quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pouco resta daquele quarto de hotel

Fotografia de Steven Meisel


Pouco resta daquele quarto de hotel, da neve colada às vidraças,
de ti e de mim nos gestos do amor, da sombra do teu corpo na cama,
do ruído de Nova York, daqueles dias que a memória inventa.
No entanto, este livro, um paperback, agora em ruínas,
teima em recordar-nos, símbolo de outra época.
É curioso pensar que esta capa suja,
este papel manchado, estes poemas,
foram mais poderosos que nós,
mais resistentes que a tua pele e a minha.
Contudo, nesta noite de verão, tantos anos depois,
as suas páginas não me levam a Spoon River e às suas gentes
– desolação, estupidez, fracasso
sonhos e mentiras, um rasto de ternura –
a nós, mas somente a nós conduzem, numa noite de fevereiro,
nus e ridentes com o livro nas mãos
sem saber que também ali – desolação, estupidez, fracasso –
estava escrito o nosso inexorável destino.
Juan Luis Panero





2 comentários:

  1. Ó Alex, com esta é que tu me lixaste! Como é que a rapariga consegue cantar e fazer aqueles estalidos com a boca em simultâneo?

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    1. Ó Alcídio, não sei se é overtone, sei é que a Badi Assad é uma feiticeira
      Ouve aqui ela bem acompanhada: https://youtu.be/IM_7U7ultOY

      Grande abraço

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