Formigueiros fantásticos e figurões fatais*

* Hoje no Jornal do Centro aqui

1. Há duas semanas, acabei o Olho de Gato com esta pergunta: “será que ainda há algum resto de inteligência colectiva no formigueiro das esquerdas?” Quando formos a votos nas eleições presidenciais, daqui a duas semanas, isso vê-se.

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Um dos formigueiros humanos mais inteligentes que conheço é a Wikipédia. Todos os dias, milhares de formigas amáveis, sem receberem um cêntimo, abastecem as prateleiras daquele armazém de informação, prateleiras que estão acessíveis a toda a gente.

Steven Pruitt em 2022
Já se sabe que um formigueiro é, acima de tudo, um colectivo, mas, mesmo assim, é importante que conheçamos uma formiga especial, de seu nome Steven Pruitt, que, desde que abriu a sua conta na Wikipédia, em 2004, tem sempre a mesma rotina: sai do seu emprego, chega a casa, senta-se à frente do seu computador, e cria artigos novos (já fez mais de 35 mil), e compõe a informação noutros (já mexeu em mais de cinco milhões). Steven é meticuloso, rigoroso e fiável. Todos os dias.

Uma curiosidade: o primeiro verbete que ele publicou foi sobre Peter Francisco, um português imenso (1,98m e 120 quilos), herói da guerra da independência norte-americana, que lutou ao lado de George Washington. Aquele que viria a ser o primeiro presidente dos EUA mandou fazer “uma espada especial, adequada ao seu tamanho” com “6 pés (1,82m) de comprimento, que aterrorizou os britânicos.”

Steven Pruitt merecia ser mais conhecido. É muito elevada a probabilidade estatística do leitor já ter lido informação escrita por ele. As suas “palavras cuidadas, citadas, verificadas”, como vi num post do Facebook, “foram lidas por mais pessoas do que as de quase qualquer autor na história da humanidade. E fê-lo inteiramente de graça. Porque acreditava que o conhecimento devia ser acessível a todos.”

2. Entretanto, a Wikipédia está debaixo de dois fogos cruzados: por um lado, as direitas acusam-na de ser woke (o que tem algum fundo de verdade), por outro, o tráfego no site está a diminuir por causa da “inteligência” artificial.

Daqui
Como se tal não bastasse, no dia 27 de Outubro, a fatal figurinha chamada Elon Musk lançou a Grokipédia, inicialmente com 885 mil artigos gerados pela xAI do dono da Tesla. O homem não quer só aniquilar a UE, quer fazer o mesmo à Wikipédia. 

João Pedro Pereira, do jornal Público, enquadra bem o que está a acontecer à frente dos nossos olhos e que as democracias em geral e a “Europa” em particular se mostram incapazes de parar: o lançamento da Grokipédia “é mais uma batalha na guerra que muitos, incluindo alguns magnatas da tecnologia, políticos e governos, estão a travar, e a ganhar”, matando “a ideia de que é possível existir uma base de verdade partilhada numa sociedade com pontos de vista diversos.”

Haja inteligência colectiva nos formigueiros. Haja força na União Europeia para meter os tecnomorcões de Silicon Valley na ordem. Para começar, todas as autoridades europeias, comunitárias e nacionais, deviam fechar imediatamente as suas contas oficiais no X. Como diz, e muito bem, Paulo Portas: “quem não se sente não é filho de boa gente.” Além disso, evidentemente, se a rede social do sr. Musk não pagar as multas e cumprir a regulamentação europeia, deve pura e simplesmente ser encerrada.

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