terça-feira, 31 de maio de 2016

Tartura

Mais detalhes aqui


Mandar com uma tarte nas trombas de alguém é uma "tartura". 

Há muita doutrina e "bibliografia" sobre a "tartura" ("pieing", como se diz em estrangeiro).


No último sábado, 28 de Maio, Sahra Wagenknecht:

Mais detalhes aqui 





No dia 1 de Abril de 2005, Pat Buchanan:


Mais detalhes aqui


E Anita Bryant, Jean Luc Godard, Bill Gates, Hilmar Kabas, Wolfgang Schüssel, ...:

Dá-me a tua mão

Fotografia de Izis Bidermanas


Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira




segunda-feira, 30 de maio de 2016

"And Now For Something Completely Different" (#118)

Este modesto estabelecimento agradece a atenção e a dedicação de todos os seus clientes e amigos


Carta de amor

Fotografia de Edouard Boubat 



Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração
Jorge Sousa Braga


domingo, 29 de maio de 2016

Seis meses — por JB*

* Comentário de JB a "Dias felizes", crónica publicada anteontem no Jornal do Centro


Há seis meses a dar cabo da narrativa dos direitolas, dá um certo gozo!
Daqui
Nem com tudo se concordou? Óbvio!
Um ou dois exemplos negativos: o fim dos exames – uma má mensagem profissional aos professores e uma péssima mensagem cívica aos alunos; a bancada parlamentar do PCP uniu-se às do PSD e CDS no hemiciclo e chumbou o projeto de lei do Bloco de Esquerda contra o uso do herbicida cancerígeno glifosato. No parlamento europeu, PSD E CDS votaram pela limitação do uso do glifosato em áreas urbanas. No parlamento português, votaram contra. A Monsanto agradece-lhes! Nunca esquecer que o pesticida RoundUp, baseado no glifosato, rende anualmente 5 mil milhões de euros à Monsanto!! Nos EUA, cantores como Neil Young têm feito um trabalho de combate e denúncia à Monsanto e ao seu papel destruidor de pequenos agricultores e do meio ambiente.

Mas também capazes do melhor: o final da "fronteira da hipocrisia" coma aprovação da lei da procriação medicamente assistida para todas as mulheres, sem discriminações, independentemente do seu estado civil, da sua orientação sexual, todas, todas as mulheres. Votos favoráveis do PS/PCP/BE/PEV/PAN/alguns deputados e deputadas do PSD.

Mas foram 6 meses a desmontar o discurso do Sr. do pin e da Srª. “digna sucessora” do submarino amarelo; uns insignes rrepresentantes da ideologia mais perigosa (porque aparenta que não é ideologia), a do chamado "senso comum". A ideologia das trivialidades e dos lugares comuns: “É preciso sair da zona de conforto e trazer o debate da mesa do café para fóruns mais alargados, sem clubismos nem crachás na lapela”.

Uma comissão europeia “mortinha” por nos arrasar (e com “ditos socialistas” à cabeça); um falso problema com os colégios (que tanto gostariam que houvesse uma Procuradoria privada com contrato de associação…); uma parceria Assis/JSD que se revelou com semelhantes capacidades intelectuais e um Marcelo a necessitar de fazer uma viagem a um país distante para ver se reencontra o Presidente…, e tantas outras coisas.

Mas, as ideologias não morreram; a luta de classes não passou de moda; não estamos no mesmo lado da barricada; não temos a mesma visão e projecto para o país! 
Pois como dizia o meu professor de Matemática, Joaquim Namorado: “Sou de Alter do Chão, terra de criadores de cavalos; o que é um privilégio, num país de burros”.
Que venham mais 6 meses, porra!

"Chamar-te a ti, Lisboa, camarada..." - O que eu gosto deste poema de Joaquim Pessoa na voz de Carlos Mendes.
Ora onde é q eu tenho o vinil?!


Nunca conheci quem tivesse levado porrada

Fotografia de Eva Besnyö


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

sábado, 28 de maio de 2016

Não pode tirar-me as esperanças

Imagem de Aida Muluneh



Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Dias felizes*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Entre 4 de Fevereiro (dia da entrega do orçamento de estado) e 16 de Março (dia em que foi aprovado) passaram-se 41 dias felizes no parlamento. Como António Costa mostrou abertura a alterações naquele diploma, os deputados do PS, BE, PCP, PEV, PAN, até do pàfiano CDS, entraram na festa.

Foi uma festa vegan que reduziu o IVA ao tofu e à soja, o que levará à diminuição do perímetro abdominal dos portugueses e dará trabalho extra às costureiras na mingação das nossas calças, para que não caiam.


Fotografia daqui

Nestes 41 dias de recreio, os deputados divertiram-se muito. A senhora dona Catarina Martins esganiçou-se a iluminar o país com “electricidade social” e Jerónimo de Sousa não lhe ficou atrás e borleou os livros do primeiro ano, os dos ricos e os dos pobres.

A verdade é que houve ideias boas: o apoio a desempregados de longa duração; e houve ideias mal pensadas: a decisão de borlas nos manuais escolares, com ou sem aplicação de condição de recursos, devia continuar a ser deixada aos municípios.

E houve ideias anedóticas: como a do desconto no IMI de vinte euros por filho. Como muito bem disse João Miranda, no blogue Blasfémias, se é para ajudar as famílias com uma verba fixa por filho, para quê ligar o complicómetro burocrático do IMI e não aumentar directamente o abono de família?

De qualquer forma, importa descansar o leitor: estas semanas de felicidade no parlamento não ficaram muito caras — deram um aumento de 158 milhões de euros na despesa e de 118,7 milhões na receita. Foram só 39,3 milhões de agravamento orçamental. Uma “ninharia” que serviu para dar algum aperto aos parafusos da geringonça.

2. Não se conhecem resultados escrutináveis das eleições internas do PS do último fim-de-semana.

Anunciam-se percentagens “norte-coreanas” à volta de 90% e mais nada. Não há números a nível concelhio, nem distrital, nem nacional. Esta opacidade é uma vergonha, sra. Adelaide Modesto**, sr. António Borges**, sr. António Costa.

----------------
** Já depois de fechada a edição do Jornal do Centro na quarta-feira, o PS-Viseu publicou os resultados eleitorais completos que podem e devem ser analisados aqui
Vale mais tarde do que nunca.  

A propósito de estrelas

Gif daqui


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas
Adília Lopes

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Blogues*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Maio de 2006



1. Passo, pelo menos, meia hora por dia a “ver” blogues. Encontro neles, muitas vezes, informação que não encontro em mais lado nenhum.

A blogosfera é cada vez mais influente. Um texto no Abrupto, o blogue de Pacheco Pereira, a perguntar pelo Inquérito ao Envelope 9, do processo Casa Pia, pôs logo Souto Moura a falar sobre o assunto.

O Governo de José Sócrates teve que apresentar estudos sobre a OTA e o TGV, não por pressão dos media tradicionais, mas por exigência de dezenas de blogues que se uniram num movimento colectivo.

A CBS apresentou documentos falsificados sobre a vida militar de George W. Bush. Eram documentos feitos num computador quando, na altura em que Bush foi tropa, só havia máquinas de escrever. A CBS não conseguiu fazer uma “verificação de factos” eficaz. Foram bloguistas que descobriram a marosca.

A blogosfera, enquanto comunidade interactiva de milhões de utilizadores, é uma máquina potente de “verificação de factos”. É também uma poderosa máquina de “criação de factos”.

2. Um dos blogues que leio diariamente é o Viseu, Senhora da Beira, cujo autor se identifica com o pseudónimo de Bazookas**. 
Quando tenho pouco tempo, não vou a mais nenhum lado: é a “ler a leitura dele” que me informo sobre Viseu. Ainda por cima, o Viseu, Senhora da Beira tem umas muito úteis ligações para outros blogues de Viseu.

3. Um dos mais aguerridos blogues do distrito é O Casimiro Satense (http://casimirosatense.blogspot.com)***. Num texto de 4 de Maio, este blogue afirma que a oposição socialista na Câmara do Sátão está a claudicar.

Fiz “verificação de factos” e há mesmo problemas a pedirem resolução rápida. José Junqueiro, o sempiterno Presidente da Federação do PS de Viseu, precisa de fazer uma visita aos socialistas do Sátão.

** O Bazookas, mais tarde, revelou-se: é o grande Fernando Figueiredo a quem este blogue muito deve
*** Blogue desactivado

Nin-guém-mu-da

Gif daqui



Ninguém muda. Não sou só eu que não mudei.
Nin-guém-mu-da, ouviste? Nin-guém.
Eu não sabia que gostava de viajar porque nunca tinha viajado, como agora ainda não sei se gosto de outras coisas que nunca fiz.
Mas isso não quer dizer que tenha mudado.
Somos os mesmos, somos sempre os mesmos.
Dulce Maria Cardoso

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Andai-me lá com isso...

... em cima e em baixo dos andaimes!

Pavilhão Cidade de Viseu (ex-Inatel), Viseu Street Art, Maio de 2016
Fotografia Olho de Gato
Clicar na fotografia

If I could tell you

Fotografia de Edward Steichen


Time will say nothing but I told you so
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reason why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.
W. H. Auden

terça-feira, 24 de maio de 2016

Existe um momento

Gif daqui

existe um momento

pouco importa qual
em que se reúnem ao acaso
diante de nós
todas as condições de uma vida
desesperada
José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sem comentários

Público: Então não sente que o país agora está dependente das taxas de juro baixas do BCE e da sua promessa de apoio em caso de necessidade?
Peter Praet (Comissão executiva do BCE): Recentemente, vimos as taxas de juro de Portugal a subir. Isto mostra que a disciplina do mercado está presente, mesmo apesar do facto de o BCE comprar dívida pública do país. Portugal não deve esquecer esta mensagem: a disciplina do mercado ainda está presente. E depois há os ratings. Quando fazemos compras de activos, olhamos para as agências de rating. Há apenas uma com o nível mínimo para Portugal e é de BBB-.


(...)
PúblicoO FMI calcula que, ao actual ritmo, o BCE vai atingir o limite de obrigações portuguesas que pode comprar até ao fim do ano. Irá Portugal ter um problema aqui?


Peter Praet: Não quero fazer comentários a esta questão.

Carestia

Gif daqui


Amor custa bem caro.
Mesmo assim depenamos bolsos
e bolsas de moedas raras.
Por ele pagamos, em prestações
nem sempre suaves, quanto
de entrada supúnhamos
de todo não poder:
o alto preço dos sustos,
a conta escorchante
das noites em claro,
os juros extorsivos
do medo de perdê-lo,
a tristeza do saldo zero.
Queixamo-nos de carestia
se de amor-próprio ainda
nos sobra algum trocado,
mas que fazer quando só
amor é o lucro que buscamos?
Astrid Cabral



domingo, 22 de maio de 2016

Estendais (#2) — por JB*

* Comentário de JB ao post de ontem Estendais



Direita acusa Governo de favorecer a escola pública.

A sério?!
Ahahahah. Esta malta não tem a noção do ridículo?
Então o Estado deveria defender o quê? Interesses privados?
Vejam ao ponto que chegou esta pouca vergonha que temos um governo que favorece a escola pública em detrimento privada. Muito bem, PSD e CDS.

Estavam a dormir quando dezenas de milhar professores foram ejectados da escola pública? Ah, não lhes ia ao bolso...
Cortar salários? Pode.
Cortar pensões e reformas? Pode.
Cortar subsídios e comparticipações? Pode.
Cortar contratos de associação? Não pode.

E da primeira vez que há um governo que quer mesmo poupar dinheiro ao contribuinte o PSD o CDS estão contra.

Agora os colégios vão ficar com os alunos que podem pagar. Espero que não acabem com a classificação das escolas. Estou muito curioso.

E por Viseu?
Uma igual concorrência desleal com muitos exemplos desde o pré escolar, passando pelo profissional e acabando na acumulação de lugares no privado e público...

Fotografia Olho de Gato

PS: Esperam-se manifestações de explicadores, com os seus explicandos a tiracolo e de t'shirt amarela, a contestar a medida.

E fim de conversa.
Não volto a dar tempo de antena a esta gente.

Neste campo, o estendal do privado não usa OMO!

Código civil

Gif daqui

Raparigas abraçadas ao Código Civil,
serve para alguma coisa,
o Código Civil, nunca imaginei,
que bom ser Código Civil.
Pedro Mexia



sábado, 21 de maio de 2016

Estendais

Fotografia achada aqui


Em alguns invernos mais chuvosos,
em Miragaia que foi a Madragoa de
Pedro Homem de Mello, o Douro
salta a margem e entra pelos arcos
onde se demora no rés-do-chão
das casas, por duas madrugadas.

Mas são os estendais, à janela
agitados pelo vento nas abertas da chuva,
que nos trazem a urgência e a constância
dos corpos, nas mangas pendentes
de camisas, camisolas ou na roupa

interior, última margem dos íntimos rios,
onde os poliesteres aboliram os felpos, os linhos
as cambraias. Só a cor branca dos lençóis teima
lá no alto, a abrir velas ao desejo do sol
e à memória de obscuras lavadeiras, que faziam
heróicas barrelas na espuma inocente do sabão.
Inês Lourenço



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vacas voadoras


Pensar que há vacas voadoras é de um "optimismo crónico e ligeiramente irritante", é uma ideia sem "os pés assentes na terra", como avisa o actual presidente da república

As vacas não podem voar na vertical dos nossos casacos e isso é bom — bem bastam as pombas e as gaivotas e os melros.

As vacas podem, isso sim, ter razões para sorrir, como observou um anterior presidente da república:



Bichos-carpinteiros*

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Como os leitores se devem lembrar, a última crónica foi escrita cheia de “cuidados e caldos de galinha” porque ia sair numa sexta-feira 13. Aqui acabou por não haver azar, mas houve no país.

O Instituto Nacional de Estatística, uma casa habitada por frios matemáticos que não querem saber de superstições, publicou naquela sexta-feira 13 os números do PIB do primeiro trimestre deste ano. Era 13 de Maio, dia de prodígios na Cova da Iria, mas, no país, aconteceu o contrário de um milagre. A coisa está preta: a economia cresceu 0,1% em cadeia e 0,8% em termos homólogos

Na “Europa”, pior que Portugal só a Grécia. 
Fotografia de Alexandros Vlachos — daqui
Aqui ao lado, Espanha, no mesmo período, cresceu 0,8% em cadeia e, em valores anualizados, são uns muito bons 3,4%.

2. Ora, estes números excelentes da economia espanhola aconteceram enquanto o país não tem governo. E assim vai continuar. Desde as eleições de 20 de Dezembro até às de 26 de Junho, vão ser 189 dias “acratas”.

Estas situações vão-se repetindo: a Holanda em 2010 esteve quatro meses sem governo; ao lado, a Bélgica, em 6 de Dezembro de 2011, estabeleceu um recorde mundial — foram 541 felizes dias, quase um ano e meio sem governo e tudo correu bem no país. Só quando a Standard & Poor's fez uma avaliação negativa da dívida soberana é que os partidos belgas foram obrigados a ultrapassar o impasse e chegar a um acordo de coligação.

São evidências do enfraquecimento global dos poderes. Estes limitam-se, cada vez mais, a alimentar um teatro que sobreavalia a capacidade dos políticos para resolverem problemas; teatro que, ao mesmo tempo, subavalia a habilidade dos mesmos políticos para criarem problemas.

É o caso: enquanto o governo de Madrid está paralisado, o de Lisboa não pára. Os resultados em Espanha são bons, em Portugal são maus.

Há que pedir encarecidamente à geringonça: por favor, mexa-se o mínimo possível, controle esses bichos-carpinteiros.

Uma sepultura no mar

Gif daqui



Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase parece sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida como na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo
e aprendas a ficar.
Marta Chaves


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Mas isso também não interessa nada

Fotografia de Katerina Belkina


Estou à nora é uma
expressão que aprendi
mesmo agora
e de que não sei
o significado.
Helga Moreira

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ó "Five Star$", és um bárbaro de merda!

Isto faz-se a um monumento?!



Fotografias Olho de Gato

Mar sonoro

Gif daqui



Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen


terça-feira, 17 de maio de 2016

Parando

Fotografia de Bruce Davidson



nem todo vazio é nada
nem todo nada é zero
nem todo zero é número
nem todo número é dois
nem todo dois é par
nem todo par é chinelo
nem todo chinelo é chão
nem todo chão é terra
nem toda terra é mundo
nem todo mundo é branco
nem todo branco é papel
nem todo papel é livro
nem todo livro é história
nem toda história é passado
nem todo passado é pisado
nem todo pisado é caminho
nem todo caminho é pedra
nem toda pedra é parede
nem toda parede é fim
nem todo fim é vazio
nem todo vazio é nada
Fernando Cereja

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O BOQUINHAS "mudado" para o Largo S. Teotónio, 9 - Viseu























Marco Mendes foi inspirar-se ao Boquinhas da Rua Escura e fez esta banda desenhada para o I Festival de Street Art de Viseu (2015)

Fotografias Olho de Gato

Jardim do Éden

Fotografia daqui




Descobri que não existo realmente.
Sou apenas fruto da minha imaginação.
Toda a minha vida não é mais que um jogo imaginário.
O meu mundo, escrevi-o ao meu gosto.
Vivo num paraíso particular:
O meu Jardim do Éden.
Sim! Escrevi-o ao meu gosto,
Escrever é a única coisa que me prende,
A única coisa que me liberta,
Aqui, no mundo dos homens…
É a sensação mais lasciva e hipnótica que já vivi.
É arder no fogo da minha imaginação.
Queriam-me um cidadão bem comportado?
Queriam-me aparente, frívolo, domesticado?
Jamais serei rato da gaiola de testes de ninguém.
Renasço sempre que o meu cérebro
Explode como uma granada.
Não temo a insanidade.
A cada dia que passa a folha do calendário cai
Como as folhas das árvores no Outono,
E a cada novo dia que olho o calendário
Sei que posso estar a olhar para a data da minha morte.
Livrem-me da neblina cinzenta do quotidiano,
Da vidinha dos dias insípidos, secos, descolorados…
Na minha vida quero que tudo seja mítico,
Ou que tudo esteja morto.
O meu mundo envergonha o arco-íris,
A realidade é sépia como uma fotografia velha.
Nada é tão decepcionante como viver a realidade.
Basta de pensar nela.
Vou apagar a luz e abrir o portão...
Gonçalo Nuno Martins



sábado, 14 de maio de 2016

se estiveres ausente

Fotografia Olho de Gato



__________ se estiveres ausente (automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.
Maria Gabriela Llansol


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ciumeiras*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Esta crónica é publicada numa sexta-feira 13, dia de azar.
Fotografia daqui
Não se fala de outra coisa na cidade: num hotel de Vigo, um “milionário” viseense, armado de martelo e ciumeira, quando começou a agredir a mulher na cabeça teve um enfarte. Sorte dela, sorte dele, aquele azar do enfarte.

Eis mais duas histórias de ciumeira de milionários, a primeira contada já aqui em 2012 e que transcrevo tal e qual:

1. Achilles Brito, dono da conceituada firma Ach. Brito, que fornece ao mundo o sabonete Patti e muitos mais e igualmente bons, Achilles Brito, o patriarca fundador, ou o filho com o mesmo nome, ou o neto, nome transvirado em Aquiles por evolução ortográphica, não sei qual deles já que conto esta história com memória insegura nos detalhes, li-a em qualquer lado não sei onde, nem o senhor Google que sabe quase tudo sabe dela, Achilles Brito, dizia, perdidamente apaixonado pela sua mulher, linda como uma deusa, que ele precatava em casa, sempre em casa, dos olhos cúpidos da Invicta cidade, ela, violoncelista de topo, um dia aprazou um concerto num teatro da cidade, concerto anunciado em todo o lado e, vai daí, Achilles, homem de cabedais, achegou-se à bilheteira e comprou todos os bilhetes, para ser só ele e ninguém mais do que ele a “ouver” a sua exclusiva e linda mulher.

2. Hedy Kiesler nasceu em Viena em 1913 e, com dezanove anos, rodou “Êxtase”, um filme visualmente muito belo, em que uma mulher novinha casa com um homem velho e nada acontece; conhece então um homem mais novo e há acontecidos para cigarro ódepois. 
 É o primeiro filme da história do cinema em que...
Hedy Kiesler fez depois carreira em Hollywood como Hedy Lamarr; casou seis vezes e o seu primeiro marido, Fritz Mandl, um milionário vendedor de armamento, para ter o monopólio visual daquele corpo moreno, tentou comprar todas as cópias de “Êxtase” para as destruir.

Não o conseguiu, o ciumoso. Basta o leitor perguntar pelo filme ao sr. YouTube. Mas hoje não faça isso. Hoje é dia de azar.

(a carta da paixão)

Fotografia de Elliott Erwitt

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Helder


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Consumos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Maio de 2006


1. Numa cadência anual, tenho recebido várias cartas de Maria Ramos, directora dum auto-designado “Inquérito Nacional de Consumo”. A deste ano já chegou.

Logo na primeira página, fiel ao princípio de que uma imagem vale mais que mil palavras, Maria Ramos apresenta-se numa agradável fotografia a preto e branco, tipo passe, e informa-me que, se responder a este inquérito, fico habilitado num concurso. São 10.000 euros o primeiro prémio deste concurso devidamente autorizado pelo Governo Civil de Lisboa.

2. Não resisto a fazer um parêntesis: autorizar concursos é um acto burocrático nada simplex e que, só por si, dá sentido à existência de quem o tramita. São mal intencionadas as vozes que querem acabar com os Governos Civis.


Daqui
3. Regresso a Maria Ramos. Neste Inquérito ela faz-me 139 perguntas sobre mim e os meus. Se gosto mais do Continente ou do Lidl. Se visto Gant se Massimo Dutti. Se faço compras pela Internet ou por catálogo; se faço jogging ou me fico pelo golf. Maria Ramos quer saber qual é o meu champô; que comida dou ao meu gato; que região demarco para o vinho que bebo; que carro guio e de que ano é; qual é a marca do meu telemóvel; se a minha ligação à Internet é de banda larga ou afunilada. Ela quer saber quando termina a minha hipoteca; qual é a cor dos meus cartões de crédito; se tenho ar-condicionado e home-cinema; consegue ainda perguntar-me se tenho piscina e horta.

Ela quer saber tudo: nome completo, morada e a data do meu aniversário e dos meus familiares. Ainda por cima, enquanto o Ministro das Finanças se fica pelo meu rendimento bruto anual, ela vai mais ao pormenor, e quer saber qual é o rendimento líquido mensal da minha família.

Maria Ramos é curiosa. Muito. Espero com impaciência a cartinha do próximo ano.

carta da flor do sol (a meu amigo)

Street Art por Nick Walker - Paris




vou partir
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido duma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca a abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz apareceu a uma esquina e reconheci-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com os cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado descolando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura arrasta-se boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pongue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçados bolor da memória
da memória da memória da memória


tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia as mãos nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulava para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados




escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!

corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que me dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me


Street Art por Nick Walker - Paris



correr a cidade com o corpo sedento
a noite esgravatando a pele
bebendo nas veias as poucas forças que me restam
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo
o veneno agindo dos pés para a cabeça
as mãos encharcadas de chuva tacteando um século qualquer
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados
visões de sonhos ainda não sonhados
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar
mas a escrever-te
e ouço-a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador gasta pelo uso: a tua vida
será feita de embarcações e de solidão
beberás a secura dos cabos distantes
conhecerás ilhas de saliva profunda
olhar-te-ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói
a tua infância a tua adolescência e o medo
de não conseguires sobreviver ao estrume do país

avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva dum bicho estelar e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar
navegarás pela cidade que adere aos dedos
como sarna mais antiga navegarás
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda
onde cintila a faca acorda o mar
está próximo o mar acorda
o mar acorda o mar acorda o mar
o mar

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias
reparo como amareleceram suavemente os rostos
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos
exala-se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram-se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis
noutras sorris olhas-me nos olhos
mas aquele sorriso não o que ainda ontem te vi esboçar
o sorriso que tens na fotografia morreu
no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel
acabei por destruir as fotografias queimei-as
para que ninguém possa supor através delas
histórias a nosso respeito
e também para que minha mulher as não encontre

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada
atada a um cordão em couro deste-ma tu um domingo
quando passeávamos perto do rio
íamos ver o sol morrer nas águas
caminhávamos sem destino pela cidade
o crepúsculo atingia-nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem
no fundo nada a justifica
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo
de vaga em vaga de ressaca em ressaca
fui arrastando o meu próprio naufrágio
mas ser-me-ia difícil falar-te destas catástrofes
prefiro calar-me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas
enquanto te escrevo esta última carta
é também a última vez que penso em ti
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
vou migrando de corpo para corpo
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu
escrevo-te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite
quem poderá afirmar que daqui a instantes
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite?
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz
no écran da cidade amanhecendo em mim
esqueço como me chamo
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos
mesmo no caso de eu permanecer aqui
neste país de água por engano
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu




sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só

estou preparado para o grande isolamento da noite
para o eterno anonimato da morte
mas perdi o medo
a loucura assola-me
preparo a última viagem às índias imaginadas
disseram-me que só ali se pode descansar da vida
e da morte
perscruto a razão profunda desta viagem
ou talvez seja já a torna-viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta
sem o saber
hesito em deixar-te escrito mais que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti-lo-ei
esse gesto aliviar-me-á de todas as dores
a manhã aproxima-se cortante
ouço barcos largarem do cais
preparo a lâmina
estendo as velas em agonia uma lâmina de vidro
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais
destruo as imagens que me chamam e me querem reter aqui
releio estas poucas palavras para ti: child of the moon
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu
em tuas mãos de pétalas lunares
movem-se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite
e tecerem claridades
mas já não tínhamos mais noite a desvendar
lembro-me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes
a noite aproxima-se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim
quando as feras despertam nos olhas abandono-me
à lama colorida dos terrenos vagos
dói-me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam
conchas abertas ao sonho
onde terei abandonado a nossa paixão?

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades
compridos cabelos de jade espalham-se sobre o rosto
indecifráveis vegetações
o sonho torna-se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios
neles pouso a cabeça deixo-a flutuar
uma mulher anela aos ziguezagues pelos corredores da casa
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão
a mulher grita
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos
abre o frigorífico
atira com os legumes congelados ao chão espezinha-os
esborracha-os contra as paredes chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga-a em mil tiras
recomeça a correr
entra na casa de banho e abre todas as torneiras
abre as janelas e ri
e lambe as vidraças sujas
derrama açúcar dentro do telefone
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar
noutro corpo

viro-me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido
dos caminhos alquímicos desvendo
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas
do vento bebo o amargor ela vida errante
onde a mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita
o telefone toca obsessivamente toca
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo
revela-se-me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide-me sobre a boca fechada
procuro-me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro
dificilmente ouço zumbidos de flipper
o quarto povoa-se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar
desfazem-se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade
aqui está sempre a chover
o frasco de barbitúricos conta-me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei
a luz percorre-te o corpo
é noite há muito tempo
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama
escrevo-te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz
de roubar a minha morte
porque eu moro neste país líquido por engano
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo
se quiseres vem dormir perto de mim vem
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores
vem
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura
quase amanhece
lá fora as avenidas mantêm-se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock'nd roll
vicious you are so vicious
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit
fuck fuck
fuck em diferido
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas
têm sede
sede de nudez.
mas vou partir deixar-te aí
como se fosses tu que me abandonasses
viajar antes da alba partir
para longe destes inúteis dias
eu
pobre de mim
navegador da noite próxima da morte
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha
eu
arquipélago de cinzas oceano do nada
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena
mas vou
preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor
queres vir comigo?
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos
bocas aflitas a tua boca mordendo
o cordame avariado pelo sal
ah meu amigo
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas

vou abandonar-te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo
vou partir
com estas manchas de frutos sorvados no coração
para sempre vagamundo
no corredor de espelhos sem tempo deixo-te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome
nenhuma voz da silente treva
nenhuma paixão

abandono-te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo
longe
muito longe desta inocente memória das Índias
Al Berto