quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bush, Parte II *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 28 de Janeiro de 2005



1. O problema da despenalização do aborto já devia estar resolvido. A situação é uma vergonha para Portugal mas, pior, muito pior do que isso, é uma violência contra as mulheres já que são elas que ficam muitas vezes sozinhas, perante dilemas de consciência esmagadores. Para além do sofrimento físico e moral duma interrupção da gravidez, uma mulher ainda corre o risco de ser perseguida pela justiça.

Não há muito tempo, foi a tribunal uma jovem porque apareceu nas urgências do Hospital de Setúbal com uma hemorragia e um enfermeiro inqualificável decidiu apresentar queixa contra ela.

Em Portugal, a seguir a uma coisa má, o aborto, pode ocorrer outra coisa igualmente má, a ameaça penal a quem vive esse drama.
Este problema deve ser resolvido, de vez, na próxima legislatura.

2. Francisco Louçã acha que, por ter dado eficácia a um espermatozóide, tem vantagens comparativas no debate político sobre a despenalização do aborto. Ele tem uma filha. Paulo Portas não. Louçã, portanto, sabe. Paulo Portas, portanto, deve calar-se.

3. Esta intolerância de Louçã não surpreende. O núcleo dirigente do Bloco de Esquerda é uma mistura de estalinistas, trotskistas, de admiradores do terrorismo basco e de ex-admiradores da Albânia de Enver Hoxha. Esta mistura adquire alguma cor com a inclusão de gente da cultura e alguns alternativos urbanos. Para completar o ramo, é preciso referir os muitos tardo-comunistas que correram para o Bloco, embora só uns largos anos depois da queda do muro de Berlim.

Para mim, é um mistério insondável o facto do Bloco de Esquerda ter sempre uma imprensa reverente e não ser escrutinado como são escrutinados os outros partidos parlamentares.

No Bloco são sempre os mesmos. O nosso distrito não foge à regra: a lista do Bloco de Esquerda por Viseu, ideologicamente, parece duma era anterior às muralhas da Rua Formosa.

4. Se o eleitorado não der a maioria absoluta ao PS, o Bloco de Esquerda prepara-se para infernizar a vida de um eventual Governo de José Sócrates e entregar alegremente o poder, em 2007 ou 2008, a Marques Mendes e Paulo Portas.

5. George W. Bush tomou posse para o segundo mandato. Acaba de estrear, portanto, a sequela: “Bush, Parte II”. Repetentes neste filme: Dick Cheney, Condoleezza Rice, Karl Rove, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz.

Em “Bush, Parte I” o mundo assistiu a uma guerra errada que transformou o Iraque num santuário do terrorismo internacional, terrorismo que vai pôr em risco em primeiro lugar a Europa, como se viu em Madrid, em Março passado.

Agora, em “Bush, Parte II”, começa-se a ouvir o nome dum país. Para já, o nome é muitas vezes repetido, mas em surdina. A revista New Yorker, de 17 de Janeiro, noticiava movimentos militares suspeitos. O número de 24 de Janeiro da mesma revista tem uma análise de Seymour H. Hersh, intitulada “As guerras que vêm aí – O que o Pentágono pode agora fazer em segredo” que deve ser lida com atenção. Será que eles irão ao Irão?


6. Das muitas dezenas de fotografias que vi da cerimónia da tomada de posse de Bush, houve uma do Los Angeles Times que me impressionou especialmente: nela vê-se o marine Casey Owens, em farda de cerimónia impecável, casaco azul escuro e medalha ao peito, de barrete e luvas brancas, a fazer a continência a Bush. Casey Owens está sentado, numa cadeira de rodas. Ele não tem pernas. As suas pernas ficaram no Iraque. Ao lado e em pé, a sua mãe chora.

As pernas de Casey Owens foram-lhe arrancadas pelas mentiras de destruição maciça do senhor Bush.

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