sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O autógrafo de Siza

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Do obreirismo das últimas décadas temos em Viseu arquitectura muito má como o Pavilhão Multiusos, de Manuel Salgado, arquitectura mediana como o Mercado 2 de Maio, de Siza Vieira, e arquitectura excelente, sendo a melhor de todas o Forum Viseu, do catalão Joan Busquets; a intervenção de Souto Moura no Museu Grão Vasco é também muito boa.


Fotografia Olho de Gato
2. A estética baça e banal do Mercado 2 de Maio não deslustra nem ilustra. Foi inaugurada em 2001 e, dois anos depois, foi piorada quando o chão de saibro da Praça das Magnólias foi trocado por granito tropeçante. As magnólias lá estão a crescer há quinze anos. Ouvi ou li algures que precisamos de mais quinze anos para que elas assombrem devidamente. Portanto, lá para 2030 haverá finalmente ali um local bom no Verão, com criancinhas a correrem e esfolarem os joelhos.

Durante três mandatos, o dr. Ruas fez de notário daquele deserto com assinatura reconhecida e um aviso burocrático: «é proibido mexer!»

Chegou agora o dr. Almeida Henriques e já é permitido lá bulir. Foi feito um concurso de ideias para cobertura daquele espaço, um concurso que impunha a manutenção das magnólias e um estacionamento subterrâneo. Entretanto, já na fase de consulta pública das propostas, a câmara desistiu do parque subterrâneo.

A câmara fez bem, estacionamento ali é má ideia, mas, se se mudam as ideias para um concurso de ideias, elas, as ideias, ficam a pairar no vazio. Criação em cima de premissas escorregadias corre o alto risco de trambolhar, de virar má criação.

“Se existe uma alteração do ponto de vista do programa, então acho que deve ser anulado”, disse a este jornal, cheio de razão, Paulo Calapez, um arquitecto concorrente.

Dr. Almeida Henriques, carros, ali, num buraco escarafunchado na macicez do granito, é péssimo. Mas, por favor, pense bem no que quer antes de lançar um necessário novo concurso de ideias para o Mercado 2 de Maio.

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Adenda em 12.12.2015
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