inferno:
— a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;
— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.


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