Ronda, turistas e F for Fake*

* Hoje no Jornal do Centro aqui

A deslado da Praça de Touros de Ronda, há um monumento de homenagem a Orson Welles, com um busto do realizador e uma placa com os seguintes dizeres: 

Ronda a Orson Welles

“Un hombre no es de donde nace sino donde elige morir”, y Ronda fue la elegida. Quiso ser un rondeño más para siempre. Sus cenizas fueron depositadas aquí, em el recinto de San Cayetano para la eternidad. 

Ronda — 2015


Não há muito tempo, pus-me a pensar qual dos filmes do mestre norte-americano melhor descreveria estes tempos prodigiosos que estamos a viver. Cidadão Kane (Citizen Kane,1941), a obra-prima que “inventou” a profundidade de campo?, A Sede do Mal  (Touch of Evil, 1958) que “inventou” o suspense com o seu plano-sequência inicial com uma bomba-relógio a tiquetacar?, a trilogia Macbeth (1948), Othello (1951) e Falstaff (1965)?

Todos bons filmes, uns resistiram melhor ao tempo (que, como se sabe, é um patife), outros menos. Mas, ao observar toda aquela ronda de turistas, mai’los seus cicerones humanos e electrónicos, todo aquele stress à procura do ângulo mais instagramável da Puente Nuevo e do desfiladeiro que divide em duas aquela cidade andaluza, tudo aquilo tão anos-vinte-do-século-XXI fez-me remeter para uma obra-prima de Orson Welles que devia ser mais lembrada: F for Fake (1973). Este filme é uma matriosca de ludíbrios, mergulhamos nele exactamente da mesma maneira que agora ouvimos certas “notícias” feitas por jornalistas enviesados ou scrollamos nas redes sociais posts fechados em bolhas e em teorias da conspiração.

Em F for Fake, Welles é o narrador, o explicador, o prestigitador. No início, de frente para a câmara, anuncia-se como um charlatão enquanto tira moedas de trás da orelha de um puto e nos atira com uma mentira descarada: “Durante a próxima hora tudo o que vai ouvir de nós é verdade baseada em factos sólidos”. Mergulhamos de cabeça num polígrafo avariado onde nos é apresentado Elmyr de Hory, um falsificador de arte que pintava “Picassos” ainda melhores do que os do mestre nascido em Málaga (por sinal, bem perto de Ronda).

Nos seus longevos vinte e quatro anos, o Olho de Gato nunca fez um “estraga-fins” (um spoiler, como se diz em estrangeiro) mas hoje vai executar, sem remorso nenhum, um “estraga-princípios”: procuremos o genérico inicial e os grandes planos do abanar de ancas de Oja Kodar (mulher de Orson Welles), entremeados com imagens de basbaques mesmizados perante aquela sensualidade insolente, reparemos naquela montagem nervosa, nas dezenas e dezenas de planos, naquele swing visual, ancas, olhos arregalados, turistas, flashes, montras, passos, cortes súbitos, acelerações de automóveis, meneios, repetições. É todo um gag visual, um TikTok feito meio século antes de os chineses inventarem o tiquetocanço: estímulo, corte nervoso, captura de olhar, erotismo fragmentário. Tudo real, tudo fake. F for Fake é fácil de achar online. Mas não no TikTok.


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