A burguesia mudou de lado*
* Hoje no Jornal do Centro
Num ensaio recente intitulado “A burguesia mudou de lado”, Yascha Mounk descreve dois paradoxos que estão a transformar a política no Ocidente.
(i) As elites pensam todas o mesmo:
apesar de haver cada vez mais informação e acesso a opiniões diferentes, se “se é artista, académico, assistente social, psicólogo — ou, cada vez mais, jornalista, médico, advogado ou funcionário público — (...) o leque de opiniões respeitáveis é surpreendentemente restrito” e esta “estreita faixa de opiniões é, em grande parte, auto-imposta”; no bolso, no telefone-esperto, há uma babel infinita que fala, mas nas cabeças, mais do mesmo, auto-censura, pavor de ser apanhado em delito de opinião.
(ii) A burguesia mudou de lado:
durante os séculos XIX e XX, a burguesia era de direita e os trabalhadores de esquerda (lembra Mounk: “Karl Marx apelou aos trabalhadores — não aos advogados nem aos ilustradores freelancers”); agora é como se vê: “canalizadores são de direita, mas advogados são de esquerda; taxistas são de direita, mas professores universitários são de esquerda; polícias são de direita, mas funcionários públicos são de esquerda”.
Estes dois paradoxos têm consequências. Convém manter presente: há mais canalizadores do que advogados, mais taxistas e motoristas TVDE do que professores woke, o povão respeita os polícias e despreza os burocratas. Como é sabido, esta tendência provém dos níveis de escolaridade, as elites educadas tendem a ser progressistas, enquanto nas profissões mais práticas e manuais, e menos protegidas das vicissitudes do mercado, dá-se o inverso.Imagem ChatGPT
O facto de as instituições estarem todas a dizer o mesmo e de terem sido capturadas ideologicamente (nas universidades e nos media isso é flagrante) criou uma grande desconfiança na população que sente que não é ouvida e que ninguém a representa. Tem sido por aí que o populismo tem adentrado as cidadelas democráticas da “Europa”.
Portugal ainda está longe da bipolarização norte-americana descrita por Yascha Mounk, mas já iniciou este caminho, como se viu nas últimas legislativas, em que ocorreram três abalos tectónicos:
— acabou o bipartidarismo ;
— o Chega passou a ser o líder da oposição e mantém a iniciativa nas guerras culturais;
— a direita tem os ⅔ necessários para, querendo, mudar as leis orgânicas e constitucionais.

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