O vício

No dia marcado para a execução, ela cumpriu tudo com uma calma que desconcertou os guardas: a refeição que pediu, a conversa com o padre, o meio maço de Marlboro fumado sem pressa.

Continuou a ler, concentrada e alheia a tudo, Madame Bovary. Ver-se-ia na pele da personagem criada por Flaubert que o autor, nos seus últimos anos, odiava e insultava porque Emma lhe ia sobreviver?

Quando lhe disseram que era a hora, dobrou o canto da página com o cuidado de quem vai sair para compras, pousou o livro na mesa e seguiu.

Conforme noticiado e antecipado e protestado por todas as organizações de defesa dos direitos humanos: foram duas injecções de pentobarbital.

Acordou dias depois numa cama de hospital, com a luz branca do tecto a confirmar que estava viva sem que ela tivesse pedido esse favor a ninguém. Olhou à volta. Procurou.

O livro estava na mesinha de cabeceira.

Abriu-o na página com o vício. Emma Bovary esperava por ela exactamente onde a tinha deixado — alheia ao que se passava à sua volta.

Ela continuou a ler. 


Notas: 

— qualquer semelhança com factos reais é coincidência;

— a ideia de um condenado à morte que vinca a página do livro que estava a ler antes de ir para a cadeira eléctrica ouvia a José Cardoso Pires numa entrevista;

— tinha esta história guardada para um Olho de Gato que nunca chegou a ser feito.

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