sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#103)



Saudades das disquetes? 
Problemas com os telecomandos?
70cm x 45cm x 65cm — €720 + portes
Encomendas à Neulant van Exel

Masahiko Ueji e João Apolinário

Ontem, no sempre surpreendente Lugar do Capitão



Rádios locais *


* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


     Fez ontem um ano, foi em 29 de Novembro de 2011 que foi silenciada a rádio Noar. Uma rádio que, convém lembrar, dava lucro. No 106.4 está agora uma emissão ligada à Renascença.
     Como foi possível atribuir um alvará de rádio local a uma rádio nacional?!
     Recordemos o que aconteceu: as rádios locais, desde o início da sua existência em 1989, estavam obrigadas por lei a terem programação própria. Essa obrigatoriedade mantinha afastados os tubarões já que tornava as cadeias de rádios impossíveis. Durante 21 anos os tubarões pressionaram em vão os governos para que a lei fosse mudada nesse ponto. 
     Quem acabou por ceder aos seus apetites foi uma criatura chamada Jorge Lacão, em 2010, no segundo governo Sócrates.
     Um ministro inadjectivável, mais a “distracção” dos deputados no parlamento, mais a falta de comparência da gente de dinheiro da cidade, tudo somado levou à morte da rádio de notícias de Viseu – uma rádio isenta, que ouvia e dava voz a todos, um cimento da nossa comunidade.
     Num artigo recente no Diário de Viseu, José Junqueiro — o provável próximo candidato do PS à presidência da câmara de Viseu - lamentou o panorama radiofónico da cidade e logo a seguir, numa espécie de compensação psicológica, assinalou a boa forma das rádios de Tondela, Sátão, Mangualde, Vila Nova de Paiva, Vouzela, S. Pedro do Sul e Lamego.
     Ora, isso é bom. Mas o problema é que, quanto melhor estiverem essas rádios, mais em risco estão. Nada na lei impede que elas, que tão bom serviço prestam aos seus concelhos, sejam compradas.
     Apelo aqui aos nove deputados eleitos pelos viseenses: é preciso evitar este perigo, há que propor uma alteração da lei da rádio que imponha de novo pelo menos oito horas de programação local a todos os alvarás locais. Ao fim e ao cabo, há que reverter a bacorada feita pelo Lacão. Ontem já era tarde.

Jim — Teatro Viriato hoje e amanhã

Well, I woke up this morning and I got myself a beer
Well, I woke up this morning and I got myself a beer
The future’s uncertain and the end is always near



Let it roll, baby roll
Let it roll, baby roll
Let it roll, baby roll
Let it roll, all night long


Seduzido pela força da poética de Jim Morrisson, e pelo disco An American Prayer, o coreógrafo Paulo Ribeiro deixou-se conduzir pelas palavras e pela espiritualidade do músico para reflectir sobre o lugar de cada indivíduo na relação com o mundo e sobre o lugar da dança.

Detalhes do espectáculo aqui 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guarda a manhã



Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
Daniel Faria



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Caríssimo Diário de Viseu, um pouco mais de rigor, por favor!

Diário de Viseu, hoje





Como é evidente, Fernando Cálix, um excelente militante socialista, não é nem vai ser "candidato do PS à câmara de Viseu".

Mais: Fernando Cálix não é ainda tão pouco "candidato a candidato do PS à câmara de Viseu" já que não foram ainda abertas eleições primárias no partido, nem se sabe se vão ser.

Portanto, como o jornal deve ser rigoroso na informação que dá aos seus leitores, para a próxima façam o favor de escrever:
"Fernando Cálix, candidato a candidato a candidato do PS à câmara de Viseu."

Primeiro amor

Fotografia de Federica Palmarin

 

 



Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita
Adília Lopes


terça-feira, 27 de novembro de 2012

AG Galeria de Arte — 3 inaugurações 3

O senhor Olson*

* Publicado no Jornal do Centro em 28 de Novembro de 2008


     1. Em 2001, a minha candidatura à câmara de Viseu não conseguiu arranjar dinheiro para contratar um “escritor fantasma”. Tive que ser eu a escrever os meus discursos.
     [Glup! Lembrei-me agora do que aconteceu à líder do PSD... Atenção! Este ponto do Olho de Gato é só uma pequena ironia…]

     2. Em Setembro de 2001, fiz uma intervenção numa iniciativa da JS. Eis um pequeníssimo excerto do que disse então aos jovens socialistas:
Mancur Olson
     “Vou falar-vos duma teoria de um senhor chamado Olson. Ele afirma que as grandes organizações sociais, como os partidos políticos e os sindicatos, têm baixas taxas de filiação porque os seus serviços beneficiam igualmente todos, independentemente da participação de cada um.
     A participação de cada um nas decisões sobre a produção destes serviços é muito baixa, muito diluída, e o custo dessa participação é elevado.”
     Depois o meu discurso deu umas voltas até chegar ao algoritmo: esperança = desejo + tempo.

     3. A Federação de Viseu da JS apresentou, no último congresso distrital do PS, uma moção onde descreve as razões do desencanto dos cidadãos com os políticos e apresenta boas propostas para sintonizar a política com a sociedade. Destaco três: (i) não à mistura entre a política e os negócios; (ii) não à acumulação de candidaturas em eleições locais e nacionais; (iii) primárias no partido para escolha de candidatos às câmaras e ao parlamento.
     As ideias da JS enfureceram os carreiristas do partido. Não faz mal. São boas ideias. Hão-de fazer o seu caminho.
     A JS-Viseu e a sua líder distrital, Patrícia Monteiro, estão a pagar todos os “custos de participação” na política e não querem saber da teoria do senhor Olson para nada. Haja esperança…

Publicidade descarada

Sábado no Lugar do Capitão

"And Now For Something Completely Different" (#102)




Cheetahs on the Edge--Director's Cut from Gregory Wilson on Vimeo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sylvia Plath lê "A Birthday Present"

Imagem daqui
Sylvia Plath (27.10.1932 — 11.2.1963), quatro meses antes de pôr termo à vida, gravou-se a si própria lendo


A Birthday Present
What is this, behind this veil, is it ugly, is it beautiful?
It is shimmering, has it breasts, has it edges?

I am sure it is unique, I am sure it is what I want.
When I am quiet at my cooking I feel it looking, I feel it thinking

‘Is this the one I am too appear for,
Is this the elect one, the one with black eye-pits and a scar?

Measuring the flour, cutting off the surplus,
Adhering to rules, to rules, to rules.

Is this the one for the annunciation?
My god, what a laugh!’

But it shimmers, it does not stop, and I think it wants me.
I would not mind if it were bones, or a pearl button.

I do not want much of a present, anyway, this year.
After all I am alive only by accident.

I would have killed myself gladly that time any possible way.
Now there are these veils, shimmering like curtains,

The diaphanous satins of a January window
White as babies’ bedding and glittering with dead breath. O ivory!

It must be a tusk there, a ghost column.
Can you not see I do not mind what it is.

Can you not give it to me?
Do not be ashamed–I do not mind if it is small.

Do not be mean, I am ready for enormity.
Let us sit down to it, one on either side, admiring the gleam,

The glaze, the mirrory variety of it.
Let us eat our last supper at it, like a hospital plate.

I know why you will not give it to me,
You are terrified

The world will go up in a shriek, and your head with it,
Bossed, brazen, an antique shield,

A marvel to your great-grandchildren.
Do not be afraid, it is not so.

I will only take it and go aside quietly.
You will not even hear me opening it, no paper crackle,

No falling ribbons, no scream at the end.
I do not think you credit me with this discretion.

If you only knew how the veils were killing my days.
To you they are only transparencies, clear air.

But my god, the clouds are like cotton.
Armies of them. They are carbon monoxide.

Sweetly, sweetly I breathe in,
Filling my veins with invisibles, with the million

Probable motes that tick the years off my life.
You are silver-suited for the occasion. O adding machine—–

Is it impossible for you to let something go and have it go whole?
Must you stamp each piece purple,

Must you kill what you can?
There is one thing I want today, and only you can give it to me.

It stands at my window, big as the sky.
It breathes from my sheets, the cold dead center

Where split lives congeal and stiffen to history.
Let it not come by the mail, finger by finger.

Let it not come by word of mouth, I should be sixty
By the time the whole of it was delivered, and to numb to use it.

Only let down the veil, the veil, the veil.
If it were death

I would admire the deep gravity of it, its timeless eyes.
I would know you were serious.

There would be a nobility then, there would be a birthday.
And the knife not carve, but enter

Pure and clean as the cry of a baby,
And the universe slide from my side.



domingo, 25 de novembro de 2012

Mar de tus ojos

Fotografia de Henri Cartier-Bresson
 
Puerto de amor tus ojos,
aguas claras.

(Brisa que me querías
sobre la mar salada.
Aguas sin corazón
que me llevabais...)

Hacia el mar de tus ojos
navegará mi ansia.
José Luis Hidalgo



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Resgates*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     Em Maio de 2011, o nosso resgate foi formalizado num memorando de entendimento que passou a ser o programa dos nossos governos e fez do país um protectorado na mão dos credores.

     A seguir, sem surpresa, o resgate à república portuguesa virou fractal, chegando em dominó aos vários níveis de poder.
     Em Janeiro deste ano, a Madeira foi resgatada. Em troca dos 1,5 mil milhões de euros de empréstimo, Vítor Gaspar impôs subidas de impostos e um ramalhete de medidas de austeridade ao dinossauro madeirense.
     Em Agosto foi a vez dos Açores. Com menos espalhafato como aconselha a maneira de ser açoriana, Carlos César teve que fazer concessões políticas em troca de um empréstimo de emergência de 135 milhões de euros. Acabou, por exemplo, a vergonhosa eximição dos funcionários açorianos ao corte salarial feito ao funcionalismo público por Sócrates no PEC3.
     Depois do poder regional, este dominó chegou agora ao poder local. Começaram a ser assinados os resgates às câmaras. Em politiquês a operação chama-se “Programa de Apoio à Economia Local (PAEL)” e tem dois níveis de austeridade. As mais falidas vão ser obrigadas a praticarem impostos e taxas máximas, quer queiram quer não queiram.

João Lourenço, pres. da câmara de Santa Comba Dão* 
No distrito de Viseu, já assinaram Armamar, 
Lamego, Nelas, Oliveira de Frades, 
S. Pedro do Sul e 
Vila Nova de Paiva.  

Outras se seguirão 
e entre elas a 
mais desgraçada de todas — Santa Comba Dão.

     Falta já menos de um ano para as próximas autárquicas. Nas câmaras resgatadas os eleitos não vão ter margem de manobra, o PAEL vai estar para eles como o memorando de entendimento está para Pedro Passos Coelho.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma pergunta enquanto PPC negoceia o orçamento da "Europa"

Se, no passado, mais fundos comunitários produziram mais corrupção, será lícito expectar-se que, no futuro, menos fundos comunitários venham a produzir menos corrupção?

A manta

* Texto publicado no Jornal do Centro em 14 de Novembro de 2008

     1. Contaram-me esta história muito antiga:

«Pai, prepare-se, amanhã vamos cumprir a tradição.»
«Está bem, meu filho, há muito tempo que estou preparado.»
Era assim naquela terra. Gestos antigos repetiam-se com o ir e vir das estações. A vida dos homens fazia-se no trabalho duro e na colheita incerta, tantas vezes desfeita pela geada serôdia ou pela saraiva maldita mandada pelo mafarrico.
Naquela terra passava-se fome. Naquela terra passava-se frio. As crianças não iam à escola, iam com os pais para o olival, de mãos roxas arreganhadas, apanhar a azeitona varejada ou iam com as ovelhas ao pasto orvalhado dos lameiros.
Estava-se em Novembro. Os dias mingavam cada vez mais. As castanhas desprendiam-se dos ouriços. O vinho já não tinha fervências no pipo.
Quando o filho se levantou, o pai já estava pronto.
Começaram a andar. O pai seguia firme. Uma força interior empurrava-o para cima, naquele caminho íngreme de pedras soltas.
Naquela terra quando os velhos ficavam velhos era tradição o filho levá-los para o cimo do monte e deixá-los lá. Com os achaques dos anos, os velhos já não eram úteis para os trabalhos dos campos.
Chegados ao cimo, o velho pai, cansado, encostou-se a uma fraga.
«Pai, fica aqui a manta mais quentinha lá de casa para se agasalhar.»
«Corta a manta em duas metades, meu filho.»
«Para quê, meu pai?»
«Deixas cá metade da manta. A outra metade vai servir para quando o teu filho te trouxer a ti…»

2. “Do ponto de vista do sistema, [o êxodo dos professores mais velhos] não é dramático. 
Hoje, o País tem milhares de jovens diplomados a querer entrar no sistema de ensino." - disse Maria de Lurdes Rodrigues à Visão, em 16 de Outubro.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Deepika Kurup, 14 anos, é com gente como esta que o mundo vai para a frente

Um dispositivo que usa energia solar e  transforma água contaminada em água potável.

Quase de nada místico

Fotografia de Olivier Valsecchi


Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.
Ana Luísa Amaral




terça-feira, 20 de novembro de 2012

Rua Direita — Viseu


Andas diciendo por ahí


Fotografia de Ben Rayner



Andas diciendo por ahí
que exijo
cierto nivel intelectual
a las mujeres
para salir conmigo.
Por lo visto
has olvidado
que hubo un tiempo
en el que hubiera dado
todo por ti.
Lo cual demuestra
claramente que mientes.
Eduardo Errasti

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Livro de ponto, de Nuno Tudela

Sessão do Cine Clube de Viseu 
Terça-feira, 20 de Novembro,  IPJ-Viseu, 21H45M
(As sessões do CCV são abertas também a não-sócios)


De Nuno Tudela, Portugal, 2011, 76’

«O que seria se não tivesse abandonado a cidade onde cresci? Regresso a Viseu com a ideia de fazer um filme documentário do meu reencontro com os antigos colegas de liceu que não voltei a ver, desde que deixei a cidade, há vinte anos. Pergunto-me onde estão e o que fazem essas pessoas, que sonhos foram cumpridos e quais ficaram por realizar.»

O realizador vai estar na sessão.

domingo, 18 de novembro de 2012

O prestigitador organiza um espectáculo

Fotografia de Hans Neleman



Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida

há um sol esplendente nas coisas
Mário Cesariny de Vasconcelos





sábado, 17 de novembro de 2012

PAEL — uma bóia de salvação para câmaras afogadas em dívida

     O Programa de Apoio à Economia Local teve ontem as primeiras assinaturas, na presença e impulso do doutor Miguel Relvas.
     O programa I do PAEL é para as autarquias em ruptura financeira e obriga-as a subir impostos e taxas para os valores máximos (isto é, as câmaras ficam como o país está em relação à troika).
     Já no programa II, destinado a câmaras não na situação aguda das anteriores mas mesmo assim com dívidas acima de 90 dias, há menos exigência mas elas também são obrigadas a subir as taxas municipais (ficam assim como a Espanha: ainda não é mandada por nenhuma troika mas já não é 100% autónoma).
     Sirva o que ficou explicado nos parágrafos anteriores para vacina nas próximas eleições autárquicas: eleitorado que eleja doidos com a boca cheia de "obra" e outras despesices, será eleitorado condenado ao IMI máximo, IRS máximo e taxas máximas. E será muito bem feito.
     Segue-se a lista dos municípios do distrito de Viseu que formalizaram ontem a sua adesão ao PAEL. 

Faltam ainda 
outros, já que  
esta lista de seis 
não incorpora 
os em maiores dificuldades (confira-se aqui), 
a começar pela 
mais falida das
 24 câmaras 
do distrito, 


Armamar — €1 072 800,00
Lamego — €12 304 304,00
Nelas — €2 069 148,66
Oliveira de Frades — €511 110,22
S. Pedro do Sul  — €3 454 763,05
Vila Nova de Paiva — €592 066,00

Notas: não se conseguiu, com a informação disponível, perceber quais destas autarquias assinaram o programa I ou o programa II.

Projector de slides no tempo do Instagram

São as ideias que fazem rolar o mundo


Mais detalhes aqui

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Boys don't cry

Esta filha-da-putice é um camartelo a desfazer o edifício moral do passismo.

Daqui



Hoje no Teatro Viriato uma trip tripla


Seis casos

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     
(i) Em 2003, a TMN, a Optimus e a Vodafone foram autorizadas pelo governo de Durão Barroso a comprar a quarta rede GSM aprovada para Portugal, rede que tinha atribuído o prefixo 95.


(ii) Em 2006, 
a Autoridade da Concorrência, dirigida por Abel Mateus, proibiu a aquisição das Auto-Estradas 
do Atlântico 
pela Brisa, 
mas o ministro Manuel Pinho decidiu autorizar o negócio.

Isto é, 
a partir de então, 
a Autoridade da Concorrência passou a ser um verbo de encher, basta lembrar o à-vontade do cartel das gasolineiras.

     
(iii) Em 2008, o governo de Sócrates decidiu ajustar directamente a operação Magalhães à JP Sá Couto, numa clássica operação de “escolha dos vencedores”.

   
(iv) Em 2011, a versão de 3 de Maio do Memorando de Entendimento com a Troika reservava o leilão das novas frequências de banda larga sem fios (4G) só para novos operadores, mas a versão de 11 de Maio, a que veio a ser assinada pelas partes, já deixou que a TMN, Optimus e Vodafone fossem a jogo (de certeza isso não teve nada a ver com a posição que o sr. António Borges tinha então no quartel-general do FMI).
     
(v) Ainda em 2011, mas em Outubro, o Banco de Portugal matou, quase à nascença, uma “guerra” de juros para captação de depósitos que estava então a acontecer, ameaçando os bancos com penalizações.


(vi) Em 2012, no primeiro de Maio, o Pingo Doce decidiu fazer um desconto de 50% aos seus clientes.

À cautela, 
para que um “desaforo” desses não se repita
as coimas foram subidas de 30 mil para dois milhões e meio de euros.

     
Os cinco primeiros casos mostram manobras de bastidores contra os consumidores e uma cultura do poder opaca e hostil à concorrência. 
     
Já no último, o do Pingo Doce, a exibição de força é feita às claras para servir de aviso para o futuro — é colocada uma cabeça de cavalo ensanguentada na cama do sr. Alexandre Soares dos Santos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Outono 2012

Rossio - Viseu, 14 de Novembro


“Matar” o pai *

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro, em 7 de Novembro de 2008

Num evento 
recente do 
partido [socialista], António Borges 
fez o seguinte aviso à navegação: 
«Na política, 
como na vida, 
é feio “matar” o pai.»

 Esta referência directa a Sigmund Freud é fácil de perceber. 

O congresso distrital do PS, que vai 
decorrer depois de amanhã em Mangualde, representa a primeira etapa do pós-junqueirismo. 

     Perfilam-se, na grelha de partida para a sucessão, várias cópias de José Junqueiro que são muito piores que ele. Só sabem acartar-lhe a pasta. Não têm pensamento próprio. Fazem recados enquanto recheiam a agenda do telemóvel. Esperam o dia das partilhas e do testamento.
     Avisou-os António Borges: «É feio “matar” o pai.»
     É, de facto, feiíssimo.

Cámbiame tus certezas por mis dudas

Fotografia de Stéphane Chabrier
 
Cámbiame tus certezas por mis dudas,
tus sólidas verdades
por mis incertidumbres gaseosas.
Tu razón absoluta
por mis contradicciones relativas,
tus frases lapidarias
por cualquier verso suelto que me sobre.

Tus ciegas convicciones
por una gota de mi escepticismo,
tu seguro de vida
por alguna sorpresa en mi futuro,
tu rígida coraza
por el amor a pecho descubierto,
tu aparente alegría
por mis noches reales de tristeza,
tu inflexible moral
quizá por el final de mis principios,
tu existencia perfecta
por lo que no aprendí de mis errores.

Pero ya me conoces
así que no lo pienses demasiado;
yo no tengo palabra
y tal vez me arrepienta del negocio.
Ana Montojo Micó


terça-feira, 13 de novembro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#101)


Tabu — hoje no Cine Clube de Viseu*

* As sessões do CCV são às terças feiras, no IPJ-Viseu, às 21H45, e não são exclusivas para os sócios.

TABU
De Miguel Gomes, Portugal, 2012, 118’

Uma idosa temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras. 

"Filme sensação do Festival de Berlim", 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Até às 18H00, aconselha-se vivamente isto...



... e desaconselha-se vivamente isto aqui (não clique...)

Cenografias

A sequência de imagens que se segue pode e deve ser usada para se pensar a cidade não em proclamações abstractas mas num caso em concreto.








Um aleijão visual — e não só visual deva-se dizer — foi intervencionado pela câmara de Viseu numa lógica minimal: aplanação e invisibilização do lixo, borrifação a branco das paredes.


O resultado visual, de facto, tornou impecável uma eventual tomada de vista por câmara da TVI em transmissão directa da Feira de S. Mateus.

A cenografia da cidade foi salvaguardada.
 
 Mas, debaixo daquela alvura, nada foi feito para resolver o aleijão.

Que dizer deste gato escondido com o rabo escondido?

A câmara terá feito bem ou terá feito mal, neste caso, ao se ter só preocupado com o "parecer" e não com o "ser"?

Nota: A etiqueta "o gato fotografadeiro" refere-se à última fotografia tirada ontem, dia de S. Martinho. As outras, sem indicação de data.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ich Bin Ein Berliner, liebe Angela Merkel


Parque Jurássico


O doutor Relvas quer arranjar 100 lugares a 4000 euros por mês para presidentes de câmara que, por força da lei de limitação de mandatos, vão ficar desocupados no próximo outono.

Parece um bom projecto que vai ajudar as depauperadas contas públicas nacionais.



Há que regressar aos grandes investimentos públicos para alavancar o nosso "crescimento!, crescimento!, crescimento!", deixando feliz não só o doutor Relvas mas também António José Seguro.

Há que pedir a colaboração sempre disponível e competente do professor Galopim de Carvalho, fazer um Parque em Carenque desenhado por Souto Moura e Siza Vieira, fazer uma agressiva divulgação mundial, e cobrar bilhetes à entrada. 


Na última página do Expresso de ontem


sábado, 10 de novembro de 2012

Sindicalismos

Este vídeo é "de chorar a rir", diz o Panurgo.

Entre o mundo anos setenta do século passado todo "uma-gaivota-voava-voava" da CGTP, 
e o mundo "don't fuck my job" dos estivadores não há sintonia nem empatia possível.

 Esse "conflito estético", que deixa a speaker da CGTP pendurada, é, de facto, hilário.



Adenda em 15.12.2012: para perceber melhor esta luta nos portos, ler o artigo de Nuno Ramos de Almeida no I.: Um dia com os 380 irredutíveis estivadores.

Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women


Fotografia de Lele Saveri


Perhaps I was born kneeling,
born coughing on the long winter,
born expecting the kiss of mercy,
born with a passion for quickness
and yet, as things progressed,
I learned early about the stockade
or taken out, the fume of the enema.
By two or three I learned not to kneel,
not to expect, to plant my fires underground
where none but the dolls, perfect and awful,
could be whispered to or laid down to die.

Now that I have written many words,
and let out so many loves, for so many,
and been altogether what I always was—
a woman of excess, of zeal and greed,
I find the effort useless.
Do I not look in the mirror,
these days,
and see a drunken rat avert her eyes?
Do I not feel the hunger so acutely
that I would rather die than look
into its face?
I kneel once more,
in case mercy should come
in the nick of time.
Anne Sexton


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Jornalismo*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     A década do pântano adivinhada por Guterres quando se foi embora foi uma desgraça para o país e foi-o também para o jornalismo e os jornalistas. Proletarizados e precarizados, eles estão a perder a batalha com o mundo das agências de comunicação e de relações públicas, mundo que consegue plantar cada vez mais o seu produto nos media.
     Isso tem sido fatal. O público percebeu este gato por lebre, perdeu a confiança e fugiu, com a consequente queda de receitas, definhamento e desemprego.
     Ora, como se sabe, a natureza tem horror ao vazio e todo o vazio tende a ser preenchido com coisas novas. A vida é impossível sem esperança e a esperança cria oportunidades. Assim como o país está a precisar de partidos novos que refresquem a mesmice da terceira república, também o nosso panorama mediático está a precisar de projectos novos capazes de assumirem o papel de “cão-de-guarda”, capazes de contar o que os poderes não querem que se saiba, capazes de usar as fontes e não serem usados por elas.
     Eis dois exemplos recentes de jornalismo europeu que cortou com a principal fonte de descrédito da comunicação social — a imbricação mafiosa entre os proprietários dos media e o poder político:
     (i) em 2008, o ex-director do “Le Monde”, Edwy Plenel, liderou a fundação do site “Mediapart”, que em três anos se converteu num modelo de independência e credibilidade, revelando casos de corrupção em França, casos que são censurados nos media convencionais. Quase sessenta mil pessoas pagam 90 euros por ano para terem acesso ao trabalho do “Mediapart” que, em 2011, já deu um lucro de meio milhão de euros;
     (ii) esta semana saiu para as bancas gregas o “Jornal dos Jornalistas”; cem jornalistas entraram com mil euros cada um para uma cooperativa e contam sobreviver se conseguirem vender entre 15 a 20 mil jornais por dia.

"And Now For Something Completely Different" (#100)


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Nove freguesias a menos no concelho de Viseu

A Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa do Território propôs à Assembleia da República a aprovação das agregações de freguesias propostas pela assembleia municipal de Viseu.

  Este documento propõe para o concelho de Viseu menos 9 freguesias, passando de 34 para 25:

   Sobre a reorganização do poder local, o Memorando de Entendimento, assinado com a Troika em Maio de 2011, prescreve o seguinte:

Existem actualmente 308 municípios e 4.259 freguesias. Até Julho de 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades. 
O Governo implementará estes planos baseado num acordo com a CE e o FMI. Estas alterações, que deverão entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral local, reforçarão a prestação do serviço público, aumentarão a eficiência e reduzirão custos.

     Ora, esta "reforma Relvas", agora em tramitação no parlamento, que se limita a mexer nas freguesias, não reduz custos e não diminui nem um bocadinho o boyismo municipal. 
     Há um justificadíssimo descontentamento e desgosto nas freguesias agora agregadas, compreendo e solidarizo-me com os eleitos das freguesias afectadas, mas o facto é que, objectivamente, Miguel Relvas tratou de usar o velho truque descrito por Lampedusa em O Leopardo: "tudo deve mudar para que tudo fique como está."
     Apesar da retórica partidária que vai ferver cabonde nos media em geral e nos jornais locais em particular, o facto é que este corte nas freguesias deixa aliviados todos os partidos sem excepção, partidos que vivem deste status-quo: 50 mil lugares eleitos, mais assessores, mais empregos, mais prebendas, mais empertigamentos vários. 
     Nenhum partido quer aqui diminuir a despesa pública e o aumento do IMI lá há-de tapar os buracos.
     Recorde-se que nem o anacrónico sistema eleitoral e de poder nas câmaras foi mexido: vamos continuar com assembleias municipais sem o poder de aprovar/rejeitar a composição do executivo e vamos continuar com governos municipais a integrarem a oposição e a situação, numa caldeirada absurda.
     No cada vez mais provável segundo resgate ao país, ninguém se admire que os credores obriguem a diminuir a sério o despesismo municipal, através da agregação compulsiva de concelhos. 
     Então, infelizmente, as coisas vão ser feitas à bruta.